A Elena sempre foi uma daquelas que eu gostava de passar meus momentos de calmaria e descanso, mas tinha mais alguém que eu fazia isso, alguém que apenas agora estava testando os limites de sua liberdade, e eu tava bem empolgado pra ver como ele estava.
Eu voei com minha prancha por um bom tempo no meio do grande arquipélago pra achar a ilha-cidade dele, mas como sempre, chegar na ilha e na casa dele já era molezinha pra mim.
Quando cheguei lá e bati na porta e quem atendeu, pra minha surpresa, foi o Nilo, e assim que ele me viu, ele gritou e me deu um abraço. Ha, por essa eu não esperava.
Nilo: AAAAAAH, NÃO ACREDITO, NÃO ACREDITO, NÃO ACREDITO.
Ele tava me apertando muito forte, já tava achando que eu ia desmaiar de falta de ar, mas antes de chegar nesse extremo, o Luca apareceu na sala e me salvou.
LUca: MANO, SOLTA O JOÃOZINHO, VOCÊ VAI MATÁ-LO
Nilo: ah, ta legal, ta legal, desculpa o entusiasmo.
E com um cuidado que não fazia jus a brutalidade que ele me abraçou apenas a alguns segundos atrás, ele me deu um soquinho no peito e perguntou.
Nilo: e ai Campeão, como ta esse lance de viver sozinho?
João: humpf, (dá de ombros) difícil dizer, eu ainda nem desfiz minhas malas direito
Luca: mano, da licença.
O Nilo pareceu incomodado com o irmão, mas então o Luca mostrou uma mesa cheia de tabuleiros, e pra começar, o tabuleiro de damas estava disposto no lugar.
Luca: o Joãozinho veio brincar com o Luca e não com você
Nilo: ah, desculpa, eu não sabia que ele era seu, maninho
Luca: o Joãozinho não é meu, mas foi ele que me chamou pra brincar, ele quer brincar comigo, não conversar com você
Nilo: aaaaah, ótimo ponto, ok, divirta-se.
E emburrado, o Nilo voltou a ver o programa que ele tava vendo na pintura, mas no caminho, vi como ele também tava feliz de conseguir falar com o irmão daquele jeito, não importa o quanto ele tentasse parecer irritado.
E eu meio que entendia o Nilo, ficar tanto tempo evitando brigas com o irmão por medo dele ter um ataque de stress, e então de repente ele tava bom o bastante pra ter uma “briga de irmãos” saudável, apesar do conflito de sentimentos do Nilo, tenho certeza que o sentimento final devia ser a felicidade
Bom, era verdade, fui eu que chamei o Luca pra brincar, e tudo que eu queria conversar com ele, eu facilmente podia fazer isso enquanto conversávamos.
O jogo de damas não tinha um mistério muito grande, ele era simples, as peças podiam ir apenas a lugares específicos no tabuleiros, e exatamente por isso eu tinha que ter cuidado, porque se eu não tomasse cuidado, aquele singular do gigante feliz iria comer todas as minhas peças antes que eu percebesse…mas apesar de eu querer muito vencer, depois dos 3 primeiros movimentos, logo depois perguntei pra ele.
João: então, como tem ido com o ramo de pintor?
Luca: pergunta pro mano depois, ele ta vendo um desenho que o Luca fez
João: ah, claro claro, eu pergunto pra ele depois.
Eu continuei jogando um pouco mais, demorei um pouquinho pra entender o que o Luca disse, e 5 movimentos depois, (onde eu sentia que estava sendo encurralado) a ficha finalmente caiu, e eu me levantei de forma bruta, eu apenas não gritei porque eu ia assustar muito o Luca se eu fizesse isso.
João: (tosse) desculpa, o que?
Luca: o Luca fez muitos desenhos, falou com muitas pessoas, e pediu ajuda pra mamãe muitas vezes, e agora o desenho do Luca ta passando na tv
Nilo: é um desenho ótimo, a propósito.
Tentei ficar calmo depois de saber tudo aquilo, mas foi difícil, ficar calmo depois de saber que ele não me contou nada disso já foi difícil, mas ver cada vez mais como o Luca me encurralava no meio do jogo de damas quase fez eu ter um ataque, mas eu ainda tentei o máximo possível me manter calmo, tranquilo e coerente.
João: isso é…incrível, a quanto tempo ele tá rolando?
Luca: tem uns dois dias, mas o Luca ta tentando as coisas com os adultos tem um mes ja
João: nossa, porque não me contou?
Luca: o Luca não queria te dar falsas esperanças
João: entendo, acho que eu não aguentaria se eu soubesse a notícia só pra saber que você falhou.
E com um olhar que entendia bem o que eu queria dizer conseguindo ficar bem mais calmo do que eu mesmo acreditei, até que eu perdi 8 peças de uma vez só, ficando apenas com uma no tabuleiro.
Eu olhei o tabuleiro por alguns segundos, apenas olhando as pessoas por alguns segundos, até que eu respirei fundo, e entreguei o jogo, não tentando continuar e então começamos outra partida.
João: estratégia, sorte, eu não ganho de você em nada
Luca: o Luca também tem aprendido bem sobre si mesmo, não é culpa do Joãozinho
João: é meio doido pensar que ja se passaram 4 anos né?
Nilo: é, o papai nunca iria acreditar que alguns anos ele mal sabia que eu existia.
4 anos, já haviam se passado 4 anos desde que o Nilo conversou com os pais sobre ter a própria vida e que o Luca deveria ter mais um passe de confiança, resultado? O Luca realmente melhorou, muito, tava longe de morar sozinho, mas ele já tava pronto pra tentar algumas coisas, como fazer a própria comida (mesmo que fossem só comidas que o deixasse longe de facas), ficar sozinho por algum tempo, varrer a casa, tava sendo bem devagar, mas ele tava aprendendo.
E o Nilo, haha, o garoto virou um grande filhinho de papai, o que era irônico já que ele já era um adulto, um adulto que era um grande jogador de futebol, as Araras Áridas, que eram o time dele, se tornaram jogadores absurdamente conhecidos, eu ouvi dizer que eles ate começaram a usar “jogadas de Aura” e eu tava bem empolgado pra ver algo assim.
E o Pai dos irmãos se tornou um dos maiores fãs das Araras, ele nunca perdia nenhum jogo, e ele tinha até uma plaquinha que dizia “arrasa número 4” que era o número da camisa do Nilo e o loiro nunca a trocou.
A relação dos dois mudou muito em 4 anos, pra melhor, o Nilo sempre gostava de dizer quando nós estávamos juntos “eu me sinto o filho dele de novo” e mesmo que o pai dos irmãos não me contasse essas coisas por não sermos tão íntimos, ele com certeza sentia a mesma coisa
João: então, como é ter a mãe só pra você?
Luca: na verdade, não mudou muita coisa, o Luca sempre soube que a mamãe gostava mais de ficar com o Luca que o papai
João: não fala assim, seu pai te ama também
Luca: o Luca sabe, mas não tanto quanto ama o Nilo…
O Luca pareceu um pouco chateado depois de falar aquilo, mas ele disfarçou a tristeza com a surpresa de ver a minha defesa de damas, pegando 7 das peças dele e quase deixando o tabuleiro todo meu, mas eu ainda precisava entender melhor o tabuleiro.
Luca: …o Luca já roubou o amor do mano por muito tempo, e o Luca tá feliz em devolver o papai pro mano
Nilo: AH LUCA, QUER PARAR DE FALAR ASSIM!?
O Nilo estava tranquilo vendo o desenho, até que ele se levantou no meio do sofá, assustando nós dois, mas além da raiva, tinha tristeza, muita tristeza na voz dele, o que fez agente não ficar muito preocupado com o Nilo.
Nilo: você não pediu pra nascer assim, (respira fundo) e nem pediu que fosse longo e demorado te deixar melhor, mas sabe o que você pediu? Que a mamãe e o papai prestassem atenção em mim…
O rosto do Nilo então fiou sem nenhum grau de tristeza, apenas uma melancolia que era densa demais pra ter lágrimas, mas que pesava ainda mais do que se ele apenas tivesse chorando.
Nilo: Luca, eu nunca vou entender o que você pensou quando tava finalmente consciente…mas a sua primeira ação foi tentar me ajudar, então eu sei que…mesmo que você tenha ficado com o amor da mamãe e do papai, você sempre se importou muito comigo, mesmo quando voce tava com problemas, e me deu muito amor, então nos ficamos quites por um tempo, então relaxa que ta tranquilo, ta bom?
E bastante emocionado com o que ouviu, o Luca mexeu suas peças de damas, deixando um caminho livre pra eu vencer o jogo, mas na mesma hora, o Luca falou.
Luca: o Luca sabe…(choraminga), o luca sabe
João: é sério? você pode conversar com ele, mas eu não posso?
Luca: o Luca é ciumento, você devia saber disso
João: eu sei, mas você falou tanto sobre deixar um caminho pro seu irmão, e na primeira oportunidade você faz isso
Luca: o Luca é egoísta, você sabe disso… você prometeu conversar com o Luca, não culpa o Luca de ficar mal
João: unhu, nesse caso…AI NILO, O QUE VOCÊ QUERIA ME FALAR AQUELA HORA?
Nilo: da casa nova, tá tão incrível quanto parece?
João: é, mas ainda é meio solitário sabe, é difícil viver sozinho
Nilo: mas e a Elena? Achei que você iam morar juntos
João: bom, eu quero deixar o lugar arrumado primeiro, e eu quero aprender a morar sozinho antes de ficar com ela
Nilo: você se sente solitário, mas quer aprender a ser solitário antes de dividir sua vida com alguém? Parece quase um trava-língua
João: quando você fala desse jeito parece algo doido mesmo, mas vai por mim mano, é algo bem mais simples de você sentir na pele do que explicar pra alguém.
O Nilo então me olhou por bastante tempo, nós dois tínhamos história o suficiente para ele me levar a sério mesmo que eu dissesse algo absurdo como “ai, o sol é quadrado” ele ainda acreditaria em mim, mesmo se eu falasse isso. Mesmo que eu sentisse que aquela vibe de “pai e filho” que agente tinha acabou sumindo, e por mais que me deixasse triste, fiquei feliz em voltar a ser apenas o amigo dele de novo, hehe.
Luca: e aí Joãozinho, que jogo voce quer jogar agora:
Joao: podemos jogar o “general” de novo?
Luca: CLARO, O LUCA AMA AQUELE TAMBÉM.
O jogo de general parecia uma evolução do xadrez, tanto que o tabuleiro era um terreno que tinha que ser posto no chão, que tinha vários relevos, nós tínhamos exércitos inteiros, e como o próprio jogo dizia: os jogadores eram os generais das suas pecinhas.
Os pais do Luca encontraram esse jogo doido, pensando que ele iria amar, e eles estavam mais certos do que nunca, eles só não esperassem que o Luca ia ficar tão obcecado no jogo, assim como eu, aquele jogo era tão doido que eu poderia jogá-lo com ele por horas e não me cansar.
O jogo até tinha um pequeno dispositivo em cima dele que fazia um barulhinho sempre que a vez de um jogador acabava e o outro que tinha que se mover, claro que se a regra realmente fosse seguida só ia depender da confiança que um jogador tinha no outro, mas como eu sempre jogava com o Luca e o vencer e perder dependia da partida, queria acreditar que ele era confiável.
Joao: haha, é sério Luca, eu ainda fico impressionado que você aprendeu todas as regras dessa coisa, apenas aprender os nomes das peças parece um pesadelo, olha só isso, capitao, capitao grande, embaixador, infiltrado, arqueiro, soldado raso, cavaleiro de bigas, cavalaria, e cada um tem as próprias formas de se mover no tabuleiro, como que você consegue cuidar de tudo isso?
Luca: assim como o Luca conseguiu ficar no boxe por tanto tempo, por que o Luca ama muito esse tabuleiro.
Assim que ele falou isso, parei de organizar meu pequeno exército uns minutinhos, até que eu falei.
João: e você conseguiu chegar na faixa verde…mesmo que você tenha parado nela por 3 anos
Luca: o Luca ficou muito ocupado com os desenhos pra conseguir a preta que nem o Joãozinho, o Luca ama a luta, mas não tanto quanto o Joãozinho.
“E não amo tanto quanto o Joãozinho”...por mais que eu tivesse tentado não levar isso pra minha cabeça, não consegui…eu passei por tanta coisa, literalmente tanta coisa mesmo, apenas pra conseguir aquela faixa preta, eu ainda me perguntei como eu sobrevivi a tudo aquilo…hehe, bom, essa era uma prova mais que concreta que eu realmente amava o meu trabalho, porque pra aguentar o exame de faixa preta, nada além de puro amor poderia me fazer sobreviver.
Eu tentei não pensar muito naquilo, porque senão eu teria pesadelos com as lembranças daquele dia, mas foi em vão, eu fiquei pensando tanto naquilo que eu fiquei sem lembranças do resto da visita, em um minuto eu tava jogando com o Luca, e no outro, eu tava em cima da minha prancha de novo, voltando pra casa.
Ganhei um pouco mais de consciência e noção de tempo quando voltei pra casa, mas eu ainda tava bem tonto com as lembranças daquele dia, ela estava tão profunda na minha cabeça, e como um incêndio, assim que aquele dia sequer foi mencionado, não conseguiu mais sair da minha cabeça.
Eu poderia ter falado com alguém pra me acalmar, seja meu pai ou minha mãe, eles com certeza encontrariam uma forma de me fazer esquecer aquele dia maluco, mas eles não estavam ali, e não tinha ninguém pra eu conversar.
Com a minha mente cheia de pensamentos traumáticos daquele dia, eu tomei banho, comi, e depois fui dormir, sabendo bem o que aconteceria em meu mundo nos sonhos, respirei fundo e fechei os olhos, já esperando o pior.
Estava mais cansado do que pensei, pois assim que fechei os olhos, minha mente traumatizada me levou de volta para aquele dia, o dia em que eu me senti mais perto da morte do que em qualquer outro momento da minha vida.

