Não sabia ao certo se podia confiar no tio do Ethan.
O apartamento dele parecia preparado para uma guerra — portas reforçadas, trancas em excesso, latas de comida empilhadas nos cantos. Era como se estivesse esperando o pior há muito tempo.
Isso só tornava tudo ainda mais suspeito.
— Ethan, o que estava fazendo lá fora? Não ouviu a notícia no rádio? — Perguntou, ignorando completamente a minha presença.
— Tio... aquelas coisas... elas invadiram minha casa. Meus pais...
A voz de Ethan sumiu no ar, como se algo estivesse segurando cada palavra em sua garganta. Ele abaixou os olhos, apertando os punhos ao lado do corpo.
O tio dele encarava fixamente o sobrinho, mas não se aproximava. Seus olhos carregavam algo entre raiva e... medo?
— Eles... eles não conseguiram sair. — Ethan sussurrou, finalmente. — Eu tentei ajudar, mas...
Ele mordeu o lábio, lutando contra as lágrimas que começavam a arder em seus olhos.
— Você sabia, não é? — Minha voz saiu mais amarga do que eu queria. — Sabia que isso ia acontecer. Por isso montou esse bunker disfarçado de apartamento.
O tio desviou o olhar por um momento, depois voltou a encarar Ethan.
— Não é tão simples assim. — Respondeu seco. — Não se mete em algo que não entende, garota.
— Não me chama de garota! — Rebati, dando um passo à frente. — Eu vi o que eles fizeram. Vi com os meus próprios olhos. Isso não é só uma invasão... é um massacre.
Ethan tremia. O chão parecia se abrir aos poucos sob seus pés, levando com ele tudo que conhecia. O tio, impassível, virou de costas.
— A verdade é... — Murmurou ele, quase como se falasse consigo mesmo. — ...Não era para as coisas terem sido assim.
O tio de Ethan se virou devagar, pegando um envelope. Seus dedos tremeram por um segundo antes de abrir e pegaras primeiras folhas, onde símbolos estranhos se misturavam a rabiscos apressados.
— Vocês acham que tudo isso começou agora? — Sua voz estava baixa, quase rouca. — Não. Começou quando abriram o que devia ter sido esquecido.
Ele respirou fundo, como se decidir contar isso fosse lhe custar algo.
— Fui enviado com meus homens para uma área isolada no Amazonas. Os cientistas diziam ter encontrado um templo... antigo demais para se encaixar em qualquer civilização conhecida. Entre os destroços, havia ossos. Enormes. E não eram de animais.
Ethan ergueu os olhos.
— Ossos?
— Os pesquisadores ficaram obcecados. Queriam saber de onde vinham. O formato não batia com nada conhecido. Mas as tribos da região… — Ele guardou o envelope com força. — …eles nos alertaram. Disseram que aquele lugar guardava um mal que não deveria ser libertado.
— E vocês ignoraram? — Perguntei, com o peito apertado.
— Eles queriam encontrar uma "espécie perdida". Algo que poderia ter coexistido com os humanos ou até mesmo... sido anterior a nós. Era uma chance única de trazer de volta algo extinto. Um novo passo pra ciência... ou um retrocesso pra humanidade.
Ele nos encarou com os olhos sombrios.
— Foi lá que ouvimos, pela primeira vez, o nome "Código Akasha". E naquele instante... tudo começou a desmoronar.
Ele cruza os braços, os olhos fixos em um ponto qualquer da parede, como se revivesse tudo aquilo.
— Eu tentei avisar que era uma péssima ideia. Achei que havia convencido o dono do projeto.
Porém no dia seguinte fui demitido.
Um silêncio se instala. Daqueles que não nasce do desconforto, mas do medo.
— Espera aí. — Ivy se adiantou, os braços cruzados, tentando parecer firme. — Você tá dizendo que liberaram uma criatura e simplesmente fingiram que nada aconteceu?
— Foi pior que isso. Eles queriam estudá-la... controlar. — Respondeu o tio, com amargura.
— E é claro que deu errado... — Nyra sussurrou, apertando as próprias mãos. — Meu Deus... então tudo isso... os ataques, os desaparecimentos... é por causa disso, não é?
— Não sabemos até onde vai esse estrago. — Respondeu ele. — Mas posso garantir que o que viram até agora... é só o começo.
Jade, até então calada, se aproximou devagar. Havia algo nos olhos dela, uma mistura de curiosidade e desconfiança.
— E esse tal Código Akasha... o que é, exatamente? Um monstro? Um lugar? Um experimento?
O homem hesitou. A tensão no ar pareceu crescer.
— Algo perigoso. E, talvez... não feito para nós.
— Isso não é resposta! — Emma explodiu, sua voz tremendo. — Você fala em códigos e tragédias, mas e os pais do Ethan?! E todas as pessoas que já morreram?! O que a gente faz agora?!
— Sobrevive. — Ele respondeu, seco. — É só o que nos resta, por enquanto.
— Então é isso? Você ajudou a abrir a porta do inferno e agora estamos todos pagando o preço? — Jade finalmente se pronunciou. Sua voz era calma, mas afiada como uma lâmina. — Parabéns, tio... tem ideia do que fez?
O homem não respondeu de imediato. Apenas desviou o olhar, como alguém que carrega peso demais nas costas.
— Meu nome é Draven. Draven Black. E não... não faço ideia da extensão do que fizemos. Só sei que agora... não há como voltar.
Ele se vira, com uma serenidade assustadora.
— Bom, agora que vocês sabem o que eu sei, irei preparar algo para comermos. —Diz com um tom quase ensaiado, indo em direção à cozinha como se precisasse escapar da conversa.
Assim que ele desaparece pelo corredor, Emma se aproxima de Ethan, hesitante.
— Ethan... por que você não nos contou o que aconteceu com os seus pais? — Pergunta em voz baixa, o rosto marcado pela preocupação.
O garoto parece encolher no sofá. Sua voz sai engasgada.
— Porque... eu não consegui. — Seus olhos se voltam pra mim. — E a sua mãe?
Naquele instante, é como se a realidade me atingisse com toda força. A adrenalina, o medo, a correria... tudo isso havia me impedido de sentir.
Mas agora não havia mais onde me esconder.
Senti um nó se formar na minha garganta antes mesmo de conseguir responder.
— Ela... ficou na casa. Não sei se está viva.
As palavras ficaram no ar, pesadas demais para serem ignoradas.
Nyra se levantou devagar, apoiando-se no encosto do sofá. Seu olhar estava fixo em mim, mas havia algo diferente nele. Não era julgamento... talvez fosse compreensão, do jeito torto que só ela sabia demonstrar.
— Então a gente vai descobrir. — Disse ela, num tom firme. — Não vamos deixar ninguém pra trás. Nem nossa mãe. Isso não termina aqui.
Por um instante, ninguém falou. Mas naquela pausa, silenciosa e crua, algo mudou. Era como se um pacto tivesse sido selado ali – entre os escombros do que fomos e o que estávamos prestes a nos tornar.
Draven colocou a bandeja na mesa de centro, os olhos nunca deixando os dela. O aroma de café se espalhou pela sala.
Foi então que o rádio antigo em cima da estante chiou. Um som grave, quase como uma interferência... mas diferente.
Um sussurro metálico escapou pelos alto-falantes.
— "Caro sobreviventes... A Zona Norte foi comprometida . Estamos fazendo o melhor possível para conter essas criaturas. Não saiam de suas casas."
O silêncio voltou. Mas dessa vez... ele vinha carregado de medo.
Draven ergueu os olhos lentamente, o rosto mais sério do que nunca.
— Começou mais cedo do que esperávamos.
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Enquanto ouver alguém para ser salvo, nossa luta continua...

