Eu cheguei em casa e na hora expliquei tudo pro meu pai, e estando 0% surpreso com o que eu falei, o meu pai só aceitou.
João: serio que você não se importa?
Pai: João, como eu sempre gosto de te dizer, você é um adulto agora, você precisa passar mais tempo com seus amigos, ao invés de apenas se importar em passar tempo com seu velho caduco
João: você não é velho e nem caduco
Pai: ainda.
Apesar de respeitar bastante meu pai, eu não conseguia levar o que ele falou a sério, mas logo comecei a me aprontar, e me aprontei para ir ver o show da Elena daqui a alguns dias.
O Show da Elena iria ser à noite, na semana que vem, e apenas pensando que a minha namorada iria pra um grande show de artes me deixou bem mais empolgado do que qualquer outra coisa.
Eu participei de outros torneios, e como eu pensava, assim que perceberam o quão forte eu estava, os patrocinadores começaram a arranjar lutas bem mais sinistras pra mim, mas nada que eu não pudesse aguentar no devido tempo.
Mesmo se, na pior das hipóteses, eu quebrasse minha perna, eu conseguia aguentar, apenas pra conseguir ir ao show, mesmo que eu pensasse que eu não iria chegar naquele extremo.
Vivendo no automático por alguns dias, não ligando muito pro que falavam pra mim e o que acontecia à minha volta, demorei pouco tempo pra chegar no grande teatro onde a Elena iria participar. A peça se chamava “o grande banquete dos dragões”.
E eu senti que aquele show seria bom. Mas assim que me sentei me senti um pouco nervoso, sentindo que era a primeira vez que..ela estava naquele lado do palco, eu sempre fiquei sentado em meio a multidões, com ela sempre do meu lado, mas agora, ela era o Show.
E com as melodias angelicais de arpas, trombetas e tecladinhos, as cortinas se abriram, revelando a primeira cena, revelando um lugar lindo, cheio de nuvens brancas, casinhas que não eram diferentes de monges, e uma tranquilidade que me dava a sensação de ter viajado direto para o mar branco.
E isso tudo antes mesmo dos anjinhos entrarem, logo depois, um conjunto de 10 dançarinos e dançarinas entrou no palco, brincando se divertindo, enquanto 5 dançarinos maiores, dançavam em grandes postos de observação, olhando tudo como se fossem vigias.
Eles continuaram dançando um bom tempo, fazendo movimentos sublimes que faziam a Aura deles irem para cima e criarem um grande cenário de nuvens, luzes e brilhos que se espalharam por todos os lados, e em todos aqueles anjos, não conseguia encontrar a Elena, mas eu estava sendo muito apressado.
Até que, no segundo ato, uma grande legião de dançarinos apareceu, dançarinos mais brutos, intencionalmente menos graciosos, e com uma brutalidade pragmática que mostrava que eles tentavam ser intencionalmente bem desengonçados e perigosos. Possuindo escamas vermelhas, grandes asas que pareciam puras chamas, e garras tão grandes, que na teoria não deveriam ser possíveis de se mover.
E eu vi ela, usando uma coroa com detalhes dourados e com a maioria das escamas vermelhas, que a fez se destacar bem mais do que eu pensava ser possível, a Elena estava no Show como a incrível e bela rainha dragão.
No segundo que ela se movimentou no palco, ela parou um momento apenas pra olhar pra mim, e depois continuou os movimentos, como se nada tivesse acontecido, foi menos de 1 segundo, a maioria dos espectadores sequer notou aquilo, mas eu notei, e senti um grande calor quando notei aquilo.
A música do Show era linda, mesmo que não tivesse nenhuma fala na peça inteira, a música e os passos de dança contavam uma história que nem todas as palavras do mundo poderiam contar.
E quanto mais a história se desenrolava os personagens interagiam e o clima ficava mais nítido, sentia que aquela peça me hipnotizou, e que eu gostei muito disso.
Antes, os anjos viviam de forma tranquila e pacífica, não incomodando nem chegando perto em mais nenhuma raça, até que no meio do mar branco, uma grande legião de dragões veio até eles, dizendo que estavam com fome e que não tinham pra onde ir.
Os anjos, por não precisarem comer, e comiam apenas por diversão, entregaram bastante comida para os dragões. Os dragões, felizes, satisfeitos e agradecidos, voltaram à sua terra natal e voltaram aos anjos, com ouro, joias e muitas outras riquezas.
Os anjos não tinham utilidade para as joias, então eles as derreteram e transformaram em decorações bonitinhas, e com o passar dos tempos, os dragões continuaram voltando e voltando até os anjos…até o dia em que o dragões foram te os anjos, e encontraram uma grande torta que os anjos fizeram.
Os dragões, confiando totalmente nos anjos, comeram a torta sem problema nenhum, e eles ficaram tão felizes com o sabor que eles voaram aos céus e dançaram, sendo acompanhados pelos anjos.
E na hora da dança, me lembrei que era a Elena que tava ali, a dança dela, da rainha dragão, junto com a dança da vampira que fazia a líder dos anjinhos foi algo tão belo, que eu me senti brevemente olhando para uma divindade, era hipnotizante, minha alma estava conectada aquela simples dança, até que ela ousou sair do meu corpo, e sentindo aquilo eu acordei, e recuei um pouco, só pra garantir que minha alma não ia sair mais do meu corpo.
A Elena me olhou no meio da dança várias vezes com um sorriso no rosto, quase imperceptível pra qualquer outro telespectador, e nossa, o simples olhar daquela garota conseguia enrolar minha alma em suas mãos sem esforço nenhum, e dessa vez, eu propositalmente deixava meu coração ir até as mãos dela.
E me focando na dança de novo, voltei a acompanhar a história.
Os dragões, bem felizes pela torta, perguntaram aos anjos do que ela era feita, e bem felizes, os anjos falaram que era feito do presente que os dragões deram.
Os dragões com certeza ficaram surpresos quando descobriram que estavam comendo o próprio ouro que deram de presente, e os gritos e rugidos de fúria que a Elena deu dentro da peça foi algo que realmente incorporou a imensa fúria da rainha dragão, até que os anjos começaram a dançar ao redor do dragão, o convidando a vir até as terras mais profundas do território deles.
E dentro da vilazinha tranquila dos anjos, eles mostraram grandes decorações de ouro, grandes estátuas, algumas até com as aparências dos grandes dragões amigos, e até algumas pessoas usando ouro como brincos e colares.
A grande rainha dragão ficou impressionada com o que viu, tudo enquanto a anjinha mostrava por último o ouro sendo derretido, colocado na torta e sendo dado para comer para várias pessoas, a dragoa demorou um pouco para entender por completo, mas com o tempo ela conseguiu entender que, seu presente não estava sendo desrespeitado sendo colocado na comida, não, estava longe de ser isso.
Em uma dança simples, Elena, junto com seus fiéis parceiros dragões olharam ao redor, como forma de observação, eles olharam cada canto do território, enquanto bem atrás deles, um dragão voltou ao início do caminho, e pegou a torta, e em voltas, rodopios e movimentos graciosos, ele trouxe a torta para a rainha, e eles fizeram o movimento mais belo que pensei que alguém comendo uma torta poderia fazer, mesmo dentro de uma peça.
Eles rodopiavam no ar, fizeram movimentos com as pernas que, apesar da elegância, quase dava pra ouvir os pés e pernas deles pedindo por misericórdia, e eles pegaram um por um dos últimos pedaços da torta, que até agora eu tava na duvida se era falsa ou não, assim como todo o resto do cenário.
E como um grande show, as duas raças continuaram brincando e se divertindo, com a rainha dragão abraçando a líder anjinha, e com as duas se agachando pra baixo com cuidado, as mãos das outras bailarinas, anjinhos e dragões, as cobriram por completo igual um casulo, para depois elas liberarem elas do abraço, quase como o desabrochar de uma flor.
E depois do grande abraço coletivo, os dragões voltaram de novo pra casa, felizes com os grandes amigos anjos que fizeram.
E depois daquela entrada, tudo se desfez na frente de todos, pois agora eu entendia, os cenários, os efeitos especiais, tudo que não fossem as roupas e os uniformes dos atores eram feitos de Aura pura…sinistramente lindo.
Em segundos, o palco que parecia pequeno demais para todos os cenários, ficou tão vazio que agora era possível ver o quão pequeno cada ator ficava naquele imenso vazio.
E quanto olhava os atores ficando de frente pro palco com as mãos dadas um pro outro, apenas pude pensar que o que eles fizeram foi a coisa mais legal que eu já vi.
Eu sabia que a Aura era muito mais do que combate…mas esse nível de arte aplicando com a Aura…eu só conseguia pensar que lá de cima, o Guaracy estava muito feliz vendo essa peça.
E com todos os atores de mãos dadas na nossa frente, fiquei com os olhos marejados pela emoção de toda a peça e comecei a aplaudir de pé. Eu era um entre os muitos que aplaudiam, mas como sempre, mesmo entre milhares de pessoas, a Elena nunca me perdeu de vista, ela sempre conseguia me encontrar em segundos, como se eu fosse uma pedra em meio a um grande mar de areia.
Depois da peça, eu continuei no assento, tinha muita gente conversando, o som de vários sapatos chiques pisando no chão, ate o som da cortina se fechando estava sendo notado por mim.
Mas mesmo assim, não me mexi, mesmo sendo uma peça simples, senti que aprendi algo a mais com a Aura naquele breve momento, e que eu deveria fechar meus olhos, pensar, e absorver com cuidado cada detalhe do que acabou de acontecer na frente dos meus olhos como um quebra-cabeça que nem mesmo comecei a olhar.
Elena: ai, você gostou da peça?
Ergui minha cabeça pra ver a Elena ali, ela estava com as roupas normais, mas aquela imagem da rainha dragão da peça ainda tava bem fresca e bem gravada na minha cabeça
João: garota você tava linda lá
Elena: linda eu sei que tava, mas me fala, você gostou da peça?
João: eu gostei bastante…eu sinto que eu não deveria levantar por alguns segundos sabe, pra eu absorver por completo tudo que eu aprendi.
E bem mais satisfeita com aquilo do que com simplesmente ser chamada de linda, a Elena se sentou do meu lado, segurou minha mão, e falou.
Elena: posso ficar apenas sentindo a peça com você? Nós fizemos muitas peças pra chegar nesse ponto, mas sinto que a “coisa real” sempre coloca um sentido maior em mim do que uma simples peça…os sentimentos de tanta gente daquela Aura, unido com os meus, a falta de individualidade momentânea, e a sensação que, por alguns momentos, enquanto estamos no palco, não importa a cor, tamanho e crenças diferentes em cada um de nós, todos somos um único ser, isso é algo que eu quero muito sentir com cuidado e carinho
João: hmhm, essas simples palavras me deram muitas ideias a mais do que pensar.
Sorrindo, e respirando fundo, eu e a Elena fechamos os olhos, apenas sentindo aquele aprendizado que a peça deu a nós, isso até um dos seguranças irem até nós.
Segurança: ei jovens, não podem ficar aqui
João: ah, claro, claro.
Nós saímos de lá, mas não estávamos satisfeitos, não ainda, então não muito longe, encontramos um banquinho de praça e respiramos fundo, com nossas mãos ainda conectadas, e com muita coisa para pensarmos ainda…
E no meio dessa minha compreensão, e em meu entendimento que minha Aura estava lentamente ficando mais forte, pensei como para um casal de fora, nós deveríamos ser dois jovens adultos, mas com almas de velhinhos, e se alguém realmente chegasse a me chamar assim, eu me ficaria mais orgulhoso do que nunca, ser comparado com um velhinho sábio e maneiro demais na minha cabeça, por algum motivo.
Elena: nunca vou ter o suficiente de você
João: e nem eu de você.
E com aquela fala, nós nos beijamos, e com o entendimento feito, agende desfaz o laço de nossas mãos bem devagar, e nos separamos.
Eu ainda tinha muitos lugares pra ir, mas depois de tudo que e passei, depois do quanto que eu melhorei, e depois de ficar com a minha Aura tão forte, uma sensação de poder chegou até mim, pensando em desafiar aquela grande força da natureza de novo…mas eu não chamei o meu avô, não nao nao, eu queria pedir o duelo pra ele pessoalmente.

