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ASSOMBRAÇÕES DE ITUBERÁ: Contos do Baixo Sul
Conto 01 - A Luz que Sobe
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Conto 01 - A Luz que Sobe

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Mateus não acreditava em Biatatá, mas aprendera desde criança que era melhor não dizer isso na frente da avó. Ela aceitava quase qualquer provocação do neto: ria quando ele dizia que seus remédios caseiros tinham gosto de mato fervido, fingia indignação quando ele reclamava de comer peixe outra vez no almoço e até tolerava quando chamava de exagero algumas das histórias que ela contava. Bastava, porém, a conversa chegar às coisas que apareciam no mangue depois que o sol desaparecia para o rosto da velha perder o sorriso.

— Tem coisa que existe, você acreditando ou não.

Mateus costumava rir, e aquela frase quase sempre encerrava a discussão. Anos depois, sentado sozinho na pequena casa que pertencera à avó, ele se lembraria dela sem encontrar graça nenhuma.

Tinha voltado a Pescaria naquela manhã, saindo de Ituberá ainda cedo pelo caminho de água que conhecia desde criança. A morte da velha completara pouco mais de dois meses, e ele fora até lá apenas para separar alguns objetos antes que os tios decidissem o que fariam com o imóvel. Desde o enterro, ninguém tivera coragem de mexer direito no quarto. As roupas continuavam dobradas onde ela as deixara, garrafas reutilizadas guardavam ervas já secas, fotografias antigas ocupavam caixas e gavetas, e havia uma quantidade absurda de papéis que, segundo a mãe de Mateus, poderiam ser jogados fora sem cerimônia. Ele não conseguiu fazer isso. Entre contas antigas, receitas e documentos, encontrou um caderno de capa azul que reconheceu apenas pelo desgaste dos cantos, embora não se lembrasse de alguma vez ter visto a avó escrevendo nele.

A letra dela preenchia parte das páginas com receitas, nomes, datas, contas incompletas e histórias que Mateus reconhecia antes mesmo de terminar a primeira linha. Havia uma mula-de-padre, vozes de gente morta chamando perto da água, uma mulher que surgia onde não existia caminho e outros causos que escutara durante a infância e depois aprendera a tratar como superstição. Quase no fim do caderno, porém, encontrou uma palavra sublinhada duas vezes:

Biatatá.

Abaixo havia linhas apertadas, algumas apagadas pelo tempo, mas Mateus não se deu ao trabalho de decifrá-las. Passou o polegar sobre a escrita, fechou o caderno e soltou um sorriso cansado. — A senhora não largava disso mesmo, não.

Falou por hábito e, durante um segundo, quase esperou ouvir alguma resposta vindo do outro cômodo. Quando ela não veio, o silêncio pareceu devolver a casa inteira para ele, lembrando-o de que não havia mais ninguém ali. Do lado de fora, a claridade começava a desaparecer sobre o mangue, e foi somente então que percebeu quanto tempo passara remexendo nas coisas.

A ideia inicial era dormir na casa e voltar pela manhã, mas uma mensagem da mãe mudou os planos. Havia previsão de chuva forte para o dia seguinte, e um dos tios o esperaria naquela noite no cais de Ituberá. Bastava refazer de barco o caminho que fizera pela manhã. Mateus guardou algumas fotografias e o caderno azul na mochila, verificou as janelas, apagou o que precisava apagar e saiu antes que a noite fechasse por completo.

O pouco de claridade que restava desaparecia rapidamente sobre a água. Mateus conhecia a rota entre Pescaria e Ituberá, embora não com a intimidade dos homens que passavam a vida entre barcos, canais e manguezais. Ainda assim, considerava o trajeto conhecido demais para justificar preocupação. O pequeno motor respondeu depois da segunda tentativa, e a casa da avó começou a diminuir às suas costas enquanto ele avançava na direção da cidade.

Foi somente quando a escuridão se fechou ao redor do barco que Mateus percebeu como Ituberá podia parecer distante mesmo estando adiante. Em alguns trechos, as luzes da cidade desapareciam por trás das curvas e da vegetação, e restavam apenas a água escura, o manguezal e o caminho que levava ao Serinhaém e ao cais. A maré batia contra as raízes com um som úmido e repetitivo, insetos zuniam perto de seu rosto e, de vez em quando, alguma coisa se movia dentro da vegetação, produzindo um ruído curto demais para que ele identificasse a origem.

Mateus tirou o celular do bolso e conferiu a tela. O sinal oscilou por alguns segundos antes de desaparecer por completo. — Claro — murmurou, guardando o aparelho. Pouco depois, porém, o motor engasgou. Ele olhou para trás quase por reflexo, como se pudesse encontrar alguma coisa presa, e ouviu uma segunda falha. — Nem invente. — Na terceira, o motor morreu. Mateus manteve a mão sobre o comando por alguns segundos, encarando a máquina antes de tentar ligá-la novamente. O mecanismo respondeu com um ruído seco, quase pegou e morreu outra vez. — Muito bom.

Xingando baixo, abriu a pequena caixa de ferramentas e se abaixou. Tinha visto o tio mexer naquele motor dezenas de vezes, embora soubesse que observar alguém consertando uma coisa e saber consertá-la eram habilidades completamente diferentes. Acendeu a lanterna do celular e começou a examinar o pouco que reconhecia, procurando qualquer fio solto ou peça obviamente fora do lugar. Foi no meio desse esforço que uma claridade diferente, alguns metros à direita, chamou sua atenção.

A luz era pequena e amarelada, suspensa entre as árvores. Mateus levantou a cabeça devagar, estreitando os olhos. A primeira impressão foi de que alguém carregava uma vela ou uma lanterna dentro do mangue, ideia absurda o bastante para fazê-lo procurar uma explicação melhor antes de se preocupar. O ponto luminoso, porém, permanecia imóvel entre os galhos. Ele ergueu o celular na direção dele. — Ei! — Como não houve resposta, aumentou a voz. — Tem alguém aí?

A luz se moveu. Mateus esperou que fosse para um dos lados, acompanhando algum caminho escondido entre as raízes, mas o pequeno ponto amarelado não avançou nem recuou. Subiu vagarosamente, atravessando a escuridão entre as folhas até parar aproximadamente na altura da cabeça dele. O telefone quase escapou de sua mão, e por alguns segundos Mateus permaneceu imóvel, tentando convencer os próprios olhos de que havia algum erro de perspectiva. Então uma folha estalou no interior do mangue. O som atravessou a água com uma nitidez incômoda, e ele desligou a lanterna do celular quase sem perceber o que fazia. Mesmo sem a luz do aparelho, o ponto amarelo continuou ali.

Foi então que a memória da avó retornou com uma precisão que Mateus não desejava. Ele devia ter sete ou oito anos naquela noite. Estava deitado numa rede enquanto ela conversava com duas pessoas na varanda, quase dormindo, quando uma das vozes perguntou como era o Biatatá. A resposta da velha permanecera enterrada em algum lugar de sua memória durante mais de dez anos:

Primeiro você pensa que é luz de gente. Depois você chega perto. E ela sobe.

Mateus apertou o telefone contra o peito. Outra folha estalou, dessa vez com mais força, e a pequena chama tornou a subir entre os galhos. Ele recuou dentro do barco, sentindo a madeira ranger sob os pés. — Não... — A palavra saiu quase sem voz, mas o medo não apagou a necessidade de encontrar uma explicação.

Durante toda a infância, imaginara o Biatatá como algum monstro: talvez uma cobra de fogo, uma criatura de olhos enormes ou qualquer coisa suficientemente absurda para que um adulto pudesse olhar e concluir imediatamente que aquilo não existia. Ninguém o preparara para uma simples luz, justamente porque uma luz podia ser explicada. Poderia ser um barco distante, uma lanterna, algum reflexo, gás, um inseto ou qualquer fenômeno que ainda não tivesse identificado. Precisava apenas descobrir qual. Esse raciocínio conseguiu tranquilizá-lo durante poucos segundos, até que uma segunda luz apareceu atrás dele.

Mateus se virou tão rápido que bateu o joelho contra a lateral do barco. Outro pequeno ponto amarelo flutuava sobre a água, atravessando lentamente o caminho por onde ele havia vindo. Quando tornou a olhar para as árvores, a primeira luz continuava entre as folhas; agora havia duas. Tentou o motor mais uma vez e recebeu apenas o mesmo ruído seco, alto demais naquele silêncio, enquanto a luz sobre a água encurtava a distância entre os dois.

Sem insistir no motor, Mateus agarrou o remo e começou a afastar o barco do mangue. Não calculou distância nem direção; queria apenas aumentar o espaço entre ele e aquelas luzes. A embarcação avançou devagar, pesada contra a corrente, e ele remou com mais força quando percebeu que o ponto amarelo continuava se aproximando apesar do esforço. Quanto mais depressa tentava escapar, menos parecia importar para a coisa que o seguia. O suor já descia por suas costas, embora o vento sobre a água permanecesse fresco, quando uma voz atravessou o mangue.

— Mateus.

O remo parou no meio do movimento. Não era uma lembrança se formando dentro da cabeça nem uma frase recuperada do passado: era uma voz, vinda de algum ponto entre as árvores, e soava como a da avó. Mateus sentiu o corpo endurecer antes mesmo de compreender o que escutara.

— Vó?

A palavra escapou antes que pudesse contê-la. Nenhuma resposta veio de imediato. Durante aqueles poucos segundos, o frio pareceu se espalhar por dentro de Mateus porque a avó estava morta, e ele sabia disso de uma maneira que não admitia dúvida: vira o caixão, carregara uma das alças e assistira à terra cair sobre ele. Ainda assim, quando a voz retornou do mangue, era exatamente como se lembrava, baixa, cansada e carregando aquela irritação discreta que surgia sempre que ela precisava repetir alguma coisa.

— Mateus... venha cá.

Os olhos dele se encheram d'água antes que pudesse controlar. Por um instante, toda a lógica que construíra durante vinte anos perdeu força. — Vó? — chamou outra vez.

A luz entre as árvores desceu alguns centímetros, quase como se tivesse respondido, e Mateus permitiu que o barco virasse lentamente na direção do mangue.

— Venha, meu filho.

Mateus chegou a dar uma remada. As raízes ficaram mais próximas, formando sombras retorcidas sobre a água, mas, quando ergueu o remo para repetir o movimento, alguma coisa naquela frase encontrou resistência em sua memória. Sua avó nunca o chamava de meu filho. Nunca. Desde criança, havia palavras específicas para cada ocasião: meu teimoso, quando estava bem-humorada; menino, quando ele a irritava; Mateus, quando queria ser levada a sério. Mas jamais meu filho. A mão dele permaneceu suspensa sobre o remo enquanto o significado dessa diferença finalmente se impunha.

A coisa no mangue conhecia a voz, mas não conhecia a mulher.

Mateus deixou o remo cair no fundo do barco e abriu a mochila quase com violência. Puxou o caderno azul, ligou a tela do celular no brilho mais baixo e começou a passar as páginas até encontrar novamente a palavra sublinhada:

Biatatá.

Dessa vez, obrigou-se a ler o restante. A letra da avó mudava de tamanho e direção, como se aquelas linhas tivessem sido escritas em momentos diferentes.

Vi de novo depois da curva do mangue. Parecia luz de canoa, mas não era.

Mais abaixo, espremida entre duas frases riscadas, havia outra anotação:

Dona Celina dizia que, se chamar, não responda.

E, quase no fim da página, uma linha fora escrita com tanta força que a ponta da caneta marcara o papel:

Se responder, ela aprende.

O estômago de Mateus se contraiu. Já havia respondido duas vezes e, antes que conseguisse decidir o que fazer com aquela descoberta, ouviu a própria voz atrás de si.

— Vó?

Fechou os olhos imediatamente. A palavra saíra exatamente como ele a pronunciara minutos antes, com o mesmo tom, a mesma hesitação e a mesma esperança involuntária. Logo depois veio outra frase, agora mais perto.

— Tem alguém aí?

Era a voz dele novamente. Mateus deixou escapar um — Não... — quase inaudível, e uma imitação devolveu a mesma palavra do interior do mangue, copiando até o sussurro.

As vozes começaram então a surgir ao redor do barco, repetindo o que Mateus dissera desde que o motor parara. Algumas vinham de dentro das árvores, outras pareciam nascer sobre a água, e havia momentos em que sua própria voz soava tão perto da lateral da embarcação que bastaria esticar a mão para tocar quem quer que estivesse falando.

— Nem invente.

— Tem alguém aí?

— Vó?

As frases voltavam de pontos diferentes, não como uma conversa, mas como pedaços dele sendo experimentados por alguma coisa que ainda não sabia usá-los. Mateus apertou os lábios e não disse mais nada.

As luzes também começaram a se multiplicar. Primeiro uma terceira surgiu entre as raízes; depois outra flutuou acima da água. Novos pontos amarelados apareceram mais profundamente no mangue até que Mateus perdeu a conta de quantos havia. Alguns permaneciam baixos, outros oscilavam entre os galhos, e então, quase ao mesmo tempo, todos começaram a subir. As folhas estalaram uma após outra, não mais como se o vento as tocasse, mas como se alguma coisa imensa atravessasse a copa das árvores sem mostrar o próprio corpo.

Mateus recuou até se encolher no fundo do barco, ainda segurando o caderno aberto. Ao puxá-lo para junto do peito, percebeu uma escrita no verso da folha. Não era uma regra, mas uma lembrança da avó registrada em poucas linhas tortas:

Na segunda vez, apaguei o candeeiro e fiquei no fundo do barco. Passou por cima de mim. Não chamei ninguém. Não respondi. No escuro, não soube onde eu estava.

Mateus releu a anotação uma única vez, olhou para a tela acesa em sua mão e a desligou. A escuridão o engoliu por completo, apagando o único ponto de referência que ainda lhe pertencia, e as vozes cessaram quase no mesmo instante. As luzes continuavam ao redor, mas nenhuma delas agora era sua.

Ele se deitou no fundo da embarcação, abraçou a mochila contra o peito e permaneceu imóvel, tentando controlar a respiração para que até o som do ar entrando em seus pulmões desaparecesse. Uma das chamas se aproximou, mas Mateus não levantou a cabeça. Outra passou lentamente sobre o barco, e durante alguns segundos um calor estranho tocou seu rosto. Alguma coisa estalou acima dele; uma folha caiu sobre sua mão e, logo depois, outra veio pousar perto do ombro.

A água continuou batendo contra o casco, indiferente ao que se movia no escuro, e foi ali, encolhido no fundo de um pequeno barco entre Pescaria e Ituberá, que Mateus compreendeu pela primeira vez por que os antigos não pareciam preocupados em descobrir o que exatamente era uma assombração. Talvez não houvesse utilidade nisso. Sobreviver não exigia entender; às vezes exigia apenas saber quando parar de procurar uma explicação.

Ele não soube dizer quanto tempo permaneceu naquela posição. Poderiam ter sido vinte minutos ou duas horas. Quando finalmente reuniu coragem para abrir os olhos, uma claridade cinzenta começava a nascer no horizonte. Não havia luzes entre as árvores, nenhuma voz chamava seu nome e o mangue voltara a produzir apenas os sons comuns da maré e dos animais escondidos. Mateus se sentou devagar, com o corpo dolorido, e examinou os arredores antes de tocar no motor.

Quando puxou a partida, o motor pegou na primeira tentativa. Mateus não comemorou; guardou o caderno, segurou o comando com as duas mãos e seguiu na direção de Ituberá sem olhar para trás. Ao finalmente avistar o cais e o tio esperando por ele, a cidade pareceu próxima demais, iluminada demais e comum demais para comportar o que acabara de acontecer a poucos trechos dali.

Mateus contou apenas que o motor havia dado problema e que precisara esperar. Não mencionou as luzes, a voz da avó ou o que encontrara escrito no caderno, porque parte dele ainda acreditava que, se não transformasse aquilo em palavras, seria mais fácil convencer a si mesmo de que nada realmente acontecera.

Durante semanas, o caderno azul permaneceu fechado sobre sua mesa. Mateus voltou à rotina, trabalhou, conversou, riu e atravessou novamente partes da cidade durante o dia. Aos poucos, construiu uma explicação confortável: algum fenômeno natural, combinado ao cansaço, à escuridão e às histórias que escutara quando criança, havia confundido seus sentidos. O motor poderia ter falhado por qualquer motivo; as luzes talvez fossem gases ou reflexos, e as vozes poderiam ter sido memória, medo ou imaginação. Era a explicação que preferia e, durante algum tempo, conseguiu viver com ela.

Até a noite em que acordou e percebeu que o quarto estava iluminado.

Mateus abriu os olhos ainda sonolento e procurou a origem da claridade, mas ela não vinha da lâmpada, da televisão nem do celular carregando ao lado da cama. Um pequeno ponto amarelo permanecia do outro lado da janela, suspenso na escuridão. Ele se sentou lentamente e levou alguns segundos para lembrar que morava no segundo andar.

A luz permaneceu imóvel por alguns segundos e então subiu alguns centímetros. Do lado de fora do vidro, usando exatamente a voz de Mateus, alguma coisa sussurrou uma pergunta que ele conhecia bem.

— Tem alguém aí?

Mateus ficou olhando para a janela, sentindo novamente o cheiro úmido do mangue que não poderia estar ali.


Dessa vez, não respondeu. Dessa vez, ele já sabia.

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