No dia seguinte, eu fiz um pedido um pouco especial aos meus amigos, e um pouco mais tarde, encontrei a Tainá, a Elena e o Nilo em um grande museu de arte, eu gostava bastante de visitar esses museus, porque além desses lugares serem lidos de forma inimaginável, eles sempre carregavam algo lindo, incrível e único. E às vezes a viagem inteira estava apenas em apenas pintura.
Enquanto eu voava pelos ares pela minha prancha, cheguei na ilha certa sem muitos problemas e depois de viajar um pouco pela cidade, encontrei uma das grandes galerias de artes do arquipelago, e assim que cheguei na porta, a Elena, a Tainá e o Nilo já estavam me esperando.
Elena: meia hora atrasado, a essa altura eu nem me impressiono mais
João: olha, sei que e to muito atrasado, mas vocês não vão acreditar nas doideiras que eu acabei de passar
Elena: sim, eu não vou acreditar, porque eu não quero ouvir, podemos cortar o papinho é só entrar, por favor?
A Elena tava irritada, mas dava pra ver que tinha outra coisa além da irritação, era a curiosidade.
Elena: o que você queria nos mostrar:
João: vocês vão ver.
E com uma calmaria extrema, os levei pra dentro do lugar, e sorrindo, eu os guiei para o lugar certo, pois mesmo conseguindo ir lá sozinhos, eles gostavam de ir pra lá quando comigo, pelo fato de eu conseguir ver detalhes em pinturas que eles nem podiam imaginar antes, os fazendo aprender várias coisas e guardar com grande carinho no coração, pinturas que antes, eles não viam nada de especial.
E pensando no que seria bom ensinar pra eles agora, cheguei em uma pintura interativa que eu gostei muito da primeira vez que a descobri.
Pintura interativa, eram pinturas que se tinha permissão de tocar, ate um certo limite, aquela era uma pintura bem simples, um grupo com vários animais, um elefante, um peixe, um pássaro e um macaco. E tinha uma escritura bem simples bem abaixo deles.
TESTE FINAL, SUBA A ÁRVORE.
Eu gostava muito daquele pintor, porque ele amava pegar pinturas “comuns”, e criar muitas lições legais com as pinturas interativas dele
A maioria das pinturas daquele quadro era uma representação bem simples de injustiça, de como ter igualdade não bastava, todos iriam ter o mesmo teste, mas não podia ser um teste igual, porque as pessoas não eram iguais, nunca foram.
Nilo: humpf, já vi o suficiente desses quadros pra já entender a mensagem de coor
João: ah é, mas algum deles podia fazer isso?
E eu toquei levemente no macaco, enfiando um pouco da minha Aura pra ele, e logo a imagem começou a se mover, fazendo o macaco ficar vivo e subir na árvore com uma velocidade absurda, terminando o teste antes mesmo de começar a contagem.
Tainá: pffff, esse é fácil de entender, o macaco representa as pessoas para que esses testes foram feitos, pessoas que são feitas para encaixar nos moldes, pessoas que não tem visões de mundo, nem maldições, e nem doenças que os impeçam de ser pessoas normais
João: é, verdade, e também tem esse.
E eu deslizei o meu dedo devagar até o pássaro, que apenas abriu suas asas, e foi sem problemas para cima e desceu devagar na árvore.
Elena: esse é fácil de saber também, o pássaro é aquele que está “acima” do teste, tendo uma facilidade que nem o macaco, aquele que o teste foi feito, deveria ter…mesmo que eu não tenha um exemplo de cabeça de quem deveria ser o pássaro
João: muito bem dito, mas agora me digam, o que esse aqui significa?
E num deslize, eu coloquei minha mao em cima do peixe, e o peixinho fez algo que pegou todo mundo de surpresa.
Ele não estava dentro de um pequeno aquário, pelo contrário, ele tava dentro de um grande rio, um rio onde ele não era contido, e olhando aquilo, a Tainá se sentiu mais atraída do que eu pensei que seria possível, ela queria falar alguma coisa, mas antes de falar qualquer coisa, eu a parei, deixando que o peixe terminasse o trabalho.
E com a ajuda da correnteza, o peixe saltou pra cima com tudo o que tinha, caindo em cima da árvore, completando o teste.
Depois de alguns segundos, o peixe começou a se debater até quase ficar preso, mas depois de alguns segundos, o peixinho caiu e voltou se debatendo pra água.
Me virei pra Tainá pra fazer uma pergunta, mas primeiro a olhei com cuidado, vendo o quão surpreso e de olhos arregalados ela tava ainda.
João: e aí, o que você acha que o peixe significa?
E quando ela olhou pro peixe, ela recebeu uma fascinação do olhar que apenas mostrava como ela olhava aquele simples peixe com olhos que ela sequer podia imaginar mais nova, mas agora estava tão nítido que dava pra ver o quão ingênua ela se sentia por não era pensado nisso antes.
Tainá: (respira fundo) o peixe é…todas as pessoas que tentam colocar em uma caixa, ou melhor, em um pequeno aquário, agora eu vejo, não dava pra ele conseguir fazer o teste se ele se limitasse, se o peixe tentasse negar o que ele era, e tentar apenas ficar no aquário, um lugar onde ele não conseguia usar tudo que ele era, toda a essência do ser dele, ele nunca teria a força pra conseguir completar o teste.
A loira sorriu, ficando cada vez mais feliz e iluminada quanto mais entendia a pintura que a alguns segundos atrás, ela pensava ser simples.
Taina: então de forma irônica, apenas quando o peixe pode nadar com todas as suas forças em um rio perigoso, profundo e duro, mas ainda sendo a casa dele, é que ele conseguiria realmente completar o teste, e nunca tentando se encaixar em um pequeno aquário, porque é quando ele tenta se encaixar no pequeno aquário, ele não consegue fazer o teste
João: e mais o que:
Tainá: também tem o fato de que, o peixe não pode se satisfazer apenas em completar o teste, ele conseguiu, ele provou que ele conseguiria subir na árvore, mas se ele tivesse tentado ficar lá em cima por muito tempo, se ele tivesse ficado em cima da árvore, e apenas se esquecesse que apesar de todas as conquistas, ele ainda era um peixe, ele teria apenas secado e morrido asfixiado…porque ele é um peixe, e por mais difícil que fosse se debater no meio dos galhos, e se debater na grama escorregadia e estranha toda até o rio novamente, descer e voltar ao rio era tão importante quanto subir na árvore, por que o pixe nunca poderia se livrar do fato que ele nunca poderá se desfazer do rio, não importa o quanto ele tentasse
João: se debater de volta pra água é difícil, mas é algo tão necessário que os peixes que não aguentam fazer isso nem percebem o quanto estão sufocados até ser tarde demais.
Eu demorei meu dedo em cima da imagem do peixe, fazendo com que o “video” do peixe usando a grande correnteza pra subir na árvore, e depois se debatendo com grande força apenas pra voltar a grande correnteza fosse repetido, de novo, de novo, denovo e de novo.
Elena: esse peixinho consegue significar tantas coisas, é lindo
João: consegue se ver no peixinho?
Elena: com certeza…tenho certeza que se ouvissem a explicação da Taina, até mesmo “pessoas” vão entender que são peixes, em uma certa extensão
João: em certa extensão, todos nós somos um pouco de cada animal, um pouco macacos, um pouco pássaros, um pouco peixes, e claro, um pouco elefantes.
E com isso, passei meu dedo em cima do elefante e deixei o vídeo inteiro sair, existiam os macacos, que eram feitos pro teste, os pássaros, que conseguiam estar acima do teste, os peixes, que podiam completar o teste sendo eles mesmos.
E tinham os elefantes, as unidades da natureza incríveis, que assim que chegavam perto da árvore para fazer o teste, eles entortaram a árvore até ela cair no chão, e pisando com bastante cuidado em cima da árvore caída, eles chegavam no topo e pisaram nela, como se não fosse nada demais.
E novamente tudo ficou bem silencioso, eu sorri enquanto eles olhavam para o grande elefante, derrubando a árvore, de novo, de novo, de novo e de novo, e pisando nela bem forte toda vez. E quem ficou mais olhando para ela foi o Nilo, e olhando pra ele e olhando de novo pra pintura, eu falei.
João: tem algo que queira dizer sobre a pintura Nilo:
Nilo: eu sinto que o elefante representa bem aquele que consegue completar as tarefas, mas apenas quando ele não tenta ser outras coisas, esse elefante apenas consegue chegar ao topo da árvore quando ele não tenta a escalar como um macaco, voar como um pássaro ou saltar como um peixe, por mais óbvio que pareça, o grande elefante só consegue chegar ao topo da árvore quando ele entende que ele é pesado demais para subir na árvore sem a derrubar, e apenas quando ele deixa de se envergonhar de que ele precisa derrubar a árvore inteira que ele realmente consegue passar no teste…
E na pequena realização que o Nilo teve naquele momento, eu não fiquei com vergonha de deixar claro como eu também aprendi bastante coisa com o que ele acabou de falar, mas ele continuou, depois da pequena epifania.
Nilo: …muitos elefantes são ensinados desde pequenos que eles são perigosos, que eles são grandes demais, pesados demais e fortes demais, como se isso fosse um insulto…e apenas quando eles perdem essa vergonha de serem eles mesmos que eles realmente possam derrubar árvores
João: ênfase apenas em “derrubar” e não destruir
Nilo: como assim:
João: enquanto muitos elefantes são ensinados que eles precisam ter vergonha da força e o tamanho imenso deles, muitos elefantes aprendem que isso é tudo que importa, e quando eles são colocados nesse teste, eles não passam, porque eles destroem a árvore, ao invés de apenas derrubá-la, uma leve diferença, mas com uma visão de mudo bem distinta.
O Nilo ficou sem palavras ao ouvir aquilo, era nítido que ele queria entender tintim por tintim o que eu quis dizer, então eu continuei.
João: mas enquanto derrubar a árvore apenas seria bem difícil, destruir a árvore deixa o elefante cheio de farpas, farpas que deixam o animal mais agressivo, violento e cruel, farpas essa que o Elefante nem percebe muitas vezes, apenas entendendo quando o quão machucado está quando fez tantos erros que já estava sozinho, sem ninguém ao seu lado, e que o teste, onde ele tecnicamente completou, o destruiu.
O Nilo entendeu bem o que eu queria dizer, não estavamos mais falando de elefantes, mas eu não podia parar, não agora.
Joao: infelizmente o elefante apenas entende isso quando já ensinou esse método errado de completar o teste pros filhos…claro, existem elefantes que aprendem o método certo, e por causa disso que o elefante aqui derruba a árvore, demorou, mas quem pintou essa pintura, ou a pessoa que a criou aprendeu a derrubar a árvore e ficar sem farpas ao invés de apenas a destruir…e apenas ver que ele aprendeu tanta coisa a ponto de expressar isso nessa pintura me deixa absurdamente feliz.
Eu sorri de uma forma bem doce, e eu só tinha certeza disso porque eu via o olhar iluminado que a Elena, a Tainá e o Nilo estavam dando pra mim, ao mesmo tempo que eles estavam olhando de forma tão contemplativa para o quadro, cada um deles entendeu bem rápido que aquilo não era apenas sobre animais, nunca foi.
Nilo: impressionante, conseguimos aprender tanta coisa apenas com um simples quadro
Joao: aquele que criou o quadro entendeu tudo que nos entendemos, mesmo que superficialmente, e pintou esse quadro de forma interpretativa para muitas pessoas entenderem a mais, pelo menos é isso que eu quero acreditar
NIlo: hmhm, você realmente tem um dom com as palavras João
João: até que não, vocês apenas não pensam que o que eu digo é doideira, e isso ajuda bastante também
Nilo: quando você fala desse jeito também né.
E pensando naquilo, nós ficamos ali, olhando pro quadro por algum tempinho, até que agente respirou fundo e fomos por mais algumas exposições, mais quadros, enquanto conversávamos, ríamos, e brincávamos sobre cada quadro doido que nós viamos.
Eu até dava um beijo ou outro na Elena, e enquanto a Tainá ficava super desconfortável, o Nilo olhava com muito amor, como se aquilo fosse a coisa mais romântica que ele já viu em toda a vida dele.
A maldição da Tainha deu muitos problemas, porque muitas vezes, ela ouvia pessoas a xingando, e ameaçando e até a cantando, sendo que muitas vezes isso tava longe de acontecer.
Mas a pior parte era que algum deles realmente cantavam ela, o que deixava muito difícil acalmar a garota as vezes, mas apesar de tudo, comigo perto dela e fazendo carinho na cabeça dela (algo que eu percebi que ela gostava muito) ela conseguia se acalmar.
E quando o dia acabou, todo mundo ficou bem triste que iriamos nos separar.
Elena: hummmm, às vezes eu queria poder me grudar em você
Tainá: ah, não precisa exagerar tanto também
Nilo: é, depois do dia que eu tive hoje, eu sinto que eu preciso ficar um pouco tempo apenas deitado em um canto e sem me mexer
Elena: falou e disse ao parceiro.
Eu nem tentei entender o que a Elena quis dizer com isso, como uma capoeirense é uma guardiã de templos, eu tinha certeza que ela tinha mais de 1000 motivos pra querer descansar, então apenas me separei deles e comecei a andar pra casa, mas no meio do caminho, eu mandei mensagens para alguém.
(começo da transmissão).
João: oi Luca,
Luca: oi Joãozinho
Joao: ai, você vai ficar irritado se eu quiser que agente veja algo diferente do programa da “selva” semana que vem?
Luca: porque: o que vai ter semana que vem?
João: a veterana Artemis vai lutar no domingo, e vai ser uma luta super doida e super especial, e eu queria saber se você queria…vir pra casa do meu tio pra nós três vermos ela juntos
O Luca não respondeu de imediato, mas eu queria acreditar que ele diria sim, eu fiz o favor de pedir isso pra ele em uma quarta, onde ele teria mais do que tempo o suficiente pra pensar se valia a pena ou não me acompanhar nessa missão incrível de acompanhar a veterana na vingança dela contra a prima.
Luca: a casa do seu tio é calma?
Joao: tão calma quanto a casa de um lobisomem pode ser
Luca: tô dentro, te vejo no domingo
(fim da transmissão)
Não vou mentir, apesar de ter tudo aquilo planejado a muito tempo, fiquei realmente surpreso dele ter levado tão pouco tempo para dizer “sim” para o que eu queria, bom, acho que só podia pensar que aquilo era a forma dele de me mostrar que melhorou.
E considerando o quanto o Luca temia que a casa do meu tio fosse tão barulhenta quanto qualquer “casa e tio” era, talvez ele próprio queria se provar, pra ver se ele realmente tinha melhorado ou não, e quando pensei nisso, fiquei curioso pra ver o que iria acontecer.
A transmissão do meu tio não durou nem 10 segundos, só pedi pra ele colocar a pintura de transmissão dele para transmitir algo ao vivo, ele não entendeu de imediato, mas sabia que para eu pedir isso pra ele, deveria ser algo bem doido é incrível que eu queria ver, e de certa forma, ele estava certo.

