Com o total de quase 100 anos de idade, meu avô Jonathan Casowheart morreu de velhice…e eu nem pude me despedir, assim que recebi a notícia, a Valentina avisou que ele havia morrido deitado com a minha avó…ela falou que a vovó até chegou a explicar que a noite, antes de dormir, ele estava completamente normal, e no outro, ela acordou com ele do lado dela e ele não estava respirando, simples, assim.
Eu fiquei muito abalado quando descobri aquilo, quando meus amigos souberam disso, eles foram me visitar na hora, sabendo muito bem que eu não deveria ficar sozinho por muito tempo, e apesar de não estar deprimido a ponto de me machucar, ainda agradeci muito meus amigos, tanto em voz alta como em pensamentos, pelo que eles fizeram.
E o mais triste foi como, alguns dias depois do corpo do vovô desistir, a vovó pareceu ter desistido também, morrendo pela idade…eles não seriam separados nem pela morte…
E o mais triste, foi que no fundo eu fiquei feliz, lembrando da época em que minha avó foi teimosa, quase obrigando meu avô a deixar ela ficar perto dele, mesmo depois dele ter virado um lobisomem…
Eles tinham ficado 3 anos separados pelo medo dele, e pela teimosia dela, eles voltaram a ficar juntos por quase 2 anos, foi triste que eles ficaram 3 anos separados por medo, mas eu ainda estava feliz que eles ainda tiveram 2 anos de amor para ficarem perto um do outro, hehe.
A cerimônia do funeral foi planejada pelo meu pai, e durante todos os momentos, eu nao o vi chorando nenhuma vez, mas a tristeza dele era uma tristeza silenciosa, como uma tempestade de neve, fria, calma e tão discreta que apenas quem tivesse realmente prestando atenção, poderia entender o que a tempestade significava.
No arquipélago, ao invés de só enterrar os corpos, nós os cremavamos, junto de milhares de flores até eles virarem apenas cinzas e serem carregados na maré.
A cerimônia estava tão linda que quase dava pra esquecer que era um funeral, mas os rostos cheios de lágrimas e tristezas discretas de meus parentes deixavam bem claro que tipo de cerimônia era essa.
Tinham grandes flores roxas por todo o lugar, cadeiras brancas para todos nossos parentes se sentarem, um violinista que tocava uma musiquinha triste, mas que estava exatamente no ponto para a ocasião.
Eu me sentei na minha cadeira, respirei fundo e tentei aguentar ate chegar a minha vez de falar, eu tava com muita coisa entalada no peito, mas eu aguentei, não pensei muito no que aconteceu porque eu queria guardar tudo pro meu discurso, eu não planejei nada porque eu sabia muito bem que teria muito o que falar do meu avô.
Então, nesse meio tempo, eu respirava fundo, tentava colocar minhas ideias em ordem e chorar um pouco pela dor. Eu vi muitos parentes subirem no palco e falarem um pouco do meu avô, meus pais, meus primos, meus outros tios e tias.
Todo mundo tinha algo para falar do vovô e da vovó, alguns conseguiam se contentar e apenas respirar fundo e falar de uma forma tristinha, enquanto outros se desabaram em lágrimas a cada duas palavras.
Até que chegou a minha vez, e enquanto eu ia pro palco, pensava que no fim, eu devia ter uma tristeza parecida com meu pai, uma silenciosa e que no fim iria poder ser transmitida com detalhes e muito cuidado para todos que estavam de luto naquele momento.
Eu não tinha nenhum medo de palco, nem nada do tipo, mas quando andei até o palco, eu fiquei feliz, eufórico e aliviado de que eu estava sentindo uma tristeza descomunal dentro de mim, e naquele momento, ninguém ali iria me repreender pela tristeza.
João: Jonatan e Elisabeth, muitos aqui os conheceram por muitos nomes, mas eu apenas os conhecia como vovô e vovó. Desde bem novo, eu sempre soube que eu era parecido com o meu avô, ele me entendia de formas que o papai não conseguia entender, ele me ouviu, me fez lutar com ele muitas vezes, deixou meus piores lados saírem, apenas para ele os receber de peito aberto, eu sou o homem que sou hoje graças a ele. E por mais egoísta que isso possa parecer, mesmo bem triste, eu ainda to muito, mas muito irritado com ele, porque eu nunca o derrotei em uma luta, e ele teve a ousadia de morrer sem que eu tivesse ganhado dele uma única vez, agora eu nunca vou saber se eu realmente sou mais forte do que ele ou não.
Apesar de todos terem dado uma risadinha sincera quando eu falei aquilo, eu tava realmente com raiva disso, mas quando falei aquilo em voz alta, eu consegui ver o quão engraçado isso deveria parecer pra alguém de fora e dei uma risadinha pequena também, até que eu fiquei triste de nós, eu falei
João: eu sempre pensei que teria mais tempo, pra ficar com ele, pra contar ele sobre meus medos e segredos, pra contar pra ele eu plano de ter um filho, tenho certeza que se eu tivesse contado isso pra ele, o vovô teria aguentado um pouco mais…mas na última vez que eu visitei meu avô, se eu soubesse que seria a última vez que veria ele, eu teria aproveitado mais.
E mais uma vez, isso foi o meu luto falando melhor que qualquer discurso que eu poderia ter feito, e pela tristeza no rosto de todos, junto com o alívio momentâneo no meu peito, então esse improviso foi bom.
João: e a vovó, nós não éramos tão próximos quanto eu e meu avô, mas eu sempre aprendi muito com ela, antes de me encontrar com qualquer deus ou deusa, foi ela que me ensinou como tratar uma mulher, como ser um cavaleiro, as melhores partes dos tempos antigos e nada das partes ruins. Além de que ela sempre foi boa de fazer as pessoas entenderem o que elas precisavam mudar para realmente serem completas e felizes, e não importa o quão teimosas essas pessoas eram, quando elas encontravam a minha avó, eles apenas conseguiam aceitar o quão idiotas eram perto de uma mestre das negociações. Eu sinto que esse legado da língua de prata continuou intacto através da passagem de aprendizado para a minha querida parceira Elena, o que me deixa muito feliz, porque uma língua tão afiada e letal não deveria morrer.
E com mais uma risadinha, e uma saraivada de aplausos, me senti um pouco melhor depois de falar sobre meus avós, e depois de falar mais um pouco sobre como os dois me ajudaram, ajudaram a Elena e milhares de outras coisas, eu desci do palco, finalmente.
Assim que eu desci, meus primos começaram a falar um pouco, eles falaram bem mais do que eu esperava, mais uma vez variando entre discursos que eram muitas vezes interrompidos por lágrimas incontroláveis e outros que discursavam de forma calma e carregada de tristeza, mas que conseguiam transmitir uma tristeza que os primos com choros descontrolados não conseguiam.
Parece que eu fui arrogante mesmo em pensar que eu era o único netinho favorito do meu avô, mas isso me deixava bem feliz também, mostrava como ninguém nunca esqueceu dele.
E depois de que todos tiveram seu momento e fala, o sacerdote do Guaracy apareceu, um funerario para ser mais preciso, ele tinha grandes robes amarelos, um grande chapéu branco e um pergaminho grande, que tinha muitos textos sagrados no meio deles.
Sacerdote: Jonathan Casowheart foi um grande Sapien, ele dedicou grande parte de sua vida em manter monstros longe do território, e ele dedicou toda a sua velhice em cuidar da próxima geração, algo que, pela forma como os filhos e netos aqui presentes carregam tanta tristeza no olhar, ele conseguiu.
Ninguém falou nada, apenas juntou as mãos em oração, concordando com o que o Sacerdote disse.
Sacerdote: e Elisabeth Casowheart também foi uma incrível Sapien, sendo a embaixadora mais respeitada sempre que uma ilha ficava muito audaciosa em seus tratados, e uma senhora respeitada tanto pela família quanto pelos vizinhos, é uma tristeza que uma senhora tão doce morreu tão cedo.
E mais uma vez, ninguém teve nada a acrescentar, apenas concordar com o que o Sacerdote falou.
E com o Sacerdote levantando uma de suas mãos, o incêndio dos dois caixões do vovô e da vovó começou, e enquanto eles lentamente viravam cinzas, o Sacerdote falou.
Sacerdote: oh, grande guaracy, acolha as almas de seus filhos em seu grande calor iluminado, os guie até as próximas vidas que terão, lhes dando novos começos e novas vidas, até eles ficarem fracos e frágeis demais pra reencarnarem e voltarem ao grande abraço da mais profunda Escuridão.
E depois de falar isso, cada um fecha os olhos, e começou a sua própria sessão de orações, mas antes de começar as minhas próprias orações, eu olhei com cuidado para os caixões pegando fogo.
Nós acreditávamos que, na morte, o Guaracy pegava as almas das pessoas mortas e esperava os corpos se decomporem completamente antes de entregar a alma a um novo corpo, porque como a ressuscitação não era algo impossível, até que o corpo fosse desfeito, a alma não poderia ser reencarnada.
Cremar o corpo, era como libertar a alma, dar a ela a chance de recomeçar de novo, em um novo lugar, em uma nova vida. Eu acreditava que “deixar ir” era bem diferente de “esquecer”, mas por enquanto, tentei apenas lidar com a tristeza no meu peito, tentando não abrir um berreiro na frente de todo mundo.
Eu conversei um pouco com meus pais e com meu tio, e com meus varios parentes que, no fim, eu não era próximo o bastante pra ter uma conversa longa, até que numa conversa com meu tio, eu quebrei.
João: é que, eu me sinto tão culpado sabe
Tio: culpado pelo que?
João: de não ter passado mais tempo com ele, é que…o vovô sempre pareceu tão durão, não importa como eu o via, ou o que ele fazia, ele sempre parecia pronto para aguentar o que der e vier…e ver que alguém assim se foi só…com a idade, realmente faz agente entender o quanto ninguém pode vencer o tempo, não importa quantas rera você quebre
Tio: (tosse) tem uma raça que conseguiu
João: os anjos não contam, e você sabe disso
Tio: é, eu sei.
Anjos eram reais, eles apenas eram muito bons em se esconder entre as outras raças, então nunca dava pra saber onde eles estavam, eles “na teoria” eram a única raça que realmente venceu o tempo, textos antigos dos vampiros até diziam “os anjos foram os primeiros e eles também serão os últimos” aqueles que verão o fim do mundo, digamos assim, mas antes de eu sequer ter a chance de pensar muito nos anjos, meu tio chamou minha atenção.
Tio: mas realmente, de todas as coisas, nunca pensei que meu pai morreria por idade
João: eu deveria ter passado mais tempo com ele, você acha que ele pensou que eu odiava ele? Por não ter passado os momentos finais perto dele:
Tio: humpf, duvido
João: sério?
Tio: se tem uma coisa que eu tenho certeza, é que seu avô sabia que estava morrendo, e que ele só tava aguentando um pouco mais, ele ligou pra você alguns dias antes de morrer?
João: não
Tio: isso porque ele sabia que não precisava, vocês sempre se entenderam bem, ele não precisava passar mais tempo com você. Ele decidiu passar os momentos finais com a vovó, porque ele sabia o quanto ele não ficou perto o suficiente dela, ele te amava João, te amava tanto que ele sabia que você ficaria bem, mesmo não passando os momentos finais com ele, você deve ter milhares de lembranças boas sobre ele, não to certo?
E tendo minha mente invadida por centenas, e até milhares de pensamentos bons, eu falei pro meu tio.
João: é, obrigado titio, acho que já tô me sentindo melhor
Tio: me fala, você ainda vai lutar?
João: vou, se bem que nao sei se vou participar do torneio daqui a alguns dias, não parece certo com a morte do meu avô, sabe
Tio: você deveria ir
João: tem certeza?
Tio: se sua avó pudesse falar do além vida, tenho certeza que ele diria pra você ir, por que ele estava te olhando através das nuvens com os anjos.
Fiquei sem palavras com o que meu tio disse, e fiquei mais sem palavras ainda vendo como ele parecia tão sério naquela hora, e como se fosse um monge em meio a vários discípulos perdidos, discípulos esses que eram meus primos.
Meus pais chegaram logo atrás de mim, não tentei impedir eles e nem nada do tipo, mas ainda me senti bem mais calmo quando meu pai colocou a mão no meu ombro pra me confortar.
João: eu não entendo o titio
Pai: eu vivi a minha vida toda com seu tio e ainda to tentando entender ele.
E me sentindo um pouco melhor, conversei um pouco mais com meus parentes, depois fui pra casa, e quando fui até lá, recebi muitas ligações dos meus amigos, o Luca e o Nilo foram os mais insistentes, só pra terem certeza que eu tava realmente bem e que eu nao tava fingindo.
Depois de alguns dias que eu quase não senti direito passando, chegou o dia do meu torneio, e bem quando eu estava me preparando pra sair, ouvi alguém batendo na minha porta.
João: ta aberta.
Alguns segundos depois, alguém entrou, era a Elena.
Elena: oi querido
João: oi querida
Elena: você realmente…quer ir pro torneio?
João: sim, eu quero
Elena: você não precisa ir se nao quiser, você ficou bom o bastante pra ficar sem lutar por muito tempo
João: é…mas o meu tio falou que o vovô deve estar me vendo no céu…e mesmo que eu não descubra nunca se eu realmente fiquei mais forte que ele, ainda quero dar um bom show pro meu vovó no além vida, da pra entender?
E com um sorriso que contava mais coisas que qualquer palavras poderiam nos falar, ela falou.
Elena: eu entendo muito melhor do que você imagina.
E com um abraço, ela me deu uma força que eu penso já ter, não sabia o quanto do que estava sentindo era saudável, mas eu sentia agora como mesmo triste…
João: …cada batalha que eu entrar será em homenagem ao meu avô
Elena: mesmo sem ser uma batalha, tenho certeza que seu avô está feliz em ouvir isso
João: assim eu espero.
Depois disso me levantei, e peguei minhas coisas pra ir pro torneio.
João: te vejo na arquibancada:
Elena: sim, vai lá agora, tem umas coisas que eu preciso ver primeiro.
E com nós dois saindo da minha casa, eu senti uma grande quantidade de poder fluindo em mim, eu não iria perder, não tinha permissão disso.

