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Diário de uma sobrevivente
A caçada: ♧parte 2♧
1653 palavras • 9500 caracteres • ⏱ 6 min 37 s

A caçada: ♧parte 2♧

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O helicóptero pousou em uma área aberta, cercada por barricadas metálicas e torres de vigia improvisadas. O vento das hélices levantava poeira e sucata, fazendo arder os olhos enquanto tentávamos enxergar.


— Todos corram para a entrada, não temos muito tempo! — gritou o soldado, apontando para o portão hidráulico à frente.


Descemos rápido, os pés tropeçando na pressa, e começamos a correr. O abrigo estava ali, diante de nós, tão perto...


Foi então que o ar se partiu.

Um rugido estridente atravessou a noite, vindo de cima.


Instintivamente, olhei para o céu — e vi a sombra.


Enorme. Asas retorcidas, como se ossos quebrados ainda conseguissem sustentar o peso de um corpo monstruoso. Olhos incandescentes se acenderam no escuro, e o som de suas asas era como trovões rasgando as nuvens.


— Classe A! — o soldado berrou. — COBERTURA IMEDIATA!


A criatura mergulhou com uma velocidade impossível. O impacto fez o helicóptero explodir em chamas, pedaços de metal incandescente voando para todos os lados. O calor me atingiu como uma onda, queimando a pele e roubando o ar dos pulmões.


— CORRAM! — Ethan gritou, puxando Emma e Jade.


Corremos. Cada passo era um desafio contra o instinto de simplesmente cair no chão e gritar. Soldados atiravam contra a criatura, mas as balas ricocheteavam como se mal arranhassem sua pele. Um dos homens foi agarrado e arrancado do chão em um piscar de olhos, levado pelos céus em meio a um grito que não terminou.


— Mais rápido! — Ruan empurrou Nyra e Ivy, que mancava, quase a carregando.


O portão do abrigo começou a se mover, rangendo como se o próprio metal tivesse medo de se fechar a tempo. A criatura rugiu, mergulhando novamente. O som da morte nos perseguia.


Entrei no abrigo por último, o coração explodindo no peito. Atrás de mim, o monstro desceu mais uma vez, mas o portão hidráulico se fechou com um estrondo, abafando o impacto que veio logo depois. A estrutura tremeu, mas resistiu.


Dentro, só restava o silêncio. O silêncio pesado das nossas respirações ofegantes, e o som distante — abafado pelo metal — das garras da criatura arranhando a porta.


O soldado que nos guiava limpou o suor da testa, o olhar sombrio.


— Bem-vindos ao Setor Quatro.


O contraste foi brutal — lá fora, fogo, sangue e gritos; aqui dentro, apenas um corredor estreito, iluminado por lâmpadas fracas que chiavam como se pudessem apagar a qualquer instante.


O som abafado da criatura lá fora ainda ecoava, arranhando o metal como unhas contra uma porta de vidro. Cada ruído fazia meu estômago se contorcer.


Mas ninguém falou nada. Não havia forças nem para isso.


O soldado ajustou o capacete, respirou fundo e fez um gesto para que o seguíssemos.


— Mantenham-se juntos. O Setor Quatro não é grande, mas não quero ninguém se perdendo.


Seguimos. As botas e os passos apressados batiam no piso metálico, ecoando pelo corredor como marteladas. As paredes estavam marcadas com arranhões, ferrugem e sinais de improviso — pedaços de chapa soldados às pressas, rachaduras tapadas com concreto barato.


— Esse é o abrigo? — murmurou Ivy, quase sem acreditar.


— É o que temos. — O soldado respondeu seco.


Passamos por uma porta pesada, e então o espaço se abriu diante de nós. Um salão. Mesas de ferro velhas, colchões espalhados pelo chão, caixas de suprimentos empilhadas. Rostos se viraram em nossa direção: homens, mulheres, crianças. Todos com a mesma expressão — cansaço e desconfiança.


Emma apertou a mão de Jade, tentando confortá-la, mas a irmã apenas olhava ao redor com olhos arregalados.


Nyra murmurou, quase para si mesma

— Eu pensei que... seria diferente.


Ethan avançou um passo, encarando o soldado.


— Isso é “segurança”? É esse o grande abrigo?


O homem não respondeu. Ele parecia mais cansado que todos nós juntos.

Do fundo da sala, uma voz feminina se ergueu:


— Mais bocas pra alimentar, é isso que vocês trazem?


Uma mulher de cabelos grisalhos e olhar duro nos encarava. Ao redor dela, outros sobreviventes observavam em silêncio, alguns hostis, outros apenas assustados.


— São civis. — O soldado rebateu. — Estavam sendo caçados por uma classe C. Depois por uma classe A. São sortudos de estarem vivos.


A mulher cruzou os braços.

— Sorte não enche estômago. Nem mantém as luzes acesas.


O silêncio caiu novamente, pesado. Eu podia sentir a pressão aumentar, como se o próprio ar tivesse se tornado mais denso.


Foi quando percebi: o abrigo podia ter paredes de ferro, portas blindadas e armas… mas não tinha paz.


Aqui dentro, a luta era outra.


Jade se encolheu atrás de Emma. Ethan cerrou os punhos, pronto para rebater, mas antes que ele pudesse falar, uma voz suave se ergueu entre eles.


— Ei, calma aí, dona lu… — Um homem alto, de semblante calmo, saiu da sombra. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo malfeito, e os olhos, gentis demais para o cenário em que viviam. — Eles não são peso, são sobreviventes. E nós precisam uns dos outros.


A velha bufou, virando o rosto.

— Sobreviventes? Ou só mais gente pra morrer e levar a gente junto?


O homem sorriu, um sorriso caloroso demais para o frio metálico daquele lugar.


— Não liguem pra essa velha ranzinza. Sejam bem-vindos. — Olhou para nós, fazendo um gesto amigável. — Vou mostrar o abrigo.


O tom dele era tão sincero que por um instante até esqueci do cheiro de ferrugem e poeira no ar. Mas havia algo… estranho. Algo no modo como os outros sobreviventes o observavam em silêncio. Como se confiassem nele, mas ao mesmo tempo evitassem se aproximar demais.


— Chega de confusão. — A voz firme interrompeu a tensão.


Um homem surgiu do fundo da sala, vestindo uma jaqueta militar gasta. Ombros largos, barba por fazer, e um olhar carregado de cansaço — mas também de autoridade. Os murmúrios cessaram assim que ele entrou.


— Eu sou sirius, o responsável por este setor. — Ele nos avaliou um a um, como quem mede não pessoas, mas riscos. — Enquanto estiverem aqui, seguem as regras do abrigo. Entendido?


Ethan ergueu o queixo, desafiador, mas eu o cutuquei para que se calasse.


— Entendido… — murmurei, antes que alguém cometesse uma loucura.


Sirius assentiu, voltando-se ao homem de sorriso gentil.


— Armand, mostre os alojamentos. Eles precisam descansar. Amanhã… conversaremos.


O tal Armand abriu espaço, convidando-nos com um gesto educado.


— Venham. Vocês já enfrentaram coisas demais hoje.


E enquanto seguíamos, não pude deixar de sentir o peso daquela troca de olhares: a hostilidade da velha, a rigidez do líder, e a estranha doçura de Armand.


Algo me dizia que sobreviver ao lado deles seria tão perigoso quanto enfrentar os monstros lá fora.


Armand nos guiou por um corredor estreito, as luzes fracas lançando sombras que se arrastavam pelas paredes. O silêncio era cortado apenas pelo som dos nossos passos e o eco distante de máquinas funcionando em algum lugar do abrigo.


Ele abriu a porta de ferro de uma pequena ala e acendeu a lâmpada no teto, que piscou duas vezes antes de iluminar o espaço. Eram cubículos improvisados, cada um com dois colchões finos no chão e caixas servindo de mesas. O cheiro era de poeira, ferrugem e gente vivendo perto demais uns dos outros.


— Não é muito, mas… é seguro. — Armand disse, sorrindo de novo, como se tentasse apagar a feiura do lugar com aquele gesto. — Descansem. Amanhã vocês vão conhecer o resto do setor.


Ele nos deixou ali e fechou a porta com cuidado. O som do trinco ecoou, pesado, como se tivesse nos trancado tanto contra os monstros quanto contra o resto do mundo.


Por alguns segundos, ninguém disse nada. Só nossas respirações e o chiado da lâmpada.


— Eu não confio nele. — Ethan foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Esse tal de Armand… ele sorri demais.


— Ele nos defendeu daquela velha. — Emma rebateu, sentando no colchão com Jade encostada em seu ombro. — Isso já é mais do que qualquer outro fez.


— Justamente por isso. — Ethan cruzou os braços. — Gente que se faz de bonzinho demais sempre tem algo a esconder.


Ruan, até então calado, ajeitou os óculos tortos no rosto e falou baixo:

— Independente disso… eu vi que eles precisam de alguém que saiba cuidar de ferimentos. Tem gente doente aqui. Eu posso ajudar. Talvez isso faça com que confiem na gente.


Nyra olhou para ele com seriedade.

— Ou talvez façam de você escravo, trabalhando até cair.


Ruan deu de ombros.

— Se for pelo grupo, eu aguento.

O silêncio voltou a se instalar, pesado, mas dessa vez cheio de pensamentos que ninguém ousava dizer em voz alta.


Eu me sentei encostada na parede fria, sentindo o corpo finalmente desabar depois de tantas corridas, sustos e perdas. Draven ainda estava na minha mente, e a lembrança do monstro no céu ainda me assombrava.


— Esse lugar… — murmurei, mais para mim mesma. — Eu não sei se é um abrigo ou só outra prisão.


Ivy, deitada ao lado, fechou os olhos devagar.


— Pelo menos… por hoje… ainda estamos vivos.


As palavras dela se perderam na penumbra, mas ecoaram dentro de mim.


Vivos.

Por enquanto.


••••


As botas deles ecoavam entre as prateleiras do mercado vazio, como um relógio de areia anunciando que o tempo dele estava acabando.


— Vai, Draven… apareça, meu amigo… — ele sussurrou com um sorriso que não chegava aos olhos, disparando contra uma das caixas, o som seco ecoando pelo balcão empoeirado. — Só quero conversar.


Um silêncio cortante se instalou. Nenhum movimento, nenhum suspiro. Apenas a respiração dele, curta e nervosa.


Então, algo vibrou na escuridão — um som baixo, quase um riso contido, vindo de um canto inalcançável.


O frio percorreu sua espinha. Ele sabia que não estava mais caçando… estava sendo caçado.

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