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ASSOMBRAÇÕES DE ITUBERÁ: Contos do Baixo Sul
Conto 5 - A Pedra
2771 palavras • 15419 caracteres • ⏱ 11 min 05 s

Conto 5 - A Pedra

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Manoel acordou com a boca seca, a cabeça pesada e a lembrança incompleta de ter prometido a si mesmo que nunca mais beberia daquele jeito. Não era a primeira vez que fazia a promessa. Na noite anterior ficara até tarde com conhecidos, bebera mais do que devia e voltara para casa sem lembrar direito em que momento a conversa acabara. A claridade entrando pela janela o encontrou ainda vestido, com um dos sapatos no chão e o outro perto da cama. Levantou devagar, jogou água no rosto e ficou algum tempo apoiado na pia até a tontura passar. Morava sozinho e não havia ninguém para impedir que transformasse uma manhã ruim numa ideia pior. Comeu pouco, bebeu dois copos de água e, depois de considerar voltar para a cama, pegou os apetrechos de pesca.

A Lagoa Santa fazia parte de sua rotina havia tempo suficiente para que Manoel quase nunca precisasse pensar nela. Conhecia os trechos onde costumava lançar a linha, os pontos em que a vegetação avançava mais sobre a margem e os lugares que evitava depois de chuva forte. Também conhecia as histórias. Algumas vinham de gente mais velha, outras de conhecidos que juravam ter visto coisas ao redor da água, e muitas terminavam misturadas a risadas, dúvidas e versões diferentes. Manoel nunca discutia com quem acreditava nem fazia questão de convencer quem não acreditava. Na maioria das vezes escutava, dava de ombros e voltava à pesca. Naquela manhã chegou mais tarde que o costume, com o sol já alto e a ressaca comprimindo-lhe a testa, mas a água tranquila e o silêncio do lugar foram suficientes para fazê-lo pensar que sair de casa talvez não tivesse sido tão ruim.

Durante boa parte da manhã nada aconteceu além do esperado. Manoel armou a pesca, esperou, mudou um pouco de posição quando o sol começou a incomodar e bebeu a água que levara. O estômago continuava sensível, embora a cabeça estivesse melhor do que ao acordar. Foi quando uma das linhas se prendeu mais adiante. Ele puxou duas vezes, sentiu resistência e resmungou. Poderia ter cortado a linha e resolvido o problema, mas entrou na água para tentar soltá-la, avançando até onde ainda sentia o fundo com segurança. Esticou o braço, alcançou a linha e puxou devagar. Nada. Deu mais um passo e tentou novamente. A linha cedeu de repente.

Manoel perdeu o equilíbrio e afundou até o peito. Firmou um pé, mas o fundo desceu sob ele; quando tentou recuar, a outra perna também não encontrou apoio. Bateu os braços e conseguiu manter a cabeça fora da água, mais irritado do que assustado. — Desgraça... — murmurou, tentando voltar para o ponto onde entrara. A margem estava ali, não muito longe, mas uma fisgada atravessou a panturrilha e a perna endureceu. O movimento seguinte saiu errado. Manoel engoliu água, tossiu e afundou até o rosto.

Conseguiu voltar à superfície e puxou ar com força. Tentou nadar, mas a câimbra voltou, e a roupa encharcada parecia agarrá-lo. Por alguns segundos perdeu a posição da margem; quando a encontrou de novo, já estava mais distante do que imaginava. Chamou por ajuda. A primeira tentativa saiu baixa. Na segunda, a voz terminou em tosse. Bateu os braços com mais força, sentiu a perna responder por um instante e conseguiu avançar, mas logo afundou outra vez. Debaixo d’água, abriu os olhos sem querer. A luz da superfície se partia acima dele, e alguma coisa escura passou pelo limite de sua visão. Manoel estendeu o braço, procurando qualquer coisa em que pudesse se agarrar, mas encontrou somente água.

Subiu mais uma vez, respirou pela metade e ouviu um som que poderia ter sido uma voz ou apenas o ar entrando-lhe pelos ouvidos molhados. Tentou gritar. A garganta ardeu. A câimbra contraiu novamente a perna e o puxou para baixo. Dessa vez não conseguiu voltar tão rápido. O peito começou a queimar e os movimentos perderam força. Manoel viu a claridade acima, tentou alcançá-la e sentiu a mão fechar em nada. Quando o corpo já parecia pesado demais para continuar lutando, alguma coisa segurou seu pulso.

Depois disso, restaram apenas pedaços da lembrança: uma pressão firme no braço, cabelos escuros atravessando a água perto de seu rosto e uma sensação brusca de movimento, como se estivesse sendo puxado por alguém que não precisava lutar contra o peso dele. Em seguida veio o chão. Manoel agarrou a margem com as duas mãos e tossiu até sentir o peito doer.

Quando conseguiu abrir os olhos direito, estava deitado de lado, encharcado, com areia e terra grudadas nos braços. A perna ainda latejava. Respirou devagar, cuspiu outra vez e só então percebeu a moça sentada numa pedra próxima à água. Parecia jovem, tinha os cabelos longos e escuros e usava roupa simples. Manoel demorou um pouco olhando porque não se lembrava de tê-la visto quando chegara. A pedra também não lhe vinha à memória, embora fosse larga o suficiente para acomodá-la com folga.

— Foi você que me puxou? — perguntou, ainda com a voz áspera.

A moça olhou para ele. — Consegue respirar?

Manoel puxou o ar com cuidado. — Consigo. Acho que sim. — Levou uma das mãos ao peito. — Eu estava me afogando.

— Estava.

Ele ficou olhando para ela por um momento. — Então foi você mesmo.

A moça desviou os olhos para a lagoa. Manoel acompanhou o movimento e percebeu que ela estava completamente seca. Não viu água nas roupas, nos cabelos nem nos pés. Olhou para a margem onde estava deitado, procurando marcas de alguém que tivesse entrado e saído às pressas, mas o chão mostrava principalmente a sujeira feita por ele próprio ao se arrastar.

— Como foi que você me tirou de lá?

Ela tornou a encará-lo. — Você precisava sair.

Manoel soltou uma risada curta e tossiu logo depois. — Precisava mesmo. Mais um pouco e eu não saía de jeito nenhum. — Passou a mão pelo rosto, ainda tentando recuperar o fôlego. — Eu ia morrer.

— Agora está aqui.

Ela disse aquilo com a mesma tranquilidade com que poderia ter comentado o tempo. Manoel apoiou uma das mãos no chão e tentou se levantar, mas a tontura o fez sentar novamente. — Espere aí. Eu nem agradeci direito.

A moça fez um pequeno gesto com a cabeça. — Não precisa.

— Precisa, sim. Você me tirou da água. Eu não vou levantar e ir embora como se nada tivesse acontecido. — Manoel respirou fundo e esperou a dor no peito diminuir. — Diga alguma coisa que eu possa fazer. Qualquer coisa.

— Não quero nada.

— Nem um favor? Se você não tivesse aparecido, eu nem estava aqui perguntando.

A moça ficou quieta. Manoel teve a impressão de que ela olhava para a água atrás dele, mas, quando virou o rosto, não havia nada além da superfície calma. Ao tornar a encará-la, ouviu:

— Você vai para a cidade?

— Vou. Hoje não, que eu ainda estou pingando e mal consigo ficar em pé. Mas amanhã eu vou.

— Amanhã?

— Amanhã.

Ela passou uma das mãos pelos cabelos. — Então me traga uma fita, um pente e azeite de coco.

Manoel esperou mais um pouco, certo de que viria alguma coisa além daquilo. — Só isso?

— Só.

— Depois de me tirar da água, você vai me pedir um pente?

Um sorriso pequeno apareceu no rosto dela. — Você perguntou o que podia fazer.

Manoel riu, dessa vez sem tossir. — Perguntei. Está certo. Mas que fita?

— Uma bonita.

— Isso ajuda muito.

— Você escolhe.

— E o azeite?

A moça alcançou um pequeno frasco junto à pedra e o entregou. Manoel recebeu o objeto com cuidado. O vidro era bonito, trabalhado de um jeito que chamava atenção sem parecer novo. Girou-o entre os dedos, procurando alguma marca ou nome, mas não encontrou nada.

— É para colocar aqui?

— É.

Manoel tornou a observar o frasco. — Certo. Pente, uma fita bonita e azeite nesse vidro. Amanhã eu trago.

— Eu sei.

Ele levantou os olhos. — Como assim, sabe?

A moça continuou olhando para Manoel sem acrescentar nada. A dor de cabeça voltava, e o frio das roupas molhadas começava a incomodar. Ele guardou o frasco no bolso, recolheu o que conseguiu dos apetrechos e desistiu de uma linha que permanecia presa dentro d’água. Quando terminou, olhou novamente para ela.

— Eu nem perguntei seu nome.

A moça passou os dedos pelos cabelos, ajeitando-os sobre um dos ombros. — Amanhã você volta.

Manoel abriu a boca para insistir, mas a pergunta perdeu a importância diante do cansaço. — Volto. — Começou a se afastar e olhou uma última vez para trás. Ela continuava sentada na pedra, acompanhando-o com os olhos.

No caminho de casa, Manoel percebeu que não sabia sequer de onde a moça tinha vindo. Enfiou a mão no bolso e encontrou o frasco. O vidro estava frio. Ao chegar em casa, colocou-o sobre a mesa, deixou as roupas molhadas de lado, tomou banho e dormiu durante horas.

No dia seguinte acordou com o corpo dolorido, mas sem a tontura da véspera. O peito incomodava quando respirava fundo e havia uma marca avermelhada perto do pulso, exatamente onde se lembrava de ter sido segurado. O frasco continuava sobre a mesa. Manoel o examinou à luz da janela antes de sair e levou-o consigo.

Comprou primeiro o pente. Depois passou algum tempo escolhendo uma fita, descartando duas antes de encontrar uma que achou bonita o bastante. A demora chamou a atenção do comerciante. — Está caprichando, hein, Manoel. É presente?

— É um favor.

O homem riu. — Favor pra mulher costuma dar mais trabalho que presente.

— Eu já percebi.

Manoel pediu o azeite de coco e entregou o frasco. O comerciante parou de brincar assim que pegou o vidro, girando-o algumas vezes nas mãos. — Rapaz... isso aqui é bonito. Onde você arranjou?

— Não é meu.

— Ah, então eu acertei. É dela.

Manoel coçou o queixo. — É de uma moça que encontrei ontem.

O homem tornou a olhar o frasco. — E já está mandando você fazer compra?

— Ela me fez um favor maior.

— Aí complicou. — O comerciante abriu o recipiente. — O que foi que ela fez?

Manoel hesitou. — Depois eu conto.

— Ih... Se não quer contar agora, coisa boa não foi.

— Só coloca o azeite aí.

O homem riu e começou a encher o frasco. Quando terminou, fechou-o bem e ainda examinou o vidro mais uma vez antes de devolver. — Se essa moça enjoar disso aqui, diga que eu compro.

— Vou avisar.

Manoel saiu com a sacola e retornou à Lagoa Santa ainda com bastante luz. Dessa vez estava sóbrio, alimentado e sem pressa. Assim que chegou à margem, procurou o lugar do acidente. Encontrou primeiro a linha que abandonara, ainda presa mais adiante. Pouco depois reconheceu a vegetação onde deixara parte dos apetrechos e o trecho da margem onde se arrastara para fora da água. Não precisou procurar muito para ter certeza de que estava no mesmo ponto.

Chamou pela mulher. — Moça? — Esperou um pouco e caminhou alguns metros pela margem. — Sou eu. Trouxe as coisas.

Nenhuma resposta veio da água ou da vegetação. Manoel voltou até onde tinha acordado e procurou o lugar em que ela estivera sentada. A sacola continuava em sua mão quando percebeu que havia alguma coisa errada.

A pedra não estava ali.

Manoel se aproximou da água e conferiu novamente a posição da linha abandonada. Estava certo. Reconhecia o ponto em que saíra, o trecho de vegetação próximo e o lugar onde deixara o restante do material. Na lembrança, a pedra ficava a poucos passos dali, larga o suficiente para a mulher se sentar sem chegar perto da água. Agora a lagoa ocupava aquele espaço.

Caminhou para um lado procurando outra pedra parecida. Voltou e seguiu na direção oposta. Encontrou pedras menores, raízes, vegetação e lama, mas nenhuma que pudesse ter confundido com aquela. Parou novamente no mesmo ponto e chamou mais alto. — Moça! Eu trouxe o que você pediu!

Um homem que passava mais afastado olhou em sua direção. Manoel fingiu procurar alguma coisa junto à margem, mas ele acabou se aproximando. — Perdeu alguma coisa aí?

— Estou procurando uma pedra.

O homem olhou em volta. — Que pedra?

— Tinha uma pedra grande aqui ontem. — Manoel apontou para a margem. — Mais ou menos aqui.

— Aqui?

— É. Bem aqui perto da água. Você lembra?

O homem examinou o lugar indicado e franziu a testa. — Pedra onde, Manoel? Não sei que pedra é essa, não.

Manoel abaixou a mão. — Deixe pra lá.

— Você está bem?

— Estou. Devo ter confundido o lugar.

O homem ainda olhou para a água antes de seguir caminho. Manoel continuou onde estava. Abriu a sacola, conferiu o pente, a fita e o frasco cheio e depois tornou a fechá-la. Chamou outras duas vezes antes de desistir. Quando a luz começou a mudar sobre a lagoa, voltou para casa levando tudo.

Naquela noite contou a história a dois conhecidos. Começou pelo quase afogamento, porque um deles percebeu a marca em seu pulso e perguntou o que acontecera. Quando Manoel chegou à parte da mulher, as perguntas mudaram de tom.

— Espere aí — interrompeu um deles. — Você estava de ressaca, entrou na lagoa e uma mulher bonita apareceu pra te salvar?

— Eu estava de ressaca. Não estava bêbado.

O outro caiu na risada. — Depois do tanto que você bebeu? Manoel, você devia estar bêbado até o almoço do outro dia.

— Eu sabia muito bem onde estava.

— Sabia tanto que quase se afogou — disse o primeiro.

— A linha prendeu.

— Claro. Foi a linha.

Manoel bufou. — Vocês querem ouvir ou não?

— Conta, conta. — O segundo ainda ria. — Então a mulher apareceu, tirou você da água...

— Eu não falei que ela apareceu. Eu não vi ela quando cheguei.

O primeiro ergueu as mãos. — Ah, pronto. Agora ficou normal.

Manoel pegou o frasco e colocou-o sobre a mesa. — Ela me deu isso. Hoje levei pra colocar o azeite. O homem da venda viu.

Um deles apanhou o recipiente, levantou-o contra a luz e devolveu. — Eu também estou vendo. É um vidro.

— Eu não tinha isso antes.

— Você também não lembra de metade da noite que bebeu — respondeu o outro.

O primeiro apontou para o frasco. — Esquece o vidro. A mulher era bonita pelo menos?

Manoel olhou para ele. — Era.

— Pronto. Caiu na água e voltou apaixonado.

— Vá pro inferno.

— Comprou pente, fita, azeite... — O outro começou a rir. — Está caprichando mesmo.

Manoel tentou segurar, mas acabou rindo junto quando os dois começaram a implicar com a fita. A conversa mudou de assunto pouco depois. Mais tarde, sozinho em casa, colocou o frasco ao lado do pente e da fita. Pegou o vidro novamente, girou-o nas mãos e tentou lembrar de algum momento anterior à pesca em que pudesse tê-lo visto. Depois o devolveu à mesa e foi dormir.

Na manhã seguinte evitou a lagoa. Ocupou-se com outras coisas e conseguiu passar várias horas sem pensar na mulher, até encontrar a sacola onde a deixara. O pente continuava embrulhado, a fita estava dobrada e o frasco permanecia cheio de azeite. Pouco antes de escurecer, Manoel pegou os três e saiu.

Não levou equipamento de pesca. Também não voltara a beber desde aquela noite. Ao chegar à Lagoa Santa, foi diretamente ao mesmo ponto e encontrou a linha ainda presa dentro d’água. A pedra continuava ausente. Manoel caminhou pela margem uma vez, depois voltou e parou onde tinha acordado. A claridade já diminuía, e o reflexo do céu tornava mais difícil enxergar através da superfície.

Manoel se abaixou e colocou o pente e a fita juntos perto da água. — Eu trouxe. — Retirou o frasco da sacola e o deixou ao lado. — Vim ontem também, mas você não estava.

Ficou algum tempo esperando. A água continuava tranquila. Manoel olhou para o lugar vazio onde lembrava da pedra e passou a mão pelo pulso, sobre a marca que já começava a desaparecer.

— Eu só queria agradecer direito. Então... obrigado.

Levantou-se e ainda ficou ali alguns segundos. Depois guardou a sacola vazia, deu as costas para a lagoa e começou a caminhar sem olhar para trás.


Já havia dado alguns passos quando, atrás dele, ouviu o som claro de vidro tocando pedra.

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