Pov - Alexandra
A primeira coisa que senti foi o cheiro.
Não o cheiro comum de um acampamento de guerra - couro molhado, ferro, suor, fumaça baixa, cavalos inquietos. Aquilo eu conhecia. Aquilo quase me acalmava.
O que atravessou a noite foi outro odor.
Amargo.
Doce demais.
Errado demais.
O cheiro de veneno.
Atravessei o acampamento com a espada ainda presa à mão, enquanto homens corriam de um lado para o outro carregando corpos, baldes de água, panos manchados e ordens incompletas. As tochas tremiam sob o vento noturno, lançando sombras longas sobre as tendas. Gritos vinham do lado sul, onde o batalhão envenenado havia sido reunido às pressas pelos curandeiros.
Quando cheguei, encontrei o caos.
Soldados de Moonhart estavam caídos no chão, alguns se contorcendo, outros vomitando sangue escuro, outros imóveis demais para ainda pertencerem aos vivos. Havia mãos agarrando terra, bocas tentando puxar ar, olhos arregalados na direção de qualquer um que parecesse capaz de impedir a morte de terminar o trabalho.
Um dos curandeiros ergueu o rosto para mim.
- Alteza-
- Quantos?
Ele hesitou.
Má escolha.
Aproximei-me um passo.
- Eu perguntei quantos.
- Trinta e sete mortos - respondeu, a voz falhando. - Mais de cinquenta intoxicados. Alguns talvez sobrevivam se receberem tratamento imediato, mas outros...
Ele olhou para trás.
Não precisava terminar.
Observei os corpos por alguns segundos.
O veneno havia sido bem escolhido. Rápido o bastante para causar pânico, lento o suficiente para que os sobreviventes gritassem e contaminassem o resto do acampamento com medo. Não era apenas um ataque. Era uma mensagem.
August Lumiert queria que eu soubesse que podia tocar meus homens sem aproximar uma lâmina.
Abaixei-me ao lado de um soldado caído. Era jovem. Talvez dezessete. Talvez menos. Seus dedos se fechavam e abriam contra a lama, como se ainda tentasse agarrar a vida pelo tornozelo antes que ela o abandonasse.
Ele me olhou.
- Alteza... - sussurrou.
Não reconheci seu rosto.
Isso me irritou mais do que deveria.
Levantei-me.
- Separem os que ainda podem sobreviver dos que já estão morrendo.
Um silêncio breve caiu ao meu redor.
O curandeiro empalideceu.
- Vossa Alteza...
- Não desperdicem antídoto em homens que não chegarão ao amanhecer - continuei, fria. - Salvem os que têm pulso firme, respiração possível e olhos capazes de me reconhecer. Os outros receberão água, oração, se quiserem, e uma morte sem soldados tropeçando sobre eles.
Alguns ao redor baixaram a cabeça.
Crueldade, chamariam.
Eu chamava de comando.
Na guerra, sentimentalismo mal distribuído matava duas vezes: primeiro os condenados, depois aqueles que poderiam ter sido salvos.
Cassian chegou logo atrás de mim, já usando armadura, o rosto fechado pela raiva.
- Encontramos mais discos com o brasão de Lumiar no fundo dos copos - disse ele. - Alguém entrou no estoque de vinho.
Olhei para ele.
- Alguém nosso.
- Sim.
A palavra ficou entre nós como uma lâmina pousada sobre a garganta do acampamento.
Um traidor.
Talvez comprado. Talvez ameaçado. Talvez apenas burro o suficiente para acreditar que Lumiar venceria.
- Reúna os batalhões - ordenei.
Cassian franziu o cenho.
- Agora?
- Agora.
- Alteza, ainda é noite. O batalhão envenenado não consegue marchar, e o resto dos homens acabou de ver companheiros morrerem sem tocar no inimigo.
- Exatamente.
Ele me encarou por um instante.
Eu sustentei seu olhar.
- August quer medo espalhado pelo acampamento - falei. - Se esperarmos até o amanhecer, ele terá conseguido. Se marcharmos agora, transformamos o medo em raiva antes que crie raízes.
Cassian respirou fundo.
- E os envenenados?
- Ficam com os curandeiros, protegidos por uma guarda menor. Os demais marcham.
Ele inclinou a cabeça.
- Sim, general.
Pouco depois, o acampamento inteiro estava reunido sob tochas e céu escuro.
Homens e mulheres de Moonhart se alinharam diante de mim, alguns ainda com o rosto manchado pelo choque, outros segurando as armas com tanta força que os nós dos dedos pareciam ossos expostos sob a pele. O veneno havia feito sua parte. Havia medo ali. Havia luto. Havia raiva.
Eu precisava escolher qual deles viveria.
Subi sobre uma caixa de suprimentos virada e olhei para minhas tropas.
- Lumiar tocou nossos copos porque não teve coragem de tocar nossas lâminas.
A frase atravessou o acampamento como fagulha em palha seca.
Alguns soldados ergueram a cabeça.
- Eles atacaram homens durante a refeição. Mataram sem olhar nos olhos. Feriram sem declarar presença. Acreditam que isso nos fará recuar. Acreditam que Moonhart precisa de sol, descanso e permissão para marchar.
Apertei a mão no cabo da espada.
- Eles estão errados.
O vento puxou meu cabelo para trás. As tochas dançaram.
- O batalhão envenenado permanecerá aqui para se recuperar. Os mortos serão contados. Os traidores serão encontrados. Mas os restantes marcharão comigo agora.
Um murmúrio pesado percorreu as fileiras.
- Não marcharemos por glória. Não marcharemos por honra. Marcharemos porque Lumiar esqueceu que toda lâmina enviada à escuridão pode ser devolvida com a garganta de quem a arremessou.
Desembainhei a espada.
O som do aço fez o silêncio cair.
- Esta noite, tomaremos deles mais do que vidas. Tomaremos a certeza de que estão seguros atrás de suas próprias muralhas.
Cassian foi o primeiro a erguer a espada.
Depois outro.
Depois dezenas.
Depois centenas.
O acampamento inteiro respondeu com metal contra o céu.
Marchamos antes que a lua desaparecesse.
A estratégia feita na tenda permaneceu, mas agora carregava outro sabor. Daria liderou a pequena tropa enviada aos túneis antigos pelo oeste. Torren conduziu parte dos soldados pela estrada leste, levando estandartes suficientes para chamar atenção. Maeron, que ainda sonhava com força bruta, recebeu autorização para fazer barulho, não estupidez.
Eu marchei no centro.
Não corríamos. Não avançávamos como bárbaros. Cada passo era controlado. Cada formação, mantida. O ódio podia incendiar um exército, mas disciplina era o que fazia o fogo escolher onde queimar.
A primeira fortificação de Lumiar surgiu antes do amanhecer, envolta por névoa e arrogância.
Pedra clara. Torres estreitas. Bandeiras douradas com o sol nascente tremendo sobre as muralhas. Havia beleza nela, admiti. Lumiar parecia ter sido construído por pessoas que acreditavam sinceramente que a luz as protegeria de tudo.
Pobres idiotas.
Torren iniciou a distração ao leste com tambores e gritos de avanço. As sentinelas de Lumiar correram para as muralhas daquele lado. Flechas começaram a cair. Óleo foi preparado. Portões internos se fecharam. A fortificação olhou para onde mandamos que olhasse.
Enquanto isso, Daria entrou pelas veias apodrecidas da própria cidade.
Os túneis funcionaram.
Quando o portão oeste abriu por dentro, ele não rangeu como porta.
Rangeu como destino.
Eu fui uma das primeiras a entrar.
A espada encontrou o primeiro soldado de Lumiar antes que ele terminasse de levantar o escudo. O segundo tentou gritar. Não terminou. O terceiro recuou, tropeçou, ergueu as mãos, talvez buscando rendição. Mas usava uniforme, segurava lâmina e estava entre mim e a tomada da fortificação.
Caiu como os outros.
A guerra dentro dos muros foi curta e feroz.
Soldados de Lumiar se organizaram rápido demais para serem chamados de fracos. Isso me agradou. Havia algo insultante em vencer homens que não ofereciam resistência. Mas eles resistiram. Gritaram pelo rei jovem. Gritaram por Lumiar. Gritaram por luz, honra, família.
No fim, gritaram por curandeiros.
O céu começava a clarear quando a bandeira de Moonhart subiu sobre a primeira torre.
Eu estava coberta de sangue que não era meu.
O pátio principal da fortificação havia se tornado uma pintura de guerra: corpos em degraus, escudos quebrados, lanças abandonadas, cavalos sem cavaleiros, homens de joelhos esperando decidir se viveriam ou morreriam. Meus soldados queriam avançar pela vila próxima com a mesma fúria que tinham usado nas muralhas.
Eu ergui a mão.
Eles pararam.
A vila ficava logo abaixo da fortificação, cercada por cercas simples, hortas pequenas, casas de pedra clara e madeira. Pessoas espiavam pelas janelas. Mães puxavam crianças para longe das portas. Homens velhos escondiam ferramentas como se enxadas pudessem ser confundidas com espadas por olhos apressados.
Subi nos degraus do poço central.
O povo de Lumiar me olhou como se a morte tivesse aprendido a usar armadura.
Talvez tivesse.
- Escutem-me.
Minha voz atravessou a praça.
Nenhum choro cessou completamente, mas todos diminuíram.
- A partir deste momento, esta vila pertence a Moonhart. Todo civil que permanecer em casa, entregar armas escondidas e obedecer às ordens de ocupação será poupado.
Um homem cuspiu no chão.
Não em mim.
Perto o suficiente para ser opinião.
Cassian moveu-se atrás de mim, mas ergui dois dedos. Ele parou.
- Crianças não serão tocadas - continuei. - Curandeiros não serão mortos. Aqueles que cuidam de feridos continuarão seu trabalho, mesmo que tratem soldados de Lumiar. Quem trouxer informação sobre tropas, estoques ou agentes do rei August será recompensado.
O nome dele pareceu arrepiar a praça.
Interessante.
- Mas quem esconder soldados, alimentar rebeldes, envenenar suprimentos, atacar meus homens ou pegar em armas contra Moonhart será tratado como inimigo. E inimigos não recebem discursos duas vezes.
O homem que havia cuspido deu um passo à frente.
Era largo, forte, com cabelo grisalho e olhos vermelhos de ódio. Talvez tivesse perdido um filho na fortificação. Talvez estivesse prestes a perder a própria cabeça por não saber segurar a língua.
- Vocês são invasores - ele rosnou. - Nossa lealdade é ao rei August.
A praça congelou.
Olhei para ele.
- Sua lealdade é uma escolha.
- Então escolho Lumiar.
- Não - respondi, descendo os degraus do poço. - Você escolheu morrer por Lumiar.
Ele tentou puxar uma faca escondida na cintura.
Cassian deu um passo.
Não precisou.
Minha espada saiu antes que o homem erguesse totalmente o braço.
A lâmina parou encostada em sua garganta, fina o bastante para abrir uma linha vermelha sem terminar o corte. O sangue dele escorreu devagar, e seus olhos perderam parte da coragem.
- Eu disse que civis seriam poupados - falei, perto o suficiente para que só ele e os mais próximos ouvissem com clareza. - Não disse que idiotas armados receberiam a mesma gentileza.
Tomei a faca de sua mão.
Joguei-a no chão.
Depois o empurrei de joelhos.
- Levem-no para ser interrogado. Se souber de rebeldes, talvez ainda compre alguns dias de vida com utilidade.
Meus soldados o arrastaram.
A praça entendeu.
O medo era uma língua mais rápida que qualquer decreto.
Naquela manhã, nenhuma criança foi ferida. Nenhum curandeiro foi tocado. Nenhuma casa foi queimada sem motivo.
Mas três homens que tentaram atacar meus soldados foram executados diante do portão. Cinco esconderijos de armas foram descobertos. Dois mensageiros de Lumiar foram capturados antes que saíssem da vila. E, quando partimos para a próxima posição, metade da população já sabia que Moonhart matava menos por fúria do que por regra.
Regras assustavam mais.
Fúria passava.
Regras ficavam.
Nos meses seguintes, a guerra se espalhou como uma mancha escura pelo lado leste de Lumiar.
Tomamos vilas, postos de guarda, estradas, armazéns, torres de vigia. Algumas regiões se renderam ao primeiro avistar de nossos estandartes. Outras resistiram até que seus portões fossem quebrados e seus soldados empilhados no barro. Eu caminhava pelas ruas de Lumiar usando o sangue dos homens que se recusavam a baixar armas. Às vezes, o povo me observava de trás das janelas. Às vezes, se ajoelhava antes mesmo que eu falasse.
Começaram a me chamar de nomes.
Primeiro, sussurros.
A princesa maldita.
A filha do urso.
A lâmina de Moonhart.
Depois, em uma vila tomada após três dias de resistência, uma mulher idosa olhou para os corpos dos soldados de Lumiar alinhados diante da estrada e murmurou uma palavra que atravessou a multidão como uma oração quebrada.
Ceifadora.
Não fui eu quem ouvi primeiro. Foi um soldado. Depois outro. Depois Cassian.
Na semana seguinte, o nome voltou.
A Ceifadora de Moonhart.
Em outro posto, após eu ordenar a execução de um nobre local que havia jurado rendição pela manhã e enviado veneno ao nosso poço à noite, alguém acrescentou sangue ao título.
Ceifadora Sangrenta.
Eu deveria ter me sentido insultada.
Não senti.
Havia nomes dados para diminuir uma mulher. Bruxa. Monstro. Maldita. Tirana.
Mas aquele não diminuía.
Aquele abria caminho.
Gostei dele.
Gostei do modo como os soldados de Lumiar hesitavam quando o ouviam. Gostei do modo como meus próprios homens o repetiam em voz baixa, como se invocassem uma arma antes da batalha. Gostei de ver nobres que haviam rido da ideia de uma princesa general engolirem a própria superioridade quando eu entrava em suas salas.
A Ceifadora Sangrenta não precisava bater à porta.
As portas se abriam.
Um ano se passou.
Depois dois.
E August Lumiert não ficou parado.
No início, pensei que ele responderia com exércitos concentrados, tentativas desesperadas de recuperar as fortalezas perdidas, ataques frontais alimentados pelo orgulho ferido. Mas August não lutava como homens comuns.
Ele envenenava rios menores antes que nossas tropas chegassem.
Queimava armazéns de vilas que ainda eram tecnicamente suas para impedir que eu os usasse.
Espalhava boatos entre aldeões rendidos, fazia irmãos suspeitarem uns dos outros, oferecia ouro por informações e morte por silêncio. Mandava cartas com selos falsos para confundir comandantes. Enviava cadáveres contaminados para perto dos acampamentos. E, quando percebia que uma vila estava prestes a abrir os portões para Moonhart, às vezes atacava antes de mim.
Bombas de fumaça venenosa.
Incêndios noturnos.
Poços arruinados.
Ele matava meus soldados, sim.
Mas também matava o próprio povo quando esse povo se tornava útil demais para mim.
A primeira vez que vi uma vila atingida por uma das armas dele, Cassian ficou imóvel ao meu lado.
O lugar ainda fumegava. Casas inteiras estavam queimadas por dentro. Pessoas corriam com panos sobre o rosto. Um curandeiro de Lumiar gritava por água enquanto tentava limpar os olhos de uma criança. Meus soldados, que se aproximavam pela estrada, recuaram diante da fumaça esverdeada que pairava baixa entre as casas.
Um comandante local de Lumiar havia nos enviado uma mensagem secreta naquela madrugada, oferecendo rendição em troca de proteção.
August descobriu.
E respondeu antes que eu chegasse.
Cassian apertou a mandíbula.
- Ele fez isso com os próprios súditos.
Observei a fumaça se arrastar pela vila.
- Sim.
- Para impedir que se rendessem.
- Sim.
Cassian olhou para mim.
- O que faremos, Vossa Alteza? Ele não tem piedade nem com o próprio povo.
Por um instante, fiquei em silêncio.
Eu deveria sentir repulsa.
Talvez uma parte de mim tenha sentido. Pequena. Distante. Enterrada sob anos de Seraphine, Valeric e floresta.
Mas outra parte - a parte que meu pai havia alimentado com ferro - reconheceu a jogada.
August não se prendia à ilusão de ser amado. Ele entendia que um povo podia ser escudo, moeda ou sacrifício. Entendia que uma coroa não ficava sobre a cabeça de quem hesitava por mãos limpas. Ele não era um menino enlutado tentando proteger um reino.
Era algo pior.
Algo mais interessante.
Sorri.
Cassian percebeu e não gostou.
- Deixe que ele continue - eu disse.
- Alteza.
- Cada vila que ele envenenar fará dez vilas vizinhas pensarem duas vezes antes de morrer por ele. Cada civil que ele sacrificar por estratégia empurrará mais pessoas para nossas mãos. O rei August está nos dando aquilo que exércitos demoram anos para conquistar.
- E o que seria?
Olhei para a fumaça.
- Rancor.
Cassian não respondeu.
- Envie curandeiros quando a fumaça baixar - ordenei. - Salve os que puderem ser salvos. Alimente os sobreviventes. Enterre os mortos com o símbolo de Lumiar virado para cima.
Ele franziu o cenho.
- Por quê?
- Para que todos vejam quem os matou.
Dessa vez, Cassian me encarou como se procurasse a linha entre misericórdia e crueldade no meu rosto.
Não encontrou.
Porque eu mesma não sabia onde ela estava.
A guerra continuou.
A cada região tomada, deixávamos anúncios pregados nas praças.
Moonhart poupa os obedientes.
Moonhart alimenta os rendidos.
Moonhart executa traidores.
Lumiar envenena os próprios filhos.
Era propaganda, claro.
Também era verdade.
E verdades úteis eram as melhores armas.
Os nobres de Lumiar começaram a rachar.
Alguns juraram lealdade a August em público e me enviaram cartas em segredo. Outros tentaram negociar neutralidade, como se a guerra fosse uma tempestade que respeitava telhados educados. Alguns ofereceram ouro. Outros filhas. Outros mapas.
Eu aceitei apenas o que servia.
Os que mentiam, eu destruía.
Houve um barão na fronteira leste que abriu os portões para meu exército, serviu vinho em taças douradas e jurou que sempre havia admirado Moonhart. Na mesma noite, um dos meus soldados encontrou mensagens escondidas dentro de uma estátua oca, endereçadas ao rei August, detalhando nossa quantidade de cavalos, provisões e feridos.
Mandei reunir a vila inteira na praça.
O barão tentou explicar.
Homens que se ajoelhavam tarde demais sempre tentavam explicar.
Eu o deixei falar por um tempo. Era importante que o povo ouvisse o som da covardia antes de ver o preço dela.
- Eu apenas tentei proteger minha casa - ele disse, suando sob o manto caro.
- Não - respondi. - Tentou vendê-la duas vezes.
Ele caiu de joelhos.
- Vossa Alteza, eu tenho filhos.
Olhei para os três jovens atrás dele, todos pálidos, todos vestidos em seda comprada com impostos de camponeses que provavelmente passavam fome.
- Então deveria ter sido um pai mais inteligente.
Não matei os filhos.
Seria desperdício.
Mandei o barão ser executado e entreguei sua propriedade ao conselho local sob supervisão de Moonhart. O povo odiou a violência, mas aceitou o pão que veio depois. Sempre aceitavam. O estômago era mais honesto que a honra.
Depois daquele dia, o nome se espalhou mais rápido.
Ceifadora Sangrenta.
Os soldados de Lumiar começaram a pintá-lo em paredes como aviso.
Meus soldados começaram a dizê-lo antes das batalhas como promessa.
E eu comecei a entender que um nome tem poder quando deixa de pertencer a quem o recebeu.
Com o tempo, até meu pai ouviu.
Valeric me enviou uma carta simples, escrita com sua caligrafia rígida.
"Continue."
Foi o mais próximo de orgulho que ele sabia oferecer à distância.
Guardei a carta por três dias.
Depois a queimei.
Não precisava mais dela.
Ao final do segundo ano, o leste de Lumiar estava partido.
Ao final do terceiro, nossas tropas avançavam pelo norte e pelo sul, comprimindo o território de August como mãos fechando ao redor de uma garganta. No oeste, estradas comerciais foram cortadas. No norte, fortalezas menores se renderam após verem o que acontecia com comandantes que escolhiam resistência sem plano. No sul, Cassian liderou uma campanha tão eficiente que os mapas começaram a parecer errados, como se Lumiar encolhesse toda vez que alguém respirava.
Ainda assim, August resistia.
Cada vez que tomávamos uma cidade, ele nos fazia pagar em veneno, fogo ou informação falsa. Cada vez que eu achava que havia lido sua estratégia, ele virava o tabuleiro sem tocar nele. Eu o odiava por isso.
Também o respeitava.
O que era pior.
Às vezes, tarde da noite, diante dos mapas, eu passava os dedos pelas regiões ainda douradas de Lumiar e pensava no jovem rei escondido atrás de muralhas, cartas, agentes e mentiras. Eu não conhecia seu rosto além de retratos formais enviados por espiões. Belo, diziam. Gentil, diziam. Um soberano triste, diziam.
Eu ria sempre que lia essa parte.
Gentil.
Triste.
Não.
August Lumiert era um homem que envenenava o próprio tabuleiro para imped

