Quando acordei de vez, fui direto pra casa para começar a trabalhar, mesmo que eu tivesse saído da escola, eu ainda precisava ajudar em casa, e depois de algumas horas pintando proteções, ataques, e rastreadores em vários tipos de paredes, pinturas e armas, eu me coloque em marcha pra ir pro grande torneio.
Eu não ligava para o trabalho, pra mim aquilo era apenas algo que eu usava até minha carreira de boxeador destrinchar, eu tinha um colega que gostava de dizer "mãe se não destrinchar? Você não quer ter garantia que você vai ficar seguro?" e aquela simples frase me fez ter um medo sincero do pior do que iria acontecer, mas eu queria acreditar que no pior dos casos só poderia investir nas pinturas, não teria nenhum problema nisso de qualquer forma, não é? hehe.
E diferente das outras vezes, meus pais não vieram me ver, porque eu ia participar de um torneio na arena transmitida por todo o mundo. E a cada barreira do torneio que eu passava, mais impressionado eu ficava, primeiro a grande arena ficava em uma gigantesca montanha, mas que não tocava no mar branco, mas que ainda era absurdamente grande.
Dentro do lugar, existia tanto luxo que até o pior dos cantos da arquibancadas parecia uma coisa de área vip.
E a arena, em sua simplicidade de ser apenas um grande chão preto e liso, deixava possível colocar todo o tipo de proteção dentro dela, coisas como, impedir que as pessoas caíssem pra fora da arena, apenas pra começar.
E o motivo daquela arena ser tão especial, é que ela tinha um tipo bem diferente de desafio, um desafio que eu aceitei de bom grado, mesmo sendo de graça, e depois de me aquecer e me alongar, coloquei meu uniforme (como uma forma de divulgação do treino). E quando eu fui pro meio do ringue, o apresentador falou.
Apresentador: SENHORAS E SENHORES, CRIANÇAS DE TODAS AS IDADES, MAIS UMA VEZ NÓS TEMOS AQUI UM CORAJOSO COMPETIDOR, QUE MAIS UMA VEZ ACEITOU O DESAFIO DOS 100 GUERREIROS, UMA SALVA DE PALMAS PARA NOSSO CAMPEÃO, JOÃO CARDOSO.
E com uma saraivada de palmas, cada pessoa ali me deu um pouco de sua motivação, o espírito de todos ali incendiaram o meu, me dando uma energia maior que qualquer adrenalina em meu corpo poderia criar por conta própria.
E numa grande alegria, me coloquei em guarda enquanto o primeiro guerreiro se colocou na minha frente.
O lutador parecia forte e lentamente, avançou até mim, ele tinha o mesmo tamanho que eu, então o fitei com um chute peito, ele defendeu a cabeça, mas deixou as costelas abertas, costelas que eu acertei sem esforço algum.
Ele se contorceu todo e tentou me atacar, mas eu desviei, esquerda, direita, e logo dei uma sequência de jab, cruzado, aper, uque, faca, cobertura e peito. Terminando com um frontal que jogou o garoto pra longe.
Mas o lutador não desistiu, ele avançou até mim, tentando me dar um golpe de corpo, mas eu desviei com cuidado, o mantendo longe através de jabs, e quando queria um momento pra respirar, eu o dava um frontal na barriga, que ele nem mesmo conseguia defender.
Ele levou 10 frontais, antes de não conseguir mais se mover. Mesmo com o ambiente mais calmo, coloquei todo meu foco na porta, já esperando o próximo, aquele era apenas o primeiro, ainda falavam 99.
Não sabe se os apresentadores fizeram aquilo de propósito, mas os guerreiros que mandavam pra mim não eram muito fortes, em meu máximo de energia e foco, eu conseguia acabar com eles sem nem suar, mesmo que eu ainda tivesse que os levar a sério e não abaixar a guarda.
Bom, isso era quando eu usava todo meu poder, mas quando o lutador número 40, já sentia o cansaço chegando, era a consequência de nunca baixar a guarda e sempre levar tudo da forma mais séria possível, uma que eu aceitei de muito bom grado.
Mas o pior era que os lutadores percebiam meu cansaço, se dedicando ao máximo torna-lo ainda maior e mais forte, a ponto onde nao consegui mais desviar e comecei a defender os golpes.
Foi engraçado ver como os guerreiros se impressionaram como até minhas defesas conseguiam jogar os punhos deles pra longe e me permitiam revidar.
Já que eu entendia como jogar o peso do meu corpo nos lugares certos, receber os golpes ainda cansava mais que desviar, mas eu não tinha outra escolha.
Além de que receber e aguentar cada vez mais golpes aumentava minha raiva, o que me dava a força perfeita para continuar atacando sem parar por nada nesse mundo.
E depois de passar do 50, parei de desviar totalmente. Antes, os socos e chutes dos guerreiros pareciam óbvios quase como em câmera lenta, mas agora, eles estavam tão rápidos que eu não podia perdê-los de vista, ou ia me machucar muito.
Minha boca estava salivando, desejando água, enquanto meu corpo se enfraquecia bem devagar, mais pelo cansaço do que pelos golpes. E tentando me manter firme, me coloquei em guarda e tentei me focar o máximo possível nos ataques.
Um jab voou no meu rosto, eu desviei e devolvi com um chute peito do pé na cara, seguido de um faca e um chute cobertura, jogando meu calcanhar bem na cabeça dele, o colocando pra dormir apenas com alguns golpes.
Não pensei no cansaço, apenas pensei como já tinham sido 61, agora só faltavam 39, eu passei da metade.
Meu próximo oponente tentou me pegar de surpresa, correndo até mim e me dando um chute na cara, mas eu defendi a tempo, mas foi nessa hora que vi como meu corpo tava me traindo, eu senti minhas pernas tremendo e ficando fracas.
E pra tentar me manter no lugar, apertei as minhas mãos dentro das luva de boxe com tanta força, que eu consegui sentir a dor nos dedos das mãos, aquilo, de alguma forma, conseguiu me manter no jogo o suficiente pra eu acertar um direto no numero 62, mas novamente fiquei surpreso com minha própria fraqueza e lentidão, vendo como o número 62 desviou me acertou com ou direto na cara na cara.
Eu quase desmaiei quando ele fez aquilo, mas eu resisti com nada além da mais profunda raiva. Mordi meu protetor de boca até ele quase se desfazer na minha boca, eu me sentia como um touro desgovernado que estava cheio de barris para cabecear, e como um bom garoto, eu não desperdicei meus presentes.
No fim, a minha velocidade e força não diminuíram, mas minha técnica diminuiu, pois quando a raiva, adrenalina, e alegria pela violência. Foi o que restou para me manter na briga, eu acabei perdendo a técnica no meio do caminho, mas apesar de toda a dor e golpes que eu tava sentindo no meio do caminho, eu consegui acertar meus golpes neles, fazendo muitos deles caírem.
Infelizmente, essa minha desorganização me fez pagar um preço bem alto, além da dor normal, meu rosto inchado, e os 3 e até 5 dentes que eu perdi no meio do caminho, eu ainda tive uma surpresinha quando cheguei ao lutador 88.
Quando o número 88 veio, tudo estava "normal", considerando que eu tava já me acostumando com aquele lugar, até que eu levei um chute faca bem na cara e cai pra trás...eu não tinha desmaiado, mas quando eu tentei levantar, senti minha mente vacilando...droga, se eu realmente quisesse ganhar, teria que ir um pouco mais devagar agora.
E com minha guarda alta e meu senso de perigo já no 200%, fui atrás do número 88, no meio do confronto, tentei me lembrar de todas as técnicas que esqueci no meio do embate, jogar o peso do corpo pra cima dos golpes foi a primeira coisa que eu lembrei.
A segunda coisa, e mais eficaz também, era sobre "esperar o momento perfeito", e esse momento foi quando em um dos socos do 88, a barriga dele ficou exposta, seja por falta de experiência ou desleixo por minha fraqueza.
Eu cobrei esse erro dele dando um chute faca bem no diafragma, o fazendo se curvar quase como um canudo, mas consegui o colocar em pé novamente com um aper, e terminei com um chute peito na cara dele, um chute tão forte que o fez voar do chão e cair rolando na terra, e diferente de mim, ele não levantou.
89, ainda faltavam 21 lutadores, ou eram 11? Eu já estava perdendo a minha noção de quantos números faltavam, mas me mantendo no lugar, eu me foquei na técnica, quando minha raiva se apagou e minha alegria se esgotou por completo, a técnica foi a única coisa capaz de me manter no lugar.
Um direito saltando no ar, e eu derrubei o 93, um faca giratório que levou o 97 pro além, uma grande investida de corp, seguida por uma sequência de socos que fez o 99 ficar tão encurralado que ele foi nocauteado de pura exaustão...e no meu mais profundo desespero, dor e raiva, o número 100 apareceu.
Ele não parecia muito diferente dos outros, mas depois de receber todo o tipo de soco, depois de cair mais de 180 vezes e de receber golpes no meio de todo esse cansaço, eu sabia muito bem que aquela batalha seria intensa, apenas para começar.
E quando o guerreiro veio até mim, totalmente descansado, e hidratado, usei toda a raiva da injustiça pra avançar com tudo até ele, os socos que pareceram em câmera lenta, agora parecia teletransportar.
E os socos que antes pareciam ser cosquinhas e em câmera-lenta pra mim, agora eram grandes golpes de poderosos canhões que até pareciam teleportar.
"Tava tudo bem desistir, eu já tinha feito o suficiente", "eu já tava mais do que satisfeito em questão de selvageria", e "também já tinha esgotado toda a raiva da semana que eu acumulei".
Pensamentos como esse inundavam minha mente, e mesmo assim, eu continuava ali, frente a frente ao número 100, movido pela minha pura teimosia que eu não queria cair no chão, no fim, eu e o vovô não éramos tão diferentes assim.
O lutador me deu uma sequência simples, jab, direto, peito, faca. Uma sequência simples que não pude desviar, ele sabia o quão exausto eu estava então ele fez a mesma sequência várias vezes, ousando que eu fizesse alguma coisa, e essa ousadia custou sua vitória dele.
Pois em cada sequência debochada dele, minha raiva voltava devagar, até que eu acumulei o bastante pra atacá-lo, eu ainda tava muito fraco, mas eu tava disposto a descarregar tudo nessa sequência final, se o número 100 continuasse de pé depois daquilo, eu iria me ajoelhar, admitindo a derrota.
Meu primeiro soco foi rápido, silencioso e imprevisível, porque nem o número 100, nem a plateia, nem eu mesmo. Pensávamos que eu ainda tinha forças pra ser tão rápido assim, sendo tomado pela minha adrenalina recém acumulada, comecei: jab, direto, cruzado, cruzado, aper, aper, uque, uque, swing, swing, chute peito perna da frente, peito perna de trás, chute faca perna da frente, faça perna de tras, ura, cobertura...
João: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH.
O rugido animalesco só foi o toque final, como se meu corpo estivesse entregando até a própria voz pra conseguir vencer o numero 100, incorporando por completo o animal encurralado que eu tinha me tornado, socando e chutando, a ponto de eu obrigar o número 100 a se encolher na própria guarda igual uma tartaruga, eu apenas parei de bater quando eu ouvi ele dizer alguma coisa.
Lutador: (sussurro super baixo) eu me rendo.
No momento em que ele falou aquilo, eu parei de bater, mas não baixei minha guarda, apenas me afastei dando saltos pra traz, afinal, ele falou tão baixo que ele podia apenas me atacar e dizer e nunca tinha se rendido, tinha trapaceiros que faziam isso mesmo, então cuidado nunca era demais.
Ai, meu corpo tava queimando, tava cansado e pesado de uma forma que eu nem sabia ser possível, e a minha cabeça...ah, nem queria pensar muito nisso, se eu pensasse na dor que eu tava sentindo na minha cabeça agora eu com certeza iria desmaiar.
E enquanto eu olhava pro meu oponente, vi que ele se ajoelhou no chão, ele até falou de novo, mais de uma vez, mas a voz dele estava tão fraca que não dava pra entender o que ele dizia.
O Juiz foi até ele, pra ter certeza de que ele tinha desmaiado ou não, ele ainda estava consciente, mas ele com certeza não queria mais lutar.
Juiz: o vencedor, é o João.
E com uma grande salva de aplausos, eu fui agraciado com os aplausos da plateia, e como se minha alma tivesse me emprestando um pouco do poder do meu próprio ser, eu levantei meus braços e deixei que todo aquele amor e glória viesse até mim, algumas pessoas até chegaram a jogar rosas no meio da plateia, algo que eu achei bonitinho, mesmo eu ja tendo dona.
Eu vim aqui apenas para satisfazer minha selvageria, mas ver tanta gente assim me adorando pelo meu show selvagem que dei me fazia realmente enxergar as coisas com bem mais alegria do que um simples "alívio" pra mim.
E novamente, me permitindo ter um pouco mais de alegria, sai andando da arena, algo que eu tinha dúvidas se eu conseguia fazer sozinho pelo quão machucado e cansado estava, mas ainda ousei, e diferente do meu oponente, minha ousadia me fez ser aplaudido ainda mais.
Apresentador: E LÁ VAI ELE, DEPOIS DE QUEIMAR POR INTEIRO 100 GUERREIROS, JOÃO IMORTAL SAI DA ARENA ANDANDO.
Eles começaram a me dar esse apelido pelo simples fato que eu caia muito, mas eu sempre conseguia levantar e lutar novamente.
E assim que eu saí dali e encontrei um lugar onde eu não tinha ninguém me olhando, uma salinha onde os lutadores ficaram pra se preparar, me deitei na cadeira estendida, e me permiti dar um gemido de dor tão profundo e tão longo, que eu fiquei surpreso que eu não desmaiei assim que eu terminei o gemido.
Joao: TA DOENDO, TA DOENDO TUDO
???: normal, depois de tudo que você fez, apenas hoje, seria estranho se você não estivesse sentindo dor.
E apesar da dor absurda que eu tava sentindo, ainda virei meu rosto sorrindo, porque eu tinha certeza de quem era a voz, e quando a vi, minha dor pareceu diminuir no corpo.
Eu nem iria perguntar como ela entrou ali, não sabia o quão bom isso era, mas as mulheres da minha vida eram muito boas em convencer pessoas a fazer o que elas queriam. Então eu só ri e falei.
João: nossa Taina, você realmente foi bem longe pra me ver
Taina: você espancou 100 pessoas de uma vez, é claro que eu não podia perder isso.
Ela me olhou com doçura, mas eu sabia muito bem o que tava atras daquela doçura, já que ela tinha uma pequena quantidade de fãs que ajudaram a divulgar meu trabalho, então eu falei.
Joao: hehe, legal, mas pode me prometer uma coisa, não conta isso pra ninguém, tá bom? Lutadores profissionais não mostram o que aparece nos bastidores.
E com um sorriso bem tranquilo, mesmo estando bem nublado, por causa das vozes que a atormentavam desde bem nova, ela se aproximou de mim com bastante calma, tocou minha cabeça toda suada e falou.
Tainá: estou aqui como sua "filha" e não como sua fã, pode ficar tranquilo
João: (sorri) bom saber.
Muita gente poderia achar estranho nossa relação, mas eu tinha muito orgulho dela, porque eu gostava muito de ver ela dessa forma também.
E enquanto isso, eu também pensei muito na outra pessoa que eu considerava um "filho", e como ele participaria de um jogo em breve,, ha, isso seria incrível.

