Naquele mesmo dia, enquanto o mundo afundava cada vez mais no caos,
nós ficamos ali, escutando o rádio repetir as mesmas palavras:
— "... Por favor... abriguem-se. A ajuda está a caminho. Não saiam de suas casas..."
Parecia um disco arranhado que insistia em tocar, como se até a esperança tivesse travado.
Eu olhava pela fresta da janela, tentando entender como as coisas estavam lá fora.
Mas a cena que vi fez um calafrio subir pela minha espinha até alcançar a nuca.
— Não fique olhando por muito tempo. — Disse Ethan, se aproximando com uma expressão preocupada.
— Eu preciso... Esse é o mundo em que vivemos agora.
Ethan puxou a cortina com cuidado, tapando a visão do lado de fora.
— Ficar observando só vai te deixar pior.
— murmurou. — A gente já viu o suficiente por hoje.
Ele não estava errado. Mas... tinha algo diferente naquela rua. Algo errado.
Não era o fogo que consumia as casas e prédios, nem os gritos distantes que cortavam o ar...
Era o silêncio entre eles.
Me afastei da janela e fui até a sala. O rádio ainda falava, com a voz trêmula e robótica.
— "A ajuda está caminho. Não saiam de suas casas. Não saiam... Não..."
Estática. Depois, silêncio.
— Ethan... o rádio parou. — Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Draven apareceu na sala, atraído pelo silêncio repentino. Seus olhos foram direto para o aparelho, como se tivesse ouvido isso mil vezes antes.
— O rádio parou? — Perguntou, se aproximando. Pegou o aparelho e começou a mexer na antena, tentando encontrar alguma posição que recuperasse o sinal.
O silêncio continuava. A estática... nada.
— Esse era o nosso único meio de comunicação... — Disse Nyra, com a voz trêmula, os braços cruzados como se estivesse tentando se proteger do mundo.
Draven não respondeu de imediato. Os olhos dele estavam fixos no visor do rádio, mas sua mente parecia longe. Talvez pensando em quantas vezes já enfrentou situações parecidas. Ou piores.
— Ainda temos energia, comida e abrigo. Isso já é mais do que muita gente lá fora. —a voz de Draven cortou o silêncio, firme como uma rocha, mas não menos cansada.
O peso daquelas palavras caiu sobre todos nós.
Era verdade. Mas também era um lembrete cruel do que havia lá fora.
Do que nós tínhamos deixado para trás.
Ethan se encostou na parede, cruzando os braços.
— Talvez tenha sido só interferência. Pode voltar...
— Ou não. — Respondi, sem conseguir esconder o medo que começou a se espalhar no meu peito.
Draven olhou de relance pra mim. Não como quem desacredita.
Mas como quem já viu esse tipo de história antes... e sabe exatamente como termina.
— Mudando de assunto, fiz meus cálculos aqui. – a comida vai durar pelo menos mais duas, talvez três semanas. — Disse Ivy, encarando as anotações com a testa franzida.
— Era só o que me faltava... vou ter que ficar sem comer. — Murmurou Emma, cabisbaixa, deixando o corpo cair no sofá.
— E como faremos para resolver isso? —
Perguntei, cruzando os braços enquanto esperava uma resposta. Minha voz saiu mais firme do que eu pretendia, mas alguém precisava manter o controle.
Draven levantou os olhos das ferramentas que remexia no canto da sala, mas não disse nada. Ethan trocou um olhar rápido com ele antes de se aproximar de Ivy.
— Temos como racionar melhor. Dividir por horários fixos, pequenas porções. Não vai ser fácil, mas dá pra aguentar... se ninguém surtar.
— Falar é fácil quando se tem estômago forte. — Retrucou Emma, ainda com a testa encostada nos joelhos.
— Ninguém aqui tá confortável, Emma. Mas se você quiser mesmo sobreviver, vai ter que aprender a comer o que der, quando der. — Disse Draven, seco, com aquele tom de ex-militar que já viu gente demais se perder por muito menos.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala.
O rádio continuava mudo.
E lá fora, o mundo continuava morrendo — só que agora... em silêncio.
BAM. BAM. BAM.
Três batidas secas ecoaram pela casa, como se alguém tivesse socado a porta com os nós dos dedos.
Todos se viraram ao mesmo tempo. Emma quase caiu do sofá. Ivy deixou cair o caderno no chão. Ethan deu um passo à frente, como se fosse proteger alguém — ou confrontar seja lá o que estivesse lá fora.
Draven congelou.
O rádio ainda estava mudo.
BAM.
Mais uma batida. Dessa vez mais fraca. Arrastada.
— Isso... isso foi a porta? — Sussurrou jade, saindo da cozinha com os olhos arregalados.
— Não abre — Disse Draven, com a voz baixa, mas tão firme que parecia uma ordem militar.
Me aproximei devagar, sentindo cada célula do meu corpo gritar para eu não me mover.
BAM.
Um sussurro.
Quase inaudível.
— Por... favor...
A voz do lado de fora estava trêmula. Fraca.
Humana.
Ou parecia.
— Me ajudem...
— Pode ser uma armadilha. — Eu sussurrei, me aproximando de Draven. — Aquelas coisas podem imitar a voz humana.
— Por favor... estou ferido...
A respiração do outro lado parecia irregular. Como se estivesse arrastando o corpo.
Emma tapou a boca com a mão. Nyra segurava o braço de Ivy como se isso pudesse mantê-la sã. Jade foi mais para perto da parede como se quisesse se esconder de alguma forma.
Eu encarei a porta.
Tinha uma parte de mim que queria abrir. A parte que ainda acreditava que éramos melhores do que isso. Que ainda restava humanidade.
Mas outra parte... aquela que tinha visto o mundo morrer lá fora... sabia que uma escolha errada podia ser fatal.
Draven pegou a arma.
— Alguém cobre a janela da frente. Agora.
Ethan correu.
Mais uma batida. Mais fraca que as anteriores.
Depois... silêncio.
Nada.
Nem passos. Nem suspiros.
Nada.
Draven se aproximou da porta e, pela fresta da madeira, falou com firmeza:
— Se você for humano... diga agora seu nome. E o que fazia antes de tudo isso começar.
Silêncio.
Segundos.
— Meu nome é... Ruan. Eu era enfermeiro. No hospital central de São Paulo...
Uma pausa.
— Eu não... sou um deles. Por favor.
A forma como ele falou “um deles” me deu arrepios.
Draven não respondeu de imediato. E nem eu.
Ali, diante daquela porta fechada, tivemos que decidir quem seríamos:
Sobreviventes cautelosos?
Ou humanos que ainda lembram o que é ter compaixão?
Ruan continuava parado do outro lado da porta, arfando.
Do lado de dentro, todos estavam imóveis. A tensão parecia sufocar o ar.
Draven manteve a arma apontada, o maxilar trincado. Ele hesitava. Dava pra ver nos olhos dele.
E foi aí que ouvimos.
— Crack.
Um som seco, vindo do andar de baixo. Como madeira partindo. Ou ossos.
Todos se viraram na direção do som ao mesmo tempo. Emma deu um passo para trás, batendo sem querer na parede.
— SCRRAAKK.
Mais alto. Mais perto.
Ruan começou a bater com força na porta agora, o desespero explodindo na voz.
— ELES TÃO AQUI! PELO AMOR DE DEUS, ME DEIXEM ENTRAR!
Draven se virou, olhos arregalados.
— Você... trouxe eles até nós?!
— EU TENTEI FUGIR! EU NÃO SABIA QUE ELES VINHAM ATRÁS! EU SÓ QUERO VIVER!
Nyra cobriu a boca para não gritar. Ethan já estava com a faca na mão, olhos atentos à escada que levava ao térreo.
— SCRAAK. CRAK. CRAK.
Passos. Vários. Arrastados. E... algo mais.
Uma respiração pesada. Ruidosa. Como se o ar estivesse sendo puxado por pulmões que não sabiam mais respirar.
Draven hesitou mais um segundo. Só um.
E então abriu a porta.
Ruan caiu quase para dentro da sala, cambaleando. A camisa rasgada, os olhos arregalados de pavor.
— Fecha! Fecha agora! — Gritou.
Draven bateu a porta com força, trancando as fechaduras numa rapidez treinada.
— THUMP.
Algo atingiu a porta pelo lado de fora. Uma vez. Duas.
O som não era de punhos.
Era de garras.
Ruan caiu no chão, os braços apoiando o corpo.
— Eu corri. Deus, eu corri tanto. Eles... eles me viram. Eu tentei despistar, mas eram rápidos. Muito rápidos...
Ele parou de falar.
O silêncio voltou.
Mas agora... era um silêncio vigiado.
Como se o monstro lá fora apenas esperasse... uma falha. Um som. Um erro.

