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Diário de uma sobrevivente
O preço do amanhecer.
1544 palavras • 9274 caracteres • ⏱ 6 min 11 s

O preço do amanhecer.

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Na manhã seguinte, Sirius não perdeu tempo. Reuniu todos no salão central da indústria abandonada e explicou as regras para o pessoal que havia chegado na madrugada. O silêncio da noite ainda ecoava em nossas cabeças, mas a voz grave dele nos puxava para a realidade. 


As funções foram divididas sem espaço para questionamentos: 


— Ruam vai trabalhar na enfermaria. — Sirius disse firme, sem levantar os olhos da prancheta improvisada. 


— Emma, Nyra e Jade ajudarão na cozinha e nas tarefas do abrigo. 


— Ivy será encaminhada para a manutenção. Precisamos de alguém que entenda de mapas e tecnologia, e você parece a escolha certa. 


Ivy assentiu, mas a preocupação pela minha escolha não passou despercebida. 


Quando chegou minha vez, Sirius se aproximou, me encarando como se tivesse esperado que mudasse de ideia. 


— E você? 


Respirei fundo, meu peito ardendo de uma coragem que nem eu sabia de onde vinha. 


— Quero ir nas expedições. 


A tensão se espalhou pelo salão. A senhora Luna arregalou os olhos, as pessoas cochichavam entre elas sem acreditar no que eu havia dito. Mas Sirius permaneceu impassível. 


— Você ainda não está pronta. — a voz dele cortou o ar como lâmina. — Nenhum de vocês dois está. 


Só então percebi que Ethan também me observava, os braços cruzados e o queixo erguido, como se estivesse preparado para a mesma resposta. 


— Vai treiná-la? — perguntou Ethan 


Sirius arqueou uma sobrancelha.

— Não eu. — virou-se e fez sinal para um dos soldados que estava encostado na parede. — Kieran vai treiná-los. Até que ele diga que estão prontos, nenhum de vocês pisa lá fora. 


Kieran deu um passo à frente. Era um homem robusto, com o rosto marcado por cicatrizes que diziam mais do que qualquer apresentação. Seu olhar era frio, mas não sem propósito. 


— Treinaremos todos os dias, ao amanhecer e ao anoitecer. Não quero desculpas, não quero choros. Vocês vão sangrar aqui dentro para não morrerem lá fora. 


Meu coração disparou, mas não recuei. Ethan, ao meu lado, esboçou um meio sorriso quase debochado — o tipo de sorriso que escondia seu nervosismo. 


Antes que alguém pudesse falar mais, Armand se aproximou, mais elegante do que o lugar permitia, Parou de frente para Sirius e fez um movimento de cabeça, educado porém, não aparentava ser espontâneo. 


Ethan franziu a testa ao vê-lo, e por um instante a tensão entre ele e Armand ficou exposta como uma corda esticada. 


Armand, você vai com o grupo de segurança. —  disse Sirius sem olhar para ele. 


Ele fez uma pequena reverência a Sirius concordando com a sua missão. 

— Como desejar, comandante. Só espero que… os treinos não sejam um desperdício de recursos. — disse com o tom da voz  suave como veneno. 


Ethan se moveu sutilmente, como se fosse avançar, mas contive o impulso ao perceber seu punho se cerrando. Sirius dirigiu o olhar fixo em Armand, frio e avaliador. 


— Cuide da sua função, Armand. O resto não lhe diz respeito. 


O silêncio que veio depois foi mais pesado que qualquer ameaça. Armand sorriu de leve, como quem guardava uma carta na manga, e se afastou devagar, deixando atrás de si aquela sensação amarga de que havia muito mais por baixo de sua máscara educada. Da qual eu ainda não sabia ao certo. 


Os que iriam na missão mexiam nas mochilas improvisadas, engatinhavam por entre caixas de ferramentas, conferiam facas, cordas e latas de comida. 


O ar tinha um cheiro metálico, temperado por café fraco e pelo sal do suor que já começava a escorrer pelas têmporas de alguns. 


Nos fomos ate o pátio improvisado que cheirava a ferro e pó — o sol já alto fazia faíscas dançarem no metal das armas empilhadas. 


Kieran posicionou a gente em fila: eu, Ethan e mais duas pessoas que vi  raramente. 


— Vocês vão aprender a morrer melhor — Kieran disse, curto, e bateu a ponta da lâmina na palma da mão como quem marca o compasso. — ou apenas fugir como galinhas. 


Ethan prendeu os lábios. Kieran começou com o básico: postura, passo, virar o quadril. Nada de floreios, tudo pensado para economizar energia e tirar vantagem do corpo. 


Um deles executou os movimentos com rapidez, quase brincando. Já o outro teve dificuldades no primeiro instante, a postura pesada denunciando pouca prática. 


Kieran caminhava entre nós como um avaliador implacável, corrigindo um joelho, puxando um braço, fazendo com que pequenas falhas soassem como sentenças. 


— Alice — ele falou, sem cerimônia — Mantém o que importa: ombro na frente, respira pelo diafragma. Quando você estiver cansada, vai agradecer à sua respiração. 


Sinceramente esse jeito de como ele falava me tira do sério até hoje. 


Depois veio o trabalho com a lâmina — madeira embotada, nada mortal, mas suficiente para aprender distância e tempo. Kieran dividiu os pares: 


— Ethan com Alice. Erica com Mateo. 


Nós olhamos um por um breve momento ambos estavam com receio de ter que lutar um contra o outro. 


Mais que fique entre nós, eu estava doida para dá uma surra nele des do fundamental. 


Sem perceber Ethan avançou sem pressa; o pé esquerdo marcando o ritmo, o corpo inteiro alinhado. Eu  desviei, dobrando o joelho, a lâmina raspando a madeira como se cortasse silêncio. 


Ele tentou um golpe curto — com seu punho cortando o ar — rebati com um passo lateral, levantei o braço em guarda. A lâmina trincou o espaço entre a gente, as respirações curtas já pelo cansaço. Ethan riu baixo, porém aquele sorriso de quem testa e já aprendeu a medir o outro me deixa entusiasmada para vencer essa luta. Kieran observava, sem piscar. 


Então ele veio com agressividade contida, cada movimento com gosto de desafio. Eu sentia o vento dos golpes antes mesmo de vê-lo, o tempo inteiro calculava seus passos, mas com o coração batendo no ritmo da lâmina. 


Ele atacou em três repetições rápidas — direto, falso para a esquerda, virada de quadril — e eu respondia com uma sequência improvisada que misturava defesa e puxão, que me fazia desviar da lâmina, giro o corpo e, num movimento quase como uma dança, desferir um golpe que obrigou Ethan a recuar. 


Quando nossaas lâminas se encontraram, o choque produziu um som metálico alto demais para ser só metal — parecia denunciar o que havia entre nós: respeito e um resto de tensão. 


Ethan ficou um segundo olhando no fundo dos meus olhos, tentando medir até onde aquela coragem iria. 


O treino escalou. Em instantes ele acelerou seus golpes, deixando de lado as brincadeiras, os golpes tornaram-se mais reais, mais próximos do que se encontraria lá fora. Senti a lâmina cortar a palma da mão — não fundo, apenas um risco, mas suficiente para rasgar a ilusão de que aquilo era apenas exercício. 


O gosto de ferro subiu em minha boca. Um silêncio mortal. Kieran gritou algo que não chegou a tempo. Ethan congelou, olhos arregalados pelo que havia causado, e então eu sorri com sangue nos dedos — não de dor, de erro corrigido. O treino terminou ali com mais do que técnica: havia confiança testada, e um aviso mudo de que qualquer deslize poderia custar caro. 


Sentamos para assistir os próximos a treinar nenhum momento Ethan pronunciou uma palavra se quer do que havia acontecido, parecia estar perdido em seus próprios pensamentos ou talvez em uma possível culpa pelo o que poderia ter acontecido. 


— Vamos, agora são vocês dois. Nós mostre o que aprenderam. — Kieran disse cruzando os braços enquanto observa. 


Mateo tentou manter distância. Erica recuava leve, as mãos ágeis. Ele abriu com um golpe circular. Ela respondeu com um bloqueio de ombro e um contra-ataque rápida, a lâmina batendo na guarda como um estalo. A sequência foi curta, metódica — aprender tempo, medir alcance. Kieran anotou algo, satisfeito. 


Ela tinha um estilo imprevisível — passos curtos, finta de quadril, ação rápida. Mateo tentou se adaptar, mas cada finta dela era uma pergunta que ele hesitava em responder. Num momento, ela fingiu ceder e, ao invés de recuar, explodiu em rotação: a lâmina descreveu um arco que forçou Mateo a girar o corpo, perder o equilíbrio e terminar com a lâmina para baixo. Ele sorriu embaraçado; ela deu um leve aceno. O treino virou jogo — e os dois sabiam disso. 


Mateo carregava culpa — por ter falhado antes, por prometer mais do que podia. Na primeira investida, a mão tremia. Erica percebeu. Em vez de punir, ela pressionou com golpes controlados, forçando-o a reencontrar o centro. Um golpe muito forte de Mateo escapou e quase acertou a perna de Erica. O som do choque cortou a sala. 


Ele engoliu seco, as palavras morreram na garganta. Erica, respirando, afastou a lâmina e, sem raiva, falou uma única frase curta: 


— Foco.


O treino estava no limite quando ouvimos um ruído estranho. Primeiro parecia vento. Depois, mais alto, agudo: sirenes. Um uivo cortante.


Kieran sacou a arma, o rosto tenso.

— Droga! Peguem uma arma e se escondam!


O chão pareceu sumir sob nossos pés. Não estávamos seguros.


— O que está acontecendo? — Ethan perguntou, tentando manter firme a voz.


— Uma daquelas coisas entrou. Não saiam daqui!


A falsa sensação de segurança ruiu. As criaturas ainda nos caçavam.

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