Tiago tinha nove anos e já aprendera que o silêncio do pai podia ser pior que seus gritos. Quando Agenor reclamava do serviço, mandava alguém sair de sua frente ou resmungava durante o jantar, a casa inteira sabia o que esperar. O problema era quando ele parava de falar e começava a prestar atenção demais nas coisas. Nesses dias, Lúcia respondia somente o necessário, Tiago terminava a comida sem brincar e até o cachorro parecia preferir um canto mais distante. Naquela semana, o silêncio surgia sempre depois que Raul aparecia.
A família vivia em Ituberá, mas passava bastante tempo na casa que mantinha na roça do KM 23. Agenor cuidava da propriedade havia anos, e Tiago crescera acostumado a dividir os dias entre a cidade e aquele lugar de terra, cercas, plantações e caminhos que se afastavam da estrada. Raul morava no Pina, mas também possuía uma roça no KM 23, vizinha à de Agenor. Bastava atravessar parte da divisa para encontrá-lo trabalhando, e por isso sua presença nunca parecera estranha para Tiago. Às vezes vinha pedir uma ferramenta, outras trazia alguma coisa que sobrara da plantação ou simplesmente parava perto da casa para conversar.
Raul era mais novo que Agenor, falava alto e ria com facilidade. Tiago gostava dele porque nunca reclamava quando o menino fazia perguntas demais e, certa vez, passara quase uma tarde inteira ensinando-o a fazer um apito com um pedaço de galho. Ultimamente, porém, Agenor aparecia sempre que Raul conversava com Lúcia. Tiago não sabia por quê. Sabia apenas que a voz do pai mudava e que a mãe deixava de rir quando o percebia por perto.
Numa tarde, os quatro estavam na roça quando Raul chegou trazendo um saco pequeno de farinha. Lúcia saíra da casa para estender algumas roupas e reclamou que ele não precisava continuar levando coisas para eles. Raul apoiou o saco perto da porta. — Se eu deixar lá em casa, isso acaba estragando. Aqui vocês usam. — Ela disse que usaria e perguntou pela irmã dele, que continuava morando no Pina. Os dois conversaram mais um pouco, e Tiago, sentado no degrau descascando uma laranja, deixou de prestar atenção até ouvir a mãe rir.
Agenor vinha do fundo da propriedade carregando uma enxada. Encostou a ferramenta ao lado da parede, passou pelo filho e parou perto de Lúcia antes de olhar para Raul. — Você anda vindo muito aqui ultimamente.
Raul perdeu parte do sorriso. — Minha roça é logo ali, Agenor.
— Eu sei onde é sua roça.
Lúcia pegou o saco de farinha. — Ele só veio trazer isso.
— Eu já estava indo — disse Raul.
Agenor continuou olhando para ele. Raul passou a língua pelos dentes antes de se virar para Lúcia. — Quando acabar, deixa o saco separado. Depois eu pego.
Agenor ficou no terreiro até vê-lo seguir pela divisa das propriedades. Tiago continuou comendo a laranja e não perguntou nada. Naquela noite, quando já deveria estar dormindo, ouviu os pais conversando no quarto ao lado.
— Agora ele vem aqui a hora que quer? — perguntou Agenor.
— Raul sempre passou aqui quando a gente está na roça.
— Agora passa demais.
Lúcia demorou um pouco a responder. — Ele passa pela propriedade dele, Agenor. Não tem como deixar de existir só porque você está aqui.
A resposta do pai veio mais baixa, e Tiago não conseguiu entendê-la. Depois ouviu uma cadeira arrastar. Lúcia falou alguma coisa, Agenor respondeu, e a conversa morreu sem que nenhum dos dois levantasse a voz outra vez.
Na manhã seguinte, Agenor chamou Tiago para ajudá-lo numa cerca que precisava de reparo. O pai era diferente quando trabalhava. Explicava pouco, mas explicava. Mostrou ao filho como segurar o arame sem colocar os dedos onde poderia se cortar, corrigiu sua posição duas vezes e, quando Tiago conseguiu prender uma parte sozinho, examinou o resultado antes de dizer que estava bom. O menino sorriu. Eram os momentos em que gostava mais de estar com ele.
Raul apareceu perto do almoço trazendo uma ferramenta que havia pegado emprestada. Entregou-a a Tiago e brincou: — Toma. Vou devolver logo antes que teu pai diga que eu roubei. — Tiago riu. Agenor não.
Raul perguntou se precisavam de ajuda e comentou que uma das estacas estava torta. Agenor largou o arame que segurava. — Você anda preocupado demais com o que acontece aqui.
Raul apontou para a cerca. — Eu só falei da estaca.
— Então olha as da sua roça.
Raul lançou um olhar rápido para Tiago. — O menino está aqui, Agenor.
— Eu sei onde meu filho está.
Raul respirou fundo, pegou a ferramenta que Tiago ainda segurava e a deixou perto das demais. — Pronto. Já devolvi. — Voltou para a propriedade vizinha, e Tiago percebeu que o pai continuou olhando naquela direção mesmo depois que Raul desapareceu entre a vegetação.
Raul não voltou durante dois dias. Na terceira tarde, os pais de Tiago trabalhavam na roça enquanto ele brincava perto da casa. A voz do vizinho chamou sua atenção. Raul estava junto à divisa falando com Lúcia, que havia ido buscar alguma coisa no terreiro. Tiago continuou riscando a terra com um pedaço de madeira enquanto escutava trechos da conversa. Raul perguntou se Agenor ainda estava zangado. Lúcia respondeu baixo demais para o menino entender. Ele disse mais alguma coisa, e ela pediu que fosse embora antes que aquilo começasse de novo.
Agenor apareceu pelo caminho vindo da plantação. Trazia a enxada que usara durante parte da manhã e a deixou encostada perto da cerca ao se aproximar. — Eu já falei com você.
Lúcia se virou. — Agenor, não começa.
— Entra.
— Para com isso.
— Lúcia, entra.
Ela ficou no lugar por mais alguns segundos. Raul passou a mão pelo rosto. — Não mete ela nisso.
Agenor chegou mais perto. — Você é que devia ter deixado ela fora.
Tiago percebeu que a mãe o tinha visto junto à casa. Ela apontou para dentro sem falar, e ele entrou. Lúcia veio logo depois, fechando a porta com mais força do que precisava. — Vai pro quarto, Tiago.
— Eles vão brigar?
— Vai pro quarto, filho.
O menino obedeceu, mas ficou perto da porta. As vozes dos homens continuaram do lado de fora e aos poucos se afastaram. Quando não conseguiu mais ouvi-las, saiu. Lúcia estava na cozinha, abrindo uma gaveta e depois outra, voltando a fechá-las sem tirar nada. Tiago esperou até que ela ficasse de costas e escapou pela porta dos fundos.
Encontrou Agenor seguindo pela divisa das duas roças. Raul estava alguns metros à frente, e a enxada havia voltado para a mão do pai. Tiago os acompanhou mantendo distância, escondendo-se atrás da vegetação sempre que um dos dois diminuía o passo. Queria saber se ainda estavam brigando. Só quando olhou para trás e não conseguiu mais enxergar a casa sentiu que talvez devesse voltar.
As vozes reapareceram mais adiante, num trecho onde as plantações cediam espaço a uma cerca velha que separava parte das propriedades. Agenor deixara a enxada apoiada num mourão enquanto discutia. Tiago se abaixou atrás da vegetação e viu Raul de frente para ele.
— Eu não fiz nada com Lúcia.
— Então fica longe dela.
— Minha roça encosta na sua. O que você quer que eu faça? Que suma toda vez que vocês vierem pra cá?
— Quero que deixe ela em paz.
Raul abriu os braços. — Pergunta a ela se eu fiz alguma coisa.
— Não põe Lúcia no meio disso.
Raul soltou uma risada sem humor. — Foi você que botou.
Agenor empurrou-o. Raul deu dois passos para trás e voltou. — Não encosta em mim.
— E se eu encostar?
Raul segurou o braço dele quando veio o segundo empurrão. Os dois se chocaram contra a cerca, e Tiago prendeu a respiração. Raul conseguiu afastar Agenor e disse alguma coisa que o menino não compreendeu. O pai olhou para o mourão, onde a enxada continuava apoiada.
Agenor a pegou antes que Tiago entendesse o que pretendia fazer. Raul ainda levantou um braço, mas o golpe veio rápido e o derrubou. O menino levou as duas mãos à boca e ficou imóvel atrás da vegetação. Raul tentou se mexer no chão, depois parou. Agenor deixou a enxada cair, ajoelhou-se e chamou seu nome. Tocou-lhe o pescoço, afastou a mão e ficou olhando para o corpo como se ainda esperasse alguma reação. Tiago esperou também, acreditando por alguns segundos que Raul fosse levantar.
Foi então que alguma coisa começou a se erguer dele. Uma forma escura se desprendeu do corpo a partir dos ombros e ficou de pé ao lado do morto. Tinha a altura de Raul, o formato de seu rosto, o corpo e até a roupa que usava antes de cair, embora tudo parecesse menos firme, como se Tiago o observasse através de água suja. Agenor continuava ajoelhado e não olhou para aquilo. Levantou-se, passou as mãos pelos cabelos e começou a andar de um lado para o outro, enquanto a forma seguia atrás dele.
Tiago se encolheu entre as plantas quando Agenor voltou para pegar a enxada. A coisa se aproximou por trás e colocou as mãos sobre seus ombros. O pai não reagiu. No instante seguinte, ela subiu por suas costas de um jeito que o menino não soube acompanhar; as pernas passaram pelos dois lados do pescoço de Agenor, os pés desceram até os ombros e os calcanhares ficaram apoiados ali. Agenor continuou sem perceber. Olhou em volta, pegou Raul pelos braços e começou a arrastar o corpo para longe da cerca. A coisa seguia montada sobre ele, imóvel, enquanto o morto deixava uma faixa amassada na vegetação.
Tiago correu antes de descobrir onde o pai esconderia o corpo e chegou à casa da roça sem fôlego, entrando pelos fundos. Lúcia perguntou onde estivera, e ele respondeu que tinha ido procurar o pai. Quando ela perguntou se o encontrara, Tiago balançou a cabeça. Sentou-se perto da mesa e ficou olhando para os próprios joelhos até as pernas pararem de tremer.
Agenor retornou quase no fim da tarde, sujo de terra e com a camisa marcada de suor. Lúcia saiu da cozinha assim que o viu. — Cadê Raul?
Agenor passou por ela. — Foi embora depois da conversa.
Tiago levantou os olhos e encontrou Raul sentado sobre os ombros do pai. Agenor lavou as mãos, reclamou que ainda havia serviço para terminar no dia seguinte e, quando percebeu o filho olhando, franziu a testa. — Que foi?
Tiago abaixou o rosto. Durante o jantar quase não comeu e, sempre que arriscava olhar novamente, Raul continuava no mesmo lugar, com os calcanhares apoiados sobre os ombros de Agenor e as mãos descansando perto de sua cabeça.
Naquela noite, Tiago demorou para dormir. Quando finalmente conseguiu, acordou com um grito atravessando a casa. Lúcia saiu do quarto chamando Agenor, e o menino foi atrás dela até encontrá-lo sentado na beirada da cama, inclinado para a frente e apertando os próprios ombros.
Lúcia segurou seu braço. — Agenor? O que foi?
— Tá doendo.
— Onde?
Ele apertou os dois ombros. — Aqui. Dos dois lados.
Lúcia puxou a camisa dele para examinar. — Você bateu em alguma coisa hoje?
— Não. — Agenor respirou fundo. — Parece que estão apertando.
Tiago ficou parado junto à porta. Raul continuava montado sobre o pai, e os calcanhares pressionavam exatamente os lugares que Agenor segurava. O rosto tinha a mesma forma de antes, embora tivesse perdido a cor, e continuava imóvel enquanto Lúcia tocava os ombros do marido. Então Raul virou a cabeça e olhou diretamente para Tiago, que recuou para o quarto e fechou a porta.
Na manhã seguinte, Agenor disse que estava melhor, embora passasse o café esfregando o lado direito do pescoço. Lúcia insistiu para que procurasse alguém se a dor continuasse. — Isso não é normal, Agenor. Você passou a noite gritando.
— Dormi de mau jeito. Deve ter sido isso.
Raul continuava sobre seus ombros enquanto falava. Ao longo do dia, Tiago percebeu que a coisa não desaparecia: estava ali quando Agenor caminhava pela roça, quando cortava madeira e quando descansava perto da casa. O pai começou a trabalhar inclinado para a frente e levava as mãos aos ombros com frequência cada vez maior.
Naquela tarde, enquanto Agenor consertava o cabo de uma ferramenta, Tiago o observava do degrau da casa. Raul continuava imóvel sobre ele. Sem que o pai mudasse de posição, o morto virou lentamente o rosto para o menino. Tiago entrou antes que Agenor perguntasse por que estava olhando.
Na segunda noite vieram novos gritos. Na terceira, Agenor decidiu que não dormiria e ficou na cozinha tomando café enquanto Lúcia dizia que aquilo só pioraria seu estado. Tiago observava da porta, acompanhando as pernas de Raul dos dois lados do pescoço do pai.
Lúcia percebeu o menino ali. — Vai deitar, meu filho.
Tiago não se mexeu.
Agenor bateu a mão na mesa. — Você ouviu sua mãe ou não?
O menino foi para o quarto e acordou algum tempo depois com o primeiro grito. Nos dias seguintes, a rotina da casa passou a girar em torno da dor. Lúcia massageava os ombros do marido, passava pomada e esquentava panos enquanto Agenor reclamava que nada adiantava. Dormia pouco, irritava-se com facilidade e começou a apresentar duas manchas arroxeadas na pele, uma de cada lado, quase exatamente onde os calcanhares de Raul descansavam.
Numa tarde, Lúcia comentou que já estava achando estranho Raul não ter aparecido desde a discussão. Agenor estava sentado diante da casa e esfregava um dos ombros.
— Deve estar no Pina.
— Não está. Falei com a irmã dele. Ela disse que Raul nem voltou pra casa.
A mão de Agenor parou. — Então foi pra outro lugar.
— Sem falar nada pra ninguém?
Ele virou o rosto para ela. — Eu vou saber, Lúcia?
— Você foi a última pessoa daqui que falou com ele.
— Falei com ele.
— E depois?
Agenor tornou a massagear o ombro. — Depois ele foi embora. Já falei isso.
Tiago estava perto da porta. Raul mantinha os olhos baixos, mas, quando Agenor se levantou e passou pelo menino, o morto virou o rosto na direção dele outra vez.
Naquela noite, Tiago acordou antes dos gritos e ficou deitado, olhando para a porta enquanto a casa permanecia silenciosa. Depois ouviu o assoalho ranger. Saiu da cama e encontrou Agenor sentado numa cadeira no corredor, curvado, massageando os ombros. Raul estava sobre ele, com as mãos pousadas perto de sua cabeça. O morto olhou para Tiago e, no mesmo instante, Agenor gritou. Lúcia saiu correndo do quarto, enquanto o menino recuava para o seu antes que ela o visse. Cobriu os ouvidos, mas continuou escutando a voz do pai atravessar a parede.
Na manhã seguinte, um homem apareceu na roça procurando Raul. Tiago já o tinha visto algumas vezes no Pina e sabia que era parente dele. Disse a Lúcia que ninguém sabia onde Raul estava havia quase uma semana, que a casa continuava fechada e que a irmã estava perguntando por ele em todos os lugares onde costumava aparecer.
Lúcia chamou Agenor para fora. — Ele disse que Raul não voltou pro Pina. Você foi uma das últimas pessoas que falou com ele.
Agenor cruzou os braços. Raul continuava sobre seus ombros. — Ele veio aqui. A gente conversou e depois ele foi embora.
O homem franziu a testa. — Foi embora pra onde?
— Não sei. Não fico cuidando da vida dele.
O visitante olhou para Tiago, que estava sentado perto da porta. — E você, menino? Você viu seu Raul naquele dia?
Tiago sentiu o estômago apertar e olhou para o pai. Agenor não disse nada; seus olhos ficaram presos no filho. Sobre os ombros dele, Raul virou o rosto também. Tiago viu outra vez a enxada descendo, o corpo no chão e aquilo se levantando. Lembrou-se do pai arrastando Raul para dentro da roça, das noites de gritos e dos dois calcanhares pressionados contra os ombros que agora estavam cobertos pela camisa. Baixou os olhos para as próprias mãos.
— Não. Não vi seu Raul.

