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ASSOMBRAÇÕES DE ITUBERÁ: Contos do Baixo Sul
Conto 04 - As Marcas
3330 palavras • 19430 caracteres • ⏱ 13 min 19 s

Conto 04 - As Marcas

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Mauro não sabia se deveria sentir alívio ou vergonha por conhecer o homem que o interrogara durante boa parte da madrugada. Rafael estudara com ele alguns anos, quando os problemas cabiam entre provas, brigas no recreio e partidas de futebol improvisadas depois da aula. Nunca haviam sido amigos próximos, mas ainda se reconheciam quando se encontravam pela cidade e às vezes paravam para conversar. O reencontro mais recente acontecera poucos dias antes, no próprio cemitério onde Mauro trabalhava, durante o sepultamento de um parente de Rafael. Mauro o cumprimentara junto ao portão, dissera algumas palavras e depois voltara ao serviço enquanto a família se reunia em torno da sepultura. Imaginara que demorariam meses para se encontrar novamente. Agora Rafael estava do outro lado de uma mesa perguntando sobre sangue, uma pá e o que acontecera depois que o cemitério fechou.

Horas mais tarde, Mauro aguardava numa cela com o antebraço enfaixado e a camisa rasgada no ombro, tentando repousar sem conseguir permanecer de olhos fechados por muito tempo. Sempre que algum passo se aproximava pelo corredor, a memória da noite anterior voltava antes mesmo de a porta abrir: o metal da pá vibrando em suas mãos, o peso que o derrubara, o sangue escorrendo entre seus dedos. Rafael ouvira tudo e anotara quase tudo. Mauro não sabia o que havia sido pior, contar ou perceber como sua própria voz mudava quando chegava à parte que ninguém queria ouvir.

Poucos dias antes, sua maior preocupação no Cemitério Municipal de Ituberá era descobrir o que vinha acontecendo depois que os portões fechavam. Mauro trabalhava ali havia anos e perdera quase todo o desconforto que outras pessoas demonstravam quando ele dizia ser coveiro. O terreno era pequeno e inclinado, ocupado quase por inteiro pelos jazigos que acompanhavam a subida. Havia poucas árvores, e Mauro conhecia cada uma delas, assim como os pontos onde o chão segurava mais água e os trechos em que a iluminação deixava espaços escuros entre uma sepultura e outra. Acima do muro começava a rua de terra do Alto da Bela Vista; dos dois lados havia casas, e na parte baixa do cemitério passava uma rua onde o movimento continuava mesmo depois do anoitecer. Durante o dia, vozes, motores, música e conversas atravessavam os muros com facilidade. Aquilo nunca lhe parecera um lugar isolado.

Foi por isso que percebeu imediatamente quando encontrou uma sepultura antiga parcialmente revolvida. Pensou primeiro que a terra tivesse cedido, mas havia barro espalhado pelo estreito espaço diante da cova e dois pequenos ossos humanos entre os torrões. Chamou outro funcionário, recolheram o que ficara exposto e examinaram o local. A sepultura era velha, e ninguém descartou que algum cachorro tivesse cavado onde os restos já não estavam tão fundos. Reforçaram a terra e seguiram o serviço. Dois dias depois, outra cova amanheceu mexida. Dessa vez, um fragmento de osso estava no chão a alguns metros da abertura, junto de folhas pisadas e uma faixa de terra arrastada entre os jazigos.

Na mesma manhã, Mauro encontrou quatro sulcos compridos atravessando a casca de uma das poucas árvores do cemitério. Conhecia aquele tronco de tanto passar por ele e sabia que as marcas não estavam ali no dia anterior. Havia lascas recentes na base. Passou os dedos pelos cortes e procurou sinais no chão, mas não encontrou nada que ajudasse. Dois dias depois, os sulcos estavam maiores. Na tarde seguinte surgiram riscos parecidos numa peça de madeira próxima ao depósito. Mauro fechou os acessos como sempre, testou o cadeado duas vezes e foi embora. Na manhã posterior, tudo permanecia fechado, mas outra sepultura tinha uma pequena porção de terra removida. Antes de começar o trabalho, percorreu o muro inteiro procurando algum ponto por onde um animal pudesse estar entrando.

Naldo apareceu naquela tarde enquanto Mauro guardava ferramentas. Conheciam-se desde crianças, e a amizade sobrevivera às mudanças da vida melhor do que muitas outras. Tinham crescido a poucas ruas de distância, estudado juntos e passado boa parte da infância entrando e saindo da casa um do outro. Mauro lembrava principalmente da casa de Naldo como um lugar cheio de vozes femininas, com a mãe, irmãs, tias, primas e outras parentes aparecendo com tanta frequência que ele nunca soubera exatamente quem morava ali e quem estava apenas de visita. Depois de adultos, os encontros diminuíram, mas Naldo ainda aparecia de vez em quando no cemitério para conversar enquanto Mauro encerrava o expediente.

Ao perceber os cortes no tronco, Naldo se aproximou. — Estão implicando até com árvore agora?

Mauro contou sobre os arranhões e as covas mexidas. — Deve ter algum cachorro entrando de noite. Só não descobri por onde ainda.

Naldo passou os dedos por um dos sulcos. — Cachorro não fez isso aí, não.

— E tu sabe como?

— Sei lá. — Ele tornou a olhar os cortes. — Olha a fundura disso.

Esfregou a mão na bermuda e mudou de assunto, reclamando que vinha dormindo mal. Estava com olheiras, mas permaneceu ali até Mauro terminar de guardar as ferramentas, lembrando histórias da escola e rindo de um professor que os fazia copiar páginas inteiras quando a turma conversava demais.

As ocorrências continuaram durante os dias seguintes. A mesma árvore perdeu uma faixa maior de casca, apareceram riscos no madeiramento próximo ao depósito e uma sepultura antiga amanheceu com parte da lateral aberta. Mauro encontrou um osso comprido perto do muro depois que outro funcionário percebeu primeiro a terra remexida. Um dos homens voltou a falar em cachorro faminto; outro sugeriu algum animal menor aproveitando a terra frouxa. Mauro ouviu sem discutir.

Uma tarde, um homem passava pela rua de baixo com um cachorro quando o animal parou diante do cemitério. O dono puxou a guia, mas ele firmou as patas no chão e começou a rosnar para dentro. Mauro acompanhou a direção de seus olhos e encontrou apenas os jazigos subindo pela ladeira, a árvore marcada e os espaços estreitos entre as sepulturas. O homem precisou atravessar para o outro lado da rua para fazê-lo seguir. O cachorro continuou olhando para trás até desaparecer.

Naquela semana, Mauro passou a notar sons que antes provavelmente teria ignorado. Alguma coisa raspava numa superfície quando ele estava de costas, uma pedra pequena se deslocava entre os túmulos ou um movimento desaparecia atrás de um jazigo assim que virava a cabeça. Certa noite voltou sozinho para buscar uma ferramenta esquecida e ouviu passos acompanhando os seus na subida. Caminhou mais alguns metros e parou; o som cessou. Tornou a andar e ouviu outro ruído atrás.

Virou-se com a lanterna do celular acesa. — Tem alguém aí?

Não recebeu resposta. A rua abaixo continuava audível, e uma televisão ligada numa das casas laterais chegava abafada por cima do muro. Mauro retomou o caminho até Naldo surgir entre dois jazigos.

— Rapaz! — Mauro levou a mão ao peito. — Tu quer me matar do coração?

Naldo franziu a testa. — Eu?

— Estou ouvindo passo atrás de mim desde lá de baixo. Aí tu aparece desse jeito.

— Atrás de você? Eu acabei de chegar.

Naldo olhou para a parte baixa do cemitério, e Mauro acompanhou o movimento. — Que foi?

— Você estava com alguém?

— Eu? Não.

Naldo demorou um pouco. — Eu ouvi passo também.

Os dois ficaram escutando. Da rua veio o barulho de uma moto. Dentro do cemitério, nada.

Naldo continuou aparecendo, cada vez mais abatido. Numa tarde parou perto do depósito e perguntou se tinham encontrado algum bicho morto por ali. Mauro respirou fundo, mas não sentiu nada além de terra, madeira e umidade. — Bicho morto onde?

Naldo apontou sem muita certeza para a parte superior do terreno. — Pra lá. Sei não... está fedendo.

— Eu não estou sentindo nada.

— Pois eu estou. — Os dois subiram entre os jazigos, mas Mauro não encontrou carniça nem lixo.

Em outra visita, percebeu sujeira seca nas costas da camisa do amigo. — Está dormindo no chão agora? — brincou.

Naldo tentou olhar por cima do ombro, mas não sorriu. — Minha irmã disse que eu saí de casa anteontem de madrugada.

Mauro baixou o sorriso. — Foi pra onde?

— Se eu soubesse, estava bom. Quando acordei, eu estava na cama.

— Pode ser sonambulismo.

— Eu já tive isso quando era mais novo. Mas nunca saí de casa. Se acontecer de novo, eu vou procurar um médico.

Dois dias depois, Mauro o encontrou deitado num trecho de terra próximo ao muro externo. Durante a tarde, um jegue que acompanhava uma pequena carga permanecera algum tempo ali e deixara o chão achatado antes de seguir. Naldo estava justamente naquele ponto, de lado, movimentando lentamente os ombros contra a terra. Mauro se aproximou depressa e segurou seu braço. — Naldo. Ei, Naldo.

O amigo abriu os olhos de uma vez, afastou a mão dele e levou alguns segundos para se sentar. Olhou para o muro, para a rua e depois para a própria roupa. — Como foi que eu vim parar aqui?

Mauro o ajudou a levantar. — Tu bebeu?

— Não.

Mauro chegou um pouco mais perto, tentando sentir o cheiro de álcool, mas não encontrou nenhum. Naldo bateu a terra da calça, passou a mão pela boca e cuspiu duas vezes. — O pior é esse gosto de terra.

— Isso já aconteceu outras vezes?

Naldo ficou limpando a boca com as costas da mão. — Uma ou duas.

— Uma ou duas? E tu não sabe?

— Eu acordo depois, Mauro. Como é que vou saber?

Recusou ajuda para voltar para casa e saiu prometendo outra vez que procuraria um médico. Mauro ficou junto ao muro até vê-lo seguir rua abaixo.

Alguns dias depois, encontrou uma das irmãs de Naldo e perguntou se ele melhorara. Ela respondeu que vinha dormindo bastante durante o dia e reclamou que às vezes acordava de madrugada com o portão aberto. Naldo saía e voltava pela manhã sem explicar onde estivera. Mauro não mencionou o que vira perto do muro.

O amigo deixou de aparecer durante quase três dias. Nesse intervalo, uma nova sepultura amanheceu revolvida, e um pedaço de osso estava encostado na parede lateral, com terra presa às cavidades. Mais tarde, Mauro encontrou pequenos fios escuros presos nos cortes da árvore marcada. Retirou um deles, esfregou-o entre os dedos e guardou-o no bolso sem saber por quê. Horas depois, ao encontrá-lo novamente enquanto procurava as chaves, jogou-o fora.

Na manhã seguinte, outra cova apareceu mexida. A terra fora removida de um lado e espalhada numa faixa estreita, sem que nada parecesse ter sido levado. Mauro se abaixou e percebeu três riscos paralelos na parte interna do buraco. Chamou um colega, que olhou rapidamente e voltou a falar em cachorro. Enquanto cobria a abertura, Mauro ouviu alguma coisa bater no chão atrás dele. Virou-se e encontrou um pequeno fragmento de osso entre dois jazigos. O colega já trabalhava mais abaixo. Mauro olhou para os muros próximos e para a rua visível além da entrada, recolheu o pedaço e terminou o serviço.

Na última noite, permaneceu no cemitério depois que o movimento terminou porque ainda precisava guardar ferramentas e concluir um trabalho. Pouco acima, alguém passou pela terra do Alto da Bela Vista conversando alto; na rua de baixo, uma moto subiu o trecho e desapareceu. Luzes de casas laterais atravessavam alguns pontos do muro, mas dentro do cemitério a iluminação era fraca. Mauro levava uma pá para o depósito quando escutou uma raspagem perto da árvore marcada. O ruído vinha em intervalos. Algo raspava, cessava e recomeçava alguns segundos depois.

Mauro segurou a pá com uma das mãos, acendeu a lanterna do celular e começou a subir. A poucos metros ouviu uma respiração misturada ao som. — Tem alguém aí?

A raspagem cessou. Ele iluminou o espaço entre dois jazigos e viu algo atravessar rapidamente o feixe antes de desaparecer atrás de uma sepultura alta. Recuou um passo. Quase imediatamente, ouviu pedra raspar do outro lado, apenas alguns metros acima.

A criatura tornou a aparecer quando Mauro levantou a luz. Movia-se perto do chão, maior que qualquer cachorro que costumava ver pelas ruas, com as costas arqueadas e membros dianteiros longos demais. Parte do corpo parecia coberta por pelo escuro; em outros pontos, a luz alcançava algo semelhante a pele. Bastava ela baixar alguns centímetros para desaparecer atrás dos jazigos amontoados na inclinação. Mauro tentou seguir seu movimento com a lanterna, mas o rosto nunca permaneceu visível.

O nome escapou antes que tivesse tempo de pensar melhor. — Naldo?

A criatura parou.

Mauro apertou o cabo da pá. — Naldo... sou eu.

A cabeça inclinou-se na direção da voz, e da garganta saiu um som comprido e baixo que terminou como um lamento. O animal desapareceu atrás de um jazigo e tornou a surgir mais abaixo, perto demais. Mauro começou a descer.

A inclinação tornou a fuga pior. Desceu entre as sepulturas rápido demais, sentiu o pé escapar e precisou apoiar uma das mãos num jazigo para não cair. Ouviu algo acompanhá-lo por alguns segundos, tocando pedra de um jeito rápido e irregular. Quando tornou a olhar, já não viu a criatura. Continuou em direção ao depósito até escutar um gemido quase à sua frente.

Naldo estava encostado junto a um dos jazigos, descalço e coberto de terra. Mauro parou com a pá ainda levantada. — Naldo?

O amigo ergueu o rosto. — Mauro?

Havia barro nas pernas, nos braços e num lado da face. Mauro demorou a baixar a ferramenta. — Tu está aqui...

Naldo olhou em volta, perdido. — Onde é que eu estou?

Mauro ainda procurava o que responder quando um arranhão atravessou a madeira próxima, lento o suficiente para os dois acompanharem o som do início ao fim. Naldo agarrou seu braço. — Que barulho foi esse?

Alguma coisa surgiu poucos metros acima deles. Naldo recuou e bateu as costas contra uma sepultura. — Que porra é essa?

Não chegaram ao depósito. O bicho desceu a ladeira numa velocidade que Mauro mal conseguiu acompanhar e atingiu Naldo, lançando-o contra a lateral de um jazigo. O grito atravessou o muro, e imediatamente um cachorro começou a latir numa das casas ao lado.

Mauro levantou a pá e acertou as costas da criatura. Ela se virou, e a luz do celular mostrou dentes, pelo molhado e uma extremidade apoiada sobre o peito de Naldo que lembrava uma mão deformada. Mauro golpeou novamente, acertando o ombro. A borda abriu um corte, e o sangue escorreu pelo membro dianteiro direito.

— Corre, Naldo!

Naldo tentou se erguer e caiu. Acima do cemitério, outro cachorro começou a latir. Uma luz se acendeu numa casa lateral.

A criatura voltou sobre ele. Mauro tornou a atacar, recebeu um golpe no braço e caiu alguns passos abaixo por causa da inclinação. Quando ergueu a cabeça, viu o amigo sendo arrastado entre dois jazigos. Os calcanhares batiam contra o chão e uma das mãos procurava apoio nas bordas de pedra. Mauro se levantou e foi atrás.

— Está acontecendo o quê aí? — gritou alguém do lado de fora.

— Tem alguém aqui dentro! — Mauro tentou responder sem parar de avançar, mas o bicho já estava sobre Naldo outra vez.

Avançou com a pá erguida. A criatura abandonou o corpo e saltou contra ele; algo rasgou seu antebraço, e Mauro sentiu o sangue chegar à mão antes de acertar a cabeça do animal. Ficaram próximos o suficiente para que ele sentisse a respiração quente e um cheiro azedo misturado à terra úmida. A criatura recuou, subiu dois ou três passos com uma facilidade que Mauro não teria naquela inclinação e desapareceu atrás dos jazigos.

Mauro ainda ouviu alguma coisa bater contra o muro. Logo depois vieram o barulho de um portão numa das casas vizinhas, cães latindo e vozes perguntando de onde tinham saído os gritos.

Ele caiu de joelhos ao lado de Naldo e pressionou as mãos contra os ferimentos enquanto procurava o celular. Havia sangue na camisa do amigo, na terra e descendo pelo próprio braço ferido. Conseguiu pedir ajuda e continuou falando com ele, chamando seu nome e mandando que não fechasse os olhos.

— Naldo, olha pra mim. Ei. Olha pra mim, rapaz.

Naldo respirou com dificuldade e moveu uma das mãos até Mauro segurá-la.

— Já estão vindo. Aguenta aí. Já estão vindo.

Os olhos do amigo se abriram uma última vez. Seus lábios se moveram, mas nenhum som saiu.

As primeiras pessoas chegaram pouco depois. Um morador dissera ter ouvido gritos e barulho vindo de dentro do cemitério; outro tinha visto uma luz se movimentando pela ladeira, mas nada além disso. Encontraram Mauro ajoelhado ao lado de Naldo, com o antebraço ferido e a pá ensanguentada caída a poucos passos. Lanternas iluminaram manchas de sangue entre os jazigos, terra revolvida e riscos recentes na madeira. Mauro contou que um animal os atacara e repetiu que Naldo também o tinha visto. Perguntaram para onde fora, e ele apontou para a parte superior do terreno. Ninguém encontrou nada. Depois vieram mais pessoas, novas perguntas e a polícia.

Na delegacia, Rafael ouviu tudo. Em algum momento da madrugada comentou que também não dormira direito na noite anterior enquanto folheava as anotações e pedia que Mauro explicasse outra vez onde encontrara Naldo. Perguntou quantas vezes usara a pá, e Mauro não soube dizer. Quis saber se os dois haviam discutido nos últimos dias, por que Naldo estava no cemitério e quem poderia confirmar que continuavam amigos. Mauro respondeu o que conseguia, olhando para as próprias mãos já lavadas e ainda enxergando sangue nos espaços entre os dedos.

Rafael voltou à parte em que os moradores ouviram os gritos. Eles confirmavam o barulho, mas nenhum vira o animal.

— Então ninguém viu o bicho além de vocês dois?

Mauro esfregou uma das mãos sobre a outra. — Eu já falei. Naldo viu também.

— Eu sei o que você falou. Preciso saber quem mais viu.

— Ninguém, pelo jeito.

Rafael anotou alguma coisa. — Me descreve de novo.

Mauro respirou fundo e repetiu o que conseguia lembrar: o tamanho, a maneira de se mover, o pelo escuro, os membros longos e aquilo que a luz permitira enxergar. Não tentou dar nome ao bicho.

Rafael terminou de escrever. — E você tem certeza de que era um animal?

Mauro olhou para ele. — Rafael, eu bati nele com uma pá. Aquilo me rasgou o braço.

Rafael sustentou o olhar por alguns segundos e voltou às anotações. — Certo.

Mais tarde, as roupas de Mauro foram recolhidas, o ferimento recebeu atendimento e ele foi levado para a cela, onde esperou o restante da madrugada. Na manhã seguinte, Rafael o chamou de volta. Havia fotografias espalhadas sobre a mesa: manchas de sangue, a pá, a área inclinada entre os jazigos, o corpo de Naldo e a árvore arranhada. Mauro apontou para os sulcos. — Isso aí já estava antes de ontem.

Rafael olhou a fotografia. — Os outros funcionários confirmaram.

Mauro puxou outra imagem, mostrando a terra revirada junto a uma sepultura. — E isso? As covas mexidas, os ossos... também estava acontecendo antes.

— Também confirmaram.

Mauro apoiou as mãos na mesa. — Então tinha alguma coisa entrando lá.

Rafael passou os olhos pelas fotografias antes de responder. — Eu sei que tinha alguma coisa mexendo nas covas.

— E isso não conta?

— Conta. Só não prova o que era.

Mauro abriu a boca para responder, mas Rafael estendeu o braço para recolher as imagens restantes. A manga da camisa subiu até pouco abaixo do cotovelo, revelando um curativo no antebraço direito.

Mauro acompanhou o movimento até a manga descer novamente. Rafael percebeu. — Que foi?

— Nada.

Ele reuniu as fotografias, levantou-se e caminhou até a porta. Antes de abri-la, parou com a mão na maçaneta e respirou pelo nariz. Depois virou um pouco o rosto.

— Você está sentindo esse cheiro?

Mauro não respondeu. Rafael inspirou novamente, mais devagar.


— Tem cheiro de coisa morta aqui.

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