Desempacotar e arrumar todas as caixas que eu tinha demorou bem mais tempo do que eu pensei, mesmo com meus pais indo me ver pra me ajudar a arrumar, também foi difícil aprender como usar o redemoinho de roupas(lava roupas) o forno foi mais fácil de aprender, mas também, minha mãe sempre fez questão de me ensinar sobre cozinhar, então era mais fácil.
E depois de todo aquele trabalho, eu tava pensando que, além de não ver meus pais, tinha mais uma coisa que eu não tava fazendo direito, e quando eu pensei nisso, pensei que poderia matar dois pássaros com uma pedra só.
Pegando meus materiais, eu andei pra casa dos meus pais, e quando atendi a porta, meu pai já começou a me zoar.
Pai: ue? Já desistiu?
João: não papai, eu só vim aqui passar um tempo com a mamãe, (bate na própria barriga) me empresta ela um pouco?
Pai: claro, claro, ela tá lá no meu quarto.
E falando aquilo, passei pela casa, era engraçado pensar que, mesmo que eu tivesse me mudado, e levado só umas coisas que meus pais me ajudaram a escolher pra comprar, a casa dos meus pais tava igualzinha, os mesmos móveis, as mesmas pinturas, a única coisa que tinha mudado era a porta do meu quarto, porque antes ela tinha uma plaquinha com meu nome, mas eu tinha levado aquilo comigo tambem…eu não tava pronto pra ver o quarto que eu passei minha vida toda até alguns meses atrás vazio, então fui direto pro quarto dos meus pais e bati na porta.
João: mãe, oi? Posso entrar?
Mãe: ah, claro filho, entra, entra.
Quando entrei, vi que a minha mãe tava vendo umas fotos antigas, e vendo aquilo, pensei que poderia deixar meu plano de pintar enquanto ficava com ela, de lado, se ela quisesse outros planos. Eu me aproximei devagar, mas antes de eu falar qualquer coisa, minha mãe começou a rir.
Mãe: hahahaha, cara, eu era tão invocada quando era criança
João: é sério mãe?
E quando olhei com mais cuidado pras fotos da minha mãe, vi que eram fotos da infância dela, não minhas…e olha, as fotos eram sinistras, eram fotos da minha mãe quebrando carroças, chutando pessoas no mar e até uma onde ela tava com uma tatuagem de caveira imensa no rosto dando um dedo no meio pra camera.
João: eu mal consigo imaginar metade do contexto dessas fotos
Mãe: elas podem ser resumidas em “tudo estava e e tranquilo, ate que infelizmente, mamãe ficou entediada”
João: por exemplo?
Então, como se tivesse apenas me mostrando algo normal, e não algo que tava alterando ainda mais a visão que eu tinha dela, minha mãe apontou pra uma foto e falou.
Mãe: essa aqui foi num dia em que eu pensei, “espera, e se eu soltasse milhares de vacas no meio da rua”, então eu invadi uma fazenda, soltei as vacas e as cabras, e soltei elas pela cidade, hehe, eu lembro que eu subi em cima de uma vaca e liderei elas pela cidade por horas antes de me pegarem
João: e, alguém morreu?
Mãe: ah não, eu nunca consegui matar ninguém
Não sei porquê, mas aquela simples frase de “nunca consegui” parecia bem mais profunda do que ela deixava transparecer, mas ainda não entendia totalmente como.
João: e essa é uma das suas aventuras leves ou uma das pesadas?
Mãe: ah, foi uma das medianas…
Ela falou aquilo enquanto ela apontou para uma foto, agora era uma foto dela rindo enquanto um prédio atrás dela tava pegando fogo.
Mãe: na minha defesa, isso era pra ser uma pegadinha inofensiva, eu só queria assustar meus colegas fazendo parecer que eu tava tentando…bom, invocar alguma coisa, mas as vezes que eu separei pra pegadinha cairam no chão, e quando os professores perceberam o que eu fiz as chamas já tinham tomado conta do lugar
João: pode contar como leve se não foi intencional?
E com um sorriso calminho, a minha mãe apontou pra uma foto de vários garotos correndo dela, enquanto ela segurava uma cobra na mão.
Mãe: eu também gostava de oportuna garotas mostrando cobras pra elas, pff, as garotas eram só muito fraquinhas, essa aqui nem é venenosa
João: mas ela ainda assusta crianças mãe
Mãe: você teria medo?
João: não, mas é porque eu sou o seu filho
Mãe: o que uma coisa tem a ver com a outra?
E com um sorriso tranquilo, e com uma coisa que eu tava em duvida a muito tempo, mas que só agora eu sabia o quão certo eu realmente tava, eu falei.
João: eu sempre me questionei de onde vinha tanta raiva, por que eu nasci tão invocado, por que eu sempre tinha mais “energia” do que os outros…quando eu era criança, pensei apenas que eram os genes do voo, que pulou uma geração no papai, mas pelo jeito eu herdei de você.
E com um cafuné na cabeça, minha mãe me enrolou em um abraço, e me puxou pra bem perto, perguntando.
Mãe: jura: voce herdou isso de mim: entao tenta adivinhar, como eu consegui ficar tao calma assim:
não me diga que o Joãozinho finalmente encontrou alguém pra acalma-lo
João: bom, mesmo não tendo nenhuma prova concreta, é fácil de pensar o motivo. Foi o papai, não é? ele te acalmou, ou melhor, te “concertou”.
Eu nao falei aquilo com desprezo e zombaria pra minha mãe, era por que eu realmente tava na duvida desse arquétipo que existiam tanto em histórias de romance, o “i can fix him”, que sempre que eu via, eu sempre ficava na dúvida se alguém realmente poderia mudar tanto assim por alguém.
Eu vi minha mãe dar o sorriso mais gentil que eu já vi ela fazendo e dando a resposta mais impressionante do que qualquer outra que eu estava esperando.
Mãe: não, seu pai nunca me consertou…mas por algum motivo, eu comecei a ficar mais calma quando eu tava perto dele, ele era um dos únicos que realmente entendia as minhas brincadeiras, ele não tinha medo das minhas cobras, e ele também me mostrou onde eu podia…passar meus momentos de tédio, ao invés dos meus pais que apenas diziam pra eu aceitar meu tédio e seguir em frente
João: aaaah, o papai era incrível desde criança então
Mãe: é, ele só precisava de mais confiança, porque força ele já tinha, ele amava, na verdade, ele ainda ama carregar coisas pra mim, e por algum motivo, eu amo quando ele faz isso
João: é um lance de vocês, não precisa fazer sentido.
E com um sorriso bem tranquilo, ela me abraçou bem forte, e depois falou.
Mãe: me fala a verdade filho, você só saiu de casa pra ficar sozinho com a Elena, na é?
João: não vou mentir, parcialmente foi isso, mas também tem pelo fato de que…eu queria aprender a me virar, se sabe, viver sozinho, antes de dividir minha vida com alguém.
E num abraço que nenhum de nós dois queria soltar, minha mãe falou.
Mãe: saber viver por conta própria é bem importante…
Então ela continuou fazendo um carinho bem preguiçoso nas minhas costas, um carinho que me fazia sentir dormindo em um grande campo de flores iluminado pelo sol, o quanto eu senti falta daquele campo de flores.
Mãe: por que o maior pecado que alguém pode cometer, é viver como um parasita, totalmente dependente de alguém
João: por favor, me fala que você só falou isso no sentido de adultos
Mãe: sim, os adultos…
E com um carinho bem tranquilo nas minhas costas, agente ficou ali, só…sentindo o carinho um do outro, respirando, e no meio das lembranças do passado, e o carinho do presente, perguntei…
João: você tem…alguma foto com o papai? Tipo, quando vocês eram crianças.
E como se tivesse percebido o que ela tava fazendo, ela desfez um pouquinho o abraço e começou a folhear as páginas de novo, e muitas das fotos pareciam mesmo muitas variações da mamãe realmente “tava tudo bem, até que infelizmente a mamãe ficou entediada”, seja ela jogando tortas em palhaços de circo, tomando sorvete dentro de uma academia só pra irritar os bodybuilders, ou ela só cortando pipas no ar…
Até que chegou numa foto onde ela teve que fazer um trabalho de ciências com um garotinho, um garotinho de cabelos escuros, um rosto tímido e óculos redondos que escondiam seus olhos.
João: hum, o papai era exatamente igual como eu esperava que ele fosse
Mãe: todo mundo que vê as fotos de infância do seu pai fala isso, todo mundo.
Bom, depois daquilo, muitas fotos mostraram um pouco da história de amor dos dois, como a mamãe deu um bolo caseiro pro papai, pra ela não ficar em dívida com ele por ele ter feito a maior parte do trabalho.
Mas depois do bolo eles ficaram muito amigos, e assim como a mamãe falou, ele levou a mamãe pra muitos lugares onde ela podia quebrar coisas sem ser repreendida por isso, o que no fim deixou a mamãe bem mais calma, e ele era um dos poucos que não corria quando a mamãe mostrava uma das cobras, não venenosas, dela pra ele.
Mãe: e sempre amei muito cobras, e o fato que seu pai não tinha medo delas deve ter me deixado mais calma perto dele
João: foi muito mais do que isso, mas tudo bem.
E quanto mais fotos eu via, eu percebi que minha mãe foi mudando um pouco, o rosto todo duro dela ficou mais suave, ela começou a usar roupas mais leves, e até começou a sorrir bem mais.
Mãe: não foi seu pai que me mudou, eu quis mudar…ele me contou muitas coisas sobre o seu avô, como ele sempre quis o melhor pra ele e o quanto ele tava se esforçando…então…eu pensei que deveria tentar um pouco também, sabe, me esforçar…pra ser uma pessoa melhor
João: e só o fato que eu estou aqui, já mostra que você conseguiu
Mãe: é, mas não totalmente, eu preciso de mais tempo
Joao: Nós temos bastante tempo, não precisa se preocupar muito com isso.
E com um aperto forte na mão, minha mãe me abraçou de novo, e sem perguntas pra interromper o momento de novo, agente continuou abraçado por um bom tempo, até que eu dormi por completo…e quando abri os olhos, vi que eu tinha acordado na cama, hmhm, pelo jeito foi só eu quem dormiu.
Depois de aprender tanta coisa doida sobre a minha mãe, eu só respirei fundo, pensando que tipo de coisa doida meu pai faria amanhã, não pensando nem um pouco em trazer minhas pinturas, já entendendo que eu teria muito que falar com ele pra conseguir realmente pintar.

