Apesar da empolgação que sentia apenas em pensar no torneio, eu ainda tinha um bom tempo antes de dar a hora, tempo para eu conseguir ter mais um treino especial no dojo, e mesmo depois de tanto tempo, ainda me impressionava que aquele lugar, onde eu passei uma parte da minha adolescência guardava um segredo tão grande de mim.
Com a minha prancha, eu voltei para o dojo mais cedo do que o pessoal, e no meio de toda a escuridão, fui atraído para uma das salas, onde agora que eu participei da minha primeira sessão com o Guaracy, eu conseguia ver o caminho como uma grande luz no meio da escuridão.
E depois de entrar na sala, vi muitos veteranos ali, outros veteranos eram tão antigos no treino que em todos os meus anos ali, eu nunca os vi nenhuma vez.
O Sansão e a Artemis também já estavam lá, e me sentando novamente na minha almofada, a mesma almofada que eu usei da última vez, eu me sentei, e me preparei para entrar no lugar que eu tinha certeza que testaria meus limites mais do que qualquer partida ou treino poderia fazer.
Me sentei em cima da almofada na posição de borboleta, respirei fundo e senti cada pedaço do meu corpo sendo preenchido por uma grande água quente, e segundos depois, me senti flutuando com bastante cuidado pra cima, mas não abri os olhos, não, eu iria sentir o impacto se eu fizesse isso, então eu só abri os olhos quando já tava sentindo o calor, a dor e peso profundo do lugar.
E pra variar, quando abri os olhos pra ver onde eu tinha pousado, eu quase me ceguei pelo brilho de um chão que aprecia quase a superfície do sol, mas por estar em uma forma espiritual, eu conseguia aguentar, até um certo limite.
O calor era tão intenso, que eu sentia que minha alma se desmancharia no ar se não me concentrasse, a radiação mudava minha alma devagar, talvez tentando me transformar em uma espécie de aberração, a gravidade do lugar era tão grande que parecia querer me levar pra perto do chão, até que eu ficasse fundido com o chão.
Mesmo bem cansado, tentei manter minha cabeça erguida, ja que “abaixar a cabeça causa desmaio” como meu Mestre fala.
E olhando o resto do lugar, eu ficava veemente impressionado que o lugar conseguia ser tão bonito, o céu era azul, e nao tinha uma única nuvem no céu, e toda a visão de lava, magma e vários tipos diferentes de amarelo e vermelho no meio do lugar, parecia que eu estava numa dimensão paralela, mas considerando quem iria me treinar, eu não devia ficar tão surpreso com isso.
E mesmo assim, eu tava bem chateado, depois de todo o treino, pensei que no próximo treino, o lugar iria mudar de alguma forma, e ele realmente mudou, o lugar parecia mais letal, mais perigoso…
???: e mais pesado, não é?
Olhei pra trás, em meio a grande quantidade de magma, calor e pura radiação que exalava do lugar, a Veterana Artemis estava tranquila ali.
Joao: eu vi seu jogo ontem, voce arrazou
Artemis: obrigada, mas sei que você vai arrasar muito amanhã também.
A Artemis tentou parar o assunto ali, pra ver se eu queria falar alguma coisa, mas eu fiquei calado, só tentando pensar em algo diferente pra falar, tudo enquanto eu via o quanto ela estava empolgada pra falar alguma coisa.
João: e ai, me fala, valeu a pena?
Artemis: PRA CARAMBA, EU AINDA SINTO A CARA DA HERA AFUNDANDO NO MEU PUNHO, HAHAHA, AQUELA GAROTA NUNCA MAIS VAI PENSAR EM IMPLICAR COMIGO POR TER GANHADO DE MIM QUANDO ERA CRIANÇA, NA VERDADE, ACHO QUE NÃO É O BASTANTE PRECISO GANHAR DELA, DE NOVO, DE NOVO E DE NOVO
João: então, mais um arco de treinamento?
Artemis: mais um arco de treinamento (da soquinho no ombro) e olha, saiba que pode ficar tranquilo com o torneio, mesmo que você não consiga ficar entre o top 3, você já tem fama o bastante pra não precisar se preocupar se é famoso ou não.
Eu tava rindo a alguns segundos com a conversa, mas depois do que a Ártemis falou, eu fechei a cara e falei.
João: não me fale pra pegar leve veterana, eu só cheguei até aqui desejando o primeiro lugar e nada mais
Artemis: e você teve ótimos resultados, apenas não exagere
João: sem problemas, não vou exagerar.
E depois daquilo, ficamos conversando entre nós até se completar 10 minutos de espera, sempre 10 minutos pra conversar e se preparar, nada mais, nada menos.
Depois, em meio ao calor e fogo, Guaracy, o grande Deus do Sol se manifestava entre nós, e nos chamava para mostrar mais uma aula e hoje nós iamos aprender um tipo diferente de ataque, um que eu tentei com meu avô antes, mas estava tão errado que eu nem tinha feito direito.
O nome daquela técnica de aura era, “caminho de impacto”, era uma técnica simples, onde se fazia uma “projeção” de socos e pernas e os faziam voar no campo de batalha até chegar em grandes distâncias e atingir o oponente em pleno ar, era que nem um soco foguete, mas levando em conta tudo, sendo chutes, socos tudo.
E dessa vez, nós praticamos os ataques no ar, porque aquela técnica era tão confusa e complicada, que não dava pra praticar em pessoas logo de cara, tinha que praticar no ar primeiro.
Quanto mais tempo passava comigo fazendo essas técnicas, mais eu entendia que essa técnica não era meu estilo, mas se eu quisesse passar por esse caminho pantanoso que era o território das lutas de Aura, eu teria que aprender pelo menos a me defender daquilo também.
Os socos retos, como Jab e Direto. Eram simples, sem muitos problemas, eu escovava meus punhos, e a minha mão criava uma projeção de soco, parecia dar com um soco foguete, ele voava até a Aura que eu acumulei nele se esgotar, mas o verdadeiro desafio era…todo o resto.
Os golpes como “cruzado, aper e uque” tinham conceitos diferentes, onde nós tínhamos que jogar nossa Aura numa área bem maior, e ao invés de um caminho reto, existiam pequenas “esferas e aura” ao nosso redor, quando eu queria dar o cruzado por exemplo, eu precisava fazer o movimento do cruzado, e a esfera se transformava em um punho e na teoria iria acertar o meu oponente.
E os chutes, ele se eram o mais doido, porque eu tinha que jogar minha Aura na minha perna, como se fosse água, e como um pincel cheio de tinta, eu fiz uma grande lua com a minha perna, parecida com o corte de uma lâmina, mas esse golpe voador não cortava, ele batia igual a um porrete.
E os golpes de perna mais fáceis eram o chute frontal e o chute faca, já os outros, existia uma grande arte onde tinha varias formas pra cada chute que eu tinha que aprender, formas onde eu precisava dominar a jogar minha aura, quase como a tinta em um quadro, e não acertando nada, era muito difícil mesmo perceber se eu tava fazendo algo errado ou não.
Eu apenas consegui me manter calmo enquanto fazia aquilo porque o Guaraci, o Deus do Sol em carne e osso, estava olhando meus golpes.
Guaracy: o seu soco tá bom, mas você precisa relaxar mais os ombros.
Eu fiz o que ele falou, mas como meu primeiro treino, era óbvio que eu não tava fazendo direito.
Guaracy: imaginar a sua Aura como uma bola pro golpe é bom, mas pode deixar ele previsível demais, tenta desfazer ele um pouco, não pensa nela como uma bola, pensa nela como uma nuvem, que pode tanto ir pra direita quanto pra esquerda, quanto pra cima quanto pra baixo.
Eu, de novo, tentei fazer o que ele falou, mas de novo, nada aconteceu, a bola que era a manifestação dos meus golpes a distância continuava sólida como ferro, não sendo nem um pouco leve como uma nuvem.
Mas tentei ficar calmo, era meu primeiro treino, e sabendo como o tempo passava ali, o resto do pessoal deveria estar “séculos” de diferença de mim, então eu nem olhei pra eles e apenas tentei fazer os golpes direito, e logo,o uvi ele falando dos meus chutes.
Guaracy: uma forma melhor de mirar sua técnica é que você tem que concentrar seus dedos nos pés, tanto nos de apoio quanto os da perna chutando, acredite, voce vai sentir na pele a diferença da força e precisão.
E mais uma vez, eu tentei fazer a técnica, mas não tive resultado nenhum, o que era a primeira vez que eu tava fazendo aquilo, o fato de que eu tava conseguindo fazer isso de forma ruim e desengonçada já era um milagre gigantesco pra mim.
Mas o maior problema nem eram os golpes, era o ambiente, calor, radiação e peso enormes, como uma alma, eu não precisava comer, dormir, descansar e nem beber água, mas eu ainda sentia dor, e apenas aquilo conseguia me desconcentrar bastante no treino.
Mas sentindo meu corpo mudando, como se fosse uma necessidade básica dentro da minha própria alma, comecei a questionar até onde eu ia aguentar.
Me perguntei aquilo enquanto sentia mais dor e mais desespero. E quanto mais desespero eu sentia, mais eu gritava bem alto, como se cada grito me desse mais força para aumentar fazer ainda mais golpes, e de forma irônica ou não, realmente me ajudou…mas quanto ais vezes eu atacava, mais eu sentia que meu corpo estava mudando de formas que eu nem mesmo conseguia imaginar.
Guaracy: pra fortalecer um músculo, você tem que destruí-lo com exercícios, para ele conseguir se regenerar mais forte, para aumentar a força de sua Aura, o princípio é o mesmo, você terá que se destruir e se reconstruir várias vezes, morrer e renascer várias vezes, é um processo interminável, onde sempre se é possível evoluir mais, mas não pense em ser o melhor do mundo, apenas pense em ser melhor que o “você” de ontem, dá pra entender?
João: sim, iluminado.
Diferente da Jaci, a Deusa da Lua, o Deus do Sol era bem direto ao ponto, sem enrolar ou querer que nos descobríssemos coisas sozinho.
Não lembro se cheguei a conhecê-lo em outros eventos, mas naquela versão, ele era apenas um treinador, e um sábio que tinha a humildade para nos contar segredos que deveriam ser ultra secretos, mas ele amava nos ensinar, assim como a Deusa da Lua, nós não eramos nada além de filhos queridos para o grande Deus do Sol.
E depois de terminar mais um treino absurdamente difícil e pesado, o Guaracy nos deu 10 minutos de descanso, antes de nos mandar de novo pra terra, mas ninguém falou dessa vez, nós apenas ficamos no chão, deitados, tentando se recuperar do treino, considerado que ele era intenso o bastante para fazer almas sentem dor.
E depois de alguns segundos deitados no chão de magma, cada um começou a flutuar lentamente no espaço, indo de volta pros seus corpos, e dessa vez ninguém abriu os olhos, eles queriam guardar toda a força que tinham apenas para se recuperarem, antes mesmo de chegarem nos corpos.
Quando me senti voltando no corpo, e a “água” em volta de mim se esvaziando, senti uma dor bem familiar em mim, uma dor que eu já sabia que era melhor ficar parado por algum tempo pra que a dor não piorasse, apenas respirar causava uma queimação e dor em lugares que eu nem sabia que tinha.
E no meio da dor que eu tentava manter a minha dor sob controle, ouvi a voz da Artemis, que com certeza tava querendo me distrair da dor.
Artemis: “o treino deveria ter ficado mais fácil, então porque eu to me sentindo ainda mais dor agora?”
Nossa, era exatamente isso que eu tava pensando, eu só não respondi a Artemis porque eu tava usando toda a minha força pra me manter respirando e consciente.
Artemis: haha, parece que alguém aqui ainda nao consegue me responder ainda, bom, respondendo sua dúvida, com todos os treinos que seu corpo, alma e mente passaram. Cada um deles testou a própria resistência aguentando uma fração do poder do Reino do Sol, e depois de uma grande quantidade de testes, seu corpo agora consegue aceitar por completo o poder do Reino do Sol, sem nenhuma restrição.
Nossa, ouvir aquilo me deixou impressionado, eu sabia que minha alma realmente tendo tanta evolução, minha alma tava tão diferente e tão forte que eu queria rir, mas meu corpo ainda tava muito fraco pra eu fazer qualquer coisa, e entendendo isso, a Artemis continuou.
Artemis: antes, você só estava testando o ambiente, como se estivesse saboreando uma sopa, e agora você tá realmente bebendo ela. Então, não fica irritado se parecer que o treino ficou mais pesado, ele só ficou mais difícil porque percebemos como você conseguia aguentar o novo nível.
Não consegui responder, mas essa noção de quanto minha força aumentou me deixou tão animado, que mesmo sem me mover, a Veterana entendeu na hora o que eu queria dizer.
Artemis: boa sorte João, você vai precisar enfrentar aquele torneio doido.
Queria responder, queria dizer “é, eu sei, obrigado”, mas meu corpo não permitiu, só consegui respirar de olhos fechados, esperando que quando enfrentasse os grandes campeões no próximo torneio, eu conseguisse criar um espetáculo com o que eu aprendi com o Guaracy hoje.

