\nFLASHBACK DO CAPITULO INTEIRO
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\nMeu sonho me levou diretamente a uma lembrança antiga, uma lembrança que, por mais traumatizante que fosse, era uma que eu carregava com extremo carinho.
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\nUma lembrança de apenas um ano atras, quando a minha cota de treinos de aura e de controle de emoções tinham encontrado o limite certo, e depois disso tudo, o grande teste de Jaci, um teste que Jaci insistia em dizer o quanto era avançado, e que eu poderia acabar bem machucado no meio daquilo também, mas eu não ligava.
Diferente do reino escaldante, radioativo e com gravidade pesada que era o reino do Guaracy, o reino da Jaci parecia uma terra de descanso, um lugar coberto de nuvens que se estendiam até o mais profundo horizonte, um céu escuro, coberto de estrelas que faziam todo o tipo de constelações que não podiam sequer ser vistas da terra. Além de ser absurdamente tranquilo e fresco ali.
E no meio de toda aquela calmaria, Jaci, a Deusa da Lua, se aproximou de mim, com uma linda saia que era decorada com penas de araras de verdade, e um paletó que parecia feito de pele de onça, Junto com pinturas brancas que se destacavam bem em sua pele escura.
Ela tinha cabelos e olhos totalmente brancos, sem nenhuma pupila, mas isso estava bem longe de deixá-la menos amigável do que parecia, aquele corpo carregava um grande poder, mas carregava um carinho que facilmente desarmaria qualquer um.
Jaci: ola João
João: olá Jaci, já faz um bom tempo
Jaci: realmente, então, está pronto pra encarar seu abismo
João: não…mas vou tentar
Jaci: boa resposta, ninguém está realmente pronto pra encarar o próprio abismo, principalmente na primeira vez, mas muitos se saem bem melhor do que realmente pensavam, venha.
A Jaci então com um estalar de dedos, criou um grande poço, e com cuidado, estendeu a mão, me chamando, e comigo segurando a mão dela, eu andei bem devagar para o centro do grande posso, parecia ter uma pequena camada de energia, impedindo que eu fosse afundado.
Uma voz na minha cabeça se perguntava “até onde isso vai durar” mas ignorei a voz por alguns segundos, até chegar finalmente no centro do grande posso, e quando eu olhei para baixo, vi que era um grande poço, um poço que não parecia ter fim, e que parece poder me consumir se eu o olhasse demais, e o mais doido era que eu pensei que eu queria que isso rolasse.
Jaci: “aqueles que combatem monstros, precisam ter cuidado para não virarem monstros também, olhe muito tempo pro abismo, e ele te olhará de volta”. Um dos maiores sábios do mundo falou isso, e até os dias de hoje, essa mensagem é muito mal entendida. Olhe pra baixo.
Quando fiz aquilo e quando encarei o grande abismo, eu vi minha violência, minha raiva, e minha inveja sincera de muitas pessoas, como o Raony e o Sansão, cada um por motivos diferentes, mas isso era apenas a ponta do iceberg.
Jaci: diga-me, o que você vê?
Joao: nada que eu não tenha visto milhares de vezes e gostado
Jaci: hum, vamos ver até onde isso vai durar.
E comigo ainda olhando pro grande abismo, eu vi, um pouco da escuridão começou a mudar, até se transformar em um rosto com olhos brilhantes e cheios de brutalidade e dor, me dando um medo tao grande que me fez recuar e desviar o olhar.
Jaci: NÃO DESVIE O OLHAR.
Fiquei com medo, mas assim eu obedeci, olhei o grande rosto que apareceu dentro do meu abismo…e ali, eu vi meus medos.
O medo que a Elena me traísse, pela forma como muitas pessoas estavam comemorando a traição ultimamente, o que me fazia medo dela ser pega no meio disso.
Meu medo de que eu nunca iria conseguir entender meu avô, pelo menos não como a vovó.
Meu anseio por ter um filho, sangue do meu sangue, aqui, perto de mim por tanto tempo, junto com meu medo que ele virasse uma aberração manipulada pelas pessoas erradas.
E minha ansiedade, em pensar em todas as pessoas, todos os parentes e amigos que jurei proteger contra tudo, era um sonho de criança que eu tinha desde que eu era bem novo, um sonho que sobreviveu até aqui com o meu próprio esforço, mas enquanto eu disputava o duelo de encaradas do abismo, eu notei quanto de dúvidas que eu tinha sobre mim.
Encarando o abismo, eu perguntei “e se eu falhar?”, “e eu se eu não for o suficiente?” e o clássico “e se tudo for em vão?” esse me atingiu muito mais forte do que tudo até agora.
Eu me senti meio mal depois de olhar aquele grande rosto de escuridão por tanto tempo, mas quanto mais o encarava, e mais sentia essas “dores” em mim que decidi ignorar, uma força misteriosa pareceu se apossar de mim.
Jaci: o que o grande nietzsche quis dizer com essa frase não era um aviso, mas um convite. Muitos pensam que olhar a própria escuridão, o próprio abismo onde você despeja todas as partes que você não quer olhar é algo fácil, mas não podia ter uma mentira maior do que essa. Sim, pode começar como algo simples e pequeno, como as coisas superficiais que você já sabia sobre si mesmo, mas quanto mais tempo você olha pro seu abismo, quanto mais você se aventura a encontrar as profundezas de seu ser, mais essas profundezas ouzam a te mostrar as coisas que você ignorou por tanto tempo. Porque o abismo está vivo, e ele quer ver muito bem as coisas que eram dignas de serem vistas, enquanto as coisas que o criaram eram rejeitadas com tanta força…mas muitos não estão preparados para dar um mergulho tão profundo dentro da própria alma
João: quanto mais eu o encaro, mais eu me pergunto se eu mesmo consigo
Jaci: você já tá indo bem melhor que muita gente.
A Jaci parou de falar por alguns segundos, vendo como eu fiquei olhando por algum tempo pro abismo, ainda entendendo algumas coisas sobre mim mesmo, como que…ironicamente, eu tinha um pouco de medo de mulheres, principalmente aquelas que “não cresceram” essas aí eram as mais perigosas.
Também vi como eu tava insatisfeito com minhas habilidades de desenho, o quanto eu tava contando os dias pra ficar forte o bastante para espancar o Mestre, e o quanto eu queria segurar forte a Elena, e marcar ela de forma tão intensa que ela sequer seria capaz de andar por dias.
João: meu deus do ceu…não para.
E com uma caminhada tão silenciosa que eu nem a senti chegando, senti as mãos da Deusa da Lua tocando nos meus ombros e fazendo uma massagem bem tranquilinha, pra me acalmar enquanto o abismo ainda me olhava com olhos famintos, que pareciam querer me consumir.
Jaci: e não é pra parar, quanto mais você o encara, mais calmo ele fica, e mais fácil fica estar na presença dele, você não percebe:
E assim que a Deusa da Lua falou aquilo, eu senti, meus pés, que pareciam estar pisando em cola algum tempo atrás, agora apreciam pensar em chão normal.
Jaci: de forma irônica, aqueles que são consumidos pelo abismo são aqueles que nunca o encaram, e por conta disso não estão prontos quando o abismo tenta nos arrastar pra baixo…eu espero bastante que você não seja um deles
João: tentarei não ser.
Desde aquele dia, eu tinha feito uma silenciosa rotina, onde sempre tentava conferir meu abismo, eu me impressionava com a quantidade de coisas que eu aprendia com ele. Talvez tenha sido ali que eu tenha me conectado com a minha Anima, mesmo sem saber.
Mas apesar da minha alegria de estar conectado com minha Anima, sabia que precisava cuidar do meu Animus também, e eu passaria por algo perfeito pra isso, daqui a alguns dias, e com esse pensamento, acordei, há, que sonho mais doido que eu tive. Será que ainda contava como sonho se fosse só uma lembrança vívida? Bom, eu poderia descobrir isso depois.
Quando acordei, vi que meus avos me colocaram num quarto de hóspedes que tinha duas camas de solteiro, e com minha querida Elena dormindo de forma pacífica do outro lado, e pelo rosto cheio de paz que ela tava agora, sabia que ela tinha feito o bastante para merecer um descanso bem demorado também.
E enquanto eu dava uma carta branca pra mim mesmo e me permitia dormir mais um pouco, pensei em como eu teria bastante coisa para alimentar o meu Animus logo logo.
Era ruim que eu não ia receber nada naquele torneio, mas a fama e a experiência valiam bastante também, e isso sem contar a adrenalina pura que era viver aquilo.

