A rua está um completo caos...Como se o Apocalipse tivesse começado.Pessoas correm em todas as direções, gritos misturam-se ao som de vidros quebrando. Prédios pegam fogo, o céu encoberto pela fumaça torna difícil até respirar. O cheiro de borracha queimada e algo... metálico... enche o ar. — Vamos! — Ivy me puxa pelo braço, me arrancando do transe.Corremos por entre os carros abandonados, com alarmes disparando sem parar. Nyra quase tropeça num corpo caído, mas não paramos. Não podíamos.Jade continua apertando o livro contra o peito como se fosse a única coisa que mantinha ela de pé.Um grito rasga o céu.Olho para o alto. Algo voa. Rápido demais pra entender o que é, mas era grande. — Ali! A loja! — Emma aponta para uma farmácia com as portas entreabertas.Corremos para dentro. O lugar está vazio, revirado, como se tivesse sido saqueado às pressas. Ainda assim, é abrigo. Pelo menos por agora.Fechamos a porta. Trancamos com tudo que conseguimos empurrar.— Vocês viram aquilo? No céu? — Nyra pergunta, ofegante.— Eu vi... — Respondi baixinho. — Será que era aquela coisa que tava na nossa casa?— Eu não sei... — Ivy sussurrou.Um barulho lá fora. Algo arrastando garras no asfalto.Jade fecha os olhos, como se desejasse que tudo fosse um sonho ruim.E então... ouvimos um sussurro.Não da rua. Mas de dentro da loja.— Tem alguém aí?Em fração de segundos, nossos corações foram tomados por um pavor sufocante.Congelamos. Incapazes de nos mover… ou até mesmo de respirar.Aquela voz pesada vinha de trás do balcão.Tomei coragem. Nyra segurou meu braço, já entendendo o que eu estava prestes a fazer.Olhei nos olhos dela, como se dissesse:Está tudo bem. Eu vou ficar bem. Confie em mim.Mesmo relutante, ela me soltou.Caminhei devagar, cada passo ecoando como um trovão no silêncio denso.Peguei um cabo de vassoura jogado no chão uma arma patética, mas era tudo o que eu tinha.Ou talvez só fosse o que minha mente queria acreditar…Quando me aproximei o suficiente para olhar atrás do balcão…Alguém pulou em cima de mim. Soltei um grito e caí no chão com o impacto.Foi quando meus olhos encontraram os dele.— Ethan…?— Alice? O que você tá fazendo aqui?Ele me olhou confuso, ainda sem perceber que estava literalmente por cima de mim.— Vocês vão ficar nessa posição até quando? — Disse Emma, com uma sobrancelha arqueada e um sorriso maroto.Ethan se levantou num pulo, o rosto corado, claramente constrangido.Me estendeu a mão, e eu aceitei, ainda sentindo o coração batendo feito louco no peito. — Desculpa... — Ele disse, desviando o olhar. — Eu achei que fosse... outra coisa. — Tava se escondendo aqui? — Perguntou Ivy, já se aproximando, ainda com a respiração pesada.— Sim. Desde que... — Desfia o olhar como se quisesse esconder algo. — acabei me separado da minha família, eu me escondi nessa farmácia parecia segura até vocês entrarem fazendo barulho demais. — Ele disse, cruzando os braços.— A gente não tinha muita escolha, sabe? — Emma rebateu, já olhando ao redor. —Era isso ou virar almoço lá fora.Jade permaneceu em silêncio, abraçada ao livro como se o mundo fosse desabar se ela o soltasse.— Tem mais alguém aqui com você? — Perguntei, tentando controlar a ansiedade.Ethan balançou a cabeça lentamente.— Não... Tô sozinho. Mas vi algo lá fora. Aquela coisa... era como se ela tivesse caçando todos nós. O silêncio que se seguiu foi quase mais sufocante que o cheiro da fumaça entrando pelas frestas da porta.— Então precisamos sair daqui. — Ivy disse, firme. — Antes que aquelas coisas voltem.E foi nesse momento que ouvimos um estrondo.Algo caiu no telhado.Todos congelamos.Ethan sussurrou:— Tarde demais...O teto estremeceu novamente, e dessa vez não foi só barulho. Parte da estrutura desabou, separando a gente. — Alice! — Ouvi a voz de Nyra do outro lado, abafada. — você tá bem?– Sim! — Respondi, tossindo. — A gente tá bem!Olhei ao redor. Jade estava caída, protegendo o livro com o corpo, e Ethan me ajudava a levantar. — Isso foi por pouco… — Ele disse, ofegante. — E agora?Antes que eu respondesse, o som.Aquele arrastar de garras voltou.E então, um som mais agudo. Como metal sendo riscado.A criatura pulou de uma prateleira destruída. Era enorme. Sua pele era escura, porém não cobria o corpo inteiro. Como seu rosto é os ossos de suas costas. As garras eram enormes um corte e seria mortal. — CUIDADO! — Gritei, empurrando Ethan pro lado.A criatura rosnou e partiu pra cima de mim.Girei no chão, me esquivando por um triz, e caí de costas contra um armário de produtos. Vi de relance um frasco de álcool.Do lado, um velho isqueiro de vitrine quebrada. — Jade, se abaixa. — Gritei.Ela entendeu na hora e se abaixou com o livro. A criatura avançou, escancarando a boca grotesca. Para me devora.Num impulso, risquei o esquero, e abri o álcool mirando em sua boca. — VOLTA PRO INFERNO PORRA. — Gritei, jogando direto. O fogo explodiu da garganta da criatura pra fora. Um rugido horrendo ecoou pelo lugar. Ela se debateu, rolando entre as prateleiras, derrubando tudo no caminho.Ethan me puxou de volta, protegendo meu corpo com o dele enquanto as chamas tomavam a criatura.— Você é maluca… — Ethan murmurou, com um meio sorriso. — Mas funcionou. O teto rangeu de novo. A fumaça já invadia tudo. Do outro lado da parede destruída, a voz de Ivy gritou:— Tem uma saída nos fundos! CORRAM!Pegamos Jade, que tremia mas não soltava o livro, e corremos entre os destroços com o som da criatura agonizando atrás.Enquanto escapávamos pelos fundos, um pensamento se formou na minha cabeça:Aquele monstro… de onde ele surgiu...E então, a voz de Ethan atrás de mim:— A gente precisa conversar sobre esses bichos, eles não surgiram do nada.As portas dos fundos estavam emperradas, mas Ivy e Nyra já tentavam forçar a saída. A fumaça se tornava insuportável e os gritos da criatura em agonia ecoavam como uma maldição atrás de nós.— RÁPIDO! — Gritou Emma, ajudando a empurrar a porta com o ombro.Um estalo de madeira cedendo, e conseguimos abrir caminho. Corremos para fora, para um beco estreito coberto de névoa e fumaça. Não havia sinal de mais monstros, apenas o som distante de sirenes... Paramos alguns metros depois, ofegantes. Jade caiu de joelhos, ainda abraçada ao livro.Ethan apoiou as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego, até que me olhou. Seus olhos tinham um brilho estranho. Sério. Quase... culpado.— Alice… essas criaturas… Elas não são naturais.— Como assim? — Perguntei, ainda com a adrenalina latejando nas veias.Ele hesitou por um segundo, então finalmente disse.— Elas são experimentos. Ou… eram. Projetos do governo. De uma organização… que eu conheço.O silêncio foi instantâneo.— VOCÊ TÁ BRINCANDO?! — Emma explodiu, incrédula. — Então tudo isso é culpa de humanos?— Não diretamente. — Ethan rebateu. — Mas… Eu ouvi meu pai conversando com alguém. Falam sobre "uma nova espécie", "evolução forçada”… eu não entendi direito. Mas semanas depois, as primeiras aparições começaram.— E você achou que esconder isso era uma boa ideia? — Ivy falou com a voz firme, cruzando os braços.— Eu pensei que tinha escutado errado. Mas depois de hoje…A fumaça atrás de nós aumentou. Sirenes… e algo rastejando se aproximava.— A gente precisa continuar andando. — disse Ivy. — Essas respostas vão ter que esperar.Olhei uma última vez pra farmácia destruída e para Ethan. A forma como ele desviava o olhar…Ele sabia mais do que estava contando.E isso me assustava tanto quanto os monstros.As ruas estavam mergulhadas no caos.Carros queimavam, os gritos vinham de todas as direções, e o céu, se é que ainda dava pra chamar assim, estava coberto por uma fumaça espessa que arranhava os pulmões a cada respiração.— A gente não pode continuar correndo sem rumo. — Disse Ethan, ainda ofegante. — O apartamento do meu tio fica a uns dois quarteirões daqui. Ele era militar. Pode ser seguro.— “Era”? — Perguntei, com uma sobrancelha erguida.— Foi demitido. Não sei os detalhes. Mas ele ainda tem uns… hábitos.— Tipo dormir com uma faca embaixo do travesseiro? — Resmungou Emma.— É, quase isso.— É melhor do que nada. — Disse Nyra. —Se for perto, vamos logo.Seguimos por ruelas, desviando de escombros e evitando as áreas mais abertas. Ivy vinha no meio do grupo, se apoiando em nyra. O som dos nossos passos era abafado pelo caos que rugia ao redor.Quando chegamos ao prédio, quase não parecia que alguém morava ali. As janelas do andar de baixo estavam tapadas com chapas de metal, e havia marcas de queimado no concreto.— Ele tá aqui mesmo? — Ivy perguntou, desconfiada.— Sempre tranca tudo. Pra entrar, só batendo senha…Ethan se abaixou ao lado de um cano velho e puxou um papel grudado com fita no fundo. Atrás dele, havia um pequeno teclado escondido.— Isso é coisa de doido. — Sussurrou jade.— Ou de alguém que pode saber o que está acontecendo. — Ele rebateu, digitando.Um bipe soou, e a porta lateral se abriu com um clique.Subimos em silêncio. O corredor cheirava a ferrugem e óleo. No terceiro andar, Ethan parou diante de uma porta de aço.— Prontas?Ninguém respondeu. Mas nossos olhos disseram tudo.Ele bateu em um padrão estranho. Duas batidas curtas, uma longa, depois silêncio.A porta se abriu lentamente, revelando um homem de meia-idade, barba por fazer, camisa rasgada e uma espingarda nas mãos.Os olhos dele correram o grupo inteiro, parando em mim por um segundo mais longo.— Ethan… que diabos você trouxe pra cá?— Precisamos de um lugar...O homem suspirou, dando um passo pro lado.— Entrem. Rápido.Passamos por ele e o que vimos dentro… era o oposto do caos lá fora.Paredes cobertas por mapas, rádios antigos, estantes com enlatados, facas afiadas, coletes pendurados.Jade se sentou no chão, sem dizer uma palavra. Nyra trancou a porta atrás de nós.— Vocês têm muito o que explicar — Disse o tio, encarando Ethan.— e pelo visto você também. — Eu disse, encarando o apartamento.

Diário de uma sobrevivente
Quando o inferno venho a terra.
1629 palavras • 9908 caracteres • ⏱ 6 min 31 s
Quando o inferno venho a terra.
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