É como dizem, vida de boxeador não é nada fácil, depois de dormir por um termo questionável, me arrumei um pouco pra conseguir me encontrar com a Elena…eu saí de casa de forma silenciosa, depois eu voei um pouco pelo céu em cima de uma onda feita com a minha própria Aura, até que eu chegasse novamente na ilha da capoeira.
Nossa, fazia muito tempo que eu não ia pra lá, a ilha era bem maior do que eu pensava na primeira vez que fui ali, tinham muitos crânios de vários animais diferentes estocados por lanças pelo lugar, junto de grandes tochas de todas as cores possíveis em um arco íris, muitas chamas ate misturadas, uma chama azul com um vermelho em baixo, uma verde com um rosa em ouro e ate um marrom com um branco em fiapos, era algo realmente lindo.
Várias coisas que, em dias normais, me encheria de alegria, mas com o meu corpo no limite como agora, eu só encontrava meios de fugir dali o mais rápido possível, e mesmo assim, ainda tentei encontrar o ponto de treino da Elena.
Mas o que mais me surpreendeu foram as outras rodas, rodas de capoeira sempre eram bem misturadas, tinham de vampiros, e lobisomens e zumbis ali, até tinham muitas rodas de dragões, só com caras gigantescos que nem precisavam diminuir de tamanho pra lutar.
Mas algo que sempre se mantinha igual eram os instrumentos, e era doido pra mim como o mesmo instrumento conseguia ter sons, ritmos e até energias totalmente diferentes.
Algumas rodas tinham um som que quase parecia heavy metal, outras rodas tinham uma melodia digna de uma melancolia blues, e outra parecia a brutalidade do rock, mas menos pesada que o heavy metal e bem mais teatral.
E mesmo pensando tudo aquilo, eu apenas olhei um pouquinho ao meu redor, e logo encontrei a roda da Elena, a roda da garota sempre tinha um ar místico, misterioso e ar frenético.
E pelo que eu via, ela não estava lutando, não ainda pelo menos, ela estava na fila pra quando chegasse a vez dela.
E mesmo não sendo ela lutando, olhei para o círculo, pra tentar entender um pouco mais da capoeira, e pra variar, quando tentei olhá-la, não entendi quase nada, apenas senti, por que como eu tinha sempre que lembrar a mim mesmo, a capoeira não era uma arte marcial comum, capas de ser explicada de forma simples.
Era uma batalha de dois veteranos que adotavam o ritmo ultra rápido, porque na capoeira, o ritmo da musica ditava o quao rapido a dança seria, e o ritmo daquela música estava tão intenso que os dois capoerencies pareciam bem mais dois borrões brancos se golpeando do que pessoas…
E além de se baterem, aqueles dois borrões davam saltos no ar tão inacreditável que parecia que eles estavam voando, mas não, eles apenas tinham uma acrobacia tao boa que saltos que pareciam impossíveis sem a ajuda de Aura ou pelo menos magia era algo totalmente simples e natural pra eles, sem um pingo de magia ou Aura.
E com aquela intensidade, mesmo tentando ver tudo bem, eu não conseguia, eu tava cansado demais pra prestar atenção direito no que tava acontecendo.
Eu ainda tinha foco pra poder acompanhá-los superficialmente, mas os movimentos imprevisíveis me faziam perder a batalha no meio do caminho, em um dos golpes, o lutador A saltou em cima do lutador B.
Eu olhei pra cima, achando que o lutador A ia chutar a cara do seu oponente, mas eu tava errado, ele não saltou super alto, ele deu um pulinho que deu um golpe com a lateral do pé no braço do lutador B, o mandando pra bem longe.
Eu tava bem nervoso já, porque eu já tava sentindo meu corpo cedendo…e na mesma hora que pensei isso, vi a Elena entrando no meio da batalha…e o ritmo da batalha ficou tão fraco e tranquilo que parecia até uma arte marcial diferente.
E mesmo não entendendo direito o que tava acontecendo, meu corpo agradeceu por não começar com algo super animado e agitado logo de manhã.
E mesmo com o ritmo bem mais tranquilo e menos intenso, os dois ainda exalava uma Aura poderosíssima, não sabia onde isso ia dar então me afastei e já me preparei pra pular pra trás a qualquer segundo, mas no fim, isso não foi preciso, porque um domo foi feito bem acima de nós.
Os dois não fizeram rodeios, eles fizeram um gingado enquanto se aproximavam um do outro, no meio do caminho eles arrasaram seus pes no chão, às vezes levantavam as pernas e faziam movimentos com os ombros, deixando quase impossível de ver onde o golpe viria, at chegarem perto um do outro e começarem os vários chutes de arco no ar, pra ver até onde seus golpes iriam.
A Aura de Elena criava um caminho verde onde o pé dela passava, exalando um ácido corrosivo sinistro, e a Aura do guerreiro exalava um grande poder frio, quase congelante pra frente dele.
Enquanto o ritmo da primeira batalha podia ser considerado um ritmo de “batalha até a morte” onde uma piscada errada podia ser fatal, esse ritmo era algo digno de um treinamento, sendo tão calmo, tranquilo e bonitinho…que chegava a ser hipnotizante.
E quanto mais eu olhava para a dança, cada movimento me fazia sentir melhor a origem daquela arte marcial raízes ancestrais de um povo que tentou manter sua cultura viva através dela, me fazendo ter um pouco de vergonha de ver algo tão sagrado como se fosse algo banal.
Mas quanto mais observava a dança, minha alma parecia purificada de toda a dor, cansaço e stress que senti até agora, e com isso eu podia apenas agradecer a ELena, que através dos olhares no meio dos golpes que ela me dava, sabia que ela tinha feito aquilo de propósito…de alguma forma
Mas ainda deu um pouco de estranheza em ver a diferença da velocidade por causa dos ritmos.
Os movimentos dos dois eram bem fluidos, um olhar destreinado poderia pensar que a Aura dos dois estava espalhada de forma doida e desorganizada por todo o lado, mas com meu olhar atento, eu pude ver a verdadeira pintura de letalidade que os pés frenéticos desses dois pintavam.
Os movimentos deles não pareciam letais, cada golpe agora parecia quase ensaiado, mas não, o único ensaio que eles tiveram foi com um único olhar, eles treinavam seus reflexos para conseguir desviar de um golpe considerado “lento” pra eles.
A falta de intensidade nos golpes em questão de força era compensada com certeza pela letalidade de cada chute, mesmo sem colocar nenhuma força extra, dava pra ver que os golpes usavam todo o peso do corpo em pontos como o calcanhar,e o peito do pé, apenas uma concentração extra de força nos lugares certos seria o suficiente pra matar, isso, novamente, sem nem pensar em aura direito.
Sim, diferente do boxe, que distribuía cada poder em cada golpe, como uma metralhadora, a capoeira era quase como uma sniper, um golpe, e com sorte e muita técnica, não iria ser necessário um segundo.
A beleza da técnica se mostrava no confronto da acidez da Elena com o frio congelante do guerreiro, os pés da Elena pintaram o céu de acidez verde enquanto os do guerreiro cobriam tudo ao redor com pinceladas cianas.
O ácido da Elena era tão forte que lhe borbulhava e espalha as grandes gotas de si próprio por toda parte, deixando o chão coberto de ácido, sendo apenas seguro pelo Lutador arrastar seus pés pelo chão, congelando em segundos o ácido dela criando um caminho frio e seguro pra ele mesmo.
Mas com o tempo, o calor, acidez e força da Elena começou a derreter o gelo do guerreiro mais forte do que ele podia criar mais, e com um chute que quase o acertou, as poucas gotas de Aura ácida que caíram em cima do lutador fizeram ele gritar bastante.
Aquele grito fez Elena entender como seu oponente não conseguia acompanhar, ela desfez a própria Aura, e vendo como ele praticamente foi salvo da morte certa, o guerreiro também desativou a dele.
O que foi uma pena, os grandes desenhos que eles fizeram enquanto jogavam seus pés e misturavam milhares de tons de verde e ciano diferentes, com certeza seriam grandes inspirações para minhas futuras pinturas…
Eita, acho que falei cedo demais, ainda mantendo o ritmo calmo e tranquilo, eles fizeram mais alguns desenhos no céu, mesmo estando claro que aqueles desenhos eram apenas a cor, e nada do poder deles.
Ah, droga, estava devaneando muito, tinha que me focar na luta, na, luta, pensando nisso, me concentrei bastante, vendo como em um dos chutes altos do lutador, a Elena deu uma colisão na perna dele, tentando uma queda.
Mas ao invés de cair duro, o lutador rolou, pra esquerda, apoiou suas mãos no chão e ousou chutar nas costas dela, vendo como a Elena foi quase atingida, ele parou o próprio giro, com a perna ainda boa e tentou dar uma ponteira na Elena, a garota desviou e retribuiu com um chute meia lua.
Os dois então se afastaram, abaixaram os corpos, e começaram a gingar de novo, e dessa vez a Elena saltou. Na hora o guerreiro tentou chutar em cima, apenas pra ver que o salto da Elena não foi pra cima, foi pra frente, ela jogou a própria cintura pra frente permitindo que ela jogasse as próprias pernas na perna de apoio d guerreiro, ele tentou escapar saltando, mas a ELena o agarrou pelo pé, e consegui joga-lo forte no chão.
Nessa ele não conseguiu rolar, mas conseguiu defender a lateral da cabeça, antes que se machucasse de verdade, e mais uma vez, quando Elena o soltou, eles fizeram o gingado, tentando encontrar um ponto fraco na Morena, mas ela não deixou brecha alguma pra ele, os dois continuaram lutando, até que a Elena pareceu satisfeita, e só saiu com cuidado a roda, deixando outro guerreiro ficar no lugar dela.
João: POR QUE VOCÊ SAIU, VOCÊ TAVA INCRIVEL
Elena: sei disso, mas quero passar o resto da minha energia com você
João: justo.
Depois que Elena saiu, a intensidade da batalha anterior voltou, e com o corpo suado, mas com um carinho no meus ombros que me desarmava, ela falou.
ELena: vem, vamos pra um lugar mais calmo
João: sim, por favor.
Treino, batalhas, treino, mais batalhas, treina mais, outra batalha, jogo do Nilo, um jogo intenso com uma plateia gigantesca.
Eu gostava de intensidade, eu amava ter uma via tão doida quanto agora, mas meu corpo ainda estava bem longe de estar acostumado, apenas por dormir tão pouco, sentia como se meu coração tivesse ousando parar se eu visse a mínima coisa intensa hoje.
João: é sério, gosto da minha nova vida, mas tem vezes que eu acordo pensando que vou morrer de exaustão
Elena: somos dois, ser uma guardiã de templo é tão complicado, existem muitos idiotas que pensam que é fácil passar pelos guardas, eu já perdi a conta de quantos ossos eu quebrei tentando impedir bandidos amadores de roubar relíquias
João: uuuuh, já tá protegendo relíquias? E eu achando que tava avançando rápido
Elena: é, mas não se empolga não, são apenas relíquias
João: é, mas são, tipo, reliquias, RELIQUIAS DA ERA ANTIGA, eu sei o quão empolgada você tá com isso.
Mesmo tentando esconder sua empolgação através da preocupação comigo, vi o sorriso empolgado dela ao falar sobre isso, mas então ela ficou neutra de novo, e começou a olhar com mais cuidado pra mim.
Elena: vamos falar sobre isso depois de ver o jogo do Nilo
João: concordo.
Sempre achava bem doido que ela conseguisse interromper esses papos do que ela estava empolgada como se não fosse nada demais, eu mesmo não conseguiria fazer isso.
Talvez fosse por isso que era mais fácil eu acalmar e recuperar meu corpo cansado quando eu ficava perto dela, me sentia mal de depender tanto dela, mas ela era uma das poucas que conseguiua acalmar meu coração mais do que o sono, algo que eu ia precisar se eu fosse mesmo ver o Nilo jogando hoje.
Pouco tempo depois de sairmos daquela ilha super doida, encontramos um banquinho em um parque deserto e sentamos lá, meu corpo agradeceu por eu ter parado de me mover, mas meu coração não estava satisfeito.
Isso até a Elena colocar a mão no meu peito…e eu podia dizer que se eu realmente tivesse problemas do coração, aquilo sim teria me feito infrator, então ela começou a fazer pequenos círculos no meu peito…e era tão bom, que meu coração se acalmou um pouco
Elena: me fala João, você achou minha dança agradável?
João: tudo que você faz é agradável.
E quando eu falei aquilo, a Elena passou a mão no meu peito um pouco mais, como se tivesse desenterrando algo dentro da minha própria alma.
Elena: sua boca fala elogios fácil demais, mas esse carinha exigente, e ele parece muito feliz com minha dança também
João: você deu a ele a chance de descansar
Elena: e você não podia fazer isso?
João: podia, mas você faz melhor.
E mais uma vez, ela me deu um sorriso que me fazia 10 vezes mais relaxado do que milhares de horas de sono poderiam provocar, mas a pequena terapia só havia começado.
Elena: vem, deita um pouco.
E como uma criança, me deitei no banco, ficando com a cabeça no colo da minha namorada, sentia que, depois de passar desse nível de intimidade, nós não éramos mais apenas namorados, mas eu não queria falar isso em voz alta e tentar a sorte.
Ela fez carinho na minha cabeça, e era como ser tocado pela mão de um anjo, eu fiquei tão tranquilo e relaxado, que eu quase dormi, apenas me mantive acordado porque eu queria sentir aquilo ainda mais.
Elena: você tá cobrando demais do seu corpo
Joao: sei disso
Elena: você vai acabar desmaiando de cansaço alguma hora
João: provavelmente
Elena: então você vai parar?
João: daqui a pouco…eu só preciso de mais um torneio grande, e vou ter o bastante pra entrar de férias por um tempo
Elena: hum, tá bom, vou confiar em você…então, nos vemos daqui a algumas horas?
João: sim , te vejo daqui a pouco.
Agora que eu senti como se eu tivesse dormido por 3 dias inteiros, eu estava revigorado e pronto pra ver o Nilo jogando, mesmo que isso levasse meu relaxamento ao zero de novo.

