Como sempre, a cidade da minha vó tava bem calma, e sem problema nenhum, eu peguei minha prancha, a coloquei no chão e comecei a viajar numa grande onda de pura aura, depois me levantei até ficar tão no alto que fui capaz de ver por completo toda a ilha-cidade onde a casa da minha avó ficava.
Me levantando mais, as incríveis ilhas imensas de todo o arquipélago, algumas com cidades tão bem detalhadas e bem construídas que as cidades eram bem maiores por dentro do que por fora; Outras tinham minas imensas de mineração que iam até o ponto mais profundo da terra, até chegar no mar vermelho; Pontos com tantos tempos, seja para aprender, para adorar, ou apenas para se ter um contato mais direto com os grandes deuses.
E o que impedia essas ilhas de se tornarem um grande continente eram as gigantescas correntezas tão poderosas, tão mortais e tão sinistras que deixavam difíceis colocar pontes entre as ilhas, navegar através dos barcos, e até mesmo voar muito perto do chão era perigoso com a correnteza tão poderosa que tinha em minha terra natal. Difícil, mas não impossível.
E inclinando meu corpo pra frente, tentando não pensar muito no que acabou de acontecer, comecei a viajar no meio das ilhas, mas eu não tava nem um pouco interessado nas ilhas normais, nanananão eu fui direto para as grandes ilhas com templos, procurando um conhecimento arcano antigo.
Ilhas essas que eram reformadas ao não terem nenhum recurso valioso, nem terra fertil, nem nada que poderia as impedir de serem um local de adoração, já que ter um recurso valioso deixaria difícil de por um templo ali.
Templos esses que eram grandes pirâmides feitas de ouro puro, iluminadas por um raio de sol concentrado na forma de uma pirâmide. Um monumento que parecia protegido pelo próprio Deus do Sol.
Quando cheguei numa das maiores pirâmides, eu encontrei uns guardas com grandes lanças protegendo a entrada…e apenas pelo que eu já ouvi desse lugar, eu tinha que tomar cuidado com a forma que agia perto deles, senão as coisas poderiam se complicar, muito.
Ao chegar perto deles, coloquei minha prancha debaixo do braço e falei.
João: bom dia cavaleiros
Cavaleiros: bom dia
João: me diz, o que preciso fazer pra conseguir entrar aí?
Cavaleiro1: não muita coisa…
E com uma casualidade que já dizia que ele já fez isso muitas vezes, ele tirou uma pequena bolinha de ferro do tamanho de uma maçã do bolso e falou.
Cavaleiro1: você tem que segurar isso por 1 minuto inteiro.
Joao: só isso?
Guarda: só.
Com certeza tinha uma pegadinha, mas eu só descobriria isso depois de segurar a bolinha, então obedeci.
E como eu pensei, a bolinha começou a sugar minha Aura assim que eu a toquei, mas apesar da intensidade que ela sugava minha Aura, não tentei impedir.
Deixei que ela sugasse o máximo de Aura que pudesse, e depois do que pareceu alguns minutos, pelo esforço que eu tava fazendo ali, a bolinha parou de me sugar meu poder, e pegando a bola de novo, o guarda falou.
Gurda1: é, isso vai ser o bastante, pode entrar
Joao: bom, antes você sabe onde está a Elena? Ela é a minha namorada e eu queria ver como ela tá
Guarda1: ah, a Elena? Ela tá te esperando na sala 1.
E assim que o guarda falou aquilo, eu andei pra dentro do lugar, tentando encontrá-la, mas antes de tentar procurá-la de forma apropriada, fui pego por uma gigantesca pancada de ar, como se uma quantidade gigantesca de ar frio tivesse me acertado e tentado me derrubar.
Meu queixo começou a tremer de forma instantânea,enquanto tentava aquecer meu corpo, nossa, esse clima parecia muito fora do lugar pra um templo que dizia ser guardado pelo Guaracy em pessoa, e meio que sem escolha, eu me vi obrigado a tentar entender por completo esse frio extremo.
Antes mesmo de encontrar a Elena, me sentei no chão na posição de borboleta e respirei fundo, tentando deixar meu corpo levemente mais quente, só pra eu não pegar uma doença por ficar muito tempo naquele lugar, respirei uma vez, respirei duas vezes, respiei três vezes, e quando eu abri os olhos eu vi a Elena ali, na minha frente e sorrindo.
Elena: sabia que você ia ficar assim
Joao: hehe, pois é, e ai, como ta seu emprego dos sonhos?
Elena: tecnicamente eu só limpo os monumentos e acendo algumas velas aqui e ali, mas é a minha primeira semana aqui e todo mundo tem que começar por algum lugar
João: bom, considerando que você não tá lá fora no calor infernal, já é algo incrível.
E sorrindo pra mim com a doçura de uma criança, ela me levantou, e enlaçou os dedos dela nos meus. Antes dela falar alguma coisa pra mim, eu a peguei pela nuca e dei um beijo na testa dela, e pelo qual “não natural” aquilo era pra mim, ela ia falar algo, mas antes eu logo respondi.
João: esse beijo é da minha avó…
E dessa vez, segurando ela pelo queixo, e a fazendo ficar vermelha como um tomate, falei.
João: mas esse aqui, é todo meu.
E com um beijo mais profundo, onde nossas línguas se entrelaçaram, e com o aperto das nossas mãos ficando mais fortes, a gente se separou.
Elena: (arfa, afa) você sempre sabe como tirar o fôlego de uma garota
João: digo o mesmo de você.
Mas depois do beijo apaixonado, algo pareceu enlaçar a mente da Elena, algo que eu entendia muito bem, não tinha sido de forma aleatória que ela escolheu esse lugar, não não não, existia um motivo para aquele ser um dos templos mais “iniciais” de se entrar, ele era o mais fraco, e até os mestres da aura mais novos conseguiam entrar ali…
E o motivo disso era bem simples, a ideia daquele templo era bem simples.
Depois da gente namorar um pouco, eu e a Jaci fomos na direção de um vidraceiro que se destacava de todo o lugar, e com o brilho do sol batendo no vidraceiro, a grande arte feita de vidro dali parecia de forma tão divina quanto as próprias divindades inspiradas nela.
No lado esquerdo, no lado mais escuro do vidraceiro, tinha a grande Jaci, a Deusa da Lua, segurando a lua com as duas mãos, tudo enquanto era envolvida em uma grande quantidade de escuridão, pintada com milhares de estrelas ao seu redor. Com a branquitude da roupa dela contrastando com a escuridão marrom de sua pele .
Do outro lado tinha o grande Guaraci, o Deus do Sol, Segurand o próprio sol com as duas mãos, cercado por um azul quase marinho, junto de milhares de nuvens a sua volta. Com seu corpo se detacando de tudo com um terno preto para combinar com a pele mais escura que a deusa Jaci, o tornando o centro do vidraceiro dele.
Os dois deuses representavam muitas coisas em vários templos, junto com vários nomes além de Jaci e Guaraci, mas naquele templo, eles representavam duas ideias abstratas que até hoje muitos monges e sábios tentavam entender.
E olhando a pequena tabula de pedra que estava na frente deles, existia uma simples frase, como a porta de entrada para quem desejasse aprender mais, e sem medo de repreensão, eu li em voz alta a placa.
João: “anima: a força feminina residindo a alma. E animus: a força masculina dentro da alma. Cada mulher possui a energia Anima dentro de si própria agindo de forma consciente, e com a força Animus atuando em sua forma inconsciente. Assim como cada homem possui a energia Animus agindo de forma consciente, enquanto a força Anima atua de forma inconciente”.
Era bem grande para uma simples tablete de introdução, mas ela carregava tudo que qualquer um que desejasse entrar nessa “toca do coelho” pra saber se realmente deveriam se arriscar ali.
Pra muitos como eu, aquilo era mais que o suficiente, mas pra muitos, entender o masculino e feminino dentro de si próprios era assustador demais pra sequer tentar.
E apesar de eu estar mais do que disposto a ver o que se tinha dentro de mim, ainda dei a mim mesmo o tempo para olhar com cuidado o vidreiro que representava o Deus do Sol, ou o Animus, como ele era referido aqui.
Tentando entender bem aquela ideia, fechei meus olhos e pensei em todas as vezes que eu senti minha brutalidade, minha imprevisibilidade e minha falta de noção de perigo tomando conta de mim, e comigo gostando.
Joao: minhas batalhas no boxe, minhas imposições com idiotas que tentam me reduzir apenas a um cara talentoso, minha coragem pra ficar no meio das pessoas que eu amo em momentos de crise, a felicidade extrema que eu sinto em ser violento, os grandes desafios que eu dava para qualquer um que permitisse que eu o colocasse por baixo das minhas asas. Essas são as formas mais recentes que consigo pensar em meu Animus se manifestando, hehe, já é um bom começo
Elena: hum, no meu caso não é muito diferente, meu Animus se manifesta bem mais quando eu pratico capoeira, quando eu grito contra idiotas que ficam me incomodando quando eu vou pra academia, junto quando eu mesma uso minha raiva pra melhorar na academia, também quando eu preciso me obrigar a fazer algo que eu não quero, e quando eu to na guarda? Ah, na guarda, ser durona, fortona e totalmente intimidadora quando preciso ficar no meu posto, preciso pegar muito do meu Animus para conseguir fazer isso
João: é, o animus é importante…mas não consegue fazer muita coisa boa sozinho
Elena: existe uma grande cota de garotas traumatizadas que concordam até remais com você
João: não generaliza, famílias inteiras se traumatizam com homens que…destroem suas Animas…e mulheres que destruíram suas Animas também…
Nossa, eu nem entendia direito o que era ser totalmente controlado por seu Animus, mas apenas pensar em uma mulher que esqueceu seu Anima e começou a viver apenas pelo seu Animus foi o bastante pra eu quase infartar de verdade.
João: ah, mas sinceramente eu nem quero pensar nesse segundo caso, é sinistro demais pra mim…eu quero pensar naquilo.
A Elena então seguiu meu olhar, na direção do vidreiro da Jaci, sorrindo.
Sem trocar uma única palavra, vi que estávamos pensando a mesma coisas, então, ainda de mãos dadas, nos dois fechamos os olhos e pensamos nos momentos em que o nosso lado mais sensível, mais empático, um lado que simplesmente pensava em mais do que simples sobrevivência, e pensava em “viver” também, e de cara, pensei em muitas coisas que poderiam ser ditas da minha própria Anima.
João: minhas pinturas, meus tempos tranquilos com meus “filhos”, minhas tardes com o Luca, meus encontros com a Elena, minhas meditações e meu conforto. O conforto de apenas desejar a paz, não desejando muito fora do arquipélago doido onde eu vivo.
Elena: hihihi, pra mim, acho que é mais tricotagem, meu amor por crianças, meu amor por animais, minha empatia estando com meus “filhos”, meu amor pelo João, meu amor pela dança, meu amor pelos corais, meu amor pelo teatro…hihi, eu amo muita coisa
João: amar é bom, assim que as pessoas entenderem isso, o mundo se tornará melhor
Elena: ah, mas as pessoas sabem, elas apenas não entendem o que significa
João: é, infelizmente muita gente ficou muito boa em manipular a Anima dentro dos outros, fazendo o Animus ser totalmente destruído…deixando apenas uma alma frágil, fraca, dependente e incapaz de se defender
Elena: agressividade extrema e a submissão extrema, realmente parecem o casal perfeito…(sorri) e você sabe o que acontece quando um Anima e um Animus estão iguais
Joao: haha, isso é impossível, porque as duas energias são mais fracas e mais fortes pra cada pessoa, eu por exemplo, sou um homem, e não importa o que eu faça, meu Animus sempre vai ser maior que minha Anima
Elena: hum, a sua Anima é bem forte
João: não estou negando isso, mas no fim, na hora da verdade será o meu Animus que irá falar primeiro, não minha Anima, dá pra entender?
Elena: é, entendo…então se equilíbrio não é o bastante, qual você acha que deve ser a fórmula certa?
João: hm, acho que não tem uma fórmula fixa
Elena: e por queeeeee:?
A forma que a garota falou aquilo parecia muito que ela já sabia a resposta é só tava perguntando pra ver se eu conseguia chegar na mesma resposta sozinho, e mesmo sendo bem difícil, aceitei o desafio.
Joao: cada pessoa é diferente uma da outra, o que funciona pra manifestar minha anima, dificilmente manifestaria a Anima de outra pessoa, (cruza os braços) as pessoas não podem tentar procurar e buscar uma “fórmula pronta”, elas precisam entender a própria Anima e o próprio Animus para conseguirem o fortalecer e manifestar,.
O rosto da Elena tava cheio de dúvidas, mas conseguia ver que era uma dúvida de “como ele sabia tudo isso?” e vendo como ela já estava se preparando pra complementar o que eu falei, eu estava pronto pra continuar com ainda mais detalhes agora.
João: claro, tem coisas que servem pra todo mundo, como aprender a se impor, e também aprender a dar ordens às pessoas, mas também tem métodos pra cada um aprende essas coisas, não é algo que dá pra aprender num simples copia e cola.
Agora a Elena mudou a duvida pra um olhar totalmente impressionado, mostrando que, seja lá o que eu falei, não deveria ser algo que eu deveria saber agora.
Elena: é a sua primeira vez aqui?
João: é, mas com certeza não a dos meus pais, eles ficaram meses dentro desse tempo, (passa a mão na própria garganta) e considerando a resposta que acabei de dar, eles tiveram resultados
Elena: ha, resultados é pouco, tá dando pra entender certinho porque sua Anima e seu Animus são tão equilibrados
João: é, diferente do meu avô, ele ta tentando o máximo que pode destruir a própria Anima, mas a Anima veste o amor que ele sente como uma armadura, tanto pelo meu pai quanto pra minha avô
Elena: sentimentos podem ser tanto armaduras quanto armas, tenho certeza que o medo que seu bisavô fez com seu avô é um martelo, e um bem pesado por sinal
João: é, eu tenho certeza, mas depois de muitos séculos de batalha e de ataques constantes, parece que o medo do meu avô finalmente tá perdendo pro amor
Elena: não fale como se ele só tivesse ficado bom agora, ele quebrou o ciclo de exigência com seu pai
João: é…eu sei…sabe, eu não sou assim, mas sinto que meu pai tem uma Anima mais forte que um Animus…e de forma irônica, ele é o homem mais másculo que eu conheço, claro, só depois do meu mestre
Elena: eu ja conheci seu Mestre, e convenhamos, é difícil superar aquele cara em masculinidade
João: hehe, pior que é mesmo.
E nós continuamos daquela forma, olhando as vidraças, sentindo uma grande calmaria no grande frio e frescor do lugar, o turno dela já acabou a muito tempo, mas a morena queria ficar mais um pouco ali, pra gente ter essa conversa. E quando quase deu a hora de nos irmos embora, ela perguntou.
Elena: ouvi dizer que você vai treinar no reino do Guaracy pela primeira vez, e to bem feliz por você…não vou mentir, eu gosto muito do reino da Jaci, e um reino bem legal pra treinar, melhorar e meditar, mas eu sinto uma atração bem maior pelo Deus do Sol, ele é bem mais animado.
João: humpf, e por isso muita gente prefere a Deusa Jaci
Elena: sei que vai ser sua primeira vez lá, então só tenta não ficar muito nervoso
João: não precisa se preocupar com isso, amor.
Não tava pronto pra ir embora ainda, mas eu respirei fundo, incorporei em cada resquício de mim a calmaria que estava ali e aproveitei o momento com minha garota.

