O cheiro de café queimado grudava na minha pele como uma segunda camada.
Era sutil o suficiente para que ninguém comentasse, mas constante demais para ser ignorado. Misturado ao vapor quente das máquinas, ao barulho de louça batendo e às vozes sobrepostas de pessoas que viviam vidas que não tinham nada a ver com a minha, aquele cheiro havia se tornado uma espécie de marca da minha rotina. Depois de tantas horas trabalhando naquele café, eu já nem sabia se realmente sentia o cheiro ou se apenas o associava automaticamente ao fim de mais um dia.
Mais um turno terminado.
Empurrei a porta dos fundos com o ombro e escapei para o ar frio da noite. A mudança de temperatura fez meu corpo reagir imediatamente, fazendo com que eu fechasse melhor o casaco enquanto respirava fundo. O ar do lado de fora não era exatamente melhor, porque ainda carregava fumaça de carros, barulho, pressa e o cansaço de uma cidade que parecia nunca parar completamente, mas pelo menos não tinha o peso abafado do salão onde eu havia passado as últimas horas.
Passei uma das mãos pelo rosto, tentando afastar a exaustão que parecia ter se instalado nos meus ossos.
Aquela não era uma noite diferente das outras.
Talvez fosse justamente por isso que eu não teria como imaginar que seria a última.
Caminhei pela calçada sem pressa, deixando o movimento da cidade me levar enquanto tirava o celular do bolso. A tela se acendeu diante dos meus olhos e, depois de ignorar as poucas notificações que não tinham importância suficiente para me fazer parar, abri o aplicativo que realmente queria ver.
Asterion.
Eu havia começado a reler o livro tantas vezes que já não precisava pensar muito para encontrar as partes que mais gostava. Bastava deslizar o dedo pela tela e procurar determinados capítulos, cenas que eu conhecia quase de cor e que, mesmo depois de tantas leituras, ainda conseguiam me prender por alguns minutos.
Naquela noite, fui direto para uma das cenas envolvendo Daniel Lancaster.
O vilão.
Meu dedo deslizou lentamente pela tela, acompanhando as linhas que eu já conhecia quase de cor. Daniel Lancaster era o personagem que deveria ser odiado, aquele que o autor havia construído para ocupar o lugar do antagonista, sempre envolvido em conflitos, sempre tomando decisões que faziam os outros personagens olharem para ele com desprezo, mas, apesar do título, da posição e de tudo aquilo que possuía, havia uma coisa que nunca mudava: Daniel parecia estar sempre sozinho.
Mesmo cercado de pessoas, mesmo vivendo dentro de uma família poderosa, mesmo carregando um nome que fazia qualquer um se curvar diante dele, existia uma distância entre Daniel e o restante daquele mundo que ninguém parecia disposto a atravessar. Ele tinha tudo o que alguém poderia desejar e, ainda assim, quanto mais a história avançava, mais evidente ficava que não havia ninguém ao lado dele quando as coisas realmente importavam.
Um sorriso fraco surgiu no meu rosto.
- Idiota...
Talvez fosse justamente isso que me fazia gostar tanto dele.
Eu sabia que Daniel Lancaster não era inocente. Sabia das coisas que havia feito, das palavras cruéis, das escolhas erradas e da maneira como ele próprio parecia empurrar para longe qualquer pessoa que tentasse se aproximar, mas havia alguma coisa naquele personagem que sempre me incomodara de um jeito diferente. Talvez porque, por trás de toda aquela arrogância, houvesse apenas alguém que nunca aprendera a pedir para ser amado.
Continuei olhando para a tela, deixando os olhos percorrerem mais uma vez aquela parte da história, e senti aquela familiaridade estranha que costumava surgir sempre que eu chegava a esse ponto. Era difícil explicar de onde vinha, porque não era exatamente pena e também não era apenas identificação; era uma sensação mais profunda, quase como se houvesse alguma coisa naquele personagem que eu reconhecia sem saber de onde, como se, de alguma maneira absurda, eu estivesse olhando para alguém que conhecia muito mais do que deveria.
Talvez fosse apenas impressão.
Deslizei o dedo pela tela para fechar o livro e comecei a guardar o celular no bolso enquanto retomava o caminho, ainda pensando naquela história e, principalmente, naquele personagem que eu nunca conseguira enxergar simplesmente como o vilão que o autor pretendia que ele fosse. Foi então que um som agudo de pneus raspando contra o asfalto cortou meus pensamentos, seguido quase imediatamente por um grito vindo de algum ponto da rua.
Ergui a cabeça por instinto e, por um breve instante, tudo pareceu acontecer devagar demais. Um par de faróis avançava na minha direção, forte o suficiente para me obrigar a semicerrar os olhos, enquanto o veículo se aproximava rápido demais para que houvesse tempo de compreender o que estava acontecendo. Meu corpo finalmente tentou reagir, mas já não havia espaço suficiente, nem tempo suficiente para que qualquer movimento pudesse fazer diferença.
O último pensamento que atravessou minha mente foi tão absurdo que quase teria rido se ainda tivesse tido tempo para isso: eu sequer havia terminado de ler o capítulo.
Então o impacto veio com uma força brutal, arrancando o ar dos meus pulmões e apagando, em um único instante, o som da rua, a luz dos faróis e qualquer outra coisa que ainda existisse ao meu redor.
E depois disso, não houve mais nada.
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Quando voltei a ter consciência, a primeira coisa que percebi foi que estava respirando.
Foi uma constatação simples, quase banal, mas naquele momento pareceu estranha o suficiente para ocupar todos os meus pensamentos. O ar entrava e saía dos meus pulmões com uma tranquilidade que não combinava com a lembrança que eu tinha do último instante da minha vida, e durante alguns segundos permaneci imóvel, tentando entender por que meu corpo não estava coberto de dor.
Aos poucos, outros sentidos começaram a retornar.
Eu estava deitado.
Havia algo macio sob minhas costas, muito mais confortável do que qualquer colchão que eu já tivesse usado, e uma sensação agradável de calor envolvia meu corpo. O ambiente também tinha um cheiro diferente, algo entre madeira, tecido limpo e uma fragrância suave que eu não conseguia reconhecer.
Abri os olhos.
O teto acima de mim não fazia sentido.
Era alto, decorado com detalhes que pareciam ter sido trabalhados à mão, e havia uma estrutura ornamental ao redor de uma luminária cuja aparência lembrava mais um objeto antigo de palácio do que qualquer coisa que eu pudesse encontrar em um quarto comum. Pisquei algumas vezes, esperando que a visão se ajustasse e que aquilo desaparecesse.
Não desapareceu.
Virei lentamente a cabeça.
As paredes eram claras, cobertas por uma decoração elegante e discreta. Cortinas pesadas ocupavam quase toda uma parede, escondendo parcialmente janelas enormes pelas quais entrava uma luz suave. Havia uma estante cheia de livros, uma escrivaninha de madeira escura, uma poltrona próxima à janela e uma mesa pequena onde repousava uma jarra de água.
Não havia aparelhos eletrônicos.
Nenhum carregador.
Nenhuma televisão.
Nenhum celular.
Nada que pertencesse ao meu mundo.
Tentei me sentar.
Meu corpo respondeu com uma facilidade que me deixou ainda mais confuso. Não havia fraturas, não havia sangue, não havia aquela dor insuportável que eu esperaria depois de ser atingido por um carro. Apenas uma leve fraqueza, como se tivesse acabado de acordar depois de dormir por tempo demais.
Passei uma mão pelo rosto.
Minha pele parecia diferente.
Parei.
Olhei para a própria mão.
Os dedos eram mais finos do que eu lembrava, as unhas estavam bem cuidadas e havia algo estranho na proporção daquela mão, como se pertencesse a alguém mais jovem.
Antes que pudesse pensar melhor sobre aquilo, ouvi passos do outro lado da porta.
Ela se abriu alguns segundos depois.
Uma jovem entrou carregando uma bandeja com o café da manhã. Vestia um uniforme elegante, simples, mas claramente pertencente a outra época, e seu cabelo estava preso de maneira impecável. Assim que me viu sentado na cama, seus olhos se arregalaram por um instante antes de um sorriso aliviado surgir em seu rosto.
- Bom dia, jovem mestre Daniel. Espero que tenha dormido bem.
Meu coração pareceu esquecer como bater.
- Como você me chamou?
A jovem franziu levemente a testa.
- Jovem mestre Daniel.
Daniel.
Não.
A palavra ficou presa na minha mente, repetindo-se enquanto eu tentava encontrar alguma explicação racional para aquilo.
Talvez eu ainda estivesse sonhando.
Talvez o acidente tivesse causado algum tipo de alucinação.
Talvez eu estivesse morto.
Essa última possibilidade deveria ter sido assustadora, mas, naquele momento, havia algo muito mais perturbador acontecendo.
Levantei-me da cama.
A jovem tentou se aproximar, provavelmente preocupada com a minha instabilidade, mas não dei atenção. Meus olhos haviam encontrado um enorme espelho colocado próximo à parede oposta, e alguma coisa dentro de mim dizia que eu precisava olhar para ele.
Caminhei até lá.
A cada passo, a sensação de estranheza aumentava.
Parei diante do espelho.
E fiquei sem palavras.
O reflexo que me encarava não era o meu.
Cabelos brancos caíam ao redor do rosto em um corte irregular, volumoso e moderno demais para combinar com aquele quarto, formando um wolf cut mullet que terminava em camadas suaves. As pontas eram tingidas de azul, criando um contraste incomum com o branco quase prateado dos fios. O rosto era mais jovem, delicado e bem definido, e os olhos...
Verdes.
Olhos verdes me encaravam através do espelho.
Levei lentamente a mão ao cabelo.
O reflexo repetiu o movimento.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Eu conhecia aquele rosto.
Conhecia aqueles cabelos.
Conhecia aqueles olhos.
Conhecia aquele nome.
- Não...
A palavra saiu tão baixa que quase não existiu.
A jovem continuava parada atrás de mim, sem compreender o motivo daquela reação.
Eu, por outro lado, começava a compreender coisas demais.
Daniel Lancaster.
O nome atravessou minha mente junto com uma quantidade absurda de lembranças que não eram minhas.
Um enorme salão.
Uma casa que eu nunca havia visto, mas que, de algum modo, parecia familiar.
Professores.
Criados.
Nobres.
Discussões.
Um pai severo que raramente demonstrava carinho, mas cuja presença ainda carregava uma importância que eu não conseguia ignorar.
Um irmão mais velho.
Uma mãe.
E então vieram sentimentos que pareciam muito mais fortes do que simples lembranças: raiva, abandono, orgulho ferido, ciúme, frustração e uma necessidade desesperada de ser reconhecido por alguém que nunca parecia olhar para ele da maneira que desejava.
Apertei os dedos contra a lateral da cabeça quando uma dor aguda atravessou minha mente.
As lembranças vieram desordenadas, sem começo ou fim, como páginas de um livro sendo arrancadas e jogadas ao vento. Eu via corredores, rostos, roupas, lugares e acontecimentos que não conseguia organizar, mas havia uma coisa que eu reconhecia perfeitamente.
Aquele era Daniel Lancaster.
O Daniel Lancaster de Asterion.
O vilão.
O personagem que eu havia acabado de ler minutos antes.
Minha respiração ficou presa.
Não podia ser.
Eu havia acabado de morrer.
E agora estava dentro do corpo do personagem que mais gostava em uma história que conhecia praticamente de cor.
Olhei novamente para o espelho, esperando encontrar alguma falha naquela realidade, alguma coisa que me dissesse que tudo aquilo era uma coincidência absurda.
Não encontrei.
Apenas aquele rosto desconhecido que, de alguma forma, agora era meu.
- Jovem mestre?
A voz da criada me trouxe de volta.
Virei-me lentamente.
- Que dia é hoje?
Ela pareceu surpresa com a pergunta, mas respondeu sem questionar.
- É o décimo segundo dia do mês de Élan.
Franzi a testa.
Aquele nome não existia no meu calendário.
- Quanto tempo falta para o início das aulas da Academia Asterion?
Dessa vez, ela me encarou com ainda mais estranheza.
- Aproximadamente um mês, jovem mestre. As aulas começarão no próximo ciclo.
Um mês.
Fiquei em silêncio.
Um mês antes do início da história.
Um mês antes de Daniel Lancaster começar a caminhar pelo mesmo caminho que o levaria à própria destruição.
Um mês antes de Adrian conhecer Eryon de verdade.
Um mês antes de os acontecimentos que eu conhecia tão bem começarem a se desenrolar.
Passei os olhos novamente pelo quarto.
Tudo aquilo era real.
O tecido sob meus dedos era real, o cheiro das flores sobre a mesa era real, a luz atravessando as cortinas era real e o peso daquele corpo também era real.
Não havia como voltar para casa.
Não havia como acordar novamente no meu quarto.
Eu estava em Asterion.
E estava no corpo de Daniel Lancaster.
O personagem que terminava morto.
O personagem que perdia tudo.
O personagem que, no fim da história, não recebia sequer a chance de descobrir se poderia ter sido diferente.
Soltei o ar devagar.
Por algum motivo, em meio ao choque, uma única ideia começou a se formar com uma clareza quase assustadora.
Eu conhecia aquela história.
Conhecia os acontecimentos que estavam por vir, conhecia as pessoas que Daniel deveria encontrar, sabia quais decisões o levariam à ruína e, principalmente, sabia que o destino daquele personagem não estava gravado em pedra.
Porque o autor havia escrito uma história.
Não uma sentença.
Olhei mais uma vez para meu reflexo e, pela primeira vez desde que havia acordado naquele quarto, não senti apenas medo.
Havia uma oportunidade escondida no absurdo daquela situação.
Eu tinha um mês.
Um mês para descobrir o que havia acontecido antes da história começar, entender o que eu poderia mudar e, acima de tudo, encontrar uma maneira de impedir que Daniel Lancaster terminasse como terminava no livro.
Se eu realmente estivesse dentro de Asterion, então conhecia o roteiro melhor do que qualquer pessoa daquele mundo.
E, se havia uma coisa que eu tinha aprendido depois de ler aquela história tantas vezes, era que Daniel nunca tivera a oportunidade de escolher outro caminho.
Agora, ele teria.
Ou melhor...
Eu teria.
Apertei as mãos lentamente, sentindo o coração finalmente desacelerar enquanto uma determinação silenciosa começava a tomar o lugar do choque.
Eu não sabia por que havia parado naquele corpo, não sabia por que aquela história havia me escolhido e muito menos sabia se existia alguma maneira de voltar para o mundo que conhecia.
Mas uma coisa eu sabia.
Eu não morreria como Daniel Lancaster.
Se aquele mundo esperava que eu interpretasse o papel do vilão, então eu poderia deixá-los acreditar nisso. Só precisaria garantir que ninguém percebesse que, desta vez, o vilão conhecia o roteiro.
A história que eu conhecia havia terminado.
Agora, eu teria que escrever uma nova.

