Não devíamos ter deixado você entrar... — Draven disse, quase num sussurro, mas alto o bastante para todos ouvirem.
— E-eu... sinto muito... — Ruan ainda tremia, as mãos apoiadas no chão sujo, o olhar perdido entre o pavor e o arrependimento.
— Vamos deixar isso pra depois. — Falei, tentando manter a calma. — Aquelas coisas ainda estão lá fora.
O som do lado de fora havia cessado, mas não trazia paz. Era o tipo de silêncio que dizia: estamos esperando.
Nyra correu até a janela, mas não ousou abrir a cortina. Ethan mantinha a faca na mão. Jade só se encolheu mais ainda, os olhos arregalados como se já tivesse aceitado o pior.
O rádio, ainda mudo, soltou um estalo.
Crack.
Ivy se virou na hora, ofegando.
— O rádio... ele... voltou?
O rádio estalou de novo. Um chiado tomou conta do silêncio por um segundo antes de uma voz abafada surgir, entrecortada, mas nítida o bastante para congelar todos ali.
— "Atenção... isso não é um teste. — disse uma voz masculina, rouca, como se tivesse falado sem parar por horas. — Um abrigo foi estabelecido na zona de segurança do Setor Quatro... repito, zona de segurança do Setor Quatro. Todos os sobreviventes devem se deslocar imediatamente."
Um chiado mais forte.
— "Se ouvirem essa mensagem... vocês ainda têm chance. Evitem contato. Não parem. Mantenham-se em grupo.
Pausa.
— Estaremos seguros... se ficarmos juntos.
Silêncio.
O rádio morreu de novo.
Um silêncio pesado caiu sobre todos. Nem o chiado do rádio ousou voltar.
Nyra foi a primeira a quebrar o torpor.
— Um abrigo... eles falaram de um abrigo. — sussurrou, como se ainda não acreditasse.
— Isso pode ser uma armadilha. — Draven respondeu, direto. — Uma gravação antiga. Uma isca.
— Ou pode ser nossa única chance. — rebateu Ethan, apertando a faca com mais força. — Quanto tempo você acha que vamos durar aqui dentro? Um dia? Dois?
Jade balançou a cabeça. — Eu... eu não posso sair. Não posso... — Sua voz tremeu. — Lá fora eles estão esperando.
Ruan finalmente se levantou, a roupa suja e os olhos fundos.
— Eu vou. Se tiver uma chance de... de salvar alguém, mesmo que seja só eu... eu vou.
— Chega! — falei, tentando manter a calma, mesmo com o coração acelerado. — A gente decide isso juntos. Sem mortes estúpidas.
— O Setor Quatro... — murmurei, olhando para o rádio como se pudesse arrancar mais respostas dali. — Aquela zona industrial abandonada, certo?
Draven confirmou com um gesto seco.
— Fica a uns três quilômetros daqui. Antiga área de transporte e armazenamento. Aberta demais. Se aquelas coisas estiverem à espreita...
— A gente vai ser um alvo fácil. — completou Ethan, com o semblante sombrio.
Emma começou a andar de um lado para o outro, os braços cruzados apertando o próprio corpo. — Mas lá tem espaço. Estrutura. Talvez comida... ferramentas. Tudo o que a gente não tem mais aqui.
Jade não disse nada. Continuava encolhida, encarando a porta como se ela fosse abrir sozinha a qualquer momento.
— Tem que ter um jeito. — murmurei. — Um plano. Se sairmos no escuro, talvez tenhamos uma chance.
Ruan respirou fundo. — Tem uma viela que corta por trás dos prédios até os fundos do setor. Pode ser perigoso... mas é mais rápido. Mais escondido.
Draven ergueu uma sobrancelha. — Como você sabe disso?
— Trabalhei lá. Antes de tudo isso.
O grupo se entreolhou. Pela primeira vez em horas, havia uma escolha. E, com ela, um fio de esperança — fino, frágil e coberto de espinhos.
Draven não disse nada de imediato. Apenas olhava para Ruan com os olhos semicerrados, avaliando.
— Se for mentira... — começou ele.
— Não é. — Ruan o cortou, firme. Pela primeira vez, sua voz não soou como a de um covarde.
O silêncio voltou, espesso como neblina. Até que Ivy andou até o centro da sala, o olhar passando por cada um.
— A gente vai morrer aqui se não fizer nada. — Disse, com mais força do que esperavam. — Eu vou também.
— E se for uma armadilha? — Jade murmurou, quase engolida pelo medo. — E se for pior do que aqui?
— Jade... — Emma se ajoelhou ao lado da irmã, segurando suas mãos geladas. — Vai ser pior se a gente não tentar. Você sabe disso.
Jade não respondeu, mas não se encolheu dessa vez.
— Ok. — Falei, sentindo a tensão crescendo sob minha pele. — A gente tem que se preparar. Mochilas. Água. Qualquer coisa que ainda funcione como arma. E a gente se move quando escurecer de vez.
— No escuro? — Ethan arqueou as sobrancelhas.
— Eles enxergam no escuro. — Respondeu Draven. — Mas não gostam da luz artificial. Lanternas, isqueiros, o que for.
— E se atrairmos mais deles? — Ruan perguntou, hesitante.
— Então rezamos pra correr mais do que eles. — Disse Draven com um meio sorriso, amargo.
Emma foi até um canto da sala e começou a revirar uma mochila rasgada, pegando algumas garrafas e enlatados.
— Podemos dividir isso. Vai durar até amanhã, se ninguém for guloso.
O rádio continuava mudo. Mas a presença dele ali, agora, era um lembrete: alguém estava ouvindo. Ou gravando.
De repente, um barulho metálico ecoou do lado de fora.
Clang.
Como uma lata chutada.
Todo mundo congelou.
Nyra se moveu rápido, encostando na parede com o corpo tenso. Ethan apontou a faca em direção à porta, mesmo sabendo que ela não faria diferença se aquelas coisas decidissem entrar.
— Devem estar circulando o prédio. — sussurrei. — Procurando uma entrada.
— Então precisamos sair antes que encontrem. — Emma disse, agora com urgência.
Ruan foi até a janela e apontou para algo na rua.
— A viela... se descermos pela garagem e sairmos pelos fundos, dá pra chegar até lá sem passar pela frente. Mas...
— Mas? — perguntei.
— Eu não sei o que tem na garagem agora. — Ele engoliu em seco. — Faz semanas que ninguém vai lá.
Draven estalou os dedos, se afastando da parede. — Então acho que temos nosso primeiro passo.
O grupo se preparou. Mochilas. Facas. Uma lanterna com pilha fraca. Um taco de beisebol trincado. Uma arma. E o medo nos olhos de todos.
Eu fui a última a sair pela porta. O corredor estava com pouca iluminação. Passamos em silêncio até chegamos nas escadas que levavam até a garagem.
Ao descer os degraus lentamente um cheiro forte de umidade subia no ar. O trinco rangia. E ao girar a maçaneta...
Algo arranhou do outro lado.
— Esperem. — draven sussurro, parando todos ao mesmo tempo.
A respiração de Jade falhou.
E então... silêncio.
Mais uma vez, o silêncio que espera. Que observa.
— Seja o que for... — Disse Draven atrás de mim, preparando a arma. — A gente enfrenta. Juntos.
E com um último olhar para trás, onde estavam todos que me restavam no mundo, eu empurrei a porta.
A porta rangeu mais uma vez, uma sensação de que algo de dentro estava testando a nossa coragem. Eu respirei fundo, tentando acalmar o coração. Ruan se posicionou atrás de mim, mas seu olhar ainda carregava medo.
Com um impulso, empurrei a porta para o lado. A garagem estava imerso em uma escuridão espessa, mais densa do que qualquer sombra poderia explicar. O ar mais pesado, como se a própria garagem estivesse tentando nos engolir.
Draven foi o primeiro a descer, sua arma brilhando sob a fraca luz da lanterna. Ethan o seguiu logo atrás, com a mão firme na faca, pronto para qualquer movimento. Ivy, Nyra e Emma entraram em seguida, a tensão no ar fazendo cada passo ecoar alto demais. Jade ficou por último, hesitando, os olhos fixos na escada, como se algo a estivesse chamando da escuridão abaixo.
Clang.
O som de metal arranhando o concreto. Um estalo estranho, vindo de dentro das profundezas da garagem. O medo se espalhou, mas eu forcei meus pés a não vacilarem. Cada degrau que descia parecia mais pesado do que o anterior, e o som da respiração de todos ficava mais pesado também.
No fundo da garagem, a lanterna de Draven iluminou uma porta de ferro. Era a única saída, mas a umidade fazia o ar mais pesado, como se a própria garagem estivesse tentando nos engolir.
— Está fechado. — disse Ethan, empurrando a porta sem sucesso. — Alguma ideia?
Ruan foi até a porta e começou a examinar os arredores. Ele olhou para os outros e fez um movimento com a mão.
— Não é a primeira vez que estou aqui. Se empurrarmos na direção certa, pode abrir. É só uma trava de pressão.
Draven fez um sinal para que todos recuassem, e, com um impulso, Ruan empurrou a porta com toda a força. A ferrugem rangeu, e a porta cedeu, abrindo com um estalo. Do lado de fora estava escuro, mas dava para ver um espaço nas grandes — uma possível rota de fuga.
Crack.
Outro som. Agora mais perto. A respiração coletiva parou por um instante. Como se esperássemos que o mundo todo se calasse para que pudéssemos ouvir.
— Eles estão perto. — Nyra murmurou, sua voz quebrada.
Eu acenei, tentando disfarçar o medo, mas sentindo a tensão na minha própria garganta. Olhei para a pequena abertura na parede, com pedaços de vidro quebrado refletindo a pouca luz da lanterna. Se as criaturas nos ouvissem agora, seria um fim rápido.
Ruan foi o primeiro a avançar. Ele olhou para aquele espaço entre as grades, sem hesitar, começou a puxar as barras para conseguirmos passar com facilidade. A pressa era visível, mas ele estava concentrado.
— Eu vou seguir na frente. — Disse Draven, baixando a arma, mas mantendo-a acessível. — Todos atrás de mim.
Mas quando ele se virou para nos dar a ordem, algo se mexeu na escuridão.
Algo grande.
Um som abafado de patas, rastejando, algo como garras afiadas cortando o chão com precisão. Um arrepio percorreu minha espinha, e antes que eu pudesse reagir, uma sombra surgiu de um canto escuro, diretamente para a saída.
Era grande. Muito grande.
A criatura parecia ser uma fusão de várias coisas, partes de algum pesadelo que não tinha razão para existir. Garras curvadas, olhos vermelhos brilhando na escuridão, e um corpo que parecia se esticar, deformado por algo que não deveria ter evoluído.
O silêncio foi quebrado pelo grito de Jade. Ela retrocedeu, empurrando Nyra, mas o pânico só fez a criatura avançar.
— Corra! — Gritei, puxando a mão de Jade. — Agora!
E então, o caos se instalou. O som de garras e dentes raspando nas paredes, os passos apressados, o pânico nos olhos de todos. A criatura avançava, mas nós também. Não havia mais espaço para hesitar. O destino estava nas mãos de nossa fuga.
A viela ainda estava a alguns metros. A única coisa que podia nos salvar agora era a velocidade.
Mais um barulho metálico.
A criatura estava atrás de nós, mas nós já estávamos quase na rua, quando a grade por onde estávamos tentando passar se quebrou de vez, e algo gelado tocou minha pele.
— Vai! — Draven gritou, empurrando todos para fora.
O som de garras ecoou atrás de nós, mais perto, mais alto.
Mas nós não olhamos para trás.

