Cada deus tinha um título diferente, Jaci, a Deusa da Lua por exemplo, era dita como “a guiadora” existiam muitas histórias da Deusa apenas guiando muitos povos presos no escuro através dos tempos, o Deus do Sol, era dito como, “germinador” por ele fazer as colheitas crescerem.
Mas mesmo sabendo disso, eu não fui atrás da Jaci, eu desci bem fundo para o mar vermelho de novo, até eu chegar no templo feito de magma puro da Una…e depois de perguntar um pouco pra alguns vampiros no caminho, descobri que a Una era conhecida como “a deusa dos segredos”...eu não conseguia explicar o porque, mas eu realmente tava precisando de uma deusa que guardava segredos, mas depois do que eu senti naquela vez, algo naquele templo me atraia.
E aquela projeção que a deusa criava, parecia algo muito único e especial pra mim, algo que eu queria muito sentir de novo.
E quando eu senti de novo, meu espírito saindo de meu corpo, mas comigo não sendo jogada pro espaço, e mais uma vez, assim que eu abri os olhos.
Dessa vez eu entendi, ou pelo menos senti ter entendido, eu não tinha subido ou descido para outro lugar, era como se eu tivesse ido para outra dimensão.
E no meio do escuro…decidi não criar um chão dessa vez, por algum motivo, a flutuação, digna de uma dimensão paralela cheia d'água, me deixava estranhamente relaxado.
E no meio de tudo aquilo, o par de olhos brilhantes enormes em meio às trevas, que me faziam parecer uma formiga, não me assustaram, mas pareciam me acolher.
Una: ola criança, o que deseja?
Era engraçado, a voz dela não mudou, mas não parecia mais me assustar.
João: eu não sei…a minha namorada e eu tivemos uma chance de…colocarmos nosso plano em prática, nós ficamos anos planejando isso, mas dessa vez, ela parou
Una: e que plano é esse?
João: agente se ama, agente se ama de formas que é difícil de explicar, mesmo na frente de uma deusa
Una: tá tudo bem, eu sinto cada grama de seu sentimento de espalhando pela minha escuridão, e ela tem um gosto muito bom
João: mas nós não queríamos nos casar…não por querer um relacionamento aberto…mas porque eu não quero que outras pessoas tenham que decidir o quanto que eu amo a Elena, e a Elena não quer porque ela tem medo de igrejas, por algum motivo…então…nós decidimos que teríamos um filho pra mostrar nosso amor a todos os outros
Una: vocês tem certeza? Ter um filho é muita responsabilidade
João: eu sei…por isso demoramos tanto para tentarmos…
Una: eles também são imprevisíveis, não importa o quão preparado você pensa que está, uma criança sempre trará a façanha de escapar das suas previsões
João: se isso acontecer, eu vou improvisar, eu vou pedir ajuda para a Elena, não importa o que eu tenho que fazer, eu não vou desistir dessa criança.
Então, bem devagar, a grande deusa da escuridão se aproximou devagar de mim, e falou.
Una: então por que vocês deixaram pra outra hora?
João: porque ela não queria…não agora…ela tava com medo de finalmente “tentarmos”, e eu não queria obrigar ela
Una: então por que você está aqui, se vocês decidiram tudo certo?
João: eu não sei…eu tava sentindo coisas…que me fizeram querer vir aqui
Una: e o que seria:
Eu tentei ficar calmo, às enquanto eu olhava aqueles gigantescos olhos brancos, eu me virei e olhei ao redor, vendo como…não tinha ninguém ali, ninguém além de nós dois, e esse fato fez com que meu coração ficasse bem mais leve, e que o que eu sentia no meu coração saísse.
João: esse lugar, é seguro?
Una: nao se preocupe, nada consegue entrar ou sair desse lugar sem que eu fique sabendo, você pode falar com sinceridade comigo João
João: (respira fundo) ok, eu to…com medo dela estar me traindo.
Os olhos da Deusa da Escuridão se arregalaram bastante, até parecerem dois grandes sóis no meio da escuridão, mas logo ela voltou novamente a sua forma normal, e me perguntou.
Una: e ela te deu motivos pra acreditar nisso?
João: não, o que me dá mais medo que isso seja realmente verdade, eu já perdi a conta de pessoas que confiaram no próprio parceiro e que ficaram com o coração quebrado em milhares de pedaços assim que apenas um anel de casamento estava pronto pra ser posto no dedo…e existem sinais pra quando uma garota te trai, ela não te dá atenção o suficiente, ela não aceita suas investidas, ela tenta mudar você, ela não gosta de que você fique feliz, ela tenta te afastar de seus amigos…e ela tenta principalmente te deixar dependente dela, te fazer pensar que não existe nada além dela e que você não deve confiar em ninguém…ela é hipócrita, não deixa você sair com os amigos ou a família, mas sai o tempo todo, tá sempre ocupada, nunca te fala nada direito…
Eu continuei falando, e falando, e falando, eu nem tinha percebido quanto medo eu guardei dentro do meu peito até que eu tive alguém para conversar sobre isso, e quando eu terminei, me senti tão leve, que eu senti que estava quase me fundido com as sombras.
E os grandes olhos brilhantes bem na minha frente mudaram de várias formas, eu podia ver como a deusa estava ouvindo atentamente, pensando no que dizer, e até tentando entender algo que eu não expliquei direito.
Era impressionante como um simples par de olhos conseguia ser tão expressivo, mas de alguma forma eles conseguiam, e sem nenhuma palavra, conseguia sentir que eu pelo menos não tava me fundindo com as sombras…por mais que tivesse uma decepção bem grande em mim ao sentir isso.
João: (arfa, arfa) nossa, eu sou uma alma, eu não deveria perder o fôlego assim…nossa, eu quase perdi o fio da meada…bom, eu tenho medo que a Elena esteja me traindo e saindo com outra pessoa…mesmo que ela não tenha nada disso que eu falei, ela é gentil, ama meus amigos, tem o próprio grupinho dela, e ta sempre do meu lado quando faço minhas loucuras…e eu acho que algo dentro de mim, tem medo que essa garota perfeita seja apenas uma máscara, uma máscara que ela tá usando pra me enganar e me descartar como se eu fosse um doce que perdeu o sabor.
A Deusa da Escuridão nem falou nada, só fechou os olhos um momento, me deixando na mais profunda escuridão, e eu não a culpava, depois de tudo que eu falei, até eu mesmo precisa de alguns segundos, apenas pra entender por completo tudo que eu falei.
E por mais que sentisse que, de alguma forma, era errado ficar tão confortável em um lugar naquele, ficar em posição fetal e apenas flutuar pelo que pareceu uma eternidade por tanto tempo, me acalmou tanto, que senta que poderia ir embora sem que a Deusa da Escuridão voltasse.
Mas antes de eu completar esse pensamento, os grandes olhos da Deusa da Escuridão voltaram, com uma fofura e carinho que eu nem sabia que eles conseguiam ter, mas finalmente orfanato para uma forma beeeeeeem acolhedora, a Deusa perguntou.
Una: e você acredita mesmo que ela possa te trair?
João: não…eu poderia facilmente por meu coração dentro de um baú e entregar a ela, esse é o meu nível de confiança nela…mas eu tenho medo que essa confiança acabe me machucando.
E mantendo os olhos doces, mas se afastando um pouco apenas para manter aquele ar doce de antes, a Deusa da Escuridão perguntou, parecendo bem mas uma amiga que eu tava pedindo conselhos, do que a deusa poderosa que nós dois sabíamos que ela era.
Una: criança, desde quando vocês namoram?
João: ah, eu nunca contei, mas nós estamos em mais de 10 anos oficialmente juntos, isso eu tenho certeza
Una: criança, eu apenas posso dizer que é normal ter medo que um relacionamento tão longo acabe sendo apenas uma traição de longa data, mas marque minhas palavras: não importa o quanto de medo você tenha de sua namorada não ser digna de confiança, você ainda está disposto a se machucar muito pra descobrir isso na sorte, então se machuque se precisar, mas se ela realmente estiver te traindo, você acabará descobrindo alguma hora, por que todos os segredos podem ficar dentro de mim, mas uma hora ou outra, eles sempre vão para o Aram. Você tem um medo muito forte, mas seu amor é muito maior que ele, tenha fé, e se sua fé for quebrada, estarei aqui para abrigar suas lágrimas.
Apesar de não estar completamente bem depois daquilo, quando fechei os olhos, entrei de volta na posição de lótus que estava antes, mas antes de sair daquele plano paralelo, ouvi a deusa falando.
Una: e a propósito, não se preocupe de não se unir as minhas sombras, ainda não é sua hora, mesmo que no fim, todos vocês vão vir até mim.
Não sentindo nada além de alívio com essas palavras, abri meus olhos no meio do grande templo de magma de novo, e por alguns segundos, apenas pude olhar pra frente por um tempo, quando me levantei finalmente, continuei olhando pra um ponto específico do teto, sem me mover…porque o que eu tava sentindo naquele momento sequer podia ser nomeado, mas estava me deixando bem melhor…mas mesmo estando bem melhor, enquanto saia do templo devagar, fiquei pensando no que a Deusa da Escuridão disse pra mim.
João: “você tem medo da traição, mas seu amor por ela é muito maior”.
Eu realmente esperava que a Deusa estivesse certa, porque, mesmo depois de tudo que eu conquistei, não sei se iria suportar que a Elena me traísse, por mais impossível que aquele pensamento pudesse ser.
E pensando em todas as coisas que eu falei, coisas que eu guardei tão bem que até eu mesmo tinha me esquecido que ela existia, mais uma vez eu entendi porque os vampiros pareciam tão iluminados, calmos, felizes e saudáveis, mesmo vivendo em um lugar difícil como esse.
João: mal consigo imaginar os problemas que eles passaram antes da Una e do Aram aparecerem pra eles, mas deve ter sido bastante coisa para eles aparecerem de verdade.
Tentando me distrair daquele fato, pensei se eu deveria ir até o meu tio ou ao Nilo…mas depois de pensar mais um pouquinho, decidi visitar meu tio, com o Luca, já fazia um tempo que eu não falava com nenhum dos dois, ainda mais depois daquilo.

