Quando tudo ainda parecia inteiro, e ninguém sabia que o mundo já estava quebrando.
Para aqueles que pegaram meu diário, já vou logo avisando: o que vão ler não é um ‘conto de fadas bem fofinho’.
É um manual. Algo que talvez ajude vocês a sobreviver a esse novo mundo.
Meu nome é Alice Harper, e eu tinha 18 anos quando tudo aconteceu…
Sabe aquela sensação de que algo vai mudar, mas você não faz ideia do quê?
Eu também não fazia.
Naquele dia, tudo parecia normal. Ou... o mais próximo de “normal” que uma casa cheia de garotas pode ser.
— Alice! Se você não descer agora, vou comer seu pedaço de torta! — A voz da Nyra ecoou da cozinha, tão dramática Como sempre.
— Duvido! — Respondi, rindo, enquanto terminava de amarrar o cabelo.
A casa estava cheia de barulhos típicos: panela batendo, passos apressados, risadas... e a voz doce da mamãe tentando manter o caos sob controle.
— Meninas, por favor, só hoje, nada de brigar na mesa. — Ela pediu, mesmo sabendo que era impossível.
A mesa da cozinha estava quase pronta quando cheguei. Nyra, claro, já estava com o garfo na mão, mirando a torta como se fosse um tesouro sagrado.
— Cinco segundos de atraso e eu já ia atacar. — Nyra disse, erguendo uma sobrancelha.
— Aí eu ia ter que te enterrar no quintal. — Brinquei, puxando a cadeira ao lado da Jade.
Jade, a minha irmã do meio, estava com o nariz enfiado num livro grosso demais pra alguém de 16 anos. Levantou os olhos por um segundo só pra sussurrar:
— Vocês duas vão acordar os demônios com tanto barulho...
— Credo, Jade, de onde você tira essas coisas? — Perguntou Emma, que entrou na cozinha penteando os cabelos com uma calma irritante. Como sempre, parecia ter saído de um comercial de shampoo, mesmo usando o pijama velho da Ivy
— De livros? — Jade respondeu, como se fosse óbvio.
— De livros estranhos. — Murmurou Ivy, jogando uma almofada nela antes de se sentar também.
— E a propósito, Emma, você queimou a torta. — Falei enquanto tentava tirar um pedaço com o garfo.
Emma arregalou os olhos.
— Queimei nada! É caramelo... escuro.
— Escuro tipo carvão? — Alfinetei, e as risadas tomaram conta da mesa.
Mamãe apenas suspirou, sorrindo com aquele olhar de quem está cansada, mas grata.
— Um dia... um só... eu queria tomar café da manhã em paz.
— E perder tudo isso? — Emma piscou, dando uma mordida na torta com uma expressão sofrida. — Ok, talvez eu tenha queimado um pouquinho.
Aquele era só mais um dia comum.
Um dia cheio de risadas, provocações e o tipo de caos que, se eu soubesse o que estava por vir, teria aproveitado mais...
Depois do café da manhã, todo mundo foi se dispersando. Jade voltou pro livro dela, Nyra subiu cantarolando. (provavelmente pra fazer alguma dança estranha no espelho), e Ivy pegou o celular pra ver as notificações.
Eu estava ajudando a mamãe a lavar a louça quando a voz do apresentador na TV da sala chamou minha atenção:
— "Autoridades ainda investigam os relatos de luzes intensas e barulhos estranhos vindos da região montanhosa ao norte. Moradores afirmam ter visto formas não identificadas cortando o céu durante a madrugada..."
— Olha isso. — Ivy disse, aparecendo encostada no batente da porta, com o celular em mãos.
— Tá cheio de vídeo desses “barulhos” no Insta. Um monte de gente dizendo que ouviu também. Parece um rugido... Será que é um monstro?
Emma riu.
— monstro? Sério, Ivy? Qual vai ser a próxima? Pé-grande no supermercado?
— Eu tô falando sério! Olha isso! — Ivy deu play no vídeo, e o som que saiu foi grave, arrastado... quase animal. Um arrepio subiu pela minha espinha.
— Pode ser montagem. — Tentei dizer, mas minha voz saiu um pouco mais baixa do que eu queria.
Algo naquela gravação não parecia... normal.
Mamãe secou as mãos no pano de prato e se aproximou da TV, franzindo o cenho.
— Isso não é daqui... é?
— Parece ser nas colinas perto da cidade vizinha. — Respondeu Ivy. — O pessoal tá dizendo que nem o exército quer se pronunciar.
Ficamos em silêncio por um instante.
Foi Emma quem quebrou o clima, tentando zombar da situação:
— Ok, então se aparecer um bicho gigante e peludo na nossa porta, eu jogo a torta nele. Ele morre envenenado.
Todo mundo riu.
Mas no fundo... algo já estava diferente.
A tarde passou devagar. Um daqueles dias cinzentos, abafados, onde o ar parece mais pesado do que deveria. O tipo de clima que faz até as janelas rangerem diferente.
Jade estava sentada no sofá com o mesmo livro aberto, mas não lia. Os olhos dela estavam fixos na janela, como se esperasse ver alguma coisa.
— Você tá bem? — Perguntei, me jogando ao lado dela.
Ela assentiu, devagar.
— É que... acho que ouvi alguma coisa no quintal.
— O quê? — Endireitei a postura, mas tentei não parecer preocupada.
— Tipo um estalo. E... um chiado. Sei lá, deve ser minha cabeça. — Murmurou, fechando o livro.
— Mas é esquisito. Tá tudo esquisito hoje.
Emma surgiu na sala com uma tigela de pipoca e seu humor costumeiro.
— Vocês tão com essa cara por quê? Parece até que viram um fantasma.
— Jade acha que tem algo no quintal.
— Não acho! Só... senti. — Ela fez questão de corrigir.
— Bom, se for o Pé-grande, avisa ele que a torta ainda tá no fogão. Vai saber, né —Emma riu, mas olhou pela janela também. Um pouco rápido demais.
Foi aí que a energia caiu.
A luz piscou uma, duas vezes, e... silêncio.
O som da geladeira parou. O ventilador desligou. E o mundo pareceu prender a respiração.
— Foi só uma queda, né? — Disse Ivy, tentando acender a lanterna do celular.
Mas o celular dela...
Não ligava. Nenhum de nós conseguia ligar nada. Sem sinal. Sem internet. Sem nada.
— Tá. Isso é estranho. — Murmurei.
Do lado de fora, o vento começou a soprar mais forte, e as árvores balançavam como se algo enorme passasse entre elas.
— A energia caiu — Disse mamãe, saindo do quarto e indo em direção à cozinha, procurando velas.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ouvi batidas na porta.
Três toques firmes.
Meu coração disparou.
Mesmo com receio, fui até lá. A maçaneta gelada nas mãos, a respiração um pouco presa.
Girei devagar.
Por sorte... não era um monstro.
Era o Ethan.
— Oi, Alice — Disse ele, com um sorriso meio sem graça. — Queria saber se tem umas velas pra me emprestar.
Revirei os olhos, cruzando os braços na porta.
— E sua casa toda escura te impediu de procurar no armário?
— Claro que não. Mas a Ivy disse que você guarda um estoque, tipo uma velha paranoica.
— A Ivy fala demais — Resmunguei, mas dei um passo pro lado, deixando ele entrar.
Ethan passou por mim com aquele ar convencido de sempre.
Odeio admitir, mas até no escuro ele parecia... irritantemente bonito.
— Aaaah não — Resmungou Nyra assim que o viu. — Achei que esse amuleto afastava energia ruim.
— Só vim pegar velas. E é isso que dá comprar coisas no brechó. — Disse ele, piscando pra ela.
Emma bufou.
— Na próxima a gente compra um pra deixar na porta, quem sabe isso ajude e quando ele passar de novo por aqui ele queime no processo.
— Amo como vocês me recebem. — Ethan respondeu, se jogando no sofá como se fosse da casa.
Eu fui até a gaveta da cozinha, pegando duas velas e um isqueiro.
— Aqui. Agora vaza.
Ele se aproximou com aquele sorrisinho de quem vai falar besteira.
— Sempre tão gentil, Harper. É quase romântico.
— Sonha alto, Ethan. Vai acabar batendo a cabeça nas nuvens.
Ele pegou as velas da minha mão, mas deixou os dedos tocarem nos meus por um segundo a mais.
Aquela faísca besta que eu me recuso a aceitar passou por mim.
— Obrigado. Até nunca mais. — Ele disse, se virando pra sair.
— De nada. Diz isso, mas sempre volta como um cachorro sem dono. — Retruquei, fechando a porta com um pouco mais de força do que o necessário.
Do outro lado, ouvi a risada abafada dele.
Emma me encarou.
— Você gosta dele.
— Cala a boca, Emma.
Encostei a testa na porta por um segundo, tentando ignorar o calor estranho nas bochechas.
“Idiota convencido”, pensei.
Mas meus pés se moveram sozinhos até a janela da sala.
E lá estava ele...
Ethan caminhando pela rua deserta, as velas nas mãos, iluminando fracamente o caminho à frente.
A escuridão ao redor parecia mais densa do que o normal. Como se a própria noite estivesse... observando.
Foi aí que eu vi...
Algo, ou alguém, se moveu entre as árvores do outro lado da rua. Rápido demais. Silencioso demais.
Meu coração apertou.
A sombra parou.
E por um segundo, juraria que... estava olhando direto pra mim.
Pisquei. E sumiu.
Fiquei ali parada, encarando o escuro.
Talvez fosse só minha imaginação.
A última coisa que pensei antes de me afastar da janela foi.
“Será que Ethan vai ficar bem?”

