Os próximos dias seriam bem difíceis, isso se esses contratos de luta que eu tenho feito não tivessem uma garantia que tudo ficaria bem, eu tava com dinheiro de sobra pra ter outra sessão no SPA, mas primeiro, eu tinha alguém pra ver.
Eu iria para o dojo, mas dessa vez, tive que pedir meu pai pra me levar ao treino pela carruagem.
Pai: você não vai treinar com o corpo assim, né?
João: ah não, eu só vou ver alguém treinando hoje
Pai: ta bomm, esse alguém deve ser bem importante pra voce
João: você não faz ideia, papai.
E mesmo comigo não falando tintim por tintim, e detalhe por detalhe, meu pai entendeu que tinha mais naquela história que eu podia falar em palavras simples, nota ele deixou pra lá.
Quando cheguei no dojo, entrei com cuidado la, mantendo minhas roupas normais, eu estava lá como um observador e não como um aluno, então tava tudo bem.
Quando entrei lá, o mestre me cumprimentou, e deixou que eu visse a aula, mesmo que não fosse treinar. E quando me sentei num dos cantos do dojo, vi a Tainá lutando com o Raony, he, pelo jeito ele tava finalmente entendeu como equilibrar o filho, o trabalho e os treinos, pois agora o Raony parecia o Sapien implacável que eu conheci antes dele ser pai.
Olhando pra esquerda, vi o Luca lutando contra o Artur, outro vampiro veterano que nunca dava trégua em suas batalhas. Mas o Luca conseguia defender e atacar tão forte que até o Arthur ia um pouco pra trás.
Mas conhecendo bem o Luca, sabia que ele ficaria bem, então apenas olhei pra Tainá, e olha só, ela também estava com uma faixa verde agora, e olhando com atenção, vi que ela descobriu as próprias garras, pois ela conseguia agora acertar o Raony com força o suficiente para fazê-lo se defender e até o jogar pra trás.
Enquanto o Raony, que nunca foi de se conter muito, dava socos e chutes tão poderosos na garota, que os impactos faziam ecos em cada golpe, e a loira aguentava cada golpe como se eles não fossem nada demais.
Mas nada daquilo conseguia ser mais impressionante com o fato que eles faziam a mesma estratégia que eu fazia com o Rony, na época em que eu ainda era do segundo tatame: golpes de sequência constante, no momento em que um acabava, o outro começava sem nem deixar o outro ficar de guarda pra começar o ataque, sem pausas e nem intervalos, no segundo que um terminava a técnica, o outro começava, indo tão rápido que parecia que uma grande instrumental de tambores estava tocando ali.
Os dois ficaram com roxos por todo o corpo, e quando o mestre chamou todos para fazerem flexões e abdominais, o Raony, mesmo estando bem melhor, ainda não conseguia lidar bem com os machucados que a intensa sessão de treinamento causava nele.
Enquanto a Tainá fazia cada flexão e movimento com perfeição, e além do esforço e da determinação, eu conseguia ver, através dos olhos embaçados dela que a garota estava jogando toda a raiva e frustrações que ela sentia em sua maldição em cada flexão e abdominal.
Foi engraçado ver eles fazendo tantas flexões e abdominais, desde que eu comecei a fazer isso na dimensão do Guaracy, eu me acostumei muito a fazer poucas flexões mas com uma gravidade tão alta que eu acabava fazendo bem menos do que eu tava acostumado.
Pensar aquilo me fez imaginar: quantas flexões eu aguentava em gravidade normal agora? Mas não pude pensar muito no que aconteceu, porque logo, o Mestre chamou todos pra mostrar outra sequência de golpes, e a Tainá, em todo o momento que conseguia, olhava pra mim, e por mais breve que fosse um breve momento, ela parecia sempre feliz de eu estar lá, cumprindo minha promessa.
E depois de mais algumas sequências de boxe, mais algumas sequências de flexões, abdominais e agachamentos, e uma última sequência de batalha, o treino acabou, cada um ficou em formação, ouviu o mestre, fez a oração e logo todos foram dispensados.
E depois daquilo eu andei pra fora do dojo, me sentando em um banquinho que tava bem perto dali, era tão comum as pessoas sentarem fora do dojo apenas para verem a correnteza da água que tinha muitos banquinhos ali.
A Tainá apareceu alguns minutos depois daquilo, se sentando bem do meu lado, e me abraçando bem forte assim que se sentou.
Tainá: obrigada por isso
João: não precisa agradecer.
Depois dela falar aquilo, nós dois observamos a correnteza em espiral que a pequena ilha que estava o dojo, tinha.
Não falamos nada por algum tempo, já tínhamos falado o suficiente um pro outro pra conseguirmos aproveitar aquele momento de calmaria, com o som da correnteza, o cheiro do mar e a frescura do ambiente falassem por nós por um bom tempo, até que eu perguntei.
João: e ai, onde tá o Luca?
Taina: ele ta la dentro, ele não quis atrapalhar nosso encontro pai e filha
João: me fala, a sua maldição já distorceu meu rosto alguma vez?
Tainá: ah, milhares de vezes…
E apenas pensar naquilo fez a Tainá entrar em várias memórias ruins.
Taina: tem horas que eu imagino que você tá rindo de mim, debochando de mim, às vezes parece que você fala coisas como “eu vou te matar” ou “eu vou te sequestrar enquanto você dorme”...
E falando aquilo, a loira ficou olhando pro “nada” por alguns segundos, não sabia se eu deveria falar alguma coisa, tipo, o que eu poderia falar nessa situação:
Tainá: mas não se preocupe, eu não acredito nessas imagens de você, ou pelo menos tento não acreditar
João: jura? por que?
Taina: porque eu sei que não é você…já passei tempo o bastante com você pra saber que você nunca faria ou falaria qualquer uma dessas coisas pra mim.
Fiquei um pouco sem reação depois de ouvir aquilo, mas depois de alguns segundos em silêncio, eu falei.
João: bom, nesse caso, acho que eu to mais perto de realizar meu sonho de longo prazo
Tainá: e o que é: ter um filho:
João: é, é isso mesmo.
A Tainá ficou um pouco surpresa com o que eu falei, ela olhou pra mim, e vi como o rosto dela mudou bastante, eu quase consegui ouvir ela pensando “aaaah, então é por isso que ele parece tão parental”, ao mesmo tempo que ela parecia pensar “espera, ele não tá realmente pensando em fazer isso, né?”
Tainá: João, você viu o Raony, ter um filho não é fácil, ainda mais pra um boxeador, se você ter uma criança, você pode não ter um único segundo de paz e liberdade por um tempo que nem eu sei, a criança vai sugar seu dinheiro, sua vida e sua sanidade, não deixando nada além de uma casca.
E dando um peteleco na cabeça da Tainá, eu falei.
João: e tu acha que eu não sei disso? É por isso que eu quero me tornar um campeão, não quero ter um filho antes da hora, eu quero estar pronto pra dar tudo e ainda mais pro meu garoto, ou garota…não tenho uma data exata, mas chegará um momento onde eu terei tudo que eu preciso para cuidar de um bebe, um tempo onde eu posso escolher se quero lutar ou não, um tempo onde dinheiro não é problema, um tempo onde não foi coincidência ou bênção o bebe vier, nos planejarmos e queriamos que ele viesse, apenas nesse momento eu terei ele
Tainá: isso pode demorar décadas
João: bom, então ainda bem que eu sou um homem paciente.
E depois de ouvir aquilo, a Tainá olhou pra mim por alguns segundos, como se estivesse conferindo se eu era real, até que ela apenas aceitou que eu era doidinho e ficou ali, se encostando no meu lado.
Taina: o mundo precisa de mais pessoas como voce
João: então por que não começa sendo como eu?
E ouvindo aquilo, a Vadia ficou sem falar nada por alguns segundos, surpresa demais com o que eu falei até pra falar qualquer coisa.
Joao: muitas pessoas dizem que “o mundo precisa de mais pessoas boas” mas o exemplo começa em casa, seja bom em sua casa, depois seja bom com as pessoas que você convive fora de casa, e depois disso, tente ser bom com todo o mundo
Tainá: mas por que você tentaria ser bom em um mundo que não é bom?
João: por egoísmo, é bom ser do bem, você nunca sentiu aquele amor, carinho e tranquilidade de quando você faz algo realmente bom?
Tainá: é claro que sim, mas ser bom dá muito trabalho
João: verdade, mas ser mal também dá trabalho, imagina, matar, enganar, machucar pessoas, ensinar ainda mais pessoas, mentir, roubar e etc. Cada uma dessas coisas dá trabalho também, a única diferença é que a maldade tem uma recompensa bem mais imediata, enquanto a bondade tem uma recompensa bem mais silenciosa, duradoura e de longo prazo.
A Tainá ficou bem mais quieta do que antes, até que ela falou de novo.
Tainá: mas existem muitas pessoas ruins que são bem felizes e bem sucedidas, enquanto tem muitas pessoas boas que nunca fizeram mal a ninguém que vivem pior do que ratos, o que você diria sobre essas pessoas?
Nossa, essa aí foi tão difícil que eu precisei ficar um tempinho em silêncio para falar da forma certa, até que eu disse.
Joao: essas pessoas tem a desculpa perfeita para serem maus, ainda mais se eles terem so recebido a maldade quando crianças, uma pessoa apenas pode ser o que ela conhece, não importa o quão pura uma pessoa seja, se ela apenas recebeu maldade e nunca recebeu a bondade em nenhum tempo em sua vida, é apenas isso que ela vai saber, como uma pessoa que apenas viu o azul em toda a vida não poderia pintar o vermelho, porque ela nunca o viu
Taina: então essas pessoas estão condenadas a serem mas?
João: não, mas elas também precisam de um cuidado especial, bancando o hipócrita aqui agora, não é todo mundo que pode cuidar de pessoas tão feridas assim, pessoas que viveram o mal por tanto tempo e estão apenas entrando na barreira do bem não podem ser guiados por uma pessoa que viveu no bem absoluto e pensa que pode concertar todos os traumas delas com poder do amor, afinal, a vida não é um conto de fadas.
E novamente a Taina ficou em silêncio, mas ela entendia bem que eu não tinha terminado de falar, porque tinham algumas peças faltando em minha fala.
Tainá: e que tipo de pessoa é capaz de guiar gente assim?
João: pessoas que entendem o que aquele consumido pelo mal está passando, não em questão de sofrer o mesmo que ele, mas pesquisar a fundo que tipo de maldade ele passou, e como cuidar disso da forma certa, não é sentimento, nem espontaneidade e nem fazer as coisas confiando na pura amizade, mas a experiência de uma pessoa que viveu no bem absoluto, mas que explorou os pontos mais fundos do mal, para conseguir cuidar e tirar toda a maldade de dentro daqueles que parecem maus e incuráveis…com uma forma tão pragmática que eles conseguem entendê-los melhor que qualquer apaixonado que pensa que apenas carinho e amor pode realmente curar tudo.
Falei a ultima parte com os olhos fechados, as conversas que eu tive com meu pai, minhas sessões com a Jaci, os livros de paternidade que eu li, (porque nunca se sabe) tudo aquilo se concentrou naquela simples fala, mesmo com meu corpo ainda bem machucado e quebrado, eu me sentia tão bem que podia facilmente dormir naquela cadeira, até que eu ouvi a Tainá perguntar.
Taina: como o que você fez comigo?
João: (respira fundo) exatamente…desculpa se te deixa mal ter sua Maldição considerada uma “maldade”, mas eu entrei dentro de seu mundo, entende a violência dentro de você e te ajudei a lidar com ela….o resto é resto
Tainá: bom, não posso me dar todo o crédito, meus pais me ajudaram bastante também
João: eu também, não faço ideia de onde eu estaria se não fossem pelos meus velhos
Tainá: é uma pena que nem todo mundo pode dizer isso
João: então vamos ajudá-los, no tempo certo, por enquanto, vamos tentar nos tornar melhores
Tainá: é, ainda preciso melhorar mais pra me considerar uma pessoa boa.
E com um corpo dolorido, mas um coração bem mais leve, vi a correnteza do dojo de forma tranquila por mais algum tempo, até que uma outra carruagem apareceu, a carruagem dos pais da Tainá. Enquanto ela entrava na carruagem eu ainda conseguia ouvir eles conversando.
Pai: quem é seu namoradinho?
Tainá: papai, por favor, ele tem namorada
Mãe: quer ajuda da mamãe pra roubar ele?
Tainá: hahaha, não, obrigada mamãe, mas eu gosto da minha cabeça presa no corpo.
Os pais da Tainá riram daquela piada ruim, mas ao longe, eu vi no rosto da Tainá que ela não tava brincando, mas não pensei muito nisso, pensei apenas no que iria rolar daqui a alguns dias e comecei a me preparar.

