Se tem uma coisa que eu senti falta de fazer quando criança foi visitar o grande aviário do meu pai, aquele era um dos, senão “O” lugar mais lindo que eu já vi, não por ser o mais mágico ou mais detalhado, mas com o tipo de vida que emanava daquele lugar.
Meu pai era o maior criador de gaviões reais de todo o arquipélago, ele cuidava e vendia com muito cuidado um dos maiores e mais belos animais que já existiram no mundo.
E como eu tinha o cheiro dele, os gaviões sempre ficavam bem amigáveis quando eu vinha visitá-los, como sempre, assim que eu cheguei no aviário, muitos gaviões mais novos voaram até mim e me derrubaram no chão.
Eu sempre ficava impressionado como eles conseguiam fazer carinho no meu rosto sem que aqueles bicos arrancadores de olhos me machucassem, eles com certeza eram bem mais inteligentes do que pareciam, e eles já pareciam bem inteligentes.
Pai: vamos filho, os filhotes vão nascer.
Aquela fala me fez levantar na mesma hora e com cuidado tirei todos os gaviões da minha frente, ver passarinhos nascendo sempre era algo mágico, sempre que eu tinha tempo, meu pai sempre me levava pra ver um nascimento, e era sempre lindo ver um, e desde que eu tinha ficado mais educado desde a primeira vez que eu vi ovo chocando, meu pai não parou de fazer isso comigo.
A “incubadora” como meu pai gostava de se referir, era onde os gaviões reais pais ficavam, alguns bebês órfãos, que foram resgatados e levados pro meu pai, eram colocados em uma caixinha de calor especial, a entrada naquela sala era absurdamente restrita, porque animais que estão defendendo seus filhotes são um milhão de vezes mais perigosos do que os normais, com exceção do meu pai, e e 2 ou 3 funcionários, ninguém tinha permissão entrar aqui, pra garantir a segurança dos animais e dos funcionários.
João: então, qual deles nós vamos ver?
Pai: ah, eu agrupei eles bem aqui, olha.
E assim como o meu pai falou, 10 casais de gaviões olhavam pra seus ninhos, vendo pequenos barulhinhos em seus ovos, eu olhei com empolgação, mesmo que os passarinhos apenas bateram de dentro dos ovos por algum tempinho, e depois pararam, claro, eles acabaram de nascer, não podiam já ter força a essa altura. E enquanto esperávamos os ovinhos nascerem, perguntei ao meu pai.
João: pai, eeeeeu, fui planejado?
Pai: aaaahn, não
João: jura? E eu fui…um problema pra vocês?
Pai: ah, na verdade filho, eu quis dizer, sim e nao, voce foi planejado, mas não tanto
João: como assim?
Pai: pra mim e pra sua mãe, nao fazia diferença ter filhos, agente só não quis ter antes da hora…nós tínhamos apenas certeza que “o que acontecer aconteceu”, tomamos todo o cuidado do mundo, e quando a hora chegou…quando o teste deu positivo…agente se encheu de alegria…sabendo que uma pequena maquininha de problemas estava chegando, e que nós iríamos cuidar dela, até que ela pudesse entrar em mundos que nem eu e sua mãe podíamos imaginar.
Fiquei um bom tempo em silêncio por ouvir tudo aquilo, e tentando me distrair, coloquei de novo meu foco nos ovinhos, um dos ovos já ganhou força o bastante pra abrir um buraco na casca do ovo, mas ainda não conseguia sair, o citadino tava usando uma força que ele nem sabia porque tinha, apenas um pouco mais, só mais um pouco e ele teria oficialmente nascido, ele estaria livre. Mas no meio de toda a sua tarefa, decidi falar.
João: e vocês já pensaram em ter mais um?
Pai: ummmm, não
João: jura:
Pai: é, seria muito difícil pra nós, é claro que você sempre escondeu de mim, mas você sempre deixou bem claro pra sua mãe o quanto você queria ser pai, por mais que agente ainda cuidaria de outro filho, decidimos que seria melhor investir em sermos avós, mesmo que demorasse, já que você é tão paranoico e cuidadoso quanto nos
João: vou encarar isso como um elogio
Pai: e claro que foi um elogio filhão.
E com meu pai me dando um aperto só com um braço, nós vimos o passarinho tentando sair do ovo de novo, e depois de rachar, quebrar uma saída, e entender que não tinha escolha, que ele teria que se esforçar e escapar do próprio ovo como primeira lição dessa nova vida, o passarinho quebrou sua casca de ovo, se libertando, e ele era tão..tão…feio.
Bom, era normal também, ele era como quase todo filhote era quando nascia, enrugado, mole, magrinho e muito fraco, sem uma única pena ao redor dele…mas mesmo ele sendo bem diferente do que eu pensei na minha infância, achei uma beleza incrível quando o passarinho caiu no chão, cansado tendo que se esforçar tanto logo assim que nasceu. Mas quando olhei com mais cuidado pro passarinho, não pude me controlar e comecei a dar umas risadinhas.
João: hehe, lembra do que eu falei na primeira vez que vi um passarinho?
Pai: ha, você pensou que ele era uma espécie de monstro que devorou o ovo verdadeiro e colocou um falso no lugar
João: ah, mas não me culpa tanto, eu só tinha 8 anos quando eu vi um passarinho nascendo pela primeira vez, e eu tinha visto aquela reportagem dos pássaros cuco, eu tava paranoico
Pai: justo…quer voltar aqui depois?
João: pode apostar que sim.
Eu olhei mais alguns segundinhos para os passarinhos, e depois fui embora, não queria atrapalhar os pais depois que eles viam o filhinho pela primeira vez.
Daqui uns 4 dias depois, eu voltei lá só pra ver os passarinhos, e eles já estavam com a aparência mais comum de filhotes, bonitinhos, fofinhos e cheios de penas de filhotes.
Mesmo com a confiança dos gaviões reais, eles ainda olhavam pra mim com muito cuidado, esperando pra me atacar assim que eu fizesse algo errado com o filhote, algo que fiz questão de não fazer, prestando total atenção em minhas mãos. E vendo aquilo, meu Pai até brincou.
Pai: não fica tão surpreso, amigo ou não, eles ainda precisam proteger o filho
João: será que eu vou sentir isso quando for a minha vez?
E com um sorriso orgulhoso no rosto, meu pai me deu um soquinho no ombro e falou.
Pai: eu tenho certeza que você vai sentir bem mais do que pensa, sabe, de todos os filhotes que eu já criei, você é o filhote que eu mais tenho orgulho, nem os gavioes mais poderosos e lendarios que eu ja criei se comparam ao que eu sinto quando penso em você
João: …
Pai: filho?
João: isso é tão clichê…mas é clichê por um motivo.
Eu não sabia porque, mas de repente, meu peito ficou bem pesado, não um peso de culpa ou dor…ou busca por validação…mas por algum motivo, uma mistura de alívio, felicidade e tristeza. Com cada uma vindo de lugares que eu sequer podia imaginar sua origem, se misturaram em meu peito, fazendo ele ficar tão pesado que eu apenas me virei e abracei bem forte o meu pai, enquanto duas lágrimas gêmeas desceram no meu rosto, mas apenas duas, por motivos que eu não sabia e nem queria entender.
E mesmo confuso, meu abraço foi recebido sem nenhum problema pelo meu pai, que apenas fez carinho em minhas costas…
Pai: é, não é por ser clichê que é ruim
João: eu ainda sou um filhote pra você?
Pai: você sempre será um filhote pra mim, e pra sua mãe também, os maiores pais da natureza são assim.
E me sentindo bem mais feliz que qualquer outra coisa, eu continuei fazendo carinho no meu pai, até que ele falou.
Pai: ah, e alguns dos ovos da incubadora chocaram, quer dar uma olhada neles?
João: CHOCARAM, E POR QUE NÃO ME DISSE LOGO!? VAMBORA!
E puxando o meu pai com muita força, fui ver os passarinhos, hmhm, e olha só, alguns passarinhos sem penas já estavam ali, já bem fracos, a vida deles mal começou, mas eles já tinham que lutar tanto por ela.
João: espero que algum dos pássaros sem ovos possam adotá-los
Pai: eles sempre adotam, mas vou admitir, sempre me dá uma insegurança, pensando que qualquer hora um deles pode ser rejeitado por todos
João: e isso já aconteceu alguma vez?
Pai: uma vez…aquele dia foi estranho.
Nossa, “estranho” era o mínimo para descrever essa situação, existiam quase 300 pássaros diferentes naquele aviário, e isso sem contar os pássaros especiais, e pensar que um passarinho foi rejeitado por todos eles, era no mínimo, estranho.
João: e o que aconteceu com ele?
Pai: eu cuidei dele sozinho por uma semana, e então, do mais completo nada, um vampiro Xamã apareceu, ele disse que queria o filhote que eu tava cuidando, ele foi tão específico sobre o filhote que eu tenho certeza que a Deusa da Lua o enviou.
Ah, a deusa da lua, a quanto tempo eu não ouvia esse título.
João: faz sentido, afinal, a Jacy está em uito mais lugares do que as pessoas pensam…e como está o passarinho agora?
Pai: ele cresceu, e virou grande gaviao, um gavião que faz até meus gaviões especiais ficarem com medo, não muito diferente do que aconteceu com você.
Sorrindo, eu abracei meu pai uma última vez, e depois sai, pensando apenas na deusa da lua…e como os vampiros não conseguiam ver o ceu por viverem no mar vermelho, nos pontos mais profundos da terra, eles chamavam a Deusa da Lua pôr um nome bem mais sinistro, ao mesmo tempo belo, e ao mesmo tempo, verdadeiro, e antes de chegar na porta, olhei pra trás e perguntei ao meu pai.
João: o nome da Jaci no reino dos vampiros, você o conhece não é?
Pai: é claro que eu conheço
João: hmhmhm, Una, a Deusa da Escuridão.
Eu sempre achava estranho como de todas as raças e todos os arquipélagos, apenas os vampiros tinham tanto destaque dos deuses, o Guaracy, assim como a Jacy, também tinha um nome e um título diferente, ele se chamava, nas profundezas do mar vermelho de Aram, o deus da luz.
Os vampiros sempre foram bem mais ligados aos deuses do que as outras raças, e por isso, talvez apenas por isso, que eles conseguiram sobreviver naquele ambiente infernal que era o mar vermelho, mas eu nao ia pensar eles, não agora, eu tinha algo bem mais importante do que pensar nesses vampiros doidos.

