E depois de voltar pra casa, passar um pouco o dia com meus pais e almoçar, eu já me preparei pra ver o jogo do Nilo de novo, já tinha feito isso tantas vezes que meus pais nem perguntavam mas por que eu fazia aquilo, eles já aceitaram que era só uma coisa que eu gostava de fazer.
Quando sai de casa de novo, apenas pensando como tinha a sensação que eu nunca tinha realmente parado quieto em casa bem antes desses 6 meses, voltei a sair...
O Nilo passou por um grande caminho até chegar naquele ponto, ele começou pequenos torneios aqui e ali, com um time de completos estranhos e com um nome que ninguém conhecia direito, nem seus parentes, e olha onde ele estava agora.
Um nome tão famoso que ele deu um nome artístico na rede pra não ser pego pelos fãs, o time que ele tinha era uma grande família, em muitos torneios eles pareciam até mesmo uma única entidade, e os torneios dele agora eram tão grandes que eu precisava comprar ingressos pra ve-los.
Não fazia ideia de quais treinos infernais, derrotas humilhantes e vitórias mega recompensadoras o Nilo passou pra chegar nesse ponto, mas ele agora estava em um grande coliseu de futebol, ele enfrentou grandes times, venceu alguns com facilidade e outros por um fio de cabelo de diferença, e agora estava nas finais do grande torneio...e para esse torneio final, eu chamei um casal bem especial.
Na entrada do coliseu, como sempre, a Elena estava me esperando, mas tinham dois adultos com ela, dois adultos que pareciam bastante com seus dois filhos, sim, filhos, no plural, Luca e Nilo, e eu queria poder convencer eles hoje, que eles tinham dois filhos, algo que o casal já tinha se esquecido a muito tempo.
Elena: atrasado, de novo
João: é, desculpa por isso, (olha os adultos) senhor e senhora Dister, é um prazer vê-los
Senhor: olá João, já faz um bom tempo, como tem andado?
João: muito bem senhor, mas podemos entrar? por favor?
E com um olhar observador e bem cético no rosto, o pai do Nilo falou.
Senhor: nunca vimos você falar nada de futebol, mesmo agora, você não parece interessado no jogo em si, parece bem mais que você quer que nos vejamos alguma coisa lá dentro
João: (bate palmas) perspicaz como sempre senhor, é, tem algo lá dentro que eu quero muito que vocês vejam
Senhora: depois de tudo que ouvimos falar sobre o "campeão da família Dixter" tenho certeza que , seja lá o que você tem ali, vai ser realmente algo inacreditavelmente único
João: ah, você não faz ideia.
E comigo entrando lá, junto com minha pequena equipe, já coloquei todos em seus devidos assentos, e empolgado, esperei pra ver como o Nilo deveria estar, depois de ter passado por todo o tipo de provação nesse torneio doido.
O Show de apresentação foi tão entediante quanto pensei que seria, não ligava pras líderes de torcida, os instrumentais e nem os outros milhares de shows que existiam ali, pra mim, tudo que importava era o jogo em si.
E depois de toda aquela viagem acabar, olhei com atenção pra frente, vendo os dois times chegando, e como sempre, o time, Ariranhas Áridas estava com as suas camisas verdes e com detalhes amarelos por todo o lugar.
Cada um deles exalava uma aura diferente, eles estavam bem longe de serem os garotos aprendendo sobre futebol de antes, e de certa forma, eles pareciam até mais adultos do que muitos adultos que eu mesmo conhecia.
Principalmente o Nilo....hoho, e olha só, mesmo depois de tanto tempo, parece que ele não mudou muuuuuuuita coisa em seu próprio uniforme.
Joao: ai, olhem o número 4 verde, ele parece familiar pra vocês?
Os pais do Nilo olharam pra ele, claro que pela distância e pelo quanto o garoto mudou, não esperava que eles o reconhecessem, mas ainda me decepcionei quando falaram.
Senhora: sim, o que tem ele?
João: ele te lembra alguém?
Senhora: não, não lembra.
Tentei não pensar muito na tristeza do meu peito, enquanto eu via os atuais campeões entrarem em jogo. Eles eram um time simples, com camisas pretas e detalhes vermelhos, eles se chamavam, os Gavioes Sangrentos. Com um símbolo de gavião real em suas costas...e mesmo não conhecendo muito do esporte, eu podia ver apenas na presença que aqueles jogadores de futebol eram diferentes, eles carregavam o peso de vários sonhos de jogadores destruídos, treinos pesados, e uma ambição que esmagou a ambição de muitos jogadores até eles conseguirem chegar naquele ponto
Entendendo bem como era o sofrimento constante de treinos intensos, eu quase conseguia ver a intensidade das dores que cada um daqueles jogadores teve que suportar pra chegar até ali.
E comparado aquele tipo de dor, treinamento e força com dedicação por pura ambição. Com as dores, treinamentos e ambições que o Nilo e as Ariranhas Áridas tiveram que aguentar. Tava com bastante medo de não estar nem perto de ser o bastante, já me preparando pro discurso que teria que dar caso o Nilo perdesse.
No jogo de cara ou coroa, os Gaviões Sangrentos conseguiram a primeira partida, mas eles entregaram esse começo de partida para as Ariranhas, estavam subestimando eles...não, isso não era nem um pouco uma subestimação.
Quando o jogo começou de verdade, o verde 1 e verde 5 tocaram as bolas entre si, até que o preto 3 tentou tirar a bola do verde 5 antes dele passar, mas o verde 3 não desistiu.
Mas os dois não fizeram um grande disputa de dribles, foi uma disputa de força, o preto 3 e o verde 5 pisaram bem forte e entortaram a bola, a ponto dela quase estourar, mas no fim, o verde 5 conseguiu manter a bola por pouco, mas assim que ele tentou chutar para o verde de 1, a bola foi interceptada pelo preto 6.
O preto 6 fez uma corrida rapidíssima da lateral preta até a lateral verde, colidindo de cara com o verde 2, passando por ele numa velocidade quase impossível, até que o verde 4 tentou pará-lo, e mesmo com milhares de dribles do preto 6, a investida dele foi parada pelo verde 4, mas assim que notou que não podia mais correr, o preto 6 chutou.
O chute do preto 6 foi tão recheado de aura que parecia um tiro de canhão de modelo antigo, foi a primeira vez que vi o goleiro verde usar as duas mãos, fazer uma cara de dor e sair do lugar, tudo ao mesmo tempo, mas ele impediu a bola, e sem nem pensar no que houve, ele chutou a bola para longe, em um canto onde não existia nada e nem ninguém, não dando um único segundo pra ninguém do time inimigo se recuperar.
Até que o preto 7 tentou interceptar, apenas pra ter a bola roubada dele pelo verde 3, que estava entre os pretos, mas a investida do verde 3 não durou muito, porque logo depois, o preto 9 apareceu e colidiu com ele com força, e pelos dribles medíocres que aconteceram entre os dois, parecia que o verde 3 nunca iria passar pelo preto 9, claro, isso até o verde 3 passar pra trás, para o verde 1, e antes mesmo de qualquer preto entender o que aconteceu, o verde 1 chutou pro gol.
E pela primeira vez, o verde 1 realmente deu um chute de verdade no gol, ao invés de dar um chute falso, e novamente eu vi o estranho movimento de bola, onde ele fazia a bola ir pra uma direção, mas assim que ele bateu a bola no chão, ela foi redirecionada, como uma bola de pingue pongue...mas a bola redirecionada não pegou o goleiro perto de surpresa.
O goleiro preto segurou a bola, mesmo que com uma certa dificuldade, mas ele conseguiu, e logo depois, ele chutou a bola pra um ponto específico do meio campo, onde o preto 2 estava, e assim que eles se aproximaram da lateral verde, o preto 2 começou a tocar entre ele e o preto 8.
E quando eles colidiram com a defesa do verde 2, 4 e 6. Eles tivera que fazer uma partida surreal de toques, o preto 2 faça várias embaixadinhas com o verde 2, até que ele tocava para o preto 8, que logo em seguida era interceptado pelo verde 6, mas o preto 8 era tão bom que mesmo marcado, ele conseguiu manter a bola junto dele o suficiente para tocar novamente para o preto 2.
Enquanto o verde 4 ficava longe dos dois, olhando especificamente para o preto 6, pra caso ele decidisse usar o disparo de velocidade de antes, até que, abandonando a defesa, o preto 1 saiu do seu posto, pegou a bola e passou, e o verde 4 deixou ele passar, toda a plateia ficou bem confusa, até os pais do Nilo gritaram de confusão e indignação.
Senhor: MAS O QUE ELE TA FAZENDO!?
João: não se preocupe Senhor Dister, as Ariranhas confiam no seu goleiro.
E com aquela fala, vi o preto 1 se preparando pra chutar, mas ele fingiu, e tocou a bola pra trás, em um canto que não parecia ter nada, isso até o preto 6 disparar até lá, e aí que aconteceu, o verde 4 correu até a bola, chegando no mesmo instante que o preto 6.
Joao: nossa, o jogador numero 6 dos Gavioes é impressionante mesmo
Elena: é, mas vamos ver se as Ariranhas podem realmente se comparar a aves de rapina
Joao: ah Elena, mesmo se eles pudessem, não ia adiantar, porque as Ariranhas, por mais que não pareçam, estão no topo da cadeia alimentar.
E comigo falando aquilo, nós vimos, o preto 6 correndo para o gol, mas em meio a sua corrida, ele foi bloqueado pelo verde 4, foi uma disputa equilibrada, com os dois alternando entre velocidade de dribles e às vezes apenas um teste de força bruta, de quem aguentava segurar mais tempo a bola nos próprios pés.
O verde 4 ganhou o primeiro, e o preto 6 ganhou o segundo, mas o verde 4 tinha uma maleabilidade no próprio corpo que fazia ele dar movimentos, como embaixadinhas, de forma natural, e com um salto, o verde 6 deu uma cabeçada com toda a força, em direção ao nada.
O preto 6 ainda tentou correr até a bola, mas mesmo marcado, o verde 2 chegou na bola...bom, no fim a bola não foi chutada, por ele ser interceptado pelo preto 8. E enquanto o verde 2 e preto 8 disputavam pela bola, o preto 6 e verde 4 vieram pra ajudar, seguidos pelo preto 1, eeeeee....
Meu deus, o preto 7 também, tava todo mundo ali, bom, todo mundo menos o preto 3, que continuou como zagueiro, e pela diferença absurda de números, o verde 6 teve que ir pra dentro daquele pandemônio. E com tanta gente lutando pela bola, tava impossível de entender o que tava havendo.
João: ah, vocês tão entendendo alguma coisa?
Elena: ah, eu parei de entender a muito tempo
Senhor: eu já me embolei quando 3 jogadores começaram a disputar pela bola
Senhora: (aperta os olhos) eu consigo ver a bola, mas ela está trocando tanto de pés que eu não faço ideia de onde ela pode ir.
E como a senhora Dister falou, depois de uma grande disputa de pernas pela bola, com ela voando pro vários cantos naquele pequeno domo de violência, técnica e ganância. No meio de toda aquela confusão, o verde 2 conseguiu controle extremo da bola, e conseguiu chutar-la, pro meio campo, depois do que pareceu uma seção impossível de tentativa e erro.
Quem interceptou a bola foi o verde 3, e com exceção do único zagueiro, preto que ficou, existia apenas o goleiro preto para interceptar a bola, o Preto 6 correu na velocidade máxima pra tentar interceptar o ataque, mas o verde 3 tocou na hora pro verde 5, que logo se colocou pra correr, conseguindo manter distância o bastante pra ficar entre o goleiro preto e o preto 6.
Mas ao invés de chutar pro gol, o verde 5 chutou para a esquerda, tocando de volta pro o verde 3, que tocou para o verde 1.
Os zagueiros pretos voltaram para seus postos pouco tempo depois, mas com a grande teia de toques do verde 1, 3 e 5 foi tão insana que em segundos o verde 5 deu um chute de bicicleta pra cima, um chute que o goleiro quase interceptou, mas no meio do caminho o verde 1 deu uma cabeçada na bola, o goleiro até tentou pará-la, mas o verde 1 fez a bola bater na trave, fazendo ela voltar pro verde 5, e antes do goleiro preto conseguir se recuperar, o verde 5 chutou de novo no gol, e dessa vez a bola entrou.
E com aquele primeiro gol, todo mundo ficou eufórico, nos levantamos, gritamos de alegria, e mais fogos de artifício foram jogados no ar, com a Elena, como sempre, soprando a vuvuzela com tanta força que ela se destacava em todo o barulho da multidão.
Até os pais do Nilo foram pegos no meio da euforia, me deixando bem feliz.
Senhor: ISSO AÍ, AQUELE JOGADOR 1 É REALMENTE SINISTRO
João: bom, é mesmo.
Pensei em destacar um pouco como o Nilo foi incrível, mas não, eu precisava deixar que ele mesmo impressionasse os próprios pais.
O primeiro tempo não tinha acabado ainda, e como retaliação, os Gaviões Sangrentos correram com tudo, nenhuma defesa, apenas o ataque puro. Dos zagueiros até os atacantes, apenas o goleiro ficou pra trás.
E com tantos jogadores, as Ariranhas tentaram se defender, mas logo perceberam que precisam levar todos os atacantes pra defesa também.
Foi uma luta clássica: a lançar mais forte do mundo contra o escudo mais resistente do mundo. E no meio de toda a colisão, com a grande confusão caótica de várias pernas, batendo na bola e uma nas outras, pela direção onde a bola voou, sem dúvida alguma a vencedora foi a grande Lança.
A bola voou na direção do goleiro verde, e ele até tentou pegar a bola, mas diferente do verde 1, a bola não quicou no chão para mudar, ela mudou no meio do ar, e mesmo assim, o goleiro verde ainda conseguiu pegá-la por muito pouco.
E por alguns segundos, a bola quase foi pega, mas mesmo com Lucas maciças, o goleiro verde teve as luvas rasgadas, seus pés se arrastaram no chão, e antes dele ter a chance de colocar a outra mão na bola, ela escorregou da mão dele e foi gol.
Todos os torcedores do lado das Ariranhas ficaram em silêncio e bem irritados, enquanto o lado dos Gaviões ficou eufórico, mas enquanto eu olhava para aquele jogo, eu via que a batalha iria ser boa.
E no momento em que tudo iria se estender mais, o juiz apitou, mostrando que o primeiro tempo já acabou.
Senhora: nossa, o primeiro tempo já acabou?
Elena: muito rápido né, isso que batalhas de alto nível conseguem fazer
João: é, mas o próximo tempo vai ser ainda mais intenso
Senhor: bom, nesse caso, acho que vou pegar uns cachorros quentes, vocês querem?
João: eu quero, e pode colocar tudo que eu tem direito e que não tem direito no meu
Elena: o mesmo pra mim
Senhora: só pede um ketchup e uma batata palha no meu.
E confirmando com a cabeça, o pai do Nilo saiu, e enquanto os jogadores saiam do palco, pra dar uma pausa antes de irem pro segundo tempo, olhei para a Elena e falei, telepaticamente.
João: {ele tá melhor do que eu pensei}
Elena: {é, mas tá na cara porque os Gavioes são campeões, não vai ser fácil}
João: {quase tudo que realmente importa não é, pra mim isso nem é tão preocupante assim, tô mais preocupado dele conversar com os pais}
Elena: {comigo e com você do lado dele, com certeza vai ficar tudo bem}.
E sorrindo, apesar de ainda estar com um pouco de receio, ainda fiquei calmo. E assim que o pai do Nilo voltou com os cachorros quentes, não me senti decepcionado pelo que tinha no meu cachorro quente e o da Elena.
Os dois tinham carne moída, batata palha, ervilhas, milho, ovo de codorna, ketchup, mostarda, maionese, molho especial, mais batata palha, molho de churrasco, carne picotada, coração de galinha, salada, tomate, pimentão em rodelas, queijo cheddar em molho, orégano, batata frita normal, molho especial, e mais um cachorro quente em cima, tudo comprimido em um pequeno pão que, no fundo de tudo, tinha uma salsicha.
João: isso é comida de verdade
Elena: um brinde a isso
Senhora: jura? Qual o nome do cachorro quente de vocês "diabete garantida"?
João: sei lá, nunca noto os nomes, só noto a quantidade de carne que cada um tem.
E desafiando com o quanto a minha boca podia abrir pra por o cachorro quente inteiro na boca, olhei pra mãe do Nilo, a desafiando.
João: melhor se preparar Senhora, o segundo tempo vai começar logo.

