Era engraçado isso, eu lutei tanto, visitei tantos dos meus parentes, fiz tantos amigos, mas depois daquele dia, onde eu fiquei tão perto de fa…de tentar ter um filho com a Elena, do nada, era apenas isso que eu conseguia pensar, é, era como eu pensei, eu tinha guardado muita coisa, principalmente em relação aquela garota, e mesmo assim, eu sentia que precisava encontrar uma ultima pessoa antes de tentar falar com ela de novo.
E com esses pensamentos, acabei indo visitar meu tio junto do Luca. O Sapien parecia mais do que feliz em passar mais um tempinho comigo e com meu tio, e considerando que ele conhecia o “modo responsável” do meu tio, ele tinha motivos pra isso.
João: e ai Luca, tá animado pra gente visitar o meu tio?
Luca: o Luca gosta do Titio
João: espero que ele aceite ver um filme de cachorrinhos com agente
Luca: o Luca não gostam desses filmes, eles fazem o Luca chorar
João: bom, se der vamos ver um que não precisamos chorar.
E com um rosto bem cético, o Luca me abraçou com mais força atrás da minha prancha, e ficou no lugar quando eu levei ele pra mais perto da parte da Alcateia do arquipélago.
Com todos os pensamentos tomando conta da minha cabeça, entrar no território da Alcateia e sentir com tanta força a calmaria e tranquilidade daquele território me deixou mais calmo, e mais confiante sobre o que eu iria falar pro meu tio.
Encontrar a casa do meu tio não foi um problema muito grande, assim que nós chegamos lá, abrimos a porta e…wow, o rosto do meu tio tava com uma marca de garra enorme…era uma marca de alfa, dava pra ver só pela pulsação do ferimento, mesmo dando pra ver como o ferimento era antigo, mas nao queria fechar, eu podia apenas pensar em uma coisa.
João: isso com certeza foi feito por uma alfa genuína
Tio: pois é, já faz quase 4 meses que ela fez isso comigo, mas ainda arde como se ela tivesse feito isso ontem
João: mais algumas semanas e isso vai parar de arder, foi a mesma alfa que você falou pra mim outro dia?
E como se aquilo acordasse memórias traumáticas no meu tio, ele tocou de forma delicada no próprio rosto e falou.
Tio: sim…ela me disse que deixaria essa marca na minha cara pra todo mundo saber que tipo de lobo eu era, e ela disse que não seria tão piedosa na próxima vez
João: você deu sorte, eu já ouvi histórias de fêmeas que arrancaram o…você sabe, do traidor, e de machos que mataram as próprias parceiras ao descobrirem a traição, e considerando que muitos alfas não são famosos pela paciência, você realmente teve sorte
Tio: é, mas você me conhece eu herdei a conversinha mole da sua avo,
João: titio
Tio: calma João, eu aprendi minha lição, nunca mais mexo com alfas, agora, vocês vão entrar ou querem continuar conversando sobre minha vida amorosa aí fora:
João: eu adoraria ficar conversando com você por horas sobre sua vida amorosa, mas nós temos filmes de cãezinhos pra ver
Tio: filmes de cãezinhos? Então preparem seus guardanapos, por que vai vir muita choradeira
João: estamos tentando evitar isso, um filme de cachorros que não seja triste
Tio: tem certeza que não querem que eu faça as pazes com a Alfa que fez isso na minha cara? Acho que vamos ter mais sorte tentando isso
O meu tio arrancou uma risada sincera do Luca falando aquilo enquanto abriu a porta pra gente passar, e assim que entramos, agente procurou de forma intensa e implacável todos os filmes de desenhos existentes, e depois de ver mais de 200 titulos, e tendo certeza que nenhum deles chegaria ate o final do filme, percebi o quão certo meu tio estava com as próprias palavras, que saco.
No fim, quebrei a promessa com o Luca, e nos vimos o filme de cachorrinho menos triste de toda aquela pilha, e mesmo sendo o menos triste, ele ainda era triste o suficiente pra fazer o Luca gritar de lágrimas várias e várias vezes.
O filme em si era bem simples, contava a história de um filhotinho contratado pela polícia, e que ajudou em muitas missões, e depois de ficar com o ferimento na perna, ele conseguiu passar os dias de reabilitação dele com uma amante de cães que era a amiga próxima do policial que era dono do cachorro.
Foi difícil no começo, a dona teve que comprar um gatinho preto pra fazer companhia ao cão, e isso pareceu funcionar, e com muito cuidado, o cãozinho começou a melhorar bastante, e ficar muito mais feliz, e mais velho também.
Eu confesso, a história me tirou lágrimas sinceras, principalmente quando o cãozinho tinha ataques de pânico, com os traumas dele dos dias da policia, e quando a dona o acalmava com carinho, e apenas presença, o antigo dono dele sempre o visitava,para garantir que o cãozinho estava bem, e ele sempre ficava feliz em ver que ele tava realmente melhorando.
No fim, o cãozinho morreu de forma natural, e com a vida totalmente doida que ele teve desde o início do filme, morrer, através daquele procedimento…mesmo sendo difícil, foi melhor do que deixar o cãozinho sofrendo mais, e o pequeno já tinha sofrido muito.
Eu chorei, deixando só as lágrimas caírem, onde é que eu tava com a cabeça? Ver um filme de cãezinhos pra relaxar? Eu já tinha conseguido coisa bem melhor que isso. E enquanto eu chorava de forma discreta, o Luca gritava e chorava, mas considerando o que agente acabou de ver, não o culpava.
Luca: (chora, chora e funga) por que!? Por que esse mundo não tem aura!? Esse amor com certeza é o bastante pra deixar que a magia aparecesse nele
João: ah, Luca, infelizmente, tem tantos mundos por aí que existe muito mais maldade que bondade, mundos onde a aura, o chi e a magia não podem existir, unidos onde a inocência é punível por morte…não importa o quão bondosos alguns humanos são, é necessário que muitos bons existem pra magia existir
Luca: (chora, chora e funga) e essas pessoas boas que existem no meio de toda a maldade e sujeira? Elas que mais precisam da aura, por que elas não tem aura!? Elas não são quem mais precisam desse poder?
João: do que você tá falando Luca, esse mundo tem Aura sim
Luca: (chora) não, não tem, o cachorrinho morreu, você não viu? Se a Aura existisse neste mundo, o cachorrinho teria vivido até a dona ficar velha
João: tem certeza? O cãozinho aguentou viver até os 31 anos.
O Luca ficou calado quando eu falei aquilo, existia uma regra simples que os cães envelhecem 7 vezes mais rápido do que as pessoas, e quando percebeu isso, o Luca ficou um tempo sem falar nada.
João: muitos mundos como o nosso são cheios de bondade, por isso tem uma forma mais simples da magia surgir, mas tem mundos onde a maldade esperneia muito para a magia ser explícita, ela precisa ser de formas mais simples, como a grande vida desse pequeno cachorrinho.
O Luca ficou um bom tempo sem falar depois de ouvir aquilo, olhando pra tela, como se estivesse resolvendo um quebra-cabeça dentro da tela.
Luca: nesse caso, acho que no fim, a bondade sempre irá vencer no final
João: essa é a ideia.
Nós vimos mais 3 filmes de animais, tentando ver pelo menos um que tivesse um final feliz, e olha, o ultimo pelo menos tinha sido bem mais feliz, até o Luca ficar tão feliz que ele pegou no sono no meio do sofá.
Quando meu tio viu aquilo, ele falou.
Tio: vamos acordá-lo?
João: não, eeeeeu, queria conversar com você sobre uma coisa, tio.
Eu não dei detalhes pro meu tio, mas pelo rosto dele, ele pareceu já entender o que eu queria, então ele apenas acenou com a cabeça e me levou pra cozinha, onde tinha uma mesinha.
Tio: então, que tipo de dicas você quer?
Aquela primeira pergunta me fez ter certeza que ele sabia do que eu tava falando, então só falei.
João: qualquer coisa, me ensinando que ser um grande galanteador te deu.
O meu tio fechou os olhos por um bom tempo, e quando ele abriu, vi que o olhar dele tava bem mais sério que o normal.
Tio: você quer uma dica? Vou te dar a melhor dica que um galanteador pode te dar…não tente aprender nada por terceiros, cada garota gosta de uma coisa, as mais superficiais que são “coisa de uma noite” podem ser conquistada com as minhas dicas, mas se tem uma coisa que eu tenho certeza, é que a Elena não é uma “coisa de uma noite”
João: ah, eu posso te garantir isso.
E com um rio cheio de orgulho do sobrinho, meu tio quase levantou, como se tivesse terminado o serviço dele, mas eu tinha segurado o braço dele, deixando bem claro que não tínhamos terminado, não ainda.
João: então o que eu deveria fazer?
Tio: apenas converse com ela, como eu disse, cada garota tem pontos sensíveis diferentes e preferências diferentes…mas se você quer uma dica é…tenta tranquilizá-la quando vocês começarem, a primeira vez sempre vem junto de uma extrema dor, principalmente pras mulheres
João: ela me falou que tem…se preparado emocionalmente
Tio: pfff, já conheci garotas assim, e posso te garantir, nem toda a preparação do mundo vai preparar ela pra isso, vai doer muito, ela vai ficar com medo, achar que tem algo errado com ela, e tentar afastar você, então tenta só ficar calmo e espere pra ela tentar de novo, entendeu
Nossa, ver o tio XXX tão sério assim era algo muito incomum, mas era bem maior do que simples seriedade, ele não parecia mais o “tio divertido” mas ele parecia bem diferente do “tio responsável”.
João: aaaah, sério, como você consegue fazer isso? Você tá sempre curtindo, se divertindo e parecendo o cara mais irresponsável do mundo, e do nada tem esses momentos onde você parece o cara mais responsável do mundo
Tio: é que eu aprendi a muito tempo que as pessoas iriam prestar atenção em mim se meus momentos sérios fossem mais raros
João: você parece tão sábio com essa cicatriz
Tio: jura: ainda bem que ela ta servindo pra alguma coisa além de me causar uma dor ardente e insuportável
João: nossa, você tá bem?
Tio: humpf, já aguentei piores, agora vai acordar seus amigos, vou pegar uns bolinhos que eu fiz de tarde.
Fiquei bem empolgado quando ouvi aquilo, se tem uma coisa que meu tio fazia bem eram bolinhos. Assim que eu cheguei lá, o Luca falou pra mim.
Luca: boa sorte Joãozinho
João: o quanto você ouviu?
Luca: o Luca ouviu tudo, e está torcendo pro Joãozinho
Joao: nao preciso de sorte pra isso, mas obrigado, agora vamos comer os bolinhos do tio XXX
Luca: o Luca já tá indo.
E mais uma vez, nós fomos para a sala, apenas para ver uma mesa cheia de bolinhos com o formato de punhos fechados, apesar da aparência nada amigável dos bolinhos, eles eram absurdamente deliciosos, quando eu mordi um, senti que minha língua estava dançando numa grande rua feita de açúcar, mais feliz do que nunca.
Mas enquanto nós esbanjamos os bolinhos do meu tio, o Luca, do nada, perguntou.
Luca: Joãozinho, você acha que um dia eu vou ter um bebe?
João: você quer um?
Luca: não…o Luca já tá muito ocupado cuidando do próprio Luca
Joao: ta ai sua resposta, você não pode ter algo que você não quer
Luca: e se o Luca quiser?
João: bom, nesse caso você teria mais um motivo para se cuidar melhor, porque eu não acho que você poderia cuidar de uma criança se voce não conseguisse cuidar de você mesmo.
Eu não pensei muito no que eu falei, era apenas o raciocínio lógico, mas de um maneira que eu já estava bem acostumado a ver, o Luca olhou pro “nada” por algum tempo, eu conseguia ver crenças sendo remoldadas, novas metas sendo criadas e perguntas sendo respondidas na cabeça dele, enquanto perguntas novas eram feitas dentro da cabeça dele. Tudo pelo olhar.
Luca: obrigado Joãozinho, o Luca agora sabe o que precisa fazer.

