Alguns dias depois, agente fez uma festinha pequena lá em casa, apenas pra apresentar o Mateus pra todo mundo, era estranho não ver o vovô e nem a vovó ali, mas sabia que eles estavam nos vendo lá em cima, a festa era bem simples, apenas para que todos conhecessem o Mateus.
Eu não tinha dado muitos detalhes sobre o que tava acontecendo pra ninguém, nem quando eu tava cansado, motivado ou animado. Então quando eu decidi falar em detalhes o que tava acontecendo e apareci com um bebe “do nada” muita gente arregalou os olhos de surpresa, e eu não me culpava eles.
Eu fui o mais cuidadoso possível com o Mateus, deixando que apenas um deles se aproximasse de cada vez, afinal, eu não queria que o pequeno se assustasse com tantos rostos e vozes novas.
O Nilo me disse que ele tinha os meus olhos, a Tainá disse que ele tinha a boca da Elena, e o Luca falou que ele tinha a minha energia, ah, e desses três, quem tava mais certo, eu tinha certeza que era o Luca.
Meus pais estavam bem empolgados em serem avós, meu pai ficou horas ao lado do Mateus contando historinhas de ninar pra ele, o que deixou o pequeno bem animado e feliz, e a minha mãe brincou com bonequinhos pra ele, e mesmo não conhecendo direito minha mãe, o Mateus pareceu gostar muito da vovó dele.
A única pessoa que não apareceu foi o meu tio, mas considerando as coisas que ele passava, eu meio que entendia que ficar perto de um bebe deveria dar a ele muitas lembranças ruins.
Já que tentaram prender ele a um casamento com um bebe muitas vezes, e o pior, nenhuma das vezes o bebe era dele, ai ai, as garotas que meu tio arrumava eram mais doidas que ele quase sempre.
E quando a festa acabou, todo mundo bem devagar foi embora, menos meus pais.
Pai: eu sabia que você tava ocupado, mas não estava esperando isso
João: é tão impressionante assim?
Mãe: sem ofensas filho, mas já estávamos pensando em ter um outro filho, pensando que o nome Casowheart acabaria com você
João: na idade de vocês? Eu acho difícil
Mãe: ai, eu tô velha, mas ainda tenho boa energia
Joao: ah, mãe, por favor, na frente do Mateus não.
Agente riu um pouquinho, até que o meu pai foi até o Mateus, que estava acordado, mas depois do dia cheio que teve, estava bem calmo.
Pai: o seu bisavô veio de uma criação difícil e machucou muito seu avô, seu avô veio de uma criação menos difícil, e com a ajuda da sua avó, ele me deu uma criação mais fácil, e com a minha criação mais fácil, eu criei você…
Eu tava entendendo até agora o que meu pai tava falando, mas no meio dessas falas, ele parou de falar, e começou a ter um olhar que dizia como ele tava revivendo muitas memórias, boas e ruins, tudo enquanto balançava devagar o berço de seu novo neto até ele apagar de vez. É, ele com certeza ainda levava jeito com crianças.
Pai: não faço ideia das dificuldades que essa criança irá passar, ela irá desbravar um mar de dificuldades desconhecido para todas as dificuldades que eu, seu avô e até seu bisavô passaram, então, mesmo com um mar desconhecido na sua frente, tente cuidar bem dele e guiá-lo na melhor forma possível.
Eu conseguia sentir muito bem o peso, o medo e ao mesmo tempo fascínio do desconhecido que o meu pai colocou em cada palavra, pois era a verdade, os problemas que ele e o meu avô passaram, eu nunca deixaria acontecer com o Mateus, mas outros problemas apareceriam, problemas que ninguém da geração antiga tentou sequer pensar, por que tinham problemas bem mais urgentes para resolver na época.
E meio que entendendo a ironia dessas palavras, falei, depois de rir meio sem graça.
João: hehe, serei o primeiro da família a desbravar esse mar desconhecido, espero não pisar muito na bola
Pai: você vai, o primeiro sempre pisa na bola, mas dependendo de como você agir, o seu filho pode te perdoar pelos seus erros, ou te odiar por toda a sua vida…por favor, não cometa esse erro.
O olhar do meu pai tava muito sério naquele momento, como se ele tivesse visto muitos, mas muitos pais que machucaram seus filhos a ponto do ódio os afastar pra sempre dos pais.
João: tá bom, eu prometo.
E com um abraço firme, meu pai me deu uma força, eu comparei na hora com a calmaria, calor e conforto do próprio Guaracy, mas antes de eu ser pego em lembranças nostálgicas, boas e tranquilas, uma tosse vindo da minha mãe chamou a atenção de nós dois.
Mãe: querido, posso falar com o João alguns segundinhos?
Pai: ah, claro querida.
O meu pai pareceu preocupado quando minha mãe falou aquilo, mas não uma preocupação de medo da esposa, era uma preocupação de…que um segredo profundo iria ser dito.
E quando meu pai saiu, deixando apenas eu e o Mateus ali, minha mãe falou.
Mãe: é uma pena, eu queria falar esse assunto com você e a Elena, mas eu sei muito bem o quão difícil é fazer um recém nascido dormir, então serei breve, tente se preparar, daqui a alguns dias, você vai receber uma carta que irá se transformar em um mapa, e esse mapa vai te guiar com cuidado até uma reunião altamente secreta, não é um esquema de sequestro e nem uma enganação, é algo real
João: vão me convidar pra um culto?
Mãe: não é um culto João, mas é importante o bastante pra parecer um culto, me diz, você está comigo? Posso confiar essa participação dessa reunião a voce?
Joao: eu aceitaria melhor se você me contasse sobre o que vai ser essa reunião
Mãe: você vai entender quando a hora chegar, mas eu apenas posso te garantir que não somos nada maligno, nem uma espécie de adoradores de demônios, na verdade, sinto que este arquipélago está bem mais seguro com aquela associação existindo
João: você sabe que todas as organizações malignas falam isso sobre si mesmas, né?
Mãe: é eu sei, por isso vou esperar você e a Elena virem a reunião antes de fazerem qualquer assumpções por qualquer coisa, se quiserem.
Eu estava com um pouco de medo de que eu estivesse entrando na toca de um coelho e não conseguisse sair, mas apesar de todos os meus sentidos dizendo que eu deveria ir com mais calma nessa situação, eu confiava na minha mãe, e ela estava me chamando de João, algo que ela só fazia quando algo ultra mega sério tava acontecendo.
João: beleza, eu vou
Mãe: você não vai se arrepender filho
João: é, eu espero.
O fato dela ter me chamado de “filho” agora, me fez pensar que agora tudo estava melhor, mesmo que eu ainda estivesse com medo de que o pior poderia acontecer a qualquer momento.

