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𝕻𝖗𝖊𝖘𝖆𝖘 𝖊 𝖘𝖆𝖓𝖌𝖚𝖊 🦖1
83📜☀️🙂‍↕️A Biblioteca de Aram🙂‍↕️☀️📜
2605 palavras • 15101 caracteres • ⏱ 10 min 25 s

83📜☀️🙂‍↕️A Biblioteca de Aram🙂‍↕️☀️📜

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Uma vez que chegamos no templo do Deus do Brilho, eu não perdi tempo e fui até o terceiro andar do templo, já indo para o grande corredor cheio de pergaminhos diferentes.


Zípora: (respira fundo e solta) ai ai, o corredor de pergaminhos de Miguel, eu já perdi a conta de quantas "respostas" eu já procurei aqui, existe literalmente todo o tipo e coisa nesse lugar, e então Sansão, qual vai ser a resposta que você vai me mostrar?


E depois dela falar aquilo, eu peguei um pergaminho preto, que era a lista de onde todos os outros pergaminhos estavam e então, depois de ver onde o pergaminho que eu queria estava, eu fui pro interior do imenso corredor de pergaminhos, subi numa escada bem alta, e peguei um pergaminho vermelho.


E quando desci de novo, e fui aonde estava a mesinha que a Zípora estava me esperando, eu abri o pergaminho na mesma hora para mostrar pra ela uma parte específica da história.


Aquele pergaminho contava a história do Kurupira, da época em que ele ainda era um mortal, e do tempo em que ele começou a criar o Clã de proteção de animais.


Mais especificamente, aquele pergaminho contava sobre uma conversa que o Kurupira teve com o Miguel, pois até mesmo o Kurupira era um aluno do grande Miguel.


Essa era uma conversa que eles tiveram depois que o Kurupira completou a primeira aula de autocontrole dele.


Naquele ponto da história dele, o Kurupira tinha participado de vários clãs diferentes, mas nenhum deles tinha dado ao Vampiro o "caminho" que ele buscava nas artes marciais.


E mesmo que ele já tivesse uma boa ideia qual caminho ele queria fazer, ele ainda não havia entendido que ele mesmo precisava criar esse caminho, mas considerando a época em que ele viveu, eu não o julgo.


Kurupira: Mestre Miguel


Miguel: sim, Kurupira?


Kurupira: me diz, você entendeu o verdadeiro significado de nós criarmos as Artes Marciais?


Miguel: claro que sim


Kurupira: e qual é?


Miguel: bom, primeiro eu quero que você entenda que isso é o o meu pensamento, cada mestre tem uma fé diferente, alguns acreditam que as artes marciais existem para o mais fraco conseguir se defender do mais forte e outros pensam que elas são a forma de controlar os instintos violentos dentro de todos nós


Kurupira: interessante, e no que você acredita?


Miguel: eu acredito na segunda opção, só que eu penso um pouco mais no que ela realmente significa


Kurupira: hmmmm, elabore


Miguel: as Artes Marciais, desde o seu início, sempre foram sobre controlar os próprios instintos e anseios, controlar o medo de levar um soco no rosto, controlar a vontade de desistir depois do corpo ficar cansado demais. E num destaque bem maior, controlar o pânico dentro de si próprio pra ser capaz de pensar melhor, seja em um combate, ou em qualquer outro lugar


O pergaminho falou de forma perfeita como aquelas palavras mexeram no Kurupira, a ponto de uma pergunta ser criada dentro dele na mesma hora.


Kurupira: e o que você tem a dizer para as pessoas que desistiram de controlar os próprios corpos, e fazem apenas o que elas têm vontade, e nunca conseguem se controlar?


Miguel: e tenho raiva e pena dessas pessoas ao mesmo tempo.


Aquela frase pegou o Kurupira muito de surpresa, tanto que ele não conseguiu perguntar o porquê o Miguel pensava isso. Mas ele não precisou perguntar, o Miguel continuou falando, sem perder tempo.


Miguel: pessoas que apenas fazem o que tem vontade, nunca conseguindo ou sequer tentando se controlar não passam de escravos dos próprios desejos. Obesos que não conseguem parar de comer, pais irresponsáveis que não conseguem manter as calças no lugar, brutos que brigam e batem em pessoas por bobagens e isso apenas pra começar


Kurupira: pior que e mesmo, se você der todos os exemplos, nos iriamos ficar dias aqui


Miguel: pois e, essas pessoas pensam estar livres, mas elas apenas estão em um tipo diferente de escravidão, uma escravidão onde os corpos delas controlam todos os seus cerebros e nao o contrario. Uma escravdao onde o raciocínio e o pensamento são quase anulados, sendo usados apenas pra satisfazer os próprios desejos com mais intensidade ainda.


Kurupira: é, eu conheço muita gente que encaixa nessa descrição bem até demais


Miguel: e, eu também cara, essas pessoas não conseguem pensar "eu vou melhorar" pois no fundo, elas já desistiram de ter uma vida melhor, e se tornaram acostumados ao prazer instantâneo e satisfazer as próprias vontades imediatas do que realmente desejar uma vida melhor para si próprios


Kurupira: e como alguém que controla os próprios instintos é diferente disso?


Miguel: é uma diferença que não é muito bem percebida num curto prazo, mas a longo prazo, um mestre capaz de controlar os próprios instintos se destaca muito de alguém que não consegue controlá-los por um único e claro motivo: Eles conquistam vidas mais verdadeiras que aqueles que desistiram de controlar a si próprios.


Aquela frase pegou todo mundo com muita força, não apenas o Kurupira dentro do pergaminho, mas eu e a Zípora também.


Eu já tinha lido aquele pergaminho muitas vezes, mas ele tinha uma mensagem tão forte que mesmo agora depois de vê-lo tantas vezes, ele ainda conseguia me dar impactos como esses.


Kurupira: eu não consigo visualizar o que você quer dizer, Mestre Miguel


Miguel: normal, uma pessoa que nunca viu vermelho não poderia descrever ou imaginar como é o vermelho...mas não se preocupe, eu irei descrever o vermelho pra você...


O pergaminho deixou bem específico como o Miguel se preparou pra falar depois de dizer aquilo, então ele continuou.


Miguel: ...pessoas capazes de controlar os próprios desejos não são pessoas que guardam esses desejos dentro de si próprios e nunca mais deixam eles verem a luz do dia. Na verdade é o contrário, pessoas capazes de controlar os próprios instintos são pessoas que conseguem colocar os desejos mais profundo deles dentro de si próprios, esperar o momento ideal e alimentar esses desejos no momento perfeito


Kurupira: alimentá-los no momento perfeito? Como assim?


Miguel: sim, suprima seus desejos o máximo possível, pra você saber o momento perfeito para satisfazê-los e libera-los, quando você compreender o momento perfeito, até mesmo a espera ficará mais fácil de aceitar.


O pergaminho deixou claro como o Kurupira queria muito perguntar em detalhes o que o Miguel queria dizer com isso, mas ele precisou ficar calado por alguns segundinhos pra entender direito o que ele falou.


E lendo aquilo, eu e a Zípora fizemos o mesmo e paramos de ler um pouco, pra respirarmos e não perdemos o fio da meada.


Eu fiquei quietinho por um bom tempo, apenas tendo uma discussão bem acalorada comigo mesmo, e quando olhei pra Zípora, vi que ela queria me perguntar várias coisas, mas estava se segurando pra não acabar se perdendo na história.


E depois da gente respirar um pouco e conseguir um pouco mais de calma, a gente voltou a ler bem no momento em que o Kurupira conseguiu força pra perguntar outra coisa pro Miguel.


Kurupira: existe algum exemplo da sua propria vida? Mestre Miguel


Miguel: varios, pra ser o mais simples possível, eu amo doces, amo de paixão, mas sei que nao posso comer eles o tempo todo, então eu espero, eu espero até depois do almoço pra comer doces


Kurupira: você tem 10 anos por acaso? Você não precisa mais esperar até depois do almoço pra comer um doce


Miguel: tem razão, não preciso, mas eu quero esperar. O meu corpo quer comer os doces de manhã, mas minha mente quer comer os doces depois do almoço. E por mais que seja difícil controlar meu corpo às vezes, esse é um dos maiores deveres de um artista marcial, não ficar mais forte ou descarregar seus sentimentos ruins nos treinos. Mesmo que essas duas coisas sejam bem importantes também.

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𝓝𝓪𝓸 𝓹𝓻𝓮𝓬𝓲𝓼𝓸 𝓶𝓮 𝓬𝓸𝓷𝓽𝓻𝓸𝓵𝓪𝓻, 𝓶𝓪𝓼 𝓮𝓾 𝓺𝓾𝓮𝓻𝓸 𝓶𝓮 𝓬𝓸𝓷𝓽𝓻𝓸𝓵𝓪𝓻
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\nEssa frase, mesmo falada em outras palavras foi uma das frases que mais me tocou quando eu era criança, foi essa frase que me colocou no rumo das Artes Marciais, e foi a frase que me fez entender que Artes Marciais eram muito mais que uma simples lutinha.


Foi ela que me fez finalmente entender o "artes", das artes marciais.


E quando eu li aquele texto mais uma vez, muitas lembranças boas voltaram pra mim, e quando olhei pra Zípora, fiquei feliz em ver que ela tava montando uma memória muito boa ao ler aquilo também.


Mas depois que nós paramos de nos distrair tanto, voltamos a ler o pergaminho, mais uma vez o Miguel ia lançar uma bomba mental bem no rosto do Kurupira.


Miguel: o princípio mais importante dos artistas marciais é travar essa jornada constante entre o que nossos corpos desejam e o que nossas mentes querem, até chegar o momento em que a mente consegue manter controle total do corpo, até mesmo quando a pessoa dorme, lava a louça, e até quando ta comendo ela precisa ser capaz de controlar o próprio corpo da forma certa


Kurupira: porque você tá falando tanto sobre rotinas do dia a dia e não combates reais?


Miguel: como eu disse, todo o mestre pensa diferente, e eu gosto de por minha filosofia das artes marciais em todos os pontos da minha vida. Pois pra mim, a verdadeira Arte Marcial está em tudo que fazemos, sem exceções. Mas se minha filosofia te incomoda de alguma forma, eu posso parar de falar


Kurupira: não, não tem problema...pode continuar.


E depois disso, o pergaminho explicou em detalhes como o Kurupira estava segurando um questionamento bem grande dentro de si próprio, mas que não tinha nenhuma ideia como falaria isso pro próprio Mestre, e em meio a confusão mental dele, o próprio Miguel lhe deu uma mãozinha.


Miguel: não precisa medir palavras comigo Kurupira, apenas me diga o que foi


Kurupira: (respira fundo e solta) e qual é a recompensa de controlar o corpo tão bem assim? O que alguém ganha por conseguir se controlar por tanto tempo?


Miguel: bom, aí depende


Kurupira: do que?


Miguel: do que a pessoa está segurando, e o que ela pretende fazer com esse impedimento de instintos.


A resposta do Lorde Miguel foi tão simples e ao mesmo tempo tao complexa, que o Kurupira ficou calado por alguns segundos, processando o que acabou de ouvir, antes de responder.


Kurupira: ah, espera, o que? Voceeee, poderia me dar alguns exemplos do que isso significa?


Miguel: é claro, (tosse), então, quando alguém controla a própria raiva e se impede de começar uma briga de rua, ela tá se salvando de se machucar sem necessidade. Quando alguém controla o próprio nervosismo frente a um grande teste, essa pessoa tende a pensar melhor em cada pergunta. Quando alguém controla a paixão perto de um amor incorrespondido, essa pessoa impede a si própria de passar por um grande vexame, e por aí vai. Deu pra entender um pouco melhor?


O pergaminho deixou claro mais uma vez como o Kurupira ainda tinha muitas perguntas pro proprio Mestre, mas ele ainda tava mais calmo do que antes.


Kurupira: sim, eu entendi.


E depois de falar aquilo, o Kurupira se calou, porque a conversa o colocou em uma espiral de pensamentos que ele não conseguia sair de forma fácil.


O Kurupira ficou um bom tempo apenas pensando nos vários outros cenários diferentes onde o controle de instintos poderia salvar a vida de uma pessoa, seja de forma física ou de forma social.


Mas claro que o Miguel não tinha terminado de falar, nem de longe.


Miguel: e isso foram só alguns dos exemplos, existem literalmente infinitos instintos, emoções, desejos e combinações desses ditos instintos, emoções e desejos que nossas mentes podem criar. E por tabela, infinitas formas de controle de instintos, e infinitos tipos de recompensas que podem ser recebidos por controlar seu instinto até um certo ponto.


Kurupira: e diferentes formas de perder o controle


Miguel: exatamente, mas pra eu ser mais específico, eu posso usar a frase: você colhe o que você planta. Pessoas que não controlam seus instintos, plantam e colhem plantas que germinam bem rápido e ficam muito felizes com o que colheram. Mas assim como elas germinam rápido, elas apodrecem rápido também, sem ter literalmente nada para conseguir mantê-las vivas por mais de alguns dias


Miguel: ao mesmo tempo que, aqueles capazes de plantar plantas super difíceis de florescer e germinarem recebem um banquete de rei assim que colhem o que plantaram, e esse banquete, ele não estraga tão fácil quanto as plantas que crescem muito rápido.


O Kurupira quase perguntou "o que você as plantas significam?" no meio da explicação, mas ele não perguntou, porque, depois de ser o aluno do Miguel por tanto tempo, ele sabia que aquilo era uma das várias metáforas de seu professor, então, ao invés de fazer uma pergunta que ele já sabia a resposta, ele afirmou uma resposta.


Kurupira: muitos não têm a paciência para plantar plantas tão difíceis


Miguel: exatamente, o nosso mundo está cheio de pessoas que só querem plantar coisas rápidas e que ficam decepcionadas quando colhem o que plantam no final, não existe futuro pra um mundo assim, e eu quero um mundo que eu possa me sentir mais seguro que esse presente.


Era um pensamento bem bonito e mesmo que o Lorde Miguel já tivesse morrido, eu poderia dizer de cara que ele conseguiu o que queria.


Miguel: por isso eu não irei descansar até que todos consigam plantar colheitas difíceis, está comigo?


O Kurupira não respondeu imediatamente, ele ficou um bom tempo sem falar nada, apenas pensando, e então, ele falou.


Kurupira: por muitos anos, eu defendo os animais desse território sozinho, e por algumas décadas, eu vaguei de Clã em clã, mas nenhum deles parecia querer o mesmo que eu


Miguel: e o que você quer Kurupira?


Kurupira: eu quero....poder, eu quero poder pra poder defender os fracos e manter os fortes na linha...mas sei que o poder pode corromper se for usado de forma errada, por isso estou tentando entender como controlar esse poder de forma certa.


Então, mais uma vez, o pergaminho foi muito certeiro de explicar como o Miguel ficou orgulhoso da resposta de seu aluno e se preparou muito pras próximas coisas que iria falar pra ele, mostrando o quão feliz ele estava com o que iria dizer.


Miguel: e quem seriam esses "fracos" que você quer proteger?


Kurupira: os animais.


O Miguel ficou surpreso com o quão direto o Kurupira falou aquilo, ele não foi específico com o tipo de animal, ele disse "os animais" em geral, não deixando ninguém de fora, e então o Miguel falou.


Miguel: você quer plantar uma semente bem antiga, uma semente que você pode demorar séculos ou até milênios para conseguir resultados, conquistar esse tipo de força, e conquistar uma mente capaz de resistir a esse tipo de poder pode demorar muito, você está preparado pra treinar a ponto de você esquecer seu próprio nome, Kurupira?


Kurupira: sim, e mesmo se eu nao tiver, vou tentar mesmo assim e melhorar com o tempo


Miguel: é assim que se fala.


O Kurupira foi um dos grandes guerreiros que o Lorde Miguel treinou, o Ipupiara, a Cuca e até a Caipora foram treinados pelo Lorde Miguel. Mas o foco aqui era o Kurupira.


O Curupira foi um dos melhores alunos do Lorde Miguel, tanto que ele o superou em idade, pois é, o Kurupira fez a façanha de conseguir viver mais tempo que o próprio Lorde Miguel...


Era, simplesmente, fascinante, pra se dizer o mínimo.

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