Mas antes de eu desmaiar, algo ainda conseguiu me manter acordado mais alguns segundinhos.
???: impressionante garoto, nem lembro da ultima vez que eu vi uma luta tao animada nesse lugar, agora, descanse.
E mesmo com os olhos fechados, o tom autoritário, firme, e de certa forma gentil que eu ouvi foi algo que reconheci na hora quem me segurou: Valentina, a alfa da ilha do meu avô, aquela que havia mordido meu avô e salvado a vida dele, e com uma autoridade maior e bem mais gentil, ela se levantou e falou.
Valentina: levem o senhor Antônio para o centro curandeiro, com respeito e com muito cuidado.
Dois lobisomens vieram até mim, me colocaram numa maca, e me tiraram dali, e com o pouco de energia que eu consegui, eu olhei para o vovô, e ele parecia absurdamente orgulhosos de mim, ele tava com os braços cruzados e com um sorriso que já dizia bastante o quanto ele se divertiu naquele briga.
Eu fechei os olhos, depois de brigar tanto com meu sono, senti que ficaria tudo bem, mesmo se eu dormisse agora.
XXX
Quando abri os olhos, estava na enfermaria, eu esperava estar coberto de bandagens e com partes do corpo doloridas, mas não, quando olhei minhas mãos, vi que elas estavam inteiras toquei meu rosto e vi que a pele que meu avô arrancou estava la de volta, eu tava inteirinho, quem me visse agora, mal poderia imaginar o que eu fiz alguns minutos atrás.
João: nossa, sabia que curandeiros eram bons, mas sentir esse poder todo de cura ainda é impressionante
Vovô: é o normal, esses caras são especialistas em curar lutadores pesados, em uma das minhas seções aqui eu já vi eles remendarem um cara que foi partido ao meio como se nada tivesse acontecido.
Eu olhei pra direção da voz e vi o meu avô, agora em uma cadeira de rodas, bem mais envelhecido, e com a aparência de alguém que perdeu 50 anos de vida apenas pela batalha que agente teve…mas aquilo não importou nada pra mim, assim que vi o vovô ali, eu apenas pensei em falar…
João: eu sempre soube que você tava pegando leve comigo, mas não pensei que pegou leve com a mamãe quando ela pediu a mão do papai
Vovô: eu precisei, sua mãe era durona desde aquela época, mas ela não iria encostar em mim se eu usasse aquele poder todo nela, nem mesmo hoje eu acho que sua mãe aguenta tanto do meu poder assim
João: então eu to mais forte que a minha mãe?
Vovô: só quando aprender a fazer aquelas coisas de forma consciente e não instintiva
João: ah, claro...entendi.
A alegria com a ideia de estar mais forte que meus pais me deixou bem feliz e animado, mas tinha algo além daquilo que me deixava bem mais empolgado pra quando eu voltasse pra casa.
O vovô continuou falando por mais um tempinho, mas eu não tava mais ouvindo, só fiquei olhando pra minha mão por muito tempo, eu poderia ter perdido aquela luta, a vitória nunca esteve no meu alcance…mas enquanto olhava pra minha mão…
João: …sinto que ganhei algo bem mais precioso que uma vitória
Vovô: bom pra você, você é um netinho malvado por fazer um idoso se exercitar tanto de uma vez
João: você ainda parece muito bem pra um idoso, tenho certeza que em alguns dias você vai jogar essa cadeira de rodas no lixo
Vovô: ah, pode ter certeza disso
João: ok, mas, me fala a verdade vovô, você é o mais forte daqui?
Vovô: ah, nao, eu to longe de ser o mais forte, Campeão, eu nao consigo nem passar da Valentina, ta bom que ela é um das 10 alfas principais do arquipélago, mas ainda assim dá pra entender melhor o poder levando ela em consideração
João: o quão forte ela é?
E como se eu tivesse feito uma pergunta particular demais, meu avô chegou bem perto de mim, e falou.
Vovô: olhe nos meus olhos, Campeão.
Eu olhei bem fundo dos olhos do meu avô, e o que eu vi, me deixou chocado.
João: amarelo
Vovô: é, eu não sei o que é preciso pra esses olhos amarelos ficarem vermelhos, eu só tenho certeza de uma coisa, é algo fora do normal, sinistro e absurdo a ponto de que faz com que tudo que nós fizemos na arena parecer brincadeira de criança…não é piada dizer que esses alfas não são mais humanos, então Campeão, se você realmente quer proteger a família, você vai ter que ficar mais forte, forte a ponto de que eu seja apenas um idoso doidinho pra você
João: acho que esse futuro não está muito longe, vovô
Vovô: é assim que se fala.
E depois de falarmos aquilo, eu apertei com força a mão do vovô, fazendo uma promessa silenciosa, daquelas que nenhuma palavra conseguia descrever de forma superficial, a promessa de ficar mais forte.
Eu já tinha feito aquela promessa muitas vezes com o meu avô, mas cada vez que eu a fazia, eu a sentia se fortalecendo, como uma chama que ficava cada vez maior sempre que ela era reacendida.
O mundo de dor, violência e adrenalina que era o mundo das lutas me espancava diariamente, testando o tempo todo pra ver se eu tinha a força e coragem pra revidar, e mesmo que doesse e fosse absurdamente difícil, eu iria mostrar como eu podia aguentar muito.
Diferente do meu avô, que assim que ele voltou pra casa, ele foi muito repreendido pela vovó, que estava irritada com milhares de formas com o vovô…e nao importa quantas vezes eu visse aquilo, eu sempre me impressionava como a vovó era um das poucas que conseguiu fazer o vovô ficar desse jeito…
Vovô: EU VI TUDO A TELEVISÃO, VOCÊ TEM MIOJO NO LUGAR DO CÉREBRO!? VOCÊ TAVA TENTANDO MATAR SEU NETO!?
Vovô: desculpa querida
Vovó: DESCULPAS!? DESCULPAS!? ERA ISSO QUE VOCÊ IA DIZER AO BENJAMIM QUANDO O JOÃO VOLTASSE PRA ELE NUM SACO PRETO!?
Vovô: ele também não se conteve
Vovó: ELE É UMA CRIANÇA JONATHAN, VOCÊ É UM ADULTO, ELE NÃO PRECISA SE CONTROLAR, VOCÊ SIM, O LOBO DENTRO DE VOCÊ COMEU SEU CÉREBRO!? POR QUE É ISSO QUE TÁ PARECENDO!
O vovô tentou de todas as formas possíveis conversar com a vovó, mas ela não queria ouvir, ela tava com tanto medo de me perder depois do que agente fez que ela tava gritando com o vovô mais por puro desespero do que raiva, depois de gritar mais um pouco, a vovó provavelmente iria se acalmar e iria desabar em lágrimas em cima do vovô, isso pelo menos era o que eu esperava, e pelo visto o vovô também.
Vovó: (funga) eu não entendo, por que vocês fazem essas coisas:
Vovô: porque ele consegue.
Já chegando bem perto do ponto de choro, o vovô esperou, pra ver se a vovó iria falar algo, e depois de ver que não, ele falou.
Vovô: eu amo meu neto, ele é doidinho que nem eu, e ele consegue aguentar minha força, tudo que eu fiz com o João é porque ele se esforçou muito pra conseguir aguentar, eu pensei que seria um insulto não usar toda minha força quando meu netinho se esforçou tanto.
A vovó ficou um bom tempo sem falar nada, ela ainda tava recheada de raiva pelo perigo que agente passou, mas enquanto ela apertava bem forte as próprias mãos, depois de gritar tanto, ela acabou suavizando o próprio aperto, junto do rosto, fazendo um rosto mais triste e cansado agora.
Vovó: serio, um dia voces vao me matar do coraçao
Vovô: aí eu pediria pra Valentina te morder e então seríamos dois lobinhos felizes
E abraçando meu avô, bem mais alegre, mesmo que um pouco abalada, a vovó falou.
Vovó: ela ia ter que ser rápida
Vovô: a mais rápida de todas.
Eu gostava de ver meus avos flertando, eu achava muito maneiro que mesmo depois de velhos eles conseguiam manter uma tranquilidade e alegria no relacionamento dessa forma.
Mas no fim, fui pego por uma espiral de pensamentos da minha cabeça, então não reparei muito no flerte, minha consciência bem devagar foi levada a um fato que, quanto mais pensava nele, mais ele fazia sentido e mais incrível parecia.
Em todo o momento naquela batalha, o vovô não estava usando a máscara do “vovô legal”, a alegria que ele demonstrou quando lutou comigo, cada ato violento daquela batalha, era o verdadeiro ele ali, sem nenhuma máscara ou fingimento.
O vovô falou que eu “aguentava” a força dele, e por isso ele lutava comigo, mas pra mim, ia bem além de aguentar, essa letalidade do vovô era algo que eu admirava e queria ter algo igual, ou pelo menos parecido, já que sei que ele passou por coisas que eu jamais poderia imitar.
Eu não estava “aguentando” a violência do meu avô, estava aprendendo ela, aprendendo como deixar tanta selvageria sair de uma vez só, mesmo que pensasse também como isso era algo bem difícil de se fazer sozinho.
E enquanto meus pensamentos iam mais além, pensei como meu pai me ensinou sobre minhas emoções, e quem eu deveria realmente mostrar elas, além de me ensinar o que era “obedecer” de verdade, como a minha mãe me ensinou o poder do carinho, um poder que eu ainda sentia estar bem distante de dominar. E além do vovô, também tinha a vovó, que era a pessoa mais inteligente que eu já conheci, quanto mais pensava em tudo que eu aprendi, pensei também em como eu faria de tudo pra manter todos ali bem.
João: cara, eu amo minha família
Vovô e vovó: nós também amamos você.
E com um abraço triplo, meus avós me encheram de carinho, e no meio de tanto amor, prometi mais uma vez que eu ficaria mais forte pra proteger aquela grande família feliz.

