Apenas 6 meses se passaram depois que eu comecei a minha grande jornada para me tornar um campeão, e eu fiz um ótimo trabalho.
Além de mim, o Ivan fez um grande nome pra ele proprio tambem, eu ouvi muitas histórias do grande lobisomem firme e resistente como uma montanha, e com o poder do deslizamento em seus punhos. Já fiquei bem empolgado pra me encontrar com o lobinho numa próxima oportunidade.
Já o Marcio, eu não tinha ouvido falar tanto do zumbi, mas talvez ele estivesse em cantos que não fossem tão noticiados assim, pelo menos foi isso que eu decidi acreditar.
Com o passar do tempo, eu fui mandado pra todo o tipo de lugar doido, tanto no arquipélago quanto em cima quanto embaixo dele.
Eu já passei pelos cantos mais altos do mar branco e lutei contra dragões de verdade, e eu percebi o quanto aqueles monstros são poderosos, em todos os campeonatos que eu lutei contra um dragão, não consegue causar quase nenhum arranhão nas criaturas, e sempre fiquei em último.
Mas ninguém tinha nada pra me cobrar sobre isso, era bem o contrário, muitos dos meus fãs e ficavam impressionados que eu já tava lutando com dragões usando só os punhos, e sentindo na pele o poder dos dragões “mais fracos” já que os que me venciam sempre ficavam em penúltimo lugar, eu entendia muito bem porque eles nao me cobravam tanto.
Apesar de eu estar mudando e indo pra torneios cada vez mais difíceis, os torneios do mar azul, do arquipélago onde eu cresci, tinham uma facilidade maior pra mim, minhas lutas ali eram normalmente com lobisomens.
Meus dias mais doidos no mar azul eram quando eu ia pros lugares mais radioativos, pesados e quentes de lá, pra ir punho contra punho com ogros, criaturas que tinham basicamente músculos com mais fibras, ossos mais densos, e qualquer coisa que poderia deixar bem claro que dá Aura, eles poderiam ser chamados de “raça guerreira” dignos de estar no mar azul.
Os Ogros eram bem mais fáceis de lutar que os Dragões, mas eu ainda precisava usar 110% da minha força pra vencer deles, é mesmo se eu chegasse ao ouro nesses campeonatos, eu ainda precisava ficar horas no hospital pra me recuperar. (E considerando o quão instantâneo curandeiros curavam minhas feridas antes de eu entrar nesse caminho profissional, isso quer dizer muita coisa).
Cheguei até mesmo a ir nos cantos mais quente e profundos do mar vermelho, um grande mar que ficava nos cantos mais profundos da terra, por que em seu interior, a terra era oca, cheia de monstros e com um grande mar de puro magma para manter tudo fraco demais pra ficar lá dentro, morto.
O mar vermelho era o lar das espécies mais duronas do mundo, tanto que os vampiros que habitavam aquele mar maluco, mesmo sendo mais fracos que os dragões e os ogros. Cada soco deles tinha uma aura tão espessa, que dava pra sentir como eles não precisavam fazer o mínimo de esforço pra me atacar, eles apenas me nocauteava todas as vezes, os dragões e os ogros podiam me derrubar muito, mas os vampiros, eu não conseguia nem durar mais de 2 rounds.
Mas também, considerando que eles viviam em correntezas quentíssimas de magma, cheios de gases toxicos com uma radiação que mataria quem não fosse encantado da forma certa assim que entrasse lá, e principalmente, um conhecimento de Aura que já mostrava o quão perto os vampiros estavam dos deuses. Com todas essas coisas fazia bastante sentido os vampiros serem tão fortes assim.
Eu fui batido, chutado e espancado por meses, eu estava cheio de raiva, mas a cada derrota, a cada Vitória muito sofrida, eu sentia que eu mudava, ficava melhor, mais forte, mesmo que meu corpo estivesse pedindo desesperadamente pra que eu parasse, e por mais que eu o ignorasse ele muitas vezes, algumas vezes eu o escutava.
Tudo que importava pra mim era a minha raiva, era ela que eu usava pra bater mais forte em meus sacos de pancada, correr até o limite na praia com o mestre, e praticar partidas de sparrow com meus “parceiros” porque agora eu tinha contatos no meio dos lutadores também.
E quando meu “turno” acabava, e eu voltava para casa, eu me sentava no sofá antes de tomar banho, e respirava fundo, porque não tinha palavras o suficiente para dizer como eu me sentia naquele momento.
Pai: Oi filho
João: Oi pai
Pai: e aí, como tá sendo viver seu sonho?
João: tá sendo um inferno, cada dia que se passa parece que eu aprendi que consigo ficar mais cansado…e talvez eu tenha descoberto que eu sou masoquista
Pai: por que diz isso?
João: porque mesmo com toda essa dor no meu corpo, eu não quero parar, e quando eu penso nessas coisas, meu coração começa a doer muito, como se estivesse ameaçando parar se eu mesmo não me der algum descanso.
Meu pai riu quando ouviu aquilo, como se entendesse bem até demais o que eu queria dizer, então ele fez carinho na minha cabeça ainda suada, modificou a pintura da sala, até ela mostrar uma transmissão de um programa que ele gostava de assistir e depois falou.
Pai: bom, então avisa pro seu coração que agente vai fazer algo mais relaxante agora, e que ele pode aproveitar isso pra descansar
João: ele já sabe, mesmo sem você falar nada…e ele tá te agradecendo por isso
Pai: só ele?
João: não, é todo mundo, inclusive eu
Pai: hehe, não se preocupe, você chegou em uma época perfeita garoto.
Eu não achei que seria algo positivo nessa “fase sombria” onde eu tava ainda me adaptando ao grande mundo das lutas profissionais. Talvez o simples fato das lutas em que eu lutava contra monstros me darem muito dinheiro e deixar minha mente solta pra que eu pudesse me focar em outras coisas ajudasse bastante nisso.
Mas eu sinto que também cheguei no nível em que apenas o dinheiro não ia conseguir me ajudar a passar por tudo isso, mas felizmente, o dinheiro não foi a única coisa que me ajudou, foi o meu pai, minha mãe, a Elena, a Vovó, o vovô nem tanto, mas ele até tentou ajudar, o Lucas, o Nilo, a Tainá…é, de certa forma até o Ivan e o Márcio me ajudaram também.
Eles me ajudaram apenas passeando e “saindo” comigo, me fazendo me lembrar como a vida era muito mais do que só grandes batalhas e adrenalina pura (algo que, apesar dos espancamentos, eu ainda gostava e queria ainda mais).
E o meu pai me ajudava colocando esses episódios doidos de documentários de animais pra gente ver, e me ajeitando um pouco, respirei fundo, e assisti junto com ele.
Esse episódio era narrado através do ponto de vista de uma serpente bem astuta, que esperava por horas na posição de um ninho específico, e esperando um pouco mais, para que o pai dos ovinhos não aparecesse, e com muito cuidado, ela foi até o ninho e engoliu os ovinhos inteiros, um por um, e depois sumiu, e mesmo depois de tanto tempo, eu ainda conseguia perguntar.
João: por quanto tempo ela esperou ali?
Pai: tempo o suficiente para o sol se pôr
João: ah, ela com certeza esperou ali por algumas horas então…é realmente possível esperar por tanto tempo assim?
Pai: a maioria dos predadores são assim, assassinos treinados, que esperam pelo momento perfeito pra pegar a presa. Às vezes são criaturas doentes ou machucadas, as vezes são filhotes não supervisionados o suficiente, e as vezes é apenas um pobre animal que foi descuidado e ficou muito longe do bando, eles estão bem longe de serem as máquinas de guerra extremamente ferozes e sanguinárias que toda a série insiste em mostrar
João: eles ainda podem nos matar
Pai: quase todo animal pode, não estou dizendo que eles não são perigosos, só tô dizendo que eles não são criaturas cruéis e sinistras, ah, olha só.
E agora nos partimos pra um ponto diferente da vida da serpente, onde ela se misturava no meio das folhagens para se esconder de pássaros, corujas, lagartos grandes e às vezes até de outras cobras.
O som de suspense tava sempre no ponto, onde eu vi como uma ave quase pegou a pequena cobra, mas ela errou, o que me fez quase terminar com uma dor de barriga.
João: me sinto meio mal por estar torcendo pra que a cobra sobreviva, depois dela ter comido aqueles ovinhos antes
Pai: é o ciclo da vida João, se aquela cobra não tivesse comido os ovos, outro animal provavelmente teria comido, e se eles não fossem comidos como ovos, eles com certeza iam ser comidos como pássaros…em questão de chegar a vida adulta, em muitas vezes na vida animal é questão de pura sorte
João: essa cobra parece estar sendo bem sortuda até agora
Pai: mas é claro, por que você acha que é ela que está sendo mostrada pra gente?
João: bom ponto.
E depois de ouvir aquilo, e quando agente viu a cobra encontrando um bom abrigo pra ficar, comecei a pensar na quantidade de animais que foram mortos das formas mais brutais possíveis, enquanto nós fomos mostrados um dos sortudos que chegou a fazer adulta.
João: eu queria ter raiva de que os caras que gravaram isso não estão ajudando os animais, mas no fim a lei de “coma ou seja comido” nunca mudou, nem nós fugimos dessa regra, afinal, nós matamos milhares de animais todos os dias, a diferença é que alguém faz isso por nós
Pai: é, já temos morte demais na nossa vida apenas quando nós pensamos um pouco de onde vem nossa carne, então por que não ficamos mais tranquilos e apenas relaxamos e vemos uma das sortudas que chegou até o fim da vida como uma campeã?
João: é, tem razão.
Eu ainda não tava tão acostumado em ver esses documentários com meu pai, mesmo que ele não tivesse nem um pouco incomodado com meus comentários pessimistas, ele deveria saber que a minha raiva e minha dor não iam me deixar falar as melhores coisas por um bom tempo.
Mas ele apenas concordava, me dava um conselho, ou apenas acrescentava algo no que eu falei, fazendo a coisa “ruim” que eu disse se tornar normal, e até positiva, se ele ebolasse as palavras por tempo o suficiente.
E com o documentário acrescentado na equação, eu quase dormi no sofá, a música relaxante em 90% do tempo, o ambiente calmo, e “intocado por mãos humanas” junto com cenários reais, cenários que, apesar de eu saber que tinha muito mais coisa por trás, conseguiam me dar um conforto, e ascender um pouco mais minha esperança na humanidade, tudo enquanto eu ficava bem confortável e sentia meu corpo lentamente recuperando as forças….ficar acordado numa situação assim era bem difícil pra mim.
O documentário da cobra terminou com ela encontrando uma boa cobrinha pra ser sua parceira, e com o próximo documentário prometendo os ovos do casal no próximo capítulo.
Claro, antes disso a cobra ainda comeu 4 ratos, escapou de 8 situações diferentes de predadores e se escondeu nos lugares mais difíceis de encaixar que eu achei ser possível, apenas pra chegar na cobrinha.
João: sei que isso devia ser fofinho, mas só pelo que a cobra teve que passar, eu começo a entender um pouco melhor porque elas vivem menos que agente
Pai: é, agora vai tomar banho filho, você já deve estar bem melhor agora.
E eu estava mesmo, mas não obedeci meu pai diretamente, primeiro eu respirei bem fundo, e conferi cada centímetro do meu corpo, ainda tinha dor, ainda cansado e com roxos em todo meu corpo, grandes e com Aura o suficiente para eu não conseguir curar, nem com o creminho que a minha mãe tinha.
E depois de entender cada centímetro daquilo, me levantei, com meu corpo estalando, meu músculos querendo desistir, e os roxos fazendo a festa por cada sentimento existente do meu corpo e fui tomar banho.
E mesmo que a dor não tivesse ido embora, fiquei um bom tempo embaixo do chuveiro, foi bem mais do que apenas o meu corpo, enquanto a água descia devagar por mim, sentia que minha própria alma estivesse sendo lavada também.
O banho pra mim se tornou uma recompensa para todas as coisas doidas que eu tava aguentando, se eu não tivesse certeza absoluta que essa vida é o meu sonho e que eu estava disposto a mover montanhas pra fazê-lo se tornar realidade, eu já teria desistido a muito tempo.
Quando cheguei no meu quarto, agradeci a mim mesmo por ter conseguido um espelho, não era nem um pouco igual aqueles espelhos modernos dos magos, que tinham grandes feitiços e magias, mas ele cumpria bem seu papel, que era me refletir.
Eu não gostava muito de ver meu próprio reflexo quando eu era mais novo, eu achava que eu era a epítome perfeita dos dois “criança desengonçada” e “adolescente esquisito”. Mas agora, depois de passar por poucas e boas, eu olhava pro meu reflexo e via um homem de verdade.
Meu cabelo liso e preto continuava enrolado em um grande rabo de cavalo bem atrás de mim, meu rosto tinha se modificado e se endurecido depois de receber milhares de golpes poderosos no rosto, ficando mais grosso, meu nariz tava meio desfigurado pelas pancadas, mas ele tava quase realinhado.
Meus olhos vermelhos sangue, que sempre refletiram bem a brutalidade que sempre gostava de mostrar, realmente faziam a diferença nesse meu novo rosto.
E sem camisa, eu podia ver de forma perfeita meu corpo, eu era bem musculoso, mas não um rato de academia, que não conseguia tocar partes específicas do corpo, não, eu tinha músculos o bastante pra ser forte e rápido, coisas que muitos guerreiros não conseguiam entender.
Minhas mãos foram calejadas até o limite por mim mesmo, e elas pareciam quase armas letais separadas, sem as luvas, o mesmo podia se dizer dos meus pés, e até da minha própria testa, que já recebeu muitos socos como interceptação
Cada pedacinho do meu corpo eu moldei com minhas próprias mãos, meu jeito desengonçado, meu jeito esquisito, eu os moldei como macinha até eu me tornar esse grande homem que eu encarava no espelho.
E mesmo com os roxos, mesmo com o cansaço e mesmo com os grandes machucados, ficava bem feliz em pensar que eu ainda tava em transição, esse reflexo que eu me orgulhava muito não era o fim, não, ele era a transição, e eu tava bem empolgado pra saber até onde esse progresso todo iria me levar no fim do dia, haha, mas por enquanto, eu iria descansar.

