Enquanto o Nilo era meu amigo, que com o passar do tempo, eu adotei como o meu filho de consideração, a Tainá era minha novata no treinamento, que com o tempo eu adotei como uma colega de treino, e depois adotei como minha filha de consideração…e pela intimidade que ela falava comigo, dava pra ver o quanto ela realmente sentia que podia me falar qualquer coisa, coisas que nem a pessoa mais próxima dela podia ouvir.
E pensando nisso, me preparei um pouco pro lugar onde eu iria me encontrar com ela. Colocando uma larga regata, uma larga bermuda de praia, e logo eu sai para o grande arquipélago. Demorei apenas alguns segundos pra chegar no lugar certo, uma simples casa de pinturas.
Se tem algo que eu me surpreendi, convivendo com a loira, foi como ela gostava tanto de pinturas quanto eu, e considerando a forma que ela se apresentou no treino, pensar que ela gostava de algo tão lindo quanto pinturas realmente foi algo surpreendente.
Ela não tava me esperando na entrada, mas tava tudo bem, assim que eu entrei, eu conseguia ver ela no meio de toda a “confusão” do lugar. O centro de pinturas era bem simples, era um lugar com milhares de quadros e papéis em branco, junto com tintas e lápis de cor para todo mundo se divertir junto com eles.
Claro, como se poderia imaginar, o lugar era uma confusão completa, as paredes eram brancas para qualquer pintura capaz de ser feita neles sem ninguém brigar com ninguém.
Tinham vários papéis jogados no chão, sejam eles papéis dobrados e transformados em animais, ou papéis com desenhos completados.
As pinturas, às vezes pareciam quebra cabeças, onde precisava a juntar com mais de um para realmente fazer sentido, também tinham outros quadros que eram tão grande que eles foram transformados em tapetes apenas para manter o lugar limpo.
E ainda tinham as massas de argila, ah, as argilas, junto com as pinturas realmente faziam um grande show de confusão.
E o mais doido é que, mesmo que o ambiente fosse bagunçado, apenas para começar nos adjetivos, o lugar tinha pinturas bem bonitas, cada uma das pintura, as esculturas e quadros, apesar do quão bagunçadas estavam, eram todas completas, nada no lugar ficava pela metade, o que me deixava bem animado pra pintar ali.
Mas primeiro procurei a Loira, e como uma chama no meio da floresta, eu vi a Tainá, ela estava, assim como eu imaginava, desenhando de forma intensa, um desenho, os olhos dela estavam bem embaçados, então sentia que a maldição dela tava a todo o vapor, e considerando o barulho do lugar, deveria estar bem confuso dela saber qual voz era verdadeira e qual não era.
Então andei devagar até ela, e falei, bem devagar.
Joao: oooooooooolaaaaaaa, Taaaaaaaainaaaaaaa, tuuuuuuudooooo beeeeem?
E parando de desenhar intensamente, a Tainá olhou pra trás, e quando me viu, ela me deu um abraço bem forte. Em uma das nossas sessões de treinamento, ela me falou que as vozes da cabeça dela eram bem rápidas, então falar devagar numa multidão fazia ela entender na hora que a voz era de verdade.
João: você encontrou um lugar bem público pra ficar “sozinha comigo”
Tainá: todos eles são estranhos, não ligo pra eles
João: então, você só queria fazer alguns desenhos comigo?
Tainá: bom, claro que não é só isso, mas vem, vamos desenhar um pouco.
E gostando do convite, me sentei em uma das cadeiras, e comecei a desenhar um gatinho com listras de todas as cores do mundo, e enquanto desenhava, a Tainá me falou.
Tainá: teria algum jeito de você me ver treinando?
João: vou entrar em um torneio daqui a alguns dias, vai ser um “morte súbita”, sem luvas, apenas a aura e muita carnificina, até eu ficar totalmente recuperado, provavelmente vou ficar alguns dias sem me exercitar direto
Taina: uuuuui, que delícia
João: e, vai ser incrível, e, vou tirar um tempo pra ver você
Eu fiz o gatinho bem grande, e pra pintá-lo direito, tive que colocá-lo de forma horizontal e começar a pintar as listras com bastante cuidado pelos desenhos que eu fiz.
Olhei com cuidado pro dezenho que a Taina tava fazendo, e era o desenho de uma grande bomba explodindo dentro de um cofre.
JOão: esse desenho deveria significar algo?
Tainá: não…ta, ele significa alguma coisa, mas eu não quero ficar pensando nisso agora. Me fala sobre o seu primeiro
João: ah, o meu não significa muita coisa, eu só tive vontade de desenhar um gatinho colorido
Tainá: unhum…e esse gatinho, e todas as cores, elas não significam nada?
João: é só a minha vontade de querer pintar um gatinho colorido
Taina: ou a sua vontade de expressar sua felicidade em milhares de cores em um gatinho colorido, e você enfatizou o gatinho por ele ser fofo e fácil das pessoas entenderem
João: ue, pensei que você não queria interpretar os desenhos
Tainá: eu não quero interpretar esse, porque esse eu já tenho certeza do que significa, olha, já vou fazer o próximo.
E mais uma vez, a Tainá começou a pintar com uma intensidade imensa, os rabiscos dela eram brutos e grosseiros, junto com um ar de urgência e bastante vontade de apenas terminar aquele desenho, não por pressa, mas porque a intensidade dos sentimentos jogados nele era algo tão intenso que se ela tentasse ir devagar, o lápis se partiria ao meio nas mãos dela.
Fiquei tão impressionado com o que ela tava fazendo que eu parei de pintar um pouco, até que eu vi uma grande serpente, uma serpente que desviou de 5 flechas, até que ela teve uma mão humana que deu um pãozinho na boca dela.
João: deixa eu adivinhar, as 5 flechas são os professores que te rejeitaram, mas a mão com o pão é o Mestre
Tainá: bom, sim, mas eu não quero falar desse também
João: Tainá, ja ta bom, chega
Taina: como assim? Eu devia parar?
João: não, só para de brigar tanto consigo mesma, me diz, que tipo de desenho você quer fazer?
Tainá: acho que eu quero fazer um desenho de…bom, é aí que tá, não sei o que eu quero desenhar
João: tenta descobrir isso primeiro.
Desenhei um pouco mais enquanto a Tainá encarava a tela branca, tentando entender por completo o que queria fazer, eu fiz mais uma espiral dessa vez, enchi a espiral com 4 caminhos diferentes, cada uma com uma cor diferente, e pintei cada uma delas as recheado de bolinhas e estrelas, e quando a Tainá falou de novo, não fiquei impressionado quando ela falou.
Tainá: é isso, eu sei o que eu quero desenhar
João: então desenhe, mas não force, você pode até convencer sua mente a pintar algo que não é instintivo, mas você precisa entender que esses pensamentos não podem ser forçados, eles tem que entrar com cuidado na sua mente, entendeu?
E com um rosto bem nublado, mas ainda com uma feição de alguém que tava ouvindo, a Tainá falou.
Tainá: sim, eu entendi.
Eu fiquei pintando a espiral um bom tempo, apenas para não acabar pintando por cima das bolinhas e estrelas que pintei dentro delas sem querer, mas enquanto mais o tempo passava e mais barulhento o lugar que nós estávamos ficava, mais tempo demoravamos.
Quando terminei meu desenho, vi que a Tainara ainda estava na metade do desenho dela, e ironicamente o desenho dela estava mais bonito do que nunca, e depois de ver o quão dedicada ela estava em fazer esse desenho, parei de pintar um pouco e comecei a só observar ela pintando.
E depois do que pareceu uns 20 minutos, a Tainá terminou o primeiro desenho dela intencionalmente.
E o desenho da vez era de um grande cachorrão lambendo com carinho um filhotinho que tava entre as patas dee
João: você fez um desenho muito bonito
Tainá: é, eu sei…gostei bastante desse.
E depois dela falar aquilo, ela pegou os desenhos antigos, e olhou bem pra eles, pensando por bastante tempo, até que ela falou.
Tainá: acho que vou parar de ir no instinto por um tempo, ta na cara que meu instinto não ta ligado pro lugar certo
João: quando o instinto está ligado à negatividade, é realmente difícil sair desse ciclo.
E depois de ouvir aquilo, a Tainá tirou os desenhos de lado, e ficou só encarando a folha de papel por muito tempo, e sem desenhar dessa vez, apenas olhei pra ela, vendo com ela tava bem estressada.
Joao: lembre-se, não force, olhe pro papel quanto tempo precisar, mas não deixe que sua pressa destrua sua própria criatividade
Tainá: sim senhor.
E ouvindo meu conselho, ela olhou a folha um bom tempo, como se estivesse pintando com os olhos antes de pintar com os lápis, muitas ideias descartadas, e muitas outras colocadas em segundo plano, até que ela encontrou uma ideia boa o bastante para por em prática.
Ela então pintou um clássico ursinho todo fofinho, segurando um coração, os sentimentos que ela colocou no ursinho ma bem menos intensos que os últimos, na verdade, a forma que ela deixava cada contorno redondo, os olhos fofinhos, e o coração quase estourando por não aguentar tanto amor.
Tinha tanto cuidado naquele desenho que contrastava muito com a euforia e alegria no rosto dela, aquele olhar, era de alguém que deveria estar explodindo coisas em sua volta por diversao, e nao alguem que conseguia fazer desenhos tão tranquilos e cuidadosos como esse..
João: nossa, esse ursinho parece bem especial pra você
Tainá: não me leve a mal João. Eu gosto muito de ser uma faixa laranja, mas mesmo que eu ame a brutalidade e a violência do campo de batalha, eu gosto de lembrar a mim mesma que sou uma garota sabe, gostar de coisas fofinhas, e tranquilas, e ficar cheirando com algo além de sangue o tempo todo
João: eu entendi muito bem, eu sou homem e sinto que preciso de dias tranquilos e ver coisas fofinhas as vezes pra me lembrar que sou algo além de uma maquina de pura violência e destruição, e meu coração não querer fugir do meu peito
Tainá: considerando aonde você vai ir amanhã, sinto que esse ciclo de dor vai voltar do zero
João: ele sempre volta…vou falar a verdade, eu to com muito medo, vai ser meu primeiro torneio sem luvas, e to com medo de não tá pronto
Tainá: o que? O grande João está com medo? Agora eu já vi de tudo nesse mundo…mas considerando como os vampiros tão bem acostumados a perderem pedaços de seus corpos, você tem motivos pra estar nervoso
João: pois é…
O clima ficou um pouco pesado, o torneio dentro do mar vermelho seria algo difícil, a ponto de que até um doido por batalhas como eu poderia não querer participar, mas desejando me testar, eu tava pronto pra entrar na toca do coelho e talvez nunca mais voltar.
Taina: voceeeee, quer que eu te emprestei meu ursinho de apoio emocional?
João: ah, não, nananão, eu não poderia aceitar
Taina: só aceite, eu tenho mais de um.
Ursos de “apoio emocional” eram bem mais que simples ursos de pelúcia, eles eram embebidos com vários encantamentos de todas as formas diferentes, alguns para focar, outros pra acordar, e o mais comum era pra acalmar.
João: não parece certo sabe, esse urso parece que é um apoio bem forte pra você
Tainá: e você é o meu apoio emocional ainda maior, se você perder a cabeça, eu perco a minha, não importa quantos ursinhos eu tenha, por favor, se não vai aceitar manter sua cabeça boa por si mesmo, faça isso por mim, que precisa de você bem.
O que a Tainá acabou de falar era quase um trava-língua, mas eu entendi sem rodeios o que ela falou, e eu respondi.
Joao: quando você fala desse jeito, fica difícil dizer não, mas só me dá ele depois do torneio,
Tainá: ta legal, ta legal, seu mandato.
E com um olhar um pouco mais iluminado, como se a vozes da cabeça dela tivessem se acalmado, nós continuamos desenhando, sentindo uma grande alegria fazendo desenhos tranquilos, não pensando muito nas doideiras que teríamos que fazer ao sairmos dali, por enquanto, apenas focar nos desenhos, das emoções que nós queríamos colocar nas pinturas fazia agente se sentir bem melhor.
João: e ai, me fala, o treino ta muito pesado?
Tainá: não vou contar, eu quero que você veja eu treinando, pra você saber o quanto tá tudo difícil ou fácil pra mim.
E mesmo com os olhos ainda nublados, dava pra ver a verdadeira determinação da garota em fazer com que eu visse ela treinando.
João: eu vou ver você treinando, eu prometo
Tainá: acredito em você.
Eu queria aproveitar aquilo o máximo de tempo que podia, porque eu não sabia quanto da minha sanidade eu perderia nesse próximo torneio, só tinha certeza que seria muita.

