No dia seguinte, não havia sinal de que a energia voltaria. Minha mãe foi até o armário da cozinha e pegou um rádio antigo que funcionava com pilhas.
Aquilo me lembrava os tempos de infância, quando eu podia sair pra brincar na rua sem preocupações.
— Espero que ainda esteja funcionando. — Murmurou ela, girando os botões do rádio com cuidado.
— Gente, a energia ainda não voltou? —Disse Ivy, entrando na cozinha com os cabelos bagunçados.
— Não. — Respondi. — A mamãe tá tentando arrumar o rádio pra descobrir o que aconteceu.
O rádio chiou por alguns segundos, aquele som estático. Minha mãe girou mais um botão e, por fim, uma voz surgiu — fraca, entrecortada, como se estivesse vindo de muito longe.\n\n
— "...autoridades ainda não conseguiram identificar a causa da queda de energia em massa. Relatos continuam surgindo sobre criaturas nas áreas rurais. A população deve permanecer em casa até segunda ordem …"\n\n
A voz foi substituída por mais estática, e depois... silêncio.\n\n
\n— Criaturas? — Ivy repetiu, franzindo a testa. — Que tipo de criaturas?
— Provavelmente algum maluco inventando coisa. — Respondi, embora minha voz não tivesse tanta firmeza quanto eu queria.
Mamãe abaixou o rádio devagar. A expressão dela era séria, mais do que o normal.
— Ninguém sai de casa hoje. Ouviu, Alice?
— Mas eu ia na casa da Liah ver se tava tudo bem!
— Não. Ninguém. Sai. — Ela repetiu, e só pelo tom eu soube que era inútil discutir.
Mais tarde, Nyra desceu as escadas reclamando que o espelho não mostrava mais a beleza dela sem luz. Emma revirou os olhos e Jade ainda estava calada demais.
Foi aí que escutamos.
Um som vindo do quintal. Um estalo seco. Depois outro. Como se algo grande tivesse pisado em um galho.
Todo mundo parou.
Dessa vez, até Nyra ficou séria.
— Você ouviu isso, né? — Sussurrou Jade, já com o livro contra o peito como se pudesse protegê-la.
Mamãe fez sinal de silêncio com o dedo nos lábios e foi até a cortina. Puxou só um pouquinho para espiar.
Eu a vi empalidecer.
— Mãe? — Chamei, baixinho.
Ela não respondeu. Só largou a cortina e se virou pra gente, com um olhar que me gelou até os ossos.
— Subam. Agora.
— Mas o que foi? — Insistiu Ivy.
— Vai. Pro quarto. Tranca a porta. E não olhem pela janela.
O tom dela não deixava dúvidas.
\nE então, lá fomos nós. Correndo. Corações acelerados. Naquele momento, tudo que podíamos fazer... era obedecer.
Trancadas no quarto, o silêncio parecia ainda mais alto. Eu tentava escutar alguma coisa, qualquer barulho vindo lá de baixo, mas tudo estava calmo demais. Calmo de um jeito errado.
— E se for só um animal? — Ivy cochichou, abraçada a um travesseiro.
— Então por que a mamãe mandou a gente correr assim? — Emma rebateu. — Já viu ela com aquele olhar antes?
Jade apenas balançou a cabeça. O livro ainda apertado contra o peito, os olhos fixos na porta.
E foi nesse instante que a maçaneta se mexeu.
Um leve clique, como se alguém do outro lado estivesse testando se a porta estava destrancada.
Todas nós prendemos a respiração.
— Mãe...? — Sussurrei, com a voz fraca.\n\n
Nada.\n\n
Mais um clique.\n\n
Depois... batidas. Lentas. Três.\n\n
TOC... TOC... TOC.\n\n
— Ela disse pra não abrir. — Jade murmurou.\n\n
— Mas e se for ela? — Nyra se levantou devagar.\n\n
— Nyra, não! — Puxei ela de volta.\n\n
E então ouvimos.\n\n
Uma voz.\n\n
Mas... não era a da mamãe.\n\n
Era grossa. Arrastada. \n\n
— Posso entrar...? — Sussurrou, do outro lado da porta, como uma criança imitando um adulto. — Só um pouquinho...\n\n
Emma engasgou com o choro. Jade tapou a boca. Eu olhei pro trinco da porta e vi. Ele estava se movendo sozinho.\n\n
Mas alguma coisa... ou alguém... queria entrar.\n\n
E não era humano.\n\n
\nA maçaneta girou com força. A porta sacudiu, como se alguém estivesse batendo nela com as duas mãos.
— SAIAM PELA JANELA! AGORA! — a voz da mamãe veio de lá de baixo, desesperada.
— É ela? — Ivy engasgou.
— CORRE! — Gritei, puxando as cortinas e destravando a janela com as mãos trêmulas.
O som de madeira estalando ecoou pela casa. Algo estava sendo arremessado contra a porta da sala. Depois, um grito.
— MÃE?! — Jade gritou de volta, mas eu já estava agarrando as mãos dela.
Olhamos pela janela e vimos o quintal molhado pela chuva. Alto demais pra pular... mas tinha o telhado da varanda logo abaixo.
— Vamos! A gente pode descer por ali!
Um último estrondo sacudiu a casa. A porta da sala voou longe. O som de passos rápidos. Algo arranhando o chão.
E então... o silêncio novamente.
— Meninas... — A voz da mamãe.
Mas alguma coisa estava errada. Aquela voz...
Estava calma demais.
\nE vindo da escada.
— Meninas, abram a porta. Já está tudo bem agora...
Só que o barulho das lágrimas da Jade... não era mais o mais alto no quarto.
O mais alto era o grito abafado da Emma... apontando pra sombra que agora crescia sob a fresta da porta.
O som da voz da mamãe ainda ecoava pela casa, repetindo aquelas mesmas palavras.
— Meninas, abram a porta...
Mas a gente sabia que não era ela.
— Vem, Jade! — Puxei ela pela mão, já com metade do corpo pra fora da janela.
A varanda logo abaixo rangia com a chuva. A madeira molhada escorregava, mas não tínhamos escolha. Pulamos. Ivy veio logo atrás, escorregando de joelhos e batendo no corrimão.
Ai! Droga!
— Levanta! Vai, vai!
A criatura bateu na porta do quarto. Uma batida seca. Depois outra. Mais forte. A fechadura gemeu.
— Meninas... estou ficando impaciente.
Aquela voz não era dela.
Correndo pelo telhado molhado, escorregamos até a beirada e saltamos pro chão do quintal. Jade caiu de mal jeito, mas levantou com o olhar trêmulo, sem nem reclamar da dor. O medo segurava ela em pé.
— O PORTÃO DOS FUNDOS! — Gritei.
\nMas estava fechado com corrente e cadeado.
— TEMOS QUE PULAR! — Ivy falou, já correndo pra pegar impulso.
Uma sombra apareceu na janela de cima. A criatura nos via. Observava.
\nRindo.
A voz dela, agora quase sussurrando:
— Eu conheço os seus nomes...
Nos viramos e corremos. Escalamos o portão com a força do pânico. Nyra chorava, mas não parava. As mãos cortadas no arame. O barulho da madeira estalando lá atrás.
E então... um som agudo.
\nComo se várias vozes gritassem ao mesmo tempo, todas dizendo coisas diferentes.
Pessoas correndo para todos os lados, e foi naquele momento que percebemos.
O mundo que conhecíamos já não era mais o mesmo.

