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Diário de uma sobrevivente
O passo proibido.
1884 palavras • 11106 caracteres • ⏱ 7 min 32 s

O passo proibido.

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Naquela noite acordei sobressaltada, o coração ainda preso ao peso de um pesadelo. O "quarto", porém, trazia um contraste quase reconfortante.

Ethan estava deitado de costas para mim, voltado para a parede, como se buscasse algum abrigo silencioso em meio ao caos.


Emma, como sempre espaçosa demais, tinha as pernas jogadas por cima de Nyra, que dormia encolhida como um gato — sinceramente, ainda me pergunto como ela consegue.


Ivy estava envolta nas cobertas, enrolada nelas como um casulo, serena em seu próprio mundo.

Essas pequenas cenas me arrancaram um sorriso sincero, daqueles que surgem sem aviso.


De repente, Nyra se mexeu e começou a murmurar palavras desconexas no sono. Para alguns, aquilo poderia soar estranho, até assustador, mas para mim era algo divertido… me arrancando risadinhas que eu tentava conter.


Me levantei do colchão com cuidado, tentando não fazer barulho.

O ar noturno parecia mais frio assim que deixei nosso "quarto" improvisado para trás, e por um instante pensei em voltar e me enroscar de novo nas cobertas. Mas a inquietação não me deixava em paz.


As paredes daquele lugar guardavam um silêncio estranho, pesado, quase como se observassem cada passo que eu dava. O vento que entrava pelas frestas trazia consigo um cheiro de poeira misturado a algo que eu não conseguia identificar.


Segui em frente, guiada apenas pela fraca luz da lua que se infiltrava pelas janelas quebradas. Havia algo naquele ambiente que despertava minha curiosidade, mas também me fazia estremecer… como se estivesse prestes a encontrar algo que talvez preferisse não ver. 


Abrir uma porta que dava para um quarto abandonado, móveis cobertos pela poeira ali, janelas pequenas que deixavam a lua riscar o chão de prata. Parte de mim se sentia livre explorando, como se o silêncio fosse um convite. Outra parte, porém, carregava o peso daquela solidão estranha, como se aquele lugar respirasse comigo.


Quando me preparei para empurrar uma porta maior, algo me fez parar. Não era um barulho… era a sensação de não estar mais sozinha.


— O que exatamente você pensa que está fazendo? — a voz grave cortou o ar atrás de mim.


Virei depressa e encontrei Sirius parado na penumbra, os braços cruzados e o olhar fixo em mim. A luz da lua o deixava ainda mais imponente, como se fosse parte da escuridão que preenchia o lugar.


Meu coração disparou. Não sabia se devia explicar, inventar uma desculpa… ou apenas admitir que não conseguia dormir e a curiosidade me venceu.


Engoli em seco e respirei fundo, tentando não parecer tão assustada.


— Eu… não consegui dormir. Tive um pesadelo e… achei que explorar um pouco ajudaria a me acalmar — admiti, a voz baixa quase se perdendo no silêncio daquele quarto.


Ele arqueou a sobrancelha, mas não respondeu de imediato. O silêncio dele era tão pesado quanto o lugar. Desviei o olhar e comecei a me mover na direção de volta ao “quarto”.


Mas antes que eu desse o primeiro passo, a voz de Sirius me alcançou, firme e cortante.


— Não ande sozinha pelos corredores. Por mais que esse lugar pareça seguro, ainda assim é perigoso.


Parei, sentindo a intensidade daquelas palavras prenderem meus pés ao chão. Virei o rosto de leve, apenas o suficiente para ver sua expressão séria iluminada pela lua. Ele não parecia bravo… parecia preocupado.


Assenti e continuei meu caminho, mas as palavras de Sirius não saíam da minha cabeça. "Por mais que esse lugar pareça seguro, ainda assim é perigoso."

Segui pelo corredor em passos rápidos, tentando ignorar o frio que escorria pela espinha.


Foi então que o som veio. Primeiro um rosnado distante, quase um arranhar no silêncio da noite. Depois, um uivo grave, gutural, que parecia deslizar pelas paredes e entrar direto nos meus ossos. O som dos monstros.


Meu coração disparou, minha respiração começou a falha me impedindo de puxar ar dos pulmões. Corri o olhar para as janelas, e por um instante achei ver sombras se movendo do lado de fora, arrastando-se na escuridão. Apertei o passo, o eco das minhas passadas denunciando meu nervosismo.


Quando finalmente alcancei a porta do quarto, empurrei-a depressa, fechando atrás de mim antes de soltar o ar preso nos pulmões.


— Demorou. — A voz calma, porém firme, me fez congelar.


Levantei os olhos e vi Ethan sentado, encostado contra a parede, me observando. Os olhos semicerrados deixavam claro que ele estava acordado há um tempo, como se tivesse esperado exatamente por minha volta.


— Fui apenas dar uma volta — respondi, tentando soar natural, embora minha respiração ainda estivesse acelerada.


Ethan arqueou uma sobrancelha e deixou escapar um meio sorriso carregado de sarcasmo.


— Ah, claro… uma volta no meio da noite, pelos corredores cheios de rangidos e assombrações. Parece ótimo para relaxar depois de um pesadelo.


Revirei os olhos, mas antes que pudesse retrucar, a expressão dele ficou mais séria.


— Só não faça isso de novo. — A voz dele soou firme, quase como uma ordem. — Não quero que ande sozinha por aí… principalmente porque eu não confio no Armand.


As últimas palavras pairaram no ar, mais pesadas do que o silêncio que nos cercava.


Fiquei parada por um instante, encarando Ethan sem acreditar no que tinha acabado de ouvir.

— Como assim você não confia no Armand? — perguntei, baixando o tom de voz para não acordar os outros.


Ethan passou a mão pelos cabelos, como se tentasse organizar os próprios pensamentos. O sarcasmo habitual tinha sumido de seus olhos, restando apenas uma seriedade incômoda.


— Digamos que… há algo nele que não me convence. Ele fala demais, mas mostra de menos. E eu não gosto de pessoas assim.


Meus lábios se entreabriram para responder, mas nada saiu. Nunca tinha parado para reparar em Armand daquele jeito, e ouvir aquilo de Ethan só aumentava o peso da noite.


Ele suspirou, desviando o olhar como se desse o assunto por encerrado.

— Então me promete… nada de passeios sozinha. Não quero ter que me preocupar em te encontrar pelos corredores, ainda mais com ele circulando por aí.


Assenti em silêncio, sentindo mais perguntas nascerem do que respostas.


••••


O amanhecer não trouxe exatamente paz. A luz filtrada pelas janelas altas caía em feixes quebrados de poeira, iluminando o espaço de concreto e ferro velho. O som distante de correntes balançando com o vento dava a impressão de que o prédio respirava.


Aos poucos, todos foram se levantando. O cansaço ainda pesava, mas o silêncio do local forçava cada um a se manter alerta. Ethan já estava sentado, observando com olhos atentos, enquanto Emma reclamava do frio e Nyra se espreguiçava preguiçosamente.


Foi nesse momento que Sirius entrou, passos firmes ecoando no chão duro. Ele parou diante do grupo, braços cruzados, e os encarou com a mesma seriedade de sempre.


— Imagino que já tenham entendido onde estão — começou, a voz grave cortando o ar. — Este lugar é chamado de Zona Quatro. Para muitos, pode parecer um refúgio… mas não se enganem. É apenas uma indústria abandonada que nós tornamos habitável. Segura? Até certo ponto. Se quiserem sobreviver aqui, terão de seguir as regras.


Ele andou pelo espaço enquanto falava, como um comandante inspecionando soldados.


— Primeira regra: ninguém anda sozinho, dentro ou fora. Sempre em dupla.


— Segunda: todos trabalham. Cada um terá uma função, seja vigiar, procurar suprimentos, cozinhar ou ajudar nos reparos. Quem não contribui, não come.


— Terceira: silêncio absoluto à noite. Os monstros lá fora são atraídos pelo menor ruído.


— E quarta… — ele fez uma pausa, o olhar se endurecendo — segredo absoluto. Nada do que acontece aqui deve ser comentado com estranhos.


Por um instante, o silêncio pesou. Apenas o som distante do vento passando pelas frestas preenchia o espaço.


— Vocês podem não ter escolhido estar aqui, mas se quiserem continuar vivos, terão de aprender a viver como parte deste lugar. — Sirius finalizou, olhando cada um nos olhos. — Agora, decidam no que podem ser úteis.


Todos se entreolharam, ainda digerindo as regras. Sirius manteve a postura firme, esperando.


Ruam foi o primeiro a falar.


— Sei cuidar de ferimentos, já ajudei em tratamentos antes. Posso trabalhar como enfermeiro… junto dos médicos daqui.


Sirius assentiu com satisfação.

— Bom. Sempre precisamos de mais mãos nessa área.


Emma, meio contrariada, cruzou os braços.


— Eu sei cozinhar. Acho que isso já me coloca na cozinha.


— Certo. — Sirius não demonstrou surpresa. — Vai se juntar ao grupo responsável pelas refeições.


Ivy, que até então observava tudo em silêncio, deu um passo à frente.


— Tenho facilidade com mapas, planejamento… e entendo um pouco de energia e tecnologia. Posso ajudar na manutenção.


Sirius ergueu uma sobrancelha, avaliando-a.

— Isso pode ser útil. Veremos onde se encaixa melhor.


Nyra pigarreou baixinho e falou quase como se pedisse desculpas:

— Eu… posso ajudar na cozinha também.


Jade, sem nem esperar ser chamada, completou com certo desdém:

— E eu também. Não me peçam para sair lá fora.


Sirius apenas assentiu, sem comentar o tom dela.


Quando chegou a minha vez, o silêncio se instalou de novo. Respirei fundo, firme.

— Vou me juntar ao grupo que sai para procurar suprimentos.


Todos ficaram surpresos com a minha decisão. Mas Sirius permaneceu impassível, como se já esperasse aquela resposta.


— Tem certeza? — ele perguntou, encarando-a nos olhos.


— Absoluta. — respondi sem hesitar.


Antes que a tensão pudesse se desfazer, Ethan se ergueu.


— Então eu vou para a vigília. — fez uma breve pausa, o olhar voltado para Alice. — E quero estar junto dela quando sair.


A atmosfera ficou ainda mais pesada. Havia algo naquela decisão que soava como um desafio, mas Ethan não desviou o olhar nenhuma vez se quer.


Sirius olhou para cada um de nós antes de dizer.

— Muito bem. Cada um terá sua função. A partir de amanhã, começam a trabalhar. Aqui não há espaço para quem apenas sobrevive… todos devem lutar para que o lugar continue de pé.


De repente Emma se pronunciou, indignada:

— Você está louca de sair lá fora depois do que passamos? Depois que o Draven se foi? — ela me encarava como se não acreditasse no que tinha acabado de ouvir.


Respirei fundo, com a expressão firme, mas os olhos brilhando com algo mais profundo que não sabia descrever ao certo.


— Eu sei o que passamos… sei a dor que carregamos. Mas se existe uma possibilidade, mínima que seja, de encontrar a mamãe e o Draven… eu não vou hesitar em tentar.


As palavras ecoaram no espaço, deixando todos em silêncio outra vez. Era como se a chama da determinação tivesse iluminado as rachaduras das próprias feridas de cada um.


Sirius observava em silêncio, impassível por fora, mas atento a cada reação. Ethan, por outro lado, não tirava os olhos de Alice, e foi nesse instante que se declarou disposto a acompanhá-la.


Mais tarde, deitada no colchão improvisado, encarei o teto alto e escuro da indústria. O eco das palavras de Sirius ainda ressoava nos meus ouvidos.

"Aqui não há espaço para quem apenas sobrevive…"


Fechei os olhos, mas não encontrei paz. Amanhã eu sairia para enfrentar o mundo lá fora, e não sabia se voltaria. 


No fundo do peito uma chama se acendia.


Eu não queria apenas sobreviver,  queria viver.

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