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O Vilão Nunca Deveria Amar
Prologo
976 palavras • 6175 caracteres • ⏱ 3 min 54 s

Prologo

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Eu tive um sonho naquela noite, embora não conseguisse dizer exatamente quando ele havia começado ou quanto tempo havia durado, porque tudo nele parecia existir em um lugar diferente do tempo que eu conhecia. Eu estava em um campo enorme, correndo ao lado de outro garoto enquanto nós dois ríamos de alguma coisa que, mesmo depois de acordar, eu não conseguia lembrar. Ele segurava minha mão de vez em quando e parecia completamente à vontade comigo, como se fôssemos amigos havia anos, mas havia uma coisa que me incomodava: eu não conseguia enxergar seu rosto, assim como também não conseguia distinguir completamente o meu.


Quando acordei, permaneci alguns minutos olhando para o teto enquanto tentava recuperar alguma lembrança mais concreta daquele sonho, mas quanto mais eu tentava, mais ele parecia desaparecer, deixando apenas uma sensação estranha de saudade por algo que eu nunca havia vivido. Era uma sensação difícil de explicar, principalmente porque eu não conseguia associá-la a nenhuma lembrança real da minha vida. Ainda assim, ela aparecia com frequência suficiente para que eu já tivesse me acostumado com aquela estranha impressão de estar sentindo falta de alguém que eu sequer conhecia.

Eu nunca tive amigos. Muito menos uma família.

Era órfão e havia crescido aprendendo sozinho quase tudo o que sabia sobre o mundo, inclusive coisas que uma criança provavelmente não deveria precisar aprender tão cedo. No orfanato, disseram que eu tinha sido deixado na porta quando tinha seis anos, chorando e chamando pela minha mãe, mas eu não me lembrava de absolutamente nada daquela época. Com o tempo, parei de perguntar, porque algumas perguntas eram mais fáceis de suportar quando não tinham resposta. Talvez fosse mais simples aceitar que algumas partes da minha história simplesmente não existiam para mim.

O despertador tocou pouco depois, interrompendo meus pensamentos, e levantei com preguiça, já sabendo que aquele seria apenas mais um dia de trabalho. No banheiro, parei diante do espelho e encontrei meu reflexo habitual: cabelos pretos bagunçados, olhos castanhos cansados e uma expressão que deixava bastante claro que eu preferia continuar dormindo. Lavei o rosto, arrumei o cabelo da maneira que consegui e fui até a cozinha preparar meu café da manhã, que consistia em um pão e uma xícara de café com leite, o suficiente para começar o dia.

O frio daquele ano estava particularmente intenso, então coloquei alguns agasalhos antes de sair. Eu não gostava muito de temperaturas baixas, embora houvesse alguma coisa agradável na cidade durante o inverno, principalmente nas manhãs em que as pessoas saíam de casa enroladas em casacos e cachecóis, carregando copos quentes entre as mãos.

O caminho até o trabalho era conhecido o bastante para que eu pudesse fazê-lo quase no automático, mas naquele dia acabei observando as pessoas ao meu redor. Casais caminhavam de mãos dadas, amigos conversavam e riam enquanto seguiam para algum lugar, algumas pessoas corriam para não perder o transporte e outras simplesmente caminhavam sozinhas, perdidas nos próprios pensamentos. Eu apenas continuei andando, porque não estava acostumado com a sensação de ter alguém esperando por mim.

Meu trabalho ficava em um café antigo que permanecia aberto até o começo da noite. Assim que entrei, encontrei meus colegas, que já estavam organizando algumas mesas e preparando o salão para mais um dia movimentado.

- Boa tarde, pessoal. Como vocês estão?

- Estamos ótimos. E você, Daniel?

Pensei por um instante antes de responder.

- No melhor que é possível.

Eles riram, e eu também sorri antes de seguir para o vestiário.

O dia passou como tantos outros, entre clientes tranquilos, apressados, cansados, falantes e alguns que pareciam encontrar prazer em reclamar de absolutamente tudo. Eu já estava acostumado com aquela rotina e conseguia realizar boa parte das tarefas quase sem pensar, alternando entre atender pedidos, levar bebidas às mesas, organizar o salão e conversar brevemente com os colegas quando o movimento diminuía.

Quando chegou minha hora de almoço, peguei minha comida e me sentei em uma mesa mais afastada antes de tirar meu livro favorito da mochila.

Asterion.

Eu já havia lido aquele livro tantas vezes que tinha perdido a conta, talvez vinte ou mais. Era uma história de fantasia com magia, famílias nobres, intrigas políticas, uma academia cheia de jovens talentosos e, naturalmente, um romance complicado. Eu gostava principalmente da construção daquele mundo, embora algumas decisões dos personagens fossem tão absurdas que eu frequentemente precisava parar de ler para rir.

Abri justamente em uma das minhas cenas favoritas.

Daniel Lancaster atacava Eryon, e Adrian aparecia para defendê-lo, empurrando Daniel para longe antes de apontar a espada contra ele.

- Não se aproxime dele, Daniel, se não quiser que eu te mate.

Parei de ler por alguns segundos e ri. Aquilo sempre me pareceu exagerado; Eryon era dramático demais naquela situação, enquanto Daniel apenas tentava se defender. Mas aquela era uma história de fantasia, e nada precisava fazer sentido, principalmente em uma história de BL. Se havia magia, nobres, espadas, romances complicados e personagens dispostos a ameaçar uns aos outros por motivos questionáveis, então eu já tinha aceitado que procurar lógica demais provavelmente acabaria com a diversão.

Continuei lendo, familiarizado com cada acontecimento, cada personagem e até mesmo com o destino de Daniel Lancaster, o vilão que estava destinado a morrer.

Ainda assim, havia alguma coisa naquele personagem que sempre me incomodava.

Talvez porque, por algum motivo, Daniel me lembrasse do garoto dos meus sonhos.

Eu não sabia explicar. Era apenas uma sensação estranha que aparecia sempre que eu lia determinadas cenas, principalmente aquelas em que Daniel estava sozinho ou parecia esconder alguma coisa atrás daquela personalidade arrogante. Era como se houvesse alguma coisa nele que eu reconhecesse sem realmente saber de onde.

Quando meu intervalo terminou, guardei o livro e voltei ao trabalho, carregando aquela sensação comigo até o fim do dia.

Mal sabia eu que aquele livro tinha algo quadrado para meu futuro.

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