Já fazia um bom tempo que eu não visitava pessoalmente o Luca, claro, agente tinha falado bastante sobre vários desenhos que agente assistia através dos grimórios, e agente também conversava por muitas coisas aleatórias, mas tinha um bom tempo que eu não visitava a casa dele, pensando se o lugar estaria diferente.
Depois de viajar um pouco com a minha prancha em pleno ar, desci numa ilha cidade cheia de músicos e andei um pouco por lá até encontrar a casa dos irmãos. Depois bati na porta, e o próprio Luca atendeu a porta.
Luca: ah, Joãozinho, entre, entre.
O Luca deixou eu entrar, com os vários jogos de tabuleiro já dispostos na mesa, eu comecei jogar um jogo de piratas, onde se precisava comprar vários navios e manter meus tripulantes felizes pra eles não roubarem os navios, e quem conseguisse matar mais dos 5 krakens no meio do tabuleiro ganhava.
João: cade seus pais?
Luca: a mamãe tá lá em cima, mas o papai foi ver o maninho treinando
João: o Nilo sempre foi um filhinho do papai.
Não falei aquilo como deboche, eu amava como o Nilo tava se conectando com o pai, eu sempre senti que os dois eram mais ligados que ele e a mãe. Ao mesmo tempo, também sentia que a conexão do Luca com a mãe sempre foi bom, enquanto também tava ficando mais forte depois da “conversa” que eles tiveram no parque.
João: mas e você? Como tá aquele sonho de ser um desenhista?
Luca: difícil, desenhar é mais difícil que qualquer coisa que o Luca já aprendeu, mas sei que a mamãe vai ajudar quando o Luca contar.
O Luca contou aquilo quando ele chegou em uma casa do tabuleiro onde ele perdeu muito dinheiro, a ponto que teve que ficar duas rodadas sem jogar pra não perder os navios.
Enquanto eu jogava os dados, e com a casinha onde eu caí, eu consegui mais 3 navios, e já tinha o bastante pra derrubar um kraken, mas decidi esperar um pouco mais antes de tentar.
João: e qual é a melhor cena que você fez?
Luca: uma cena de 1 minuto, de um moço jogando um disco e fazendo o passarinho dele pegar
João: legal, você pode me mostrar depois?
Luca: é claro.
O jogo continuou um bom tempo, com o Luca recuperando devagar seus navios, mas aquela altura, eu tava com 15 navios, e logo fui atrás dos krakens, e jogando um dadinho, eu derrubei dois krakens, enquanto o terceiro ganhou e eu perdi os 5 navios.
Joao: (suspiro) não gosto desse jogo, ele parece pura sorte às vezes
Luca: mas ele é pura sorte, deixa o jogo mais divertido do que ser apenas “o mais esperto venceu”
Joao: errado, uma pessoa inteligente, inteligente de verdade, consegue virar o jogo, não importa o quão impossível as chances paressam.
O Luca entendia muito bem o que eu dizia, porque ele conseguiu virar o jogo, tanto em questão de sorte como na questão de me manipular o tabuleiro, não em questão de trapaças, mas usando as regras do próprio tabuleiro como um trampolim pra sair de dentro do poço várias vezes.
Em uma das Jogadas, o Luca, de alguma forma, me desestabilizou a ponto que acabei entrando em duas casas que fizeram com que eu desse metade dos meus navios sobreviventes pra ele.
Luca: mas e você Joãozinho? O seu plano “bebe a bordo” tá quase pronto?
João: não estou nem na metade, bebês são caros cara, vou ter que economizar bastante pra conseguir manter o bebe seguro…bom, isso se eu quiser manter pelo menos um pouco do meu estilo de vida quando ele nascer
Luca: você fala como se economizar dinheiro fosse ultra mega difícil pra você, você não viaja, não comprar coisas super caras do nada, na verdade, acho que aquele SPA que você vai de vez em quando é a maior esbanjação que você já fez
Joao: aquilo não é esbanjamento, é necessidade, (mexe nas feridas) se eu não tivesse aquele SPA, não faço ideia se conseguiria manter minha sanidade mental
Luca: o Luca viu todas as lutas que o Joãozinho participou, o Luca não consegue imaginar como é aguentar essa dor
João: não tente imaginar, você provavelmente ira errar.
O Luca sabia que eu não blefava, então ele apenas acreditou na minha palavra, enquanto ele comprava mais navios e abatia dois Krakens, no meio da nossa lindíssima conversa, enquanto o quinto kraken, pra desempatar, continuava inteirinho.
João: viu o que eu falei, sorte e estratégia
Luca: realmente…mas me fala, o bebe, quanto custa ter um?
Joao: hmhmhmhm, se eu te contasse, você provavelmente teria um ataque do coração
Luca: se alguém como você que nunca gasta dinheiro tá dizendo isso, sei que é verdade.
E depois de uma jogada de dados, e mais navios nas mãos de nós dois, nós fomos pegar o kraken ao mesmo tempo, e na pura sorte…eu perdi, o kraken destruiu minhas embarcações, mas foi morto pelas embarcações do Luca.
Joao: (suspiro) eu realmente não gosto desse jogo
Luca: o Luca encontra um jogo melhor para nós vermos.
Ainda não entendia se ele não conseguia falar direito ou só não queria, mas eu já tinha passado do ponto de perguntar a muito tempo.
Joao: ai, pode me mostrar o desenho
Luca: ah, claro, claro.
O Luca então andou até o quarto, de forma bem tonta e desengonçada, e depois voltou com um desenho.
E o desenho era exatamente como ele falou, uma imagem impregnada com tanta Aura que os desenhos conseguiam se mover, era o desenho de um homem jogando um grande frisbee, e com ele soltando um passarinho para pegá-lo.
Não era um especialista em pinturas, mas eu conseguia ver pela forma como as imagens se moviam, encolhiam, as cores, os detalhes de cada movimento, eu só consegui dizer…
João: nossa, isso tá incrível, Luca
Luca: foi o meu melhor trabalho até agora
João: tem outros?
Lua: sim
João: pode me mostrar eles?
E como se eu tivesse falado uma palavra mágica, o Luca se levantou, gritou de empolgação, jogou os braços pra todo o lado, e depois correu com tudo pra dentro do quarto de novo. Nossa, que pena que ele fez aquilo tão rápido, eu sempre gostava de acompanhar ele nessas doideiras que ele fazia.
E quando ele voltou, ainda bem feliz, bem animado e absurdamente empolgado, ele despejou milhares de coisas em cima da mesa one tava o tabuleiro.
Muitos desenhos não tinham movimentos, muitos tinham movimentos errados, como encolhimentos nas proporções erradas, pedaços de corpos que se desprenderam, pontos onde certos personagens ficavam sem cabeça, e muitos pontos onde os desenhos do meio do caminho ficavam tão desengonçados que mal podiam ser comparados com a imagem final…tantos erros, tantas folhas, apenas para chegar naquele único desenho bom.
Novamente, me enchi de orgulho, mas muito mais por ver o esforço de um amigo de verdade, e olhando pra ele com um pouquinho de brincadeira no olhar, falei.
João: é, com certeza sua mãe vai ficar bem feliz, você vai arrasar mano
Luca: você tá arrasando também.
O Luca falou aquilo dando um soquinho no meu braço, e apesar da dor dos meus ossos ainda rachados e quebrados, consegui aguentar o soco sem gritar.
João: valeu parceiro
Luca: você tem algum desenho seu ai com você?
João: aaaah, não, mas eu posso fazer uma agora, se quiser
Luca: eu quero ver o Joãozinho pintando.
Sorrindo, eu vi o Luca correndo para o quarto de novo, e voltando com uns lápis de cor e uns papeizinhos soltos. E logo, comecei a pintar uma árvore bem alta, mas eu tava usando bem minha criatividade, deixando o tronco verde, e cada folha em variações diferentes de rosa, amarelo e branco, bom, pelo menos o “esqueleto” do desenho ainda era uma árvore, fiquei bem concentrado no dezenho, até ouvir o Luca falando…
Luca: a arte é uma das maiores coisas que o ser humano já inventou
João: você acha que nós inventamos ela?
Luca: bom, sim, ou você acha que foi a Arte que nos inventou, hahahahaha
João: ah, sei lá, se que as outras raças humanas tem essa regra de “não interferir com a evolução de outras raças”, mas sei lá, a arte sempre pareceu algo diferente pra mim, entende?
E com um sorriso que já dizia que entendia muito bem o que eu dizia, o Luca falou.
Luca: “se quiser aprender a Aura, precisa amar a arte, porque aqueles que rejeitam a liberdade e criatividade, nunca dominaram a Aura”, é, o luca sabe
João: não, não é apenas o bordão bonito e místico do arquipélago, eu to falando de tipo…como a arte foi nosso primeiro apelo como seres que “vivem” ao invés de seres que apenas “sobrevivem”.
Apesar de não entender por completo o que eu falava, o Luca tava bem ansioso pra entender.
João: pensa bem, um bom tempo durante nosso estado primitivo, nós dançávamos pra lua e pro sol, pintamos nas cavernas, e até cantavamos usando instrumentos primitivos, nós sabemos muito bem disso…mas o que veio antes?
Luca: sem ideias, pode falar
João: Eu vou dizer o que veio, NADA, antes da arte, não se tinha registros de nada, antes da arte, antes de sermos mais que animais que lutavam pra sobreviver, e sobreviver pra poder lutar, não existe nada que comprove o que aconteceu.
O Luca tava com uma cara bem surpresa, mas não parecia entender por completo onde eu queria chegar.
João: apenas quando um dos nossos ancestrais pensou em dançar para agradar uma divindade, quando outro ancestral começou a fazer barulhos doidos e estranhos apenas para ajudar nas caçadas, e evoluiu pra algo bem maior que isso, e até quando um outro ancestral pegou um pouco de terra e sangue e fez um desenho simples na parede…foi apenas quando eles pensaram em fazer coisas para se divertirem que a sociedade realmente começou a evoluir de fato.
Pelos olhos arregalados, via que a mente do Luca tava se expandindo em segundos com o que eu dizia ali, e isso me deixava absurdamente feliz.
João: a Arte é mais do que uma linguagem, mais do que um passatempo e muito mais do que uma ferramenta, ela é um símbolo, o símbolo mais puro de uma raça que finalmente aprendeu que ela podia ser mais que um animal, a Arte é o símbolo que um animal aprendeu que ele pode fazer coisas bobas e sem sentido apenas para se sentirem felizes…e quando eu falo isso em voz alta, apenas agora eu percebo o quanto eu tava acumulando coisas.
Nossa, eu tava chorando, eu nunca tinha falado de forma tão profunda aquelas coisas com alguém, e vendo como o Luca tava me olhando e chorando como um bebe também, eu fiquei feliz dele levar a sério o que eu falei, o que eu disse era tão absurdo que eu nem sabia se eu iria acreditar se ouvisse isso de outra pessoa.
Demorou alguns segundinhos a mais pra mãe dos irmãos aparecer, e quando ela correu na direção do Luca, com a voz mais calma que ela podia fazer, ela perguntou.
Mãe: luca, o que foi?
Luca: nada nao mamae(funga) o Joãozinho apenas falou algo tão bonito que o Luca só conseguiu chorar
Mãe: jura? foi tão bonito assim? (se vira pro João) então você poderia falar pra mim?
A segunda vez que eu falei aquilo, dava pra ver que eu consegui falar melhor, a Mãe do Luca pensou que ele tava apenas exagerando antes, mas quanto mais eu falava, mais ela arregalava os olhos, até que ela tapou a boca com a mão e segundos depois começou a chorar também…e pra se manter no lugar, a mãe do Luca olhou pra baixo, vendo o desenho que eu fiz e falou.
Mãe: é um desenho bem bonito João, o que é?
João: é uma árvore-flor
Mãe: ah, uma árvore com flores
João: não, é uma árvore, mas com o caule e pétalas de flores, ao invés de um tronco e folhas
Mae: uuuuuh.
E depois de olhar o meu desenho por mais alguns segundos, como se fosse pra acalmar a si própria, a Mãe do Luca falou.
Mãe: é, você realmente é um garoto bem criativo
João: obrigado Senhora.
Vendo a mãe do Luca ali, e pensando como eu deveria ver meus pais logo, fiquei pensando se deveria ir pro SPA amanhã ou não, mas acho que poderia pensar em todas as possibilidades quando a hora chegasse.

