Corremos em direção à viela com os corações disparados.
Não podíamos parar. Aquela coisa nos seguia.
Cada passo era uma escolha entre viver ou morrer — e o som das garras da criatura rasgando o asfalto atrás de nós deixava isso muito claro. O ar noturno era cortado pelo som das nossas respirações ofegantes, pelas batidas aceleradas do medo, e pelo estrondo que a criatura fazia ao passar pelos destroços como se nada fosse.
— Mais rápido! — Draven gritou, sem olhar para trás.
Ruan guiava pela frente, desviando de entulhos e buracos no caminho estreito, onde a luz da lanterna tremia, falhava e voltava. A viela parecia mais comprida do que lembrávamos. A cada esquina, um novo beco. Um novo eco. Uma nova dúvida: vamos sobreviver a isso?
O baque de algo pesado caiu atrás de nós.
A criatura estava ganhando terreno.
Jade tropeçou em um pedaço de madeira podre, e por um segundo o mundo parou — mas Emma a segurou antes que caísse.
— Anda! Anda, Jade! — Ela sussurrou com desespero, quase puxando a irmã no colo se fosse preciso.
Nyra apontou para uma escada lateral que levava ao topo de um dos prédios industriais abandonados.
— Lá em cima! Se subirmos podemos despistar!
— Não sabemos o que tem lá! — Rebateu Ethan, mas mesmo assim começou a correr naquela direção, agarrando o corrimão enferrujado.
Atrás de nós, a criatura rugiu. Um som grotesco, como metal sendo retorcido dentro de uma garganta.
— Decide logo! — Ivy gritou.
Draven parou no meio do beco e se virou.
— Eu vou atrasar ela. Ganhem tempo!
— Nem pense nisso! — Retruquei, sentindo o pavor congelar minha espinha.
— Se ela alcançar todos nós juntos, ninguém sobrevive. Alguém tem que dar tempo. — E então Draven pegou a arma e olhou para mim. — Vá. Agora!
O dilema explodiu dentro de mim. Deixá-lo ali? Fugir e carregar isso?
Mas Ivy ainda mancava. Jade tremia. E Emma já puxava Nyra escada acima.
— Droga... — Sussurrei, me obrigando a virar e correr atrás deles, mesmo que parte de mim gritasse para voltar.
Draven ficou para trás.
Mas o som da luta... ainda não veio.
Silêncio.
A viela estava vazia.
Nenhum sinal da criatura.
Nenhum sinal de Draven.
Só o vento... e um novo som se aproximando ao longe.
Só o vento... e um novo som se aproximando ao longe.
Comecei a subir atrás dos outros, meus dedos se agarrando ao metal frio da escada. O coração batia forte demais no peito, o medo me empurrando mais do que a força nas pernas.
Foi então que ouvi.
Bang!
Um único disparo ecoou na noite.
Seguido de um grito. Mas não era humano.
Era do monstro.
— Draven... — murmurei, parando no meio da escada, o corpo congelado entre o alívio e o pavor.
Ele conseguiu? Ele... ainda estava vivo?
— Anda, Alice! — Ivy gritou do topo, estendendo a mão. — Sobe logo!
Mas antes que eu pudesse responder, uma nova presença surgiu.
Passos.
Rápidos. Pesados.
Uma sombra se ergueu no topo do prédio. Uma silhueta armada.
Um soldado.
Vestido com um uniforme tático desgastado, ele apontou o fuzil para o fundo da viela e disparou mais uma vez, sem hesitar.
Bang! Bang! Bang!
— Contato visual com criatura classe C! — Ele gritou para alguém lá em cima. — Alvos civis identificados! Precisamos de cobertura, AGORA!
Mais vozes surgiram. Mais pessoas.
Lanternas acenderam no topo do prédio, varrendo a noite.
Outros soldados apareceram, se posicionando. Um deles jogou uma corda reforçada pela lateral da estrutura. Outro estendeu a mão para ajudar os últimos a subir.
Ethan puxou Emma com força, e ela puxou Jade, que ainda tremia sem parar.
— São eles... — Ruan ofegou, olhando com incredulidade. — Eles existem mesmo...
— Abrigo... — murmurou Nyra. — O abrigo é real?
Um novo rugido cortou a noite. Mais distante. A criatura estava ferida... mas não morta.
— RÁPIDO! — gritou o soldado. — Isso não vai segurá-lo por muito tempo!
O último dos nossos subiu.
Eu fui a última.
Quando a mão do soldado me agarrou e me puxou para cima do telhado, meus joelhos quase cederam, mas não podia parar agora. Foi então que eu vi pela última vez a viela.
Vazia.
Draven não estava lá.
Nem a criatura.
Somente o rastro de sangue e destruição que ela havia deixado para trás.
Meu coração ainda doía, ainda pesava, mas não havia tempo para perguntas.
Pelo menos não agora.
O abrigo estava próximo...
••••
O helicóptero tremia no ar, sacudido pelos ventos imprevisíveis e pelo motor que parecia velho demais pra ainda estar voando. Mas, por enquanto, era segurança. Um teto sobre nossas cabeças. Um som constante que abafava o medo.
Eu estava sentada entre Nyra e Ruan, ainda tentando entender tudo que tinha acontecido. Emma apertava a mão de Jade, as duas em silêncio. Ivy mantinha o olhar fixo na porta lateral, como se esperasse que o pesadelo ainda batesse à porta.
Ethan andava de um lado pro outro, com os punhos fechados.
— Ele devia estar aqui. — Murmurava. — Ele devia estar aqui!
Ninguém respondeu.
O soldado que nos resgatou — um homem robusto, com a armadura coberta de arranhões e olhos fundos de exaustão — estava sentado do outro lado, observando cada um de nós.
— Tinha mais um com a gente. — Ethan se virou para ele, a voz firme. — Cadê ele?
O soldado apenas balançou a cabeça.
— Negativo. Nenhuma outra presença foi detectada. Tivemos que decolar antes que a criatura alcançasse o perímetro. Foi por pouco.
— VOCÊS DEIXARAM ELE LÁ?! — Ethan avançou um passo, a voz agora um grito. — ELE SALVOU A GENTE!
O piloto olhou brevemente para trás, mas não disse nada.
— Draven... — Sussurrei. — Ele ficou pra trás por nós.
O silêncio que seguiu foi mais ensurdecedor que as hélices do helicóptero.
— Pode ser que ele tenha conseguido se esconder. — Emma disse, num fio de esperança.
Mas Ethan não aceitou aquilo. Ele se afastou, encostando na lateral da cabine, o maxilar travado, os olhos queimando raiva.
— Ele não ia se esconder. — Murmurou. — Ele ia lutar. Até o fim.
Ruan tentou intervir.
— A criatura foi ferida. A gente ouviu. Ele teve uma chance...
Ethan nem olhou para ele.
— Da próxima vez, eu fico.
Essas palavras ficaram no ar. Pesadas. Doloridas.
Eu não tinha como responder.
O soldado finalmente falou:
— O Setor Quatro está a menos de cinco minutos. Vamos fazer o pouso na zona limpa. A partir daí, vocês estarão sob responsabilidade do comando interno.
— Que tipo de abrigo é esse? — Ivy perguntou.
— Subterrâneo. Escavado nas fundações da antiga central de transporte. Protegido com portas hidráulicas, suprimentos de médio prazo e capacidade pra mais de cem pessoas. — Ele fez uma pausa. — No momento... tem menos de vinte.
Emma engoliu em seco.
— E os outros?
— Ou estão mortos... ou ainda tentando chegar.
O helicóptero começou a descer.
Luzes tênues surgiram no chão, revelando a zona segura: uma base cercada por paredes improvisadas, barricadas de metal e torres de observação. Um portão se abriu lentamente, revelando a entrada do abrigo.
— Preparem-se. — Disse o soldado, levantando-se. — A próxima parte começa agora.

