Manoel acordou com a boca seca, a cabeça pesada e a lembrança incompleta de ter prometido a si mesmo que nunca mais beberia daquele jeito. Não era a primeira vez que fazia a promessa. Na noite anterior ficara até tarde com conhecidos, bebera mais do que devia e voltara para casa sem lembrar direito em que momento a conversa acabara. A claridade entrando pela janela o encontrou ainda vestido, com um dos sapatos no chão e o outro perto da cama. Levantou devagar, jogou água no rosto e ficou algum tempo apoiado na pia até a tontura passar. Morava sozinho e não havia ninguém para impedir que transformasse uma manhã ruim numa ideia pior. Comeu pouco, bebeu dois copos de água e, depois de considerar voltar para a cama, pegou os apetrechos de pesca.
A Lagoa Santa fazia parte de sua rotina havia tempo suficiente para que Manoel quase nunca precisasse pensar nela. Conhecia os trechos onde costumava lançar a linha, os pontos em que a vegetação avançava mais sobre a margem e os lugares que evitava depois de chuva forte. Também conhecia as histórias. Algumas vinham de gente mais velha, outras de conhecidos que juravam ter visto coisas ao redor da água, e muitas terminavam misturadas a risadas, dúvidas e versões diferentes. Manoel nunca discutia com quem acreditava nem fazia questão de convencer quem não acreditava. Na maioria das vezes escutava, dava de ombros e voltava à pesca. Naquela manhã chegou mais tarde que o costume, com o sol já alto e a ressaca comprimindo-lhe a testa, mas a água tranquila e o silêncio do lugar foram suficientes para fazê-lo pensar que sair de casa talvez não tivesse sido tão ruim.
Durante boa parte da manhã nada aconteceu além do esperado. Manoel armou a pesca, esperou, mudou um pouco de posição quando o sol começou a incomodar e bebeu a água que levara. O estômago continuava sensível, embora a cabeça estivesse melhor do que ao acordar. Foi quando uma das linhas se prendeu mais adiante. Ele puxou duas vezes, sentiu resistência e resmungou. Poderia ter cortado a linha e resolvido o problema, mas entrou na água para tentar soltá-la, avançando até onde ainda sentia o fundo com segurança. Esticou o braço, alcançou a linha e puxou devagar. Nada. Deu mais um passo e tentou novamente. A linha cedeu de repente.
Manoel perdeu o equilíbrio e afundou até o peito. Firmou um pé, mas o fundo desceu sob ele; quando tentou recuar, a outra perna também não encontrou apoio. Bateu os braços e conseguiu manter a cabeça fora da água, mais irritado do que assustado. — Desgraça... — murmurou, tentando voltar para o ponto onde entrara. A margem estava ali, não muito longe, mas uma fisgada atravessou a panturrilha e a perna endureceu. O movimento seguinte saiu errado. Manoel engoliu água, tossiu e afundou até o rosto.
Conseguiu voltar à superfície e puxou ar com força. Tentou nadar, mas a câimbra voltou, e a roupa encharcada parecia agarrá-lo. Por alguns segundos perdeu a posição da margem; quando a encontrou de novo, já estava mais distante do que imaginava. Chamou por ajuda. A primeira tentativa saiu baixa. Na segunda, a voz terminou em tosse. Bateu os braços com mais força, sentiu a perna responder por um instante e conseguiu avançar, mas logo afundou outra vez. Debaixo d’água, abriu os olhos sem querer. A luz da superfície se partia acima dele, e alguma coisa escura passou pelo limite de sua visão. Manoel estendeu o braço, procurando qualquer coisa em que pudesse se agarrar, mas encontrou somente água.
Subiu mais uma vez, respirou pela metade e ouviu um som que poderia ter sido uma voz ou apenas o ar entrando-lhe pelos ouvidos molhados. Tentou gritar. A garganta ardeu. A câimbra contraiu novamente a perna e o puxou para baixo. Dessa vez não conseguiu voltar tão rápido. O peito começou a queimar e os movimentos perderam força. Manoel viu a claridade acima, tentou alcançá-la e sentiu a mão fechar em nada. Quando o corpo já parecia pesado demais para continuar lutando, alguma coisa segurou seu pulso.
Depois disso, restaram apenas pedaços da lembrança: uma pressão firme no braço, cabelos escuros atravessando a água perto de seu rosto e uma sensação brusca de movimento, como se estivesse sendo puxado por alguém que não precisava lutar contra o peso dele. Em seguida veio o chão. Manoel agarrou a margem com as duas mãos e tossiu até sentir o peito doer.
Quando conseguiu abrir os olhos direito, estava deitado de lado, encharcado, com areia e terra grudadas nos braços. A perna ainda latejava. Respirou devagar, cuspiu outra vez e só então percebeu a moça sentada numa pedra próxima à água. Parecia jovem, tinha os cabelos longos e escuros e usava roupa simples. Manoel demorou um pouco olhando porque não se lembrava de tê-la visto quando chegara. A pedra também não lhe vinha à memória, embora fosse larga o suficiente para acomodá-la com folga.
— Foi você que me puxou? — perguntou, ainda com a voz áspera.
A moça olhou para ele. — Consegue respirar?
Manoel puxou o ar com cuidado. — Consigo. Acho que sim. — Levou uma das mãos ao peito. — Eu estava me afogando.
— Estava.
Ele ficou olhando para ela por um momento. — Então foi você mesmo.
A moça desviou os olhos para a lagoa. Manoel acompanhou o movimento e percebeu que ela estava completamente seca. Não viu água nas roupas, nos cabelos nem nos pés. Olhou para a margem onde estava deitado, procurando marcas de alguém que tivesse entrado e saído às pressas, mas o chão mostrava principalmente a sujeira feita por ele próprio ao se arrastar.
— Como foi que você me tirou de lá?
Ela tornou a encará-lo. — Você precisava sair.
Manoel soltou uma risada curta e tossiu logo depois. — Precisava mesmo. Mais um pouco e eu não saía de jeito nenhum. — Passou a mão pelo rosto, ainda tentando recuperar o fôlego. — Eu ia morrer.
— Agora está aqui.
Ela disse aquilo com a mesma tranquilidade com que poderia ter comentado o tempo. Manoel apoiou uma das mãos no chão e tentou se levantar, mas a tontura o fez sentar novamente. — Espere aí. Eu nem agradeci direito.
A moça fez um pequeno gesto com a cabeça. — Não precisa.
— Precisa, sim. Você me tirou da água. Eu não vou levantar e ir embora como se nada tivesse acontecido. — Manoel respirou fundo e esperou a dor no peito diminuir. — Diga alguma coisa que eu possa fazer. Qualquer coisa.
— Não quero nada.
— Nem um favor? Se você não tivesse aparecido, eu nem estava aqui perguntando.
A moça ficou quieta. Manoel teve a impressão de que ela olhava para a água atrás dele, mas, quando virou o rosto, não havia nada além da superfície calma. Ao tornar a encará-la, ouviu:
— Você vai para a cidade?
— Vou. Hoje não, que eu ainda estou pingando e mal consigo ficar em pé. Mas amanhã eu vou.
— Amanhã?
— Amanhã.
Ela passou uma das mãos pelos cabelos. — Então me traga uma fita, um pente e azeite de coco.
Manoel esperou mais um pouco, certo de que viria alguma coisa além daquilo. — Só isso?
— Só.
— Depois de me tirar da água, você vai me pedir um pente?
Um sorriso pequeno apareceu no rosto dela. — Você perguntou o que podia fazer.
Manoel riu, dessa vez sem tossir. — Perguntei. Está certo. Mas que fita?
— Uma bonita.
— Isso ajuda muito.
— Você escolhe.
— E o azeite?
A moça alcançou um pequeno frasco junto à pedra e o entregou. Manoel recebeu o objeto com cuidado. O vidro era bonito, trabalhado de um jeito que chamava atenção sem parecer novo. Girou-o entre os dedos, procurando alguma marca ou nome, mas não encontrou nada.
— É para colocar aqui?
— É.
Manoel tornou a observar o frasco. — Certo. Pente, uma fita bonita e azeite nesse vidro. Amanhã eu trago.
— Eu sei.
Ele levantou os olhos. — Como assim, sabe?
A moça continuou olhando para Manoel sem acrescentar nada. A dor de cabeça voltava, e o frio das roupas molhadas começava a incomodar. Ele guardou o frasco no bolso, recolheu o que conseguiu dos apetrechos e desistiu de uma linha que permanecia presa dentro d’água. Quando terminou, olhou novamente para ela.
— Eu nem perguntei seu nome.
A moça passou os dedos pelos cabelos, ajeitando-os sobre um dos ombros. — Amanhã você volta.
Manoel abriu a boca para insistir, mas a pergunta perdeu a importância diante do cansaço. — Volto. — Começou a se afastar e olhou uma última vez para trás. Ela continuava sentada na pedra, acompanhando-o com os olhos.
No caminho de casa, Manoel percebeu que não sabia sequer de onde a moça tinha vindo. Enfiou a mão no bolso e encontrou o frasco. O vidro estava frio. Ao chegar em casa, colocou-o sobre a mesa, deixou as roupas molhadas de lado, tomou banho e dormiu durante horas.
No dia seguinte acordou com o corpo dolorido, mas sem a tontura da véspera. O peito incomodava quando respirava fundo e havia uma marca avermelhada perto do pulso, exatamente onde se lembrava de ter sido segurado. O frasco continuava sobre a mesa. Manoel o examinou à luz da janela antes de sair e levou-o consigo.
Comprou primeiro o pente. Depois passou algum tempo escolhendo uma fita, descartando duas antes de encontrar uma que achou bonita o bastante. A demora chamou a atenção do comerciante. — Está caprichando, hein, Manoel. É presente?
— É um favor.
O homem riu. — Favor pra mulher costuma dar mais trabalho que presente.
— Eu já percebi.
Manoel pediu o azeite de coco e entregou o frasco. O comerciante parou de brincar assim que pegou o vidro, girando-o algumas vezes nas mãos. — Rapaz... isso aqui é bonito. Onde você arranjou?
— Não é meu.
— Ah, então eu acertei. É dela.
Manoel coçou o queixo. — É de uma moça que encontrei ontem.
O homem tornou a olhar o frasco. — E já está mandando você fazer compra?
— Ela me fez um favor maior.
— Aí complicou. — O comerciante abriu o recipiente. — O que foi que ela fez?
Manoel hesitou. — Depois eu conto.
— Ih... Se não quer contar agora, coisa boa não foi.
— Só coloca o azeite aí.
O homem riu e começou a encher o frasco. Quando terminou, fechou-o bem e ainda examinou o vidro mais uma vez antes de devolver. — Se essa moça enjoar disso aqui, diga que eu compro.
— Vou avisar.
Manoel saiu com a sacola e retornou à Lagoa Santa ainda com bastante luz. Dessa vez estava sóbrio, alimentado e sem pressa. Assim que chegou à margem, procurou o lugar do acidente. Encontrou primeiro a linha que abandonara, ainda presa mais adiante. Pouco depois reconheceu a vegetação onde deixara parte dos apetrechos e o trecho da margem onde se arrastara para fora da água. Não precisou procurar muito para ter certeza de que estava no mesmo ponto.
Chamou pela mulher. — Moça? — Esperou um pouco e caminhou alguns metros pela margem. — Sou eu. Trouxe as coisas.
Nenhuma resposta veio da água ou da vegetação. Manoel voltou até onde tinha acordado e procurou o lugar em que ela estivera sentada. A sacola continuava em sua mão quando percebeu que havia alguma coisa errada.
A pedra não estava ali.
Manoel se aproximou da água e conferiu novamente a posição da linha abandonada. Estava certo. Reconhecia o ponto em que saíra, o trecho de vegetação próximo e o lugar onde deixara o restante do material. Na lembrança, a pedra ficava a poucos passos dali, larga o suficiente para a mulher se sentar sem chegar perto da água. Agora a lagoa ocupava aquele espaço.
Caminhou para um lado procurando outra pedra parecida. Voltou e seguiu na direção oposta. Encontrou pedras menores, raízes, vegetação e lama, mas nenhuma que pudesse ter confundido com aquela. Parou novamente no mesmo ponto e chamou mais alto. — Moça! Eu trouxe o que você pediu!
Um homem que passava mais afastado olhou em sua direção. Manoel fingiu procurar alguma coisa junto à margem, mas ele acabou se aproximando. — Perdeu alguma coisa aí?
— Estou procurando uma pedra.
O homem olhou em volta. — Que pedra?
— Tinha uma pedra grande aqui ontem. — Manoel apontou para a margem. — Mais ou menos aqui.
— Aqui?
— É. Bem aqui perto da água. Você lembra?
O homem examinou o lugar indicado e franziu a testa. — Pedra onde, Manoel? Não sei que pedra é essa, não.
Manoel abaixou a mão. — Deixe pra lá.
— Você está bem?
— Estou. Devo ter confundido o lugar.
O homem ainda olhou para a água antes de seguir caminho. Manoel continuou onde estava. Abriu a sacola, conferiu o pente, a fita e o frasco cheio e depois tornou a fechá-la. Chamou outras duas vezes antes de desistir. Quando a luz começou a mudar sobre a lagoa, voltou para casa levando tudo.
Naquela noite contou a história a dois conhecidos. Começou pelo quase afogamento, porque um deles percebeu a marca em seu pulso e perguntou o que acontecera. Quando Manoel chegou à parte da mulher, as perguntas mudaram de tom.
— Espere aí — interrompeu um deles. — Você estava de ressaca, entrou na lagoa e uma mulher bonita apareceu pra te salvar?
— Eu estava de ressaca. Não estava bêbado.
O outro caiu na risada. — Depois do tanto que você bebeu? Manoel, você devia estar bêbado até o almoço do outro dia.
— Eu sabia muito bem onde estava.
— Sabia tanto que quase se afogou — disse o primeiro.
— A linha prendeu.
— Claro. Foi a linha.
Manoel bufou. — Vocês querem ouvir ou não?
— Conta, conta. — O segundo ainda ria. — Então a mulher apareceu, tirou você da água...
— Eu não falei que ela apareceu. Eu não vi ela quando cheguei.
O primeiro ergueu as mãos. — Ah, pronto. Agora ficou normal.
Manoel pegou o frasco e colocou-o sobre a mesa. — Ela me deu isso. Hoje levei pra colocar o azeite. O homem da venda viu.
Um deles apanhou o recipiente, levantou-o contra a luz e devolveu. — Eu também estou vendo. É um vidro.
— Eu não tinha isso antes.
— Você também não lembra de metade da noite que bebeu — respondeu o outro.
O primeiro apontou para o frasco. — Esquece o vidro. A mulher era bonita pelo menos?
Manoel olhou para ele. — Era.
— Pronto. Caiu na água e voltou apaixonado.
— Vá pro inferno.
— Comprou pente, fita, azeite... — O outro começou a rir. — Está caprichando mesmo.
Manoel tentou segurar, mas acabou rindo junto quando os dois começaram a implicar com a fita. A conversa mudou de assunto pouco depois. Mais tarde, sozinho em casa, colocou o frasco ao lado do pente e da fita. Pegou o vidro novamente, girou-o nas mãos e tentou lembrar de algum momento anterior à pesca em que pudesse tê-lo visto. Depois o devolveu à mesa e foi dormir.
Na manhã seguinte evitou a lagoa. Ocupou-se com outras coisas e conseguiu passar várias horas sem pensar na mulher, até encontrar a sacola onde a deixara. O pente continuava embrulhado, a fita estava dobrada e o frasco permanecia cheio de azeite. Pouco antes de escurecer, Manoel pegou os três e saiu.
Não levou equipamento de pesca. Também não voltara a beber desde aquela noite. Ao chegar à Lagoa Santa, foi diretamente ao mesmo ponto e encontrou a linha ainda presa dentro d’água. A pedra continuava ausente. Manoel caminhou pela margem uma vez, depois voltou e parou onde tinha acordado. A claridade já diminuía, e o reflexo do céu tornava mais difícil enxergar através da superfície.
Manoel se abaixou e colocou o pente e a fita juntos perto da água. — Eu trouxe. — Retirou o frasco da sacola e o deixou ao lado. — Vim ontem também, mas você não estava.
Ficou algum tempo esperando. A água continuava tranquila. Manoel olhou para o lugar vazio onde lembrava da pedra e passou a mão pelo pulso, sobre a marca que já começava a desaparecer.
— Eu só queria agradecer direito. Então... obrigado.
Levantou-se e ainda ficou ali alguns segundos. Depois guardou a sacola vazia, deu as costas para a lagoa e começou a caminhar sem olhar para trás.
Já havia dado alguns passos quando, atrás dele, ouviu o som claro de vidro tocando pedra.

