logo do projeto lunar

Capa
Caminho da Vitória 🥊 2
😶‍🌫️🫠😌o paraíso😌🫠😶‍🌫️
2106 palavras • 11675 caracteres • ⏱ 8 min 25 s

😶‍🌫️🫠😌o paraíso😌🫠😶‍🌫️

0
0
0

João: aí que dor…aí, aí, aí, AI, AI, AI, AAAAAAAAAAAI.


Só existia uma coisa que era pior que a dor de treino, a dor do dia seguinte, onde os machucados estavam se curando devagar, mas a cura parecendo quase uma dor separada que era mil vezes pior do que a dor do próprio ferimento.


Graças ao investimento tremendo que eu tava recebendo das lutas, eu não precisava mais trabalhar naquele “plano B” que meu pai tinha me dado, mesmo que eu fosse muito grato por ele ter insistido em me colocar ali. 


Então eu tinha bastante tempo livre pra fazer quase o que eu quisesse, eu queria poder ver o Nilo, ver ele jogando bola, mas eu sabia muito bem que eu não tava em condições de ver nada empolgante agora, então eu cheguei no meu grimório com o maior cuidado do mundo e liguei pra Elena.


Quando me coloquei na mesa do meu quarto, esperei um pouco e as páginas começarem a virar de forma descontrolada, levou pouco tempo para a Elena atender, e mesmo sendo apenas um torço, a Sapien estava mais deslumbrante do que nunca.


Elena: dia difícil?


João: “difícil” seria o começo pra explicação, mas bem longe de ser o final


Elena: pro mesmo lugar então?


João: sim, por favor.


E assim a Elena desligou, e depois de tomar café com meus pais, com uma dificuldade tremenda até de segurar o pão. Eu apenas fiquei parado por um bom tempo respirando fundo, antes de sair de casa. 


Sair de casa não era um problema pra mim antes, mas como eu ainda tava me acostumando com essa minha nova rotina, eu estava com muita dor no corpo, a ponto que até andar causar uma dor gigantesca, como se o meu sangue tivesse aquecido de todo o esforço e golpes que eu aguentei por tanto tempo, fazendo eu me sentir literalmente cozido por dentro.


Depois que eu andei por bastante tempo, eu encontrei a Elena, me esperando em frente a um SPA, um SPA que, para a minha alegria, estava na mesma ilha que a minha, e quando a Sapien me viu, ela sorriu muito feliz.


Elena: atrasado, de novo


João: ah, dá um tempo Elena, eu tive motivo dessa vez


Elena: calma garoto, agente veio aqui relaxar, não precisamos de ainda mais estresse, vem.


A Sapien me segurou pela mão de forma bem delicada enquanto me levava mais pra dentro do lugar, mas no meio do caminho eu vi, mesmo que ela nao me contasse, consegui ver pelos braços doloridos, e as pernas todas bambas que a Elena estava passando por maus bocados também.


Sentia que aquilo era parte pelo treino de capoeira, mas também tinha algo bem mais profundo que isso, mas seja lá o que fosse, ela não queria me contar, e não querendo ser um namorado controlador, eu estava preparado pra esperar que ela me contasse o que ela tava fazendo, não importa quanto tempo levasse.


Uma vez la dentro, nos pegamos o tratamento completo, pra mim, minhas visitas no SPA eram uma das maiores contradições que já tive na minha vida, sempre pensei que visitas regulares em lugares assim eram algo que eu pensava ser apenas que os mais ricos e poderosos conseguiam fazer.


E mesmo assim, olha onde eu estava agora, visitar esse lugar se tornou algo constante pra mim, algo que lentamente se tornou “mensal”, todos os grandes monstros que lutava com tanta frequência, todos os ferimentos que eu tinha que constantemente suportar e a carga emocional que nenhuma magia de cura podia fazer sumir tão fácil. 


Mesmo com toda a ajuda das pessoas que me amavam, e minha paixão pelo esporte, sinto que nada daquilo importava se eu não tivesse essa visita mensal ao SPA.


E quando eu olhava para a Elena, sentia que ela entrou em um ponto bem profundo no sonho dela, onde esse “ritual de descanso” era algo necessário pra ela também. E como parceiros de sofrimento, um sofrimento que nós dois escolhemos, entravamos na sessão de SPA, como uma recompensa a nós mesmos por aguentarmos por tanto tempo.


Seja a banheira de hidromassagem natural que eram as fendas de vulcões. As saunas, as massagens (tanto as físicas quanto as com pedras quentes), a acupuntura. Tudo isso era algo absurdamente importante pra mim.


Porque além de todo o stress e raiva que eu jogava pra fora todo o dia através dos próprios combates através de lutas com o Ivan (alguém que, apesar de ser meu rival, eu entendia bem melhor agora que era meu amigo também). 


Existia um tipo de raiva e stress que não se limpavam com as batalhas, uma que vinha do mesmo lugar, mas que gruda em meu corpo como piche e não consegue sair na brutalidade, não importa quanta força se usasse.


E para esse stress, apenas relaxando da maneira tradicional funcionava, cada um dos pontos do SPA que eu passava eram essenciais pra mim, a cada ponto eu sentia como se todo o stress, negatividade e dor saíssem junto da fumaça. 


Além do fato que muitas seções tinham propriedades curativas seja por técnicas de ponto de pressão, ervas medicinais e etc. Que faziam muitos dos meus machucados mais pesados sumirem,tanto os físicos quanto os mentais, mas era claro que os emocionais eram os que mais se destacavam aqui.


E sempre que eu vinha com a Elena, conseguia ver um grande nuvem de fumaça e stress saindo dela toda a vez, ela realmente tava passando por coisas, mas como eu não contava detalhes sobre meus problemas pra ela, só ficava quietinho e aproveitava aquele momento de amor e calmaria com o amor da minha vida, deixando toda a dor raiva e stress que causou essas coisas em nós, no lado de fora, assim como devia ser.


Mas o que eu mais gostava definitivamente era a banheira de hidromassagem, ver a Elena de biquíni, mesmo sendo apenas em uma banheira de hidromassagem era muito bom, ela tinha peitos grandes e músculos bem voltados pra ser rápida do que forte, além de um brilho que era difícil de explicar em palavras.


Ela tinha me pegou olhando pra ela várias vezes, mas ela apenas riu, como se gostasse de meu olhar. 


E eu entendia bem o que ela sentia, pelo fato de eu ver ela fazendo a mesma coisa comigo muitas vezes.


João: hehehe, mesmo sendo só uma vez por mês, eu sinto que passar por aquele inferno de batalhas vale a pena pra eu desfrutar desse paraíso


Elena: vai ser só o inferno por enquanto, daqui a pouco você se acostuma


João: mas mesmo que eu me acostumei, é bem provável que eu apenas seja jogado pra um nível ainda maior assim que me acostumar


Elena: é, provavelmente, e você vai aceitar a proposta de isso acontecer?


João: É CLARO QUE SIM…mas o meu corpo diz “não”


Elena: e quando você escuta seu corpo?


João: quando ele dá ultimatos


Elena: sério?


João: poucas pessoas entendem isso, mas nosso corpo é um covarde, ele é programado para nós manter longe de qualquer coisa considerada “perigosa” pra ele, mas muitas vezes o corpo está errado, ou às vezes, o perigo realmente existe, mas não é nem de longe tão perigoso quanto o nosso corpo realmente imagina que é


Elena: e tem como saber a diferença?


João: como eu disse, ultimatos, é um pouquinho de nós também. Nosso corpo, apesar de todos os sinais errados que ele nos dá as vezes, ele tem uma forma nem um pouco sutil de nós contar sobre tudo, de nós forçar a parar quando nossos corpos estão mesmo no limite do cansaço, de desligar nosso raciocínio quando estamos numa situação onde o raciocínio não serve, apenas o instinto de sobrevivência, e até de nós avisar que estamos quase vomitando, depois de desrespeitamos nossa barriga por muito tempo


Elena: é, entendo, muita gente não consegue nem imaginar o potencial que tem, muito mais por medo de passar por algo do que pela própria dor em si. E eu já vi muitas gente casca grossa parando no meio de um exercício por pensar que não iria conseguir, mas ainda tendo a grande capacidade de continuar 


João: não vamos apenas jogar todo mundo na lama, nós temos um pouco disso também, a muito tempo, descobri que eu é que devo tomar as decisões, e apenas seguir orientações do meu corpo


Elena: não é isso que todo mundo faz?


João: mais ou menos, eles pensam que fazem isso, mas no fim escutam muito o corpo, a ponto de deixá-lo assumir o controle “isso tá doendo muito, melhor eu parar”, “eu já tô no meu limite, eu não consigo”, “isso é muito difícil pra mim, é melhor eu tentar outra coisa”. O engraçado é que algumas vozes são verdadeiras, mas muitas vezes elas são apenas o corpo recusando continuar, e todo o ser humano de forma consciente ou não está tentando entrar num estado de controle absoluto do próprio corpo, onde ele consegue entender a dor que ele aguenta mais, ou o treino que ele precisa de um pouco mais, mas fica duvidando tanto de si mesmo que nem sabe se aguenta isso.


E com um olhar contemplativo, um olhar que a morena conseguiu depois de ser uma guardiã por muitos e muitos meses, ela olhou pro teto por um tempo, deixando o calor e as bolhas melhorarem seu raciocínio, até que ela falou.


Elena: mas e quando a mente que está enganada?


João: nesse caso ela aprende, essa é a questão, mesmo que seja bem difícil às vezes, a mente se diferencia de todo o corpo porque ela aprende, enquanto o corpo pode sim aprender, nada pode aprender tão rápido quanto a mente, por isso que ela foi escolhida, entre todos os outros órgãos para comandar os outros, e os outros condenados a obedecer


Elena: jura? Eu pensei que o cérebro escutava os órgãos, tipo, você come quando sente fome, e bebe quando sente sede


João: mas no fim de tudo, ainda é o cérebro que decide se vai comer ou não, muitas garotas com inseguranças ignoram a fome pra ficarem mais magras, muitos comilões aguentam o desejo de comer pra comer tudo mais tarde, e pessoas até comem o mínimo possível quando tem pouca comida, mesmo que a barriga deles implore por mais.


O olhar orgulhoso da morena me mostrou que ela já sabia daquilo, mas queria que eu aprendesse com minha própria cabeça e explicasse com as minhas próprias palavras. 


E o sorriso dela já mostrava como ela tava bem feliz com o que eu falei.


João: sério, eu não…


Elena: eu escuto o que você quer falar depois, mas não para de falar agora, não deixe o raciocínio pela metade


João: ok, ok…(tosse) muitos pensam que “não tem escolha” e que “o corpo deles os obrigou”...tanto por motivos bobos quanto por motivos doentios demais até pra serem mencionados…


Parei de falar no meio do caminho, engasgado com a minha própria raiva daqueles fracotes que diziam não poder controlar os próprios corpos, e tentando me acalmar, a Elena falou.


Elena: é, é uma mentira deslavada.


Fiquei um pouco contemplativo com a raiva evidente na voz dela, até que eu terminei.


João: é, o cérebro que controla o corpo, não o contrário, toda decisão que você faz é culpa completamente sua, e não do seu corpo, fim, de, papo.


Não fiquei impressionado com a raia no meu tom de voz, só fiquei meio impressionado com a felicidade da própria Elena em ver a raiva em mim.


Elena: olha só, parece que nosso tempo acabou.


E quando eu olhei pra frente, vi que , realmente, nosso tempo no SPA já tinha acabado, mas aquela altura eu nem me importava mais, meu corpo já tava curado, tanto fisicamente quanto psicologicamente.


Eu entrei naquele SPA de um jeito, e sai de outro, e já sentindo que logo eu iria começar um treino pesadíssimo com o grande Deus do Sol, queria me dar o privilégio de falar com mais alguém antes de tudo.


João: sinto que minha sessão de SPA nunca tá completa se você não tiver aqui


Elena: idem, eu sinto que minha “negatividade” mais difícil de sair sai fácil quando eu fico com você.


E mais uma vez, ela mostrou como tava guardando algo bem profundo de mim, mas não queria a obrigar a falar, mesmo que uma parte de mim quisesse muito saber o que ela ta escondendo.


E depois de um abraço bem apertado, e um beijo bem quente, um beijo que lembrava o sonho que nós tínhamos de ter filhos, nos separamos, tentando preparar o terreno pra nossos futuros pirralhos.


Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar ❤️

Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.