Depois de pensar um pouco mais, tomei banho, comi, cumprimentei meus pais e voltei pro quarto pra me arrumar um pouco mais, já que hoje seria um dia que eu precisava estar “apresentável” pra tudo dar certo.
Coloquei uma bermuda jeans, uma blusa mais decorada e sai com bastante cuidado em minha prancha. No meio do caminho, eu me encontrei com a Elena, que surfava de forma tranquila em sua própria prancha.
Elena: quer mesmo que eu vá com você? Não quero ser uma intrusa na visita de vocês
João: ah Elena, se eu for sozinho, o intruso do lugar com certeza será eu
Elena: o que?
João: você vai entender.
Eu conhecia minha família o suficiente pra saber que eu ia ficar muito desconfortável se eu fosse lá sozinho, não porque meus avós se odiavam, mas porque eles se amavam até demais.
Surfando pelo ar por algum tempo, cheguei sem problemas numa casa em específico, bati na porta e a minha avó atendeu, vestindo uma roupa do século passado, mas tendo uma elegância que era digno de bailes de gala.
João: madame, sua carruagem lhe aguarda.
Estendi minha mão pra ela, e a velhinha me seguiu, e apesar do quão instável era a prancha que nós estávamos, a vovó não ficou com um pingo de medo desde que subiu nela, ela já devia ter passado de tudo e mais um pouco com meu avô pra ter uma calma dessas.
E pelo olhar que a Elena tava me dando, senti que ganhei muitos pontinhos com esse respeito pelos mais velhos.
O território inteiro era bem gelado e fresquinho, mas depois do treino de ontem, até a brisa mais tranquila dos ventos conseguiram incomodar minha pele, como milhares de pedrinhas batendo em meu corpo, mas aguentei, pela vovó.
Bom, com os murmúrios de musica da Elena, eu conseguia me acalmar bem melhor em alguns outros instantes também.
O bom foi que não precisei aguentar por muito tempo, já que segundos depois cheguei onde eu queria, ou pelo menos no território onde eu queria, o território da Alcateia do arquipélago, um dos, senão, “o” lugar mais cuidado e bem protegido de todo o lugar.
A ponto de que eu me sentia tocado e cuidado por milhares de mãos angelicais de tão bem que o próprio ambiente era, eu sabia que a vovó sentia a mesma coisa pelo quão serena ela estava naquele momento.
João: uma paz de espírito que faria muitas pessoas saudáveis serem mordidas apenas pra sentir isso constantemente, e o vovô ainda pensa que pode sair daqui
Elena: não culpo seu avô, muita gente ama muito ser apenas um Sapien para apenas se adaptar sem problemas a ser um lobisomem logo depois
João: mas nós não iriamos ficar teimosos a esse nível, sim, seria difícil, mas agente iria se adaptar com o tempo, coisa que o vovô com certeza não ta fazendo
Vovó: o seu avô facilmente se jogaria no fogo antes de admitir que tava queimado, e isso não é piada, ele realmente fez isso uma vez
Elena: hmhm, e eu achava meus tios doidos
Vovó: normal, perto do meu marido, muitos loucos parecem criancinhas problemáticas
João: a cada história sua, mas eu entendo que o vovô tem muito a agradecer a você por ele estar vivo por tanto tempo
Vovó: acha, ele sabe disso muito bem.
Eu sorri, tanto pela tranquilidade do ambiente como a do próprio momento. Levou menos de 1 minuto pra eu achar o lugar certo, mas antes disso, percebi como a minha avó tava impressionada com tudo que estava lá embaixo
João: vocêeeeeee, quer descer pra dar uma volta?
Avó: não, vamos até o seu avô, primeiro.
E com um olhar determinado no rosto, eu vi que a velhinha não ia desistir de jeito nenhum, e como ela disse, desci minha prancha e surfei com bastante cuidado até chegarmos na casa do vovô. Uma casa simples, que desaparecia no meio das outras por ser tão comum, o vovô nunca foi de esbanjar muita coisa, então o lugar era bem a cara dele mesmo, eu bati na porta com cuidado, já esperando por tudo.
Vovô: quem é?
João: sou eu vovô
Vovô: você é quem mais?
Vovó: ora, não me diga que já esqueceu a voz da sua própria esposa?
Depois de ouvir a voz da vovó, o vovô abriu a porta num tempo menor que uma piscada, totalmente transformado em lobisomem.
O lobo do vovô, além do pêlo e das garras, também o deixava quase 40 centímetros maior, o deixando maciço já que ele já era absurdamente alto, era uma diferença de altura imensa, mas a vovó levantava a cabeça para aquele grande lobisomem, e o encarava como se fosse a coisa mais simples do mundo.
A calma nos olhos da minha avó me impressionou, porque mesmo agora, o vovô era alguém que conseguia até fazer as pessoas mais corajosas darem passos pra trás de forma instintiva, como a Elena naquele momento, e a vovó nem piscava, como se pra ela, seu marido estivesse exatamente igual. Algo que me fazia segurar com cuidado a mão da Elena, desejando ter apenas um pouco disso quando agente ficasse mais velho.
Vovô: eu não esqueci, é que o seu cheiro é tão bom que eu queria ter certeza que não estava o imaginando.
O olhar dos dois era tão apaixonante, parecia algo vindo de um conto de fadas, e segurando a mão no rosto dele, minha avó o levou pra perto do rosto dela, e lhe deu um beijo.
AAAAAh, eu amava como eles conseguiam ter tanto amor, mesmo sendo tão velhos. E pelo gritinho agudo que a Elena fez quando enfiou as unhas dela no meu braço, eu sabia que ela pensava a mesma coisa.
O beijo destransformou o vovô de volta para sua forma Sapien, então ele falou.
Vovo: o-o-o-o que você está fazendo aqui, querida?
Vovó: me mudando, pra ficar perto de você
Vovô: o que: não, nanananão, só me dá mais um tempo, eu consigo sair daqui
Vovó: não aja como se esse lugar fosse sua prisão
Vovô: isso só é temporário, ta legal, só to ficando aqui até entender melhor como lidar com meu lobo e aí eu saio
Vovó: desculpa querido, mas se você passa 3 anos em um lugar, você mora nesse lugar
Vovô: mas eu não quero morar aqui, eu tinha uma vida antes de ser mordido.
A vovó então suavizou seu olhar, coberta de pena, não por ele ser mordido, mas sim o que levou ele a receber a mordida.
Vovó: uma vida que estava sendo segurada por um fio, a mordida salvou sua vida, sem ela você teria morrido naquela cama de hospital.
Ai, o vovô foi encurralado nessa, nenhum argumento no mundo daria pra revidar aquilo, e frente aos olhos castanhos da vovó, ele não conseguia nem contra-argumentar de forma teimosa e birrenta como ele fazia com os outros.
Elena: pare, você não vai ganhar
João: ele sabe, mas ainda vai tentar a sorte.
Esse era um dos principais motivos para ele não querer ver a vovó, ela tinha o dom de destruir todas as mentiras que ele contava mais pra si mesmo do que pros outros, e tinha vezes que ele queria que as mentiras durassem mais um tempinho.
O vovô ainda tentou, tentou ficar calmo e convencer a vovó a não querer ficar aqui, mas então ela afundou o último prego no caixão.
Vovó: querido, por favor, chega.
Eram palavras simples, e apenas o começo pro discurso real, mas essas simples palavras foram o bastante pra desestabilizar bastante o vovô.
Vovó: sua teimosia idiota me deixou afastada de voce por 3 anos. Nos não somos mais adolescentes, querido. Eu posso viver por mais dez anos, ou meu coração pode parar amanhã, você quer mesmo passar os restos dos seus dias pensando que você me abandonou e não ficou comigo nos momentos finais porque você não aceitou seu lobo? É assim que você quer que eu lembre de você?
O vovô não respondeu, a “máscara” de indiferença dele nao permitia, mas o olhar dele dizia tudo, “não, eu não quero que você me lembre assim”. E mesmo sem ouvir a resposta dele, a vovó estava satisfeita.
Vovô: tá bom, eu fico
Vovó: hmhm (afaga a cabeça dele) bom menino
Vovô: ai, eu sou um lobo, não um cachorro
Vovó: dá no mesmo
Vovô: não dá não…
E agora o vovô parecia bem chateado, como um garoto que acabou de perder uma discussão com uma garota que ele gostava…e quando meu avô ficou emburrado e entrou em casa pra resolver alguma coisa, eu fiquei ali, um tempinho com minha avó.
Elena: ele é sempre calminho assim?
João: muito pelo contrário, ele é teimoso, cabeça dura e muito brigão, só com a vovó ele é calmo e mole assim
Elena: por enquanto
João: um “por enquanto” que vai durar muito tempo ainda, eu nunca vi alguém resistir tanto tempo ao ambiente dos lobisomens como ele, eu to impressionado dele nao ter virado um omega
???: AI, NÃO FALA ASSIM DO SENHOR JONATHAN, ELE É UM EXCELENTE BETA.
Olhando ao redor, vi que um dos vizinhos do vovô veio o defender…
Joao: tá bom, desculpa
Vovó: não julgue o seu avô, ele pode ser teimoso mas ele não é um rebelde
João: ah, eu sei disso muito bem vovó…
Enquanto eu via o vovô voltando, com um terno bem do estilo antigo vindo até nós, pensei como tinha muito medo que meu avô carregava pelo “treinamento” do Bisavô, um medo profundo de ser ele mesmo.
João: …o vovô é o oposto de um rebelde.
Eu olhei pro meu lado, vendo como a Elena tava toda confusa, nossa, agora que eu notei, eu não tinha apresentado os dois diretio ainda, bom eu teria tempo pra isso depois
Quando o vovô voltou, ele estava arrumado tanto quanto nós, eu sabia o que ele ia dizer, nesses 3 anos, eu tinha pesquisado as regras do lugar, e sabia que…
Vovô: se você quer ficar aqui, vai ter que pedir permissão pra Alfa, e ela vai ter que te aprovar
Vovó: você ainda recebe ordens de um alfa: nunca pensei pensei que você se curvaria pra mais alguém.
E com uma causalidade que já mostrava o quanto ele já tinha aceitado o lugar dele, o vovô levantou a barriga, mostrando uma marca de garra que fazia aparecer que as tripas todas dele saíram pra fora.
Vovô: eu desafiei ela a 3 meses, lobisomens tem um fator de cura rápido, mas ela tem uma Aura tão forte que ate agora nao curou, eu to longe de estar no nível dela
Vovó: ela? hih, to realmente curiosa pra conhecê-la agora
João: esse machucado com certeza jogou as tripas dele pra fora, voce não está sentindo nem um pouco de preocupação?
Vovó: tá tudo bem querido (afaga cabeça) teve uma vez que um prédio de 3 andares caiu na cabeça dele, lembra Jony?
Vovó: eu lembro de eu ter escavado a saída sozinho
Vovó: E NÃO É?
E com aquela piada interna de uma das aventuras doidas que meu avô passou, todo mundo riu. Mas tentando não perder o fio da meada, chamei a atenção deles, e logo agente se pôs a caminhar para chegar até a Valentina, a Alfa que transformou o vovô.
Agente pegou o caminho longo, porque o vovô queria muito mostrar tudo do novo mundinho dele para a vovó, e naquele ponto, eu agradeci de ter levado a Elena comigo, porque ali nós tivemos um pequeno tour pelo lugar.
Parando para ouvir bardos, passando por carrinhos de cachorro quente, que eram como o paraíso na minha boca, e também apenas andando de mãos dadas como um casal por aí, (e eu notei rapidinho o quão feliz o vovô tava que essa “tradição” não iria morrer tão cedo).
E quando finalmente voltamos à marcha para ver a Alfa, no fim a própria Alfa foi até nós, e de uma das formas mais inusitadas do mundo, montada em cima de um casuar do tamanho de um cavalo.
O simples fato dela estar conseguindo ficar em cima daquela coisa sem que ela tentasse a matar já falava rios do quão intimidadora ela era, e ela ainda tava fazendo aquilo com um braço só, já que ele era cotoca.
Até hoje eu ainda me perguntava o que podia fazer uma alfa como ela perder um braço assim, mas eu sabia que perguntar seria feio demais, então fiquei quieto.
Valentina: olá jonathan, soube que tava me procurando
Vovô: ah, sim, Valentina, essa é a minha esposa, e ela quer morar aqui, comigo.
E com bastante facilidade, a Valentina desceu do casuar, e andou com bastante calma até nós, ela olhou a vovó nos olhos, com um olhar que parecia penetrar e decifrar almas, e considerando o que ela deve ter passado pra ganhar o título de “alfa genuína” refletida em seus olhos brilhando em vermelho sangue, provavelmente decifrava almas mesmo.
Valentina: ta, ela fica
Elena: pera ai, é só isso? Tipo, sem nenhum teste, assim, assim, sem nenhum ritual?
Valentina: ela pediu minha aprovação, apenas isso, e eu a aceitei entao ela pode ficar, mas apenas se seguir nossas regras
Vovó: e que regras seriam essas?
Vallentina: coisas simples, não faça muito barulho, nada de música alta depois das 11 da noite, participar de forma obrigatória do “domingo da limpeza”, o Jonathan te dará mais detalhes depois.
Mas quando ela falou aquilo, ela olhou de forma bem dura para a vovó, antes de dizer.
Valentina: mas já vou avisando, caso você quebre regras demais, será expulsa daqui. Esta tudo nos conformes, senhorita…
Vovó: Elisabeth, mas todos me chamam de Lisa
Valentina: bom, senhora Elisabeth, sinto que a senhora não nos dará problema, mas é sempre bom dizer as regras primeiro, pra não se ter maus entendidos
Vovó: sim senhora, eu entendo totalmente senhora.
E no meio da fala dela, o casuar que ela montava foi até a vovó e começou a rugir pra ela. Isso mesmo, rugir, se você quer pensar em como o casuar soa, pense como um motor de carro de modelo antigo tentando falar, esse é o som que eu ouvi naquele instante.
A Valentina deu um tapa no bicho, o mantendo calmo, porque aquele passa absurdo era assassino, ela tinha que manter o controle dele ou tudo aqui podia acabar absurdamente mal.
Vovó: pela forma que você lida com o casuar, sei que estarei em boas mãos
Valentina: estou acostumada a lidar com “coisas inesperadas”.
E com essa nítida ameaça no “coisas inesperadas” que a Valentina falou, minha avó apertou a mão dela, senti que ela teria uma vida bem turbulenta até as coisas se acalmarem.
Elena: tá, e agora o que?
João: agora a gente volta pra casa dos meus avós, a menos que você queria fazer outra coisa
Elena: humpf, pode me inclui em qualquer doideira que você tiver pensando
João: bom saber.
E com a vovó oficialmente dentro da Alcateia, decidimos só voltar pra a casa do vovô.
Vovô: vão se trocar, essas roupas devem estar bem desconfortáveis
Elena: espera, o que?
Vovô: algumas roupas minhas de infância minhas estão aqui, claro, se você não ligar de vestir roupas de velhinha também
Elena: humhum, vai ser interessante vestir roupas do século passado, pode contar comigo
Vovó: é assim que se fala.
Não sabia dizer que o fato que a Elena e a Vovó terem ficado amigas tão rápido devia ser algo fofinho e super preocupante, pela facilidade com que minha avó era boa em convencer as pessoas, mas tentei não pensar muito nisso e fui me trocar…
E no meio do caminho eu vi o vovô me olhando, e sem dizer uma única palavra, ele me mostrou o quão preocupado ele estava com essa “aliança” que minha namorada e avó estavam fazendo, mas de novo, tentei não ligar, e apenas me preocupar com a roupa que iria escolher, porque depois de ficar tanto tempo aqui, “ele” com certeza teria sentido meu cheiro, precisava me preparar pra uma possível briga.

