Lucas conhecia a ladeira da Vila de Santo André desde menino. Já a subira correndo quando criança, reclamara da inclinação carregando compras para parentes e, mais velho, aprendera que descer parecia fácil só até os primeiros minutos. Naquela noite, pouco depois das onze, saíra da casa de um conhecido onde passara parte da noite ajudando com um problema na instalação elétrica. O homem ainda ofereceu levá-lo, mas Lucas recusou; morava mais abaixo e preferia ir andando.
Antes de começar a descida, passou pelas proximidades da antiga igreja de Santo André e diminuiu o passo por alguns segundos. Quando criança, acompanhava a mãe em algumas celebrações e ainda guardava lembranças soltas daquele tempo: o cheiro das velas, as conversas na porta depois da missa e Padre Joaquim, já velho, quase sempre com um pequeno medalhão prateado e torto aparecendo sobre a roupa. O padre morrera havia alguns anos, e Lucas não pensava nele com frequência. Naquela noite, porém, a igreja trouxe por um instante a imagem do homem sorrindo entre os moradores antes que a lembrança ficasse para trás.
A Vila estava como costumava ficar naquele horário, com portas fechadas, algumas janelas ainda iluminadas e sons domésticos escapando de vez em quando para a rua. Uma televisão permanecia ligada atrás de uma parede, alguém arrastou uma cadeira dentro de casa e, mais abaixo, um cachorro latiu quando Lucas passou diante de um portão. O primeiro ruído diferente veio de uma curva que a inclinação escondia alguns metros adiante: ferraduras tocando o pavimento num ritmo lento e pesado, fazendo-o diminuir o passo e tentar enxergar quem vinha subindo.
Outro cachorro latiu mais abaixo, e um terceiro respondeu quase imediatamente. Os latidos pareceram avançar com as ferraduras, surgindo de quintais diferentes conforme alguma coisa subia pela rua. Lucas esperou que aparecesse um animal acompanhado por alguém, mas foi uma mula sozinha que entrou na curva, avançando com a cabeça baixa e devagar, como se cada passo exigisse esforço. Sob a luz branca de um poste, conseguiu enxergá-la melhor: havia suor por todo o corpo, as narinas se abriam com força a cada respiração e marcas compridas atravessavam o lombo dos dois lados. Algumas pareciam antigas e já fechadas; outras estavam abertas, deixando pequenas trilhas de sangue presas aos pelos.
Lucas encostou perto de um muro para dar passagem e procurou atrás do animal alguma pessoa que pudesse estar conduzindo-o, mas ninguém apareceu. A mula passou tão perto que ele ouviu o ar entrando e saindo de seus pulmões, rápido demais para o passo lento que mantinha, e pensou em fotografá-la para tentar descobrir de quem era. Ainda retirava o celular do bolso quando um estalo atravessou a rua. A mula parou imediatamente, endurecendo o corpo inteiro, e um segundo estalo veio logo depois, mais forte, fazendo Lucas reconhecer o som de um chicote sem entender de onde partira.
O animal disparou ladeira acima, e as ferraduras bateram contra o pavimento numa sucessão violenta enquanto Lucas se afastava do muro e procurava entre os portões e entradas alguma pessoa escondida. Não havia ninguém. Tentou atribuir o barulho a algo num quintal, a uma madeira batendo ou a qualquer som capaz de explicar a reação da mula, mas nenhuma hipótese o convenceu. Guardou o celular e retomou a descida, ainda olhando uma vez para trás antes que a curva escondesse o animal.
Não tinha avançado muito quando ouviu novamente os cascos, vindo outra vez de baixo. O ritmo era diferente, mais rápido e irregular, acompanhado pelo arrastar de uma ferradura no pavimento, como se a mula estivesse sendo obrigada a subir mais depressa do que queria. Lucas olhou para a curva adiante e a viu aparecer sob outro poste, mas dessa vez havia alguém montado nela. A figura parecia um homem muito magro, vestido com uma roupa preta e comprida que se movia junto ao corpo do animal; o rosto permanecia baixo demais para que Lucas distinguisse alguma coisa, enquanto o braço direito sustentava um objeto estreito acima do ombro. O chicote desceu exatamente sobre uma das feridas abertas, fazendo a mula dar um salto desajeitado antes de acelerar.
— Ei! Para com isso! — Lucas gritou por impulso, avançando um passo para o meio da rua.
O homem não respondeu, mas, ao passar, virou a cabeça lentamente na direção dele. O movimento continuou por um instante além do que parecia natural enquanto o restante do corpo permanecia voltado para a frente, e a luz do poste, embora alcançasse a roupa, o braço e parte do pescoço, não revelou as feições. Havia sobre o rosto uma sombra escura demais para a posição da lâmpada, e Lucas sentiu o estômago se contrair enquanto recuava até tocar o muro.
A mula continuou ladeira acima e desapareceu na curva atrás dele, mas a imagem do homem permaneceu na cabeça de Lucas enquanto retomava a descida num passo mais rápido. Tentou convencer-se de que vira apenas alguém maltratando um animal e que movimento e iluminação haviam criado aquela impressão no rosto. Os cães, porém, começaram a reagir de outra maneira; alguns rosnavam atrás dos portões, outros choramingavam, e numa das casas um animal se lançou contra a grade com tanta força que Lucas ouviu as unhas rasparem no metal. Ele continuou sem parar, respirando um pouco mais rápido, até o tropel retornar de algum ponto abaixo.
Lucas diminuiu o passo antes mesmo de alcançar a curva. Conhecia aquela rua bem demais para aceitar imediatamente o que o som indicava: a mula subira por ele poucos instantes antes, não voltara a passar e, ainda assim, as ferraduras agora subiam novamente de algum ponto adiante. Ficou observando a curva enquanto esperava que outro animal aparecesse e resolvesse aquela contradição, mas foi a mesma mula que surgiu sob a iluminação seguinte, com espuma escorrendo dos cantos da boca e uma das patas falhando a cada poucos passos. Sobre ela havia agora duas figuras.
A primeira permanecia inclinada junto ao pescoço do animal, enquanto a segunda se apertava atrás, envolvida pela mesma roupa escura. Um chicote desceu, seguido por outro, e a mula tropeçou sem chegar a cair. Lucas sentiu o medo crescer, mas durante um instante a revolta falou mais alto. — Já chega! — gritou, arrependendo-se antes mesmo de terminar.
As duas figuras viraram a cabeça ao mesmo tempo. A mula interrompeu a subida, e os cães se calaram com uma rapidez tão completa que o ruído da própria respiração de Lucas pareceu ocupar toda a rua.
A figura sentada atrás começou a deixar o animal, mas não desmontou como uma pessoa faria. O corpo escorregou rígido pela lateral, os pés tocaram o pavimento quase juntos e somente depois os joelhos pareceram se ajustar ao peso. Lucas recuou quando ela deu o primeiro passo em sua direção. Só então virou-se para descer, tentando aumentar a velocidade sem permitir que a inclinação levasse seu corpo mais depressa do que as pernas conseguiam acompanhar.
Correr naquela ladeira exigia atenção mesmo sem alguma coisa perseguindo-o. Numa das curvas, a sola de seu tênis escorregou e Lucas precisou apoiar a mão num muro para não cair, mas não teve coragem de parar. Atrás dele não havia corrida; os passos vinham lentos, regulares e espaçados. Ainda assim, cada olhar sobre o ombro mostrava a figura mais perto, sem qualquer pressa, e essa ausência de esforço o assustava mais do que se ela estivesse correndo.
Lucas reconheceu um portão e bateu com força, chamando pelos moradores. Havia uma televisão ligada do outro lado da parede, e ele ouviu claramente as vozes de um programa antes de o volume diminuir. — Ô de casa! Abre aí! — insistiu, aproximando o rosto das frestas enquanto os passos continuavam pela rua. — Por favor! Tem alguém aí?
Alguma coisa se moveu dentro da casa, mas ninguém respondeu. Lucas tornou a olhar para trás e encontrou a figura já no meio da rua, próxima o bastante para que ele enxergasse o braço levantar.
O chicote atingiu o muro ao lado de sua cabeça com um estalo seco, arrancando pequenos fragmentos de reboco que bateram em seu rosto e no ombro. Lucas correu antes do segundo golpe, mas a ponta alcançou suas costas e abriu a camisa junto com a pele. A dor veio quente e profunda, arrancando um grito que ele não conseguiu conter, e por pouco seus pés não se embaralharam na descida. Quando levou uma das mãos para trás, sentiu o tecido rasgado e uma umidade quente espalhando-se sobre os dedos.
O medo mudou naquele instante. Até ali, uma parte de Lucas ainda buscava explicação para a mula reaparecendo, a sombra no rosto ou o movimento estranho daquele homem. O sangue acabou com essa distância. Aquilo podia alcançá-lo e podia abrir sua pele; se o próximo golpe viesse um pouco mais alto, poderia encontrar seu pescoço ou seu rosto. Lucas sentiu que talvez não conseguisse chegar ao fim da ladeira.
Continuou descendo com a respiração presa na garganta, tentando controlar as pernas enquanto os passos permaneciam atrás. Antes que ousasse olhar novamente, ferraduras começaram a bater contra o pavimento mais abaixo. A curva fechada adiante escondia o que subia, mas o tropel crescia depressa, misturado à respiração ofegante de um animal levado além do próprio limite. Lucas procurou algum portão aberto e encontrou apenas um recuo estreito entre uma parede e uma garagem, onde entrou quase de lado no momento em que a mula apareceu correndo ladeira acima.
Havia outra figura montada nela, e o animal passou tão perto que Lucas sentiu o cheiro azedo de suor, sangue e pelo molhado. O cavaleiro levantou o chicote e golpeou na direção do recuo; Lucas se abaixou, e a ponta atingiu um portão metálico com um estrondo que reverberou entre as casas. A mula seguiu por alguns metros na subida e tentou corrigir a passada depois da curva, mas uma das ferraduras escorregou no pavimento. O corpo inteiro tombou de lado com violência, batendo primeiro com o ombro e depois com a cabeça, enquanto o cavaleiro era lançado adiante.
Lucas esperou vê-lo permanecer no chão, talvez ferido ou atordoado, mas a figura se levantou quase imediatamente e caminhou de volta para o animal. A mula tentou fazer o mesmo e não conseguiu. Quando forçou o corpo para cima, a pata traseira direita dobrou sob o peso num ângulo que fez Lucas prender a respiração, e ela desabou novamente sobre o pavimento, soltando um som baixo e rouco que não parecia apenas um relincho. O cavaleiro parou ao lado dela e levantou o chicote. O primeiro golpe fez o animal se debater e procurar apoio com as patas que ainda obedeciam; antes que conseguisse se organizar, outro estalo atravessou a rua e o corpo tentou levantar novamente, apenas para cair quando a perna quebrada cedeu.
Lucas apertou a quina da parede com tanta força que sentiu as unhas doerem. — Para... — murmurou, sem perceber que tinha falado.
Um novo golpe obrigou a mula a reunir as patas debaixo de si e erguer o corpo. A perna continuava quebrada. Lucas conseguia ver o casco tocar o pavimento de lado, o membro dobrar sob o peso e o corpo inteiro estremecer antes de cada tentativa de avançar. Não havia cura nem qualquer mudança escondendo o ferimento; a mula sentia aquilo, e essa certeza estava na respiração, na espuma que caía de sua boca e na maneira desesperada como tentava retirar o peso daquela pata. O chicote tornou a descer, obrigando-a a dar um passo e depois outro, até que começou a trotar e finalmente voltou a correr ladeira acima com o membro quebrado arrastando numa sequência que nenhum animal deveria suportar.
Lucas percebeu que tremia. Durante a infância imaginara assombrações como coisas distantes das regras dos vivos, criaturas que não precisavam sentir dor ou que simplesmente desapareciam quando queriam. Aquilo parecia pior porque podia quebrar, sangrar e cair, mas alguma coisa lhe recusava até o direito de permanecer no chão. A pena durou somente até ele ouvir os passos se aproximando da entrada do recuo e perceber que a figura que o perseguia já estava perto outra vez.
Saiu antes que ela pudesse bloquear a passagem e retomou a descida alternando corrida e passos rápidos porque as pernas começavam a perder força. A camisa grudava na ferida das costas e qualquer movimento mais brusco dos ombros repuxava a pele aberta. Às vezes os passos pareciam vir de cima; em outras, as ferraduras surgiam adiante, mais abaixo, e Lucas abandonou a tentativa de compreender como a mula retornava sem passar por ele. Queria apenas continuar descendo, embora cada curva agora provocasse um medo novo do que poderia estar esperando do outro lado.
Foi ao terminar uma dessas curvas que viu dois faróis subindo devagar. Lucas entrou no meio da rua e levantou os braços, sentindo um alívio tão forte que quase esqueceu a dor enquanto o carro reduzia diante dele. O vidro do motorista começou a baixar, e Lucas se aproximou depressa. — Me leva daqui, por favor — pediu, procurando a maçaneta.
O homem não chegou a responder. Seus olhos deixaram Lucas por um instante e se fixaram no retrovisor. A expressão do motorista mudou de maneira tão brusca que Lucas sentiu o medo retornar antes mesmo de compreender o que ele tinha visto. O homem levantou o vidro e acelerou ladeira acima, passando por Lucas e continuando a subida com uma pressa que não combinava com as curvas daquele trecho.
— Espera! — Lucas gritou, acompanhando o carro por alguns passos, mas o veículo já se afastava e logo desapareceu na curva em direção ao alto da Vila.
Lucas olhou então para o trecho de onde o carro havia vindo e entendeu. Mais abaixo, sob a luz de um poste, a mula avançava novamente ladeira acima com várias figuras comprimidas sobre o lombo. Havia corpos demais para o espaço disponível, todos cobertos por roupas compridas e escuras, enquanto a figura que vinha perseguindo Lucas a pé permanecia mais acima, no meio da rua, separada do animal. Ele não conseguiu contar quantos cavaleiros estavam sobre a mula nem distinguir um único rosto, mas teve a sensação de que todos sabiam exatamente onde estava.
A figura que permanecia acima começou a descer novamente em sua direção, enquanto, mais abaixo, as ferraduras aumentavam de ritmo. A mula ganhava velocidade apesar da inclinação, avançando contra a subida com uma rapidez que o corpo ferido não deveria conseguir sustentar. Lucas procurou qualquer espaço que pudesse tirá-lo da rua antes que os dois lados o alcançassem.
Encontrou um recuo entre duas construções e tentou entrar, mas a mula chegou antes que conseguisse proteger o corpo inteiro. Uma mão saiu do amontoado de figuras e agarrou sua camisa pela gola enquanto o animal passava subindo, apertando o tecido contra seu pescoço e puxando-o para trás com força suficiente para fazê-lo bater contra a parede. Lucas perdeu o ar, sentiu os pés quase deixarem o chão e tentou soltar os dedos que o prendiam. Ao tocar aquela mão, encontrou uma pele fria e rígida demais, e a sensação foi tão repulsiva que puxou o corpo com toda a força até a camisa rasgar.
Lucas caiu de lado no mesmo instante em que uma ferradura atingiu o pavimento a poucos centímetros de sua mão. Ao levantar os olhos, viu a mula passar exatamente sob a luz branca do poste, e uma das roupas negras se abriu com o movimento. Algo prateado balançou sobre o peito da figura: um pequeno medalhão oval preso a uma corrente curta, com uma das bordas amassada para dentro. Durante uma fração de segundo, Lucas se lembrou do brilho torto de um medalhão sobre uma batina antiga e das conversas diante da igreja.
O ar faltou quando levantou os olhos para a cabeça daquele cavaleiro. A pele pálida aparecia onde deveria haver um rosto, mas as feições desapareciam numa sombra que nem a luz do poste conseguia atravessar. A figura virou lentamente a cabeça em sua direção enquanto a mula continuava subindo. O estalo do chicote rompeu o instante, e o animal acelerou até desaparecer na curva.
Os passos voltaram.
Lucas se levantou usando a parede como apoio e correu. Já não tentou entender de onde vinham nem procurou outra casa; desceu como conseguiu, controlando cada passada para não cair enquanto o corte nas costas ardia sob a camisa rasgada. Algumas casas adiante, duas pessoas conversavam perto de uma entrada. Lucas chamou, e dessa vez elas olharam em sua direção. Foi então que o tropel surgiu novamente mais abaixo.
A mula entrou na reta adiante subindo depressa, a pata quebrada tocando o pavimento de maneira torta a cada passada. Lucas tentou alcançar as duas pessoas, mas o animal vinha pela mesma rua, fechando a distância. Quando percebeu que não havia mais espaço para continuar naquela direção, lançou-se para a lateral. O ombro bateu no pavimento e o restante do corpo rolou até a base de um muro enquanto ele protegia a cabeça com os braços. Esperou o casco, o chicote ou alguma mão, mas nada o alcançou.
A violência passou ao lado numa mistura de ferraduras, respiração ofegante e tecido negro sacudindo. Ao abrir os olhos, Lucas viu a mula continuar a subida e desaparecer na curva sem diminuir a velocidade. As duas pessoas correram até ele e perguntaram quem havia feito aquilo, mas Lucas apenas tentou recuperar o ar enquanto continuava olhando para o ponto onde a mula desaparecera. O som dos cascos diminuiu ladeira acima, seguido por dois estalos de chicote cada vez mais distantes.
Um cachorro latiu em algum ponto mais abaixo da Vila. Poucos segundos depois, outro respondeu mais acima. Lucas sentiu o corpo inteiro endurecer ao reconhecer a mesma sequência que ouvira no começo da descida.
Então, muito longe, uma ferradura bateu contra o pavimento.

