Dentro do meu sonho, as lembranças daquele dia eram tao vividas, que eu tinha medo de esquecer que aquilo era um sonho, percebi que tava até vendo tudo em primeira pessoa, é, aquele sonho iria ser longo.
Eu fiquei muito animado e amedrontado pro que iria acontecer que eu quase não dormi no dia antes da cerimônia, minha mãe teve que jogar um feitiço de sono de verdade em mim pra eu não virar a noite de desespero.
Mas o dia seguinte não foi nem um momento fácil pra mim, segundos se tornaram minutos, minutos se tornaram horas, horas se tornaram dias…e o pior, foi que eu só precisei esperar por 8 horas pra dar a hora do meu teste, mas na minha cabeça, séculos inteiros tinham se passado só pra eu chegar na ultima, mas penosa e mais sinistra faixa de se conseguir. Sem contar os Dans
Eu tinha visto muitos exames de faixa pretas, apenas pra me preparar, mas quando fui fazer o teste, já estava preparado pra fugir na primeira oportunidade, mas talvez o mais doido foi como eu pensava que a ansiedade não era tão ruim assim, minha ansiedade e espírito de sobrevivência, junto da adrenalina seriam o que me manteriam no jogo quando meu corpo começasse a falhar, cansar e implorar por misericórdia, algo que, não importa o quanto eu treinasse, ele era muito bom em fazer.
E depois de chegar lá na hora certa, eu já senti o peso do meu teste, eu já tinha ido pra muitos dojos pra fazer muitos exames, mas para o exame da preta, da última, eu senti muito de uma vez só o próprio ar do ambiente parecia pesado, meu corpo, por puro stress, parecia não querer se mover, e minha ansiedade entrou no topo de todo meu corpo, como se todo aquele dojo tivesse virado uma zona de perigo pra mim.
Mas eu ainda gostei daquilo, pensando que, se usasse da forma certa, essa ansiedade me guiaria para a direção certa.
De repente tudo pareceu pesado demais, era como se todo o peso de todas as faixas que eu consegui até aquele momento tivessem se acumulado nas minhas costas se tentassem me esmagar…mas eu resisti, se eu fosse cair, seria no meio do teste, não antes.
Mas mesmo falando aquilo, assim que me coloquei na guarda, eu ainda sentia aquele peso a mais, o olhar mais afiado do juiz, os primeiros movimentos, que de repente, pareciam errados, mesmo eu fazendo eles de forma perfeita. E as flexões, que pareciam tão pesadas quanto as flexões, do nada, começaram a parecer as que eu fazia quando estava treinando com o guaracy.
E naquele ponto que eu agradeci a minha ansiedade, porque foi graças a ela que meu corpo se manteve funcionando, mesmo quando ele começou a falhar e se encher de dor, tudo já estava no lugar, então eu não precisava mais pensar, eu só precisava obedecer o juiz e aguentar, e isso eu conseguia fazer de olhos fechados.
No começo, meu exame teve tudo que teve nos meus antigos exames, só que bem mais do que antes, eles me pediram pra fazer várias sequências de mãos, várias sequências de pernas, e várias sequências de mãos e pernas, e sempre que eu fiz uma delas, eu tinha que fazer 1000 flexões, 1000 agachamentos e 1000 abdominais, individualmente.
Depois eu tive que pular uma corda que tinha uma corda tão dolorosa que eu podia sangrar se eu fosse atingido diretamente por aquilo, e depois fiz mais 1000 flexões, abdominais e agachamentos.
E depois de tudo aquilo, ainda tive que fazer manoplas, 10 sequências de mão, 10 de perna, 10 de mão e perna, usando todos os socos e chutes com toda a minha força, meu corpo já estava queimando com toda a força do mundo, um calor que apenas um treino constante e forte poderia causar, e, de novo, tive que fazer mais de 1000 flexões, 1000 abdominais e 1000 agachamentos, para cada sequência que eu terminava.
E bem devagar, minha ansiedade começou a diminuir me deixando bem cansado, mas eu ainda continuei, não usando mais nada além da pura determinação.
Depois disso tudo, eu ainda tive que fazer corrida, tive que fazer uma corrida de 30 quilômetros junto com todos os outros aspirantes a faixas pretas, como eu.
E foi naquela corrida que eu percebi o quanto eu estava realmente preparado, eu treinei a minha vida toda para aquele momento, e mesmo assim, eu já tava bem cansado, dolorido e desgastado sem nem chegar na fase final, porque depois daquela corrida, eu tinha um ultimo este.
Depois da corrida, com meu corpo cansado, com sede e implorando por misericórdia, eu ainda tinha que lutar contra um faixa preta, alongado, aquecido, descansado e com o corpo perfeito pra lutar comigo com toda a força comigo.
Mas ainda tinha uma força que me mantinha no lugar, uma força que fazia meu coração bater 1 milhão de vezes mais rápido, ignorar a dor do cansaço, ignorar qualquer coisa que impedisse que eu cumprisse um único objetivo, “sobreviver”.
Ainda me considerava um novato nisso, mas depois de esforço e muita dedicação, eu aprendi uma forma de manipular minha adrenalina, a fazendo ficar mais forte ou muito mais fraca, apenas dependendo da minha necessidade, só que dessa vez, a manipulação não precisou ser grande.
Com o meu teste final bem na minha frente, eu apenas precisei pensar um pouquinho nisso, e meu corpo já entrou no modo sobrevivência, como se eu estivesse enfrentando meu avô de novo, e fechando meus olhos, me preparei pra etapa final.
O faixa preta que foi colocado contra mim não podia ser mais irônico, ele era conhecido como “mestre tanque”, porque ele era enorme, redondo, e tinha socos que se comparavam a tiros, o título de faixa preta já era muito perigoso, mas tudo no faixa preta que me deram me dizia que eles queriam que eu falhasse, bom, se eles queriam isso, iam ter que lutar bastante pra conseguir.
Eu lembro muito bem do desespero que eu tive em meio a batalha, quando nem a minha adrenalina foi o bastante pra me manter em guarda após receber uma quantidade considerável de golpes do “mestre tanque”, quando tentei forçar meu corpo a se colocar em guarda e ele não me obedecendo.
Meu rosto pareceu se tornar um analisador preciso, porque ao invés de medo ou tontura, cada golpe que eu recebia me fazia sentir, a quantidade de treino, dor e dedicação que ele gastou apenas pra deixar aquele soco tão letal. Um soco forte o bastante pra arrancar o protetor de boca de mim, mais de uma vez. E só depois de sentir tudo isso que eu sentia a dor física. Mas não foi nesse pensamento que eu senti que eu perdi a cabeça de vez, não não não, eu percebi isso depois de um pensamento mais tarde.
A única coisa que me fez sair vivo daquela batalha foi que aquilo não era uma batalha por nocautes, era uma batalha de pontos, eu lutei contra o faixa preta com a melhor técnica que eu tinha, aguentei o máximo de golpes que eu consegui e raciocinei na melhor maneira que eu pude.
Isso porque, mesmo que enfrentar um mestre faixa preta fosse desesperador de milhares de formas diferentes, ainda era bem menos desesperador que enfrentar meu avô.
E a cada golpe que eu recebi no rosto, mais certeza eu tinha que eu perdi a cabeça, porque apesar da dor absurda e quase desmaio que quase cada golpe daqueles me dava, tudo que pude pensar era: é mais fraco. Meu rosto inchava, sangrava e minha cabeça se embalava em cada golpe, e mesmo assim, eu só conseguia pensar que aquele soco era muito mais fraco que o do meu avô.
Eu simplesmente não consigo aceitar que eu estava bem, ou que minha cabeça estava boa e normal depois de sentir isso, se bem que eu tava lutando contra um mestre que ainda era bem mais forte que eu, então eu podia questionar o que faria com minha sanidade uma outra hora.
“Ele é mais fraco, mais frágil, mais lento, e principalmente, menos assustador que meu alvo, ele é um muro difícil de subir, mas não impossível, não é coisa da minha cabeça, eu posso realmente o afetar”.
Esse pensamento dominou minha mente, porque mesmo que eles fossem ainda bem mais fortes que eu, os golpes que ele me dava doíam de forma que eu tinha me acostumado a muito tempo, eu não piscava mais ao receber um soco na cara, nem curvar meu corpo quando minhas costelas eram trincadas.
Eu ainda tava morrendo de medo, mas aquilo era bom, o medo iria me levar pros lugares certos, e me impedir de fazer coisas idiotas, como ir pra cima dele, quando eu definitivamente precisava de alguns segundos para respirar.
E a minha técnica nem tinha o que falar, com todos os torneios que eu fui, da técnica de combate que eu fiz era feita de forma perfeita com grande naturalidade, e mesmo quando eu atingia ele em cheio, até mesmo o mestre tanque sentia a força do meu golpe, mesmo que não adiantasse muito porque eu sentia bem mais o golpe dele do que ele o meu.
No fim, mesmo com todos os problemas e dificuldades, eu apenas percebi quando os 3 rounds com o faixa preta acabaram quando anunciaram que tinha acabado, isso era o quanto eu fui engolido por aquela luta, e ainda assim, quando tudo acabou, e minha adrenalina diminuiu, senti tintim por tintim o cansaço, machucados e dor em todo aquele momento.
Eu quase tive que ser carregado, mas consegui me arrastar pra uma cadeira e fiquei ali, sentado, respirando e me recuperando o máximo que dava.
No meio da minha recuperação, o pessoal chegou, mas eles conseguiram ver que eu tava mal e esperaram eu me recuperar um pouco.
Alguém me deu um copo de água, e outro jogou um balde de água na minha cara, não sabia quem fez qualquer um dos dois, mas agradeci a ambos, e depois que recuperei fôlego o bastante pra olhar pra frente, vi que a Elena, a Tainá, o Nilo, os meus pais e os pais dos irmãos estavam lá. O Luca só apareceu algum tempo depois, porque ele odiava o barulho. Todos estavam ali para ver se eu conseguiria ou não.
Eles estavam bem animados, como se só tivessem esperando todos falarem que eu tava aprovado, nenhum deles tinha uma única dúvida que eu iria conseguir, mas tendo sido reprovado naquele exame duas vezes, eu fiquei um pouco cético que na terceira vez eu iria conseguir.
Mas ninguém ali, ninguém que continuava me chamando de “Campeão” pensava por um segundo que eu não ia conseguir, e mesmo com meu ceticismo, aquele clima da minha família já melhorou bastante meu astral.
Mas pelo jeito eu fui cético até agora pra nada, porque pelo jeito o 3 é o meu número da sorte. Nós estávamos conversando de forma normal, ate que vimos o meu mestre se aproximando, com um rosto iluminado e sorridente, carregando uma faixa preta.
Ele tinha feito isso em todas as outras faixas, e foi apenas quando ele não tinha feito os outros exames que soubemos que eu reprovei. E todo mundo, ao perceber isso, por um grande respeito ao meu Mestre, abriam caminho para deixá-lo me entregar a faixa preta, como se fosse um santo graal, ou uma tocha, que agora estava em minhas mãos para passar adiante.
A faixa ainda estava selada em embalagens, ela era novinha em folha, e por mais que tivessem milhares de faixas pretas pelo mundo, aquela se tornou ultra especial pra mim, porque era a minha faixa preta, e ninguém podia tocá-la além de mim ou outro faixa preta, e mais ninguém.
Eu lembro que eu chorei de emoção quando recebi a faixa, meu pai me pegou pela cintura e me levantou no ar, enquanto girava “O MEU FILHO VIROU UM FAIXA PRETA”, e todo mundo ficou tão doido quanto eu mesmo pensava que deveriam.
Enquanto a Tainá apenas me olhava em um cantinho, sabendo que eu entregaria minha faixa marrom pra ela depois de ganhar a preta, mas mesmo com tudo aquilo, toda a cena parecia tão surreal na minha cabeça que eu tava com medo de ser um sonho e eu acordar,
E mesmo não acordando desse sonho maravilhoso, ainda demorou muito pra acreditar no que tinha realmente conseguido, nem quando nós fomos para a pizzaria pra comemorar…eu me lembrava de mim mimando a Taina um pouquinho na festa, da Elena flertando o tempo todo, do Nilo competindo comigo pra ver quem comia mais (resultado, meu pai ganhou), recebi muitos tapinhas nas costas do meu pai, cafunés da minha mãe, e quando contei pros meus avos o que eu consegui, eles chegaram até a fazer um bolo pra comemorar.
Haha, quanto mais tempo eu passava dentro daquelas lembranças, menos o tempo parecia importar, porque bem devagar parecia que minhas lembranças e sonhos estavam se misturando, fazendo eu misturar vários dias felizes depois de virar um faixa preta, seja indo visitar o dojo e dar umas dias no treino pra todo mundo, seja recebendo o respeito dos dragões por ter chegado naquela faixa, ou sendo permitido de ir para um templo especial e diferente do reino vampiro por ser mostrado que eu aguentava ficar lá.
Além de descobrir que os vampiros conheciam uma forma bem mais pura e forte da Deusa da Lua
E quanto mais lembranças como essas passavam na minha cabeça, eu apenas consegui pensar, “espera, porque eu pensei que essas lembranças eram um pesadelo mesmo?” Mas eu não consegui uma resposta, porque no momento que eu comecei a pensar nisso, eu acordei.
O meu quarto ainda tava muito “seco” pra ser chamado realmente de meu, no meu quarto, apenas meu armário e minha cama estavam prontos…mas eu podia deixar isso pra depois, hoje eu estaria bem cheio, iria para um torneio de dragões, e assim como eu almejei desde que eu peguei essa faixa, eu tentaria chegar no topo, no último torneio eu ganhei um segundo lugar, e dessa vez eu tentaria o ouro.
João: (respira fundo, e solta) que ótima maneira de começar o dia, agora é só torcer pra minha força bastar dessa vez.

