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Coroa de Sangue
Capítulo 1
2776 palavras • 16135 caracteres • ⏱ 11 min 06 s

Capítulo 1

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Pov - Alexandra 


Eu tinha sete anos quando meu pai, o rei Valeric Moonhart, me levou até a entrada de uma floresta e me entregou uma espada.


Lembro-me do peso dela mais do que lembro do frio daquela manhã. A lâmina era grande demais para minhas mãos pequenas, o couro do cabo áspero contra meus dedos, e ainda assim ele a colocou em meus braços como se estivesse me entregando um brinquedo qualquer. Não havia ternura em seu rosto. Nunca havia. Meu pai não olhava para mim como quem via uma filha. Olhava como quem avaliava uma arma ainda inacabada, esperando descobrir se o aço prestava ou se deveria ser jogado fora antes de ocupar espaço demais no arsenal.


Atrás dele, os cavaleiros permaneciam imóveis. Nenhum ousava me olhar por muito tempo. Eu usava um vestido simples, botas finas demais para a terra úmida e uma capa escura presa aos ombros. Não havia comida. Não havia água. Não havia mapa, criadas, soldados ou qualquer mão estendida para me guiar de volta. Só a espada. Só a floresta. Só o olhar severo do homem que me deu a vida e parecia decidido a me arrancar dela caso eu não me provasse digna.


- Sobreviva a esta floresta, Alexandra - ele disse, com a voz calma de quem falava sobre o tempo. - Se não voltar viva, será vista por mim como uma escória que não merece o meu trono.


Eu esperei que ele sorrisse. Que dissesse que aquilo era uma lição, uma brincadeira cruel, uma prova que terminaria antes do anoitecer. Esperei que algum dos cavaleiros recuasse, que uma criada gritasse, que o mundo percebesse que havia uma criança sendo abandonada diante de árvores tão antigas e escuras que pareciam mastigar a luz do sol.


Ninguém fez nada.


Meu pai apenas virou o cavalo e partiu.


Fiquei olhando até que os cascos desaparecessem entre a neblina. Fiquei olhando até que o som deles morresse. Fiquei olhando até entender que ninguém voltaria por mim.


Na primeira noite, eu chorei.


Não diante dele. Nunca diante dele. Mas chorei quando a floresta engoliu o céu e os ruídos começaram a nascer entre as árvores. Havia galhos estalando, animais se movendo na vegetação, o vento roçando as folhas como dedos passando por cabelos mortos. Eu me escondi entre raízes, abraçada à espada que mal conseguia erguer, com fome, frio e raiva demais para dormir.


Na segunda noite, eu parei de chorar.


Na terceira, aprendi que lágrimas não acendem fogo, não cortam carne e não afastam dentes.


Foi assim que minha infância terminou: não com uma festa, não com uma boneca esquecida no quarto, não com uma despedida, mas com lama sob minhas unhas e sangue seco nos joelhos.


A floresta me ensinou antes que qualquer tutor pudesse fazê-lo. Ensinou que medo não era inimigo; era aviso. Ensinou que fome podia deixar a mente afiada ou enlouquecida, dependendo de quem a carregasse. Ensinou que todo som tinha intenção. O galho que se quebrava longe podia ser um cervo. O farfalhar baixo demais podia ser uma cobra. O silêncio repentino podia significar que algo maior do que eu estava perto.


No começo, eu fugia de tudo. Depois comecei a observar. Depois comecei a caçar.


Eu não sabia usar a espada quando meu pai a colocou em minhas mãos. Aprendi porque não havia alternativa. Aprendi errando, cortando o ar, ferindo árvores, machucando meus próprios dedos, tropeçando no peso da lâmina. Aprendi porque cada erro custava pele, sangue ou comida perdida. Com o tempo, minhas mãos endureceram. Meus braços deixaram de tremer. O aço, antes estranho, tornou-se uma extensão de mim.


Houve dias em que consegui acender fogo. Houve outros em que a chuva encharcou tudo, e eu comi carne crua porque a fome doía mais do que o nojo. Houve invernos em que pensei que meus ossos rachariam de frio. Houve verões em que bebi água lamacenta e agradeci aos céus por ela existir. Aprendi a subir em árvores para dormir longe dos lobos. Aprendi a me esconder de homens. Aprendi, cedo demais, que os animais matavam por fome, mas os homens muitas vezes matavam por diversão.


Bandidos atravessavam a floresta às vezes. Desertores, ladrões, homens que fugiam da lei ou da guerra de outros reinos. No início, eu os evitava. Depois percebi que eles carregavam coisas úteis: facas, pederneiras, mantos, cantis, pedaços de pão endurecido. Quando tentavam me capturar, eu os matava. Quando tentavam me seguir, eu os fazia se arrepender antes que pudessem gritar. E, escondida no alto das árvores, eu via os lobos encontrarem os corpos depois.


Foi ali que aprendi uma verdade que Seraphine repetiria anos mais tarde em palavras mais bonitas: a morte desperdiçada é vulgar; a morte útil é política.


A floresta me criou com dentes.


Quando parti de Moonhart, eu era pequena demais para carregar uma espada. Quando encontrei o caminho de volta, seis anos tinham se passado.


Eu tinha treze anos quando vi novamente as torres do castelo recortando o horizonte. Por um instante, parei entre as árvores e fiquei olhando para a capital ao longe, com as muralhas altas, os telhados escuros e os estandartes de Moonhart balançando ao vento. Era minha casa. Ou deveria ter sido. Mas, depois de tantos anos, ela me pareceu menos um lar e mais uma fortaleza inimiga que eu finalmente havia conseguido alcançar.


Eu quase sorri.


Quase.


Então ouvi o rugido.


O som veio de trás de mim, profundo, rasgando a manhã como um trovão vivo. Virei-me devagar e vi o urso.


Ele era enorme. Maior do que qualquer animal que eu já havia enfrentado. O corpo coberto de cicatrizes antigas, o pelo escuro falhado em algumas partes, uma orelha rasgada, os olhos pequenos e ferozes fixos em mim como se eu fosse apenas mais uma coisa frágil prestes a quebrar entre suas mandíbulas. Ele também tinha sobrevivido àquela floresta. Também carregava marcas de tudo que tentou matá-lo e falhou.


Por um momento, reconheci nele algo parecido comigo.


Apertei a espada.


Minhas costas ardiam sob as roupas gastas, minhas pernas estavam cansadas, meus pés feridos pela longa caminhada. Eu podia tentar correr, mas ele me alcançaria. Podia subir em uma árvore, mas ele derrubaria o tronco ou esperaria até que eu caísse de fome. A capital estava tão perto que eu conseguia sentir o cheiro distante de fumaça das lareiras. Eu havia passado seis anos sobrevivendo para voltar, e aquela fera achava que poderia me arrancar do mundo a poucos passos do meu destino.


Levantei a lâmina.


- Pode vir, grandão - gritei, sentindo minha própria voz voltar para mim entre as árvores. - Esta será a última vez que verá a luz do sol.


O urso rugiu de novo e avançou.


Ele veio como uma muralha viva. A terra tremeu sob suas patas. Esperei até o último segundo, até sentir o calor de sua respiração, até ver os dentes se abrirem diante do meu rosto. Então me joguei para o lado e cortei sua perna com toda a força que consegui reunir. A lâmina abriu uma linha vermelha em seu pelo escuro, e o rugido que ele soltou fez pássaros explodirem das copas das árvores.


Ele girou mais rápido do que eu esperava. Uma garra passou tão perto que rasgou a manga da minha roupa e levou pele junto. A dor acendeu minha visão, mas eu não recuei. Dor era apenas o corpo reclamando da obediência. Eu já havia aprendido a ignorá-la.


O urso atacou de novo. Dessa vez, subi em uma pedra, usei o impulso e me lancei sobre ele. Minhas pernas prenderam-se ao seu pescoço, meus dedos agarraram o pelo áspero, e com todo o peso do meu corpo forcei a fera para o lado. Caímos juntos. O impacto arrancou o ar dos meus pulmões. Ele se debateu, pesado, furioso, vivo demais.


Eu rolei, alcancei a espada e me levantei antes que ele conseguisse ficar de pé.


Quando avancei para sua garganta, ele ergueu uma pata em uma última tentativa de me abrir ao meio. As garras rasgaram minhas costas, e por um instante o mundo ficou branco. Senti o sangue descer pela pele. Senti minhas pernas fraquejarem. Senti a floresta inteira prender a respiração.


Mas eu não caí.


Meu pai havia me deixado ali para descobrir se eu era digna de voltar.


Eu voltaria.


Com um grito que não parecia de criança, nem de princesa, nem de qualquer coisa humana, desci a espada com toda a força que ainda existia em mim. A lâmina encontrou carne, osso, resistência. Continuei. Apertei os dentes até sentir gosto de sangue na boca. Continuei. E, quando a fera finalmente parou de lutar, fiquei de pé sobre ela, tremendo, ofegante, coberta de vermelho.


Eu vi a luz abandonar seus olhos.


Então tomei sua cabeça como prova.


Quando entrei na capital, ninguém me reconheceu.


As pessoas abriram caminho como se a própria morte tivesse descido das montanhas e decidido caminhar entre elas. Eu usava a pele do urso sobre os ombros, ainda pesada, ainda quente em algumas partes, e carregava sua cabeça por uma das orelhas rasgadas. Sangue escorria pelo meu braço, pingava nas pedras da rua e deixava atrás de mim uma trilha que nenhum aldeão ousou tocar.


Alguns se ajoelharam sem entender por quê. Outros fizeram o sinal dos deuses. Uma mulher deixou cair uma cesta de frutas. Uma criança começou a chorar, e a mãe cobriu-lhe a boca tão rápido que quase pareceu medo de que eu ouvisse.


Eu não disse nada.


Continuei andando.


Quando alcancei os portões do castelo, os guardas cruzaram as lanças diante de mim. Tinham rostos jovens demais para lembrar da menina que desaparecera seis anos antes. Para eles, eu era apenas uma criatura ensanguentada usando a pele de um monstro morto.


Olhei para o primeiro guarda. Depois para o segundo.


- Abram.


Eles não se moveram.


Talvez não tenham entendido. Talvez tenham duvidado. Talvez tenham pensado que a distância entre uma princesa desaparecida e aquela coisa coberta de sangue era grande demais para ser atravessada pela razão.


Agarrei um deles pela gola e o puxei para perto o suficiente para que visse meus olhos.


- Se não me deixarem passar, a cabeça deste urso será substituída pela de vocês - eu disse, baixa demais para ser confundida com histeria. Então ergui a voz, para que todos no portão ouvissem: - É assim que tratam a princesa de vocês?


O silêncio caiu pesado.


A lança do primeiro guarda tremeu. A do segundo baixou logo depois.


Entrei no castelo sem agradecer.


O salão do trono estava cheio quando cheguei. Meu pai se reunia com conselheiros, nobres e comandantes, todos vestidos em tecidos escuros, todos falando de impostos, fronteiras e guerras que pareciam importantes até que as portas se abriram e eu atravessei o salão.


As conversas morreram uma por uma.


Os olhos se voltaram para mim. Alguns com horror. Outros com espanto. Um conselheiro derrubou a taça que segurava. O vinho se espalhou pelo chão como uma poça de sangue educado.


Meu pai estava sentado no trono.


Ele não se levantou de imediato. Apenas me encarou.


Eu caminhei até o centro do salão e joguei a cabeça do urso aos pés dele. O impacto ecoou pelo mármore. Um rastro escuro manchou os degraus do trono de Moonhart.


Inclinei o rosto, mas não o corpo.


- Esse é o meu presente de retorno, papai.


Valeric Moonhart sorriu.


Foi a primeira vez que vi orgulho em seu rosto.


Não amor. Nunca amor. Mas orgulho.


Ele desceu os degraus lentamente, parando diante de mim. Seus olhos percorreram a pele do urso sobre meus ombros, as feridas abertas, a espada em minha mão, o sangue seco no meu rosto. Então pousou uma mão em meu queixo e ergueu minha cabeça como se estivesse examinando uma coroa recém-forjada.


- Agora você está pronta para ser minha legítima herdeira.


Houve um murmúrio entre os conselheiros.


Meu pai olhou por cima do ombro.


- Duquesa Seraphine.


Uma mulher se destacou entre os nobres. Alta, elegante, vestida de negro e prata, com cabelos presos de maneira impecável e olhos tão afiados que pareciam capazes de cortar antes mesmo da boca falar. Ela não me olhou com pena. Isso fez com que eu gostasse dela um pouco.


- Sim, majestade? - respondeu.


- Ensine à minha filha tudo o que ela precisa saber para governar este reino.


Seraphine inclinou a cabeça. Seu sorriso era pequeno, perfeito e perigoso.


- Será uma honra.


Foi assim que minha segunda criação começou.


Se a floresta me ensinou a sobreviver, Seraphine me ensinou a dominar.


Ela me ensinou etiqueta, não como delicadeza, mas como armadura. Ensinou que a postura correta podia humilhar uma sala inteira. Que um silêncio no momento certo valia mais do que um discurso. Que uma taça recusada podia iniciar uma suspeita, e uma taça aceita podia terminar uma linhagem. Ensinou diplomacia, história, linhagens nobres, alianças matrimoniais, venenos sociais e todas as formas de destruir alguém sem tocar em uma espada.


- Amor é uma fraqueza - ela dizia enquanto corrigia a posição dos meus dedos sobre os talheres, como se falasse de uma mancha em tecido caro. - Quem ama oferece ao inimigo uma porta aberta. Nunca se apaixone, Alexandra. Deseje, use, tolere, admire se for necessário. Mas nunca ame.


Eu levei esse ensinamento para a vida.


Amor era fraqueza. Piedade era atraso. Objeção era insolência. E insolência, em Moonhart, sempre terminava da mesma maneira.


Aos dezessete anos, eu já não era a menina que meu pai abandonara na floresta.


Era general.


Os soldados me chamavam de alteza quando queriam viver. Os nobres me chamavam de princesa quando queriam fingir que eu ainda era algo decorativo. O povo usava outros nomes em sussurros, nomes que morriam assim que eu virava o rosto em sua direção. Eu sabia o que diziam. Maldita. Tirana. Filha do sangue. A princesa que voltou da floresta usando a morte como manto.


Nenhum deles ousava dizer alto.


Naquela manhã, o salão de guerra cheirava a ferro, cera quente e chuva. Mapas estavam abertos sobre a mesa central, marcados com pedras negras e vermelhas. Ao norte, as fortalezas de Moonhart. Ao sul, as rotas comerciais. E a leste, Lumiar, o reino que meu pai decidira transformar no primeiro osso de um império.


Valeric estava diante do mapa quando entrei. Seraphine permanecia à sua direita, imóvel como uma sombra bem-educada. Cassian Draeven, general supremo antes de mim e agora meu comandante mais leal, observava as fronteiras com a expressão fechada.


Meu pai não perguntou se eu estava pronta.


Ele sabia que eu estava.


- Lumiar recusou nossos termos - disse Valeric. - O jovem rei acredita que pode nos desafiar.


August Lumiert.


Eu conhecia o nome. Todos conheciam. Um rei jovem demais, recém-coroado sobre cadáveres convenientemente enterrados. Diziam que era gentil, belo, educado, querido pela corte. Diziam que sorria antes de assinar sentenças. Diziam muitas coisas sobre ele.


Eu acreditava em poucas.


Homens gentis não sobreviviam a tronos manchados.


Aproximei-me da mesa e observei o mapa. Lumiar parecia pequeno sob as pedras vermelhas de Moonhart, mas eu sabia que tamanho nunca era garantia de rendição. Uma fera ferida ainda podia arrancar uma mão antes de morrer.


- Então marcharemos - eu disse.


Meu pai sorriu, o mesmo sorriso que me dera quando voltei da floresta.


- Marcharemos.


Do lado de fora, os tambores começaram a soar. Primeiro um. Depois muitos. O som atravessou as paredes do castelo e desceu pela capital como uma sentença. Soldados se alinhavam nos pátios. Cavalos relinchavam. Estandartes de Moonhart eram erguidos contra o céu cinzento.


Seraphine se aproximou de mim antes que eu saísse.


- Lembre-se do que lhe ensinei, alteza.


Olhei para ela.


- Que amor é fraqueza?


O canto de sua boca se curvou.


- Também. Mas hoje eu falava sobre deixar sobreviventes suficientes para contarem a história certa.


Sorri.


Pela primeira vez naquele dia, sorri de verdade.


Quando atravessei os portões do castelo, não carregava mais a cabeça de um urso. Carregava um exército.


Os soldados se ajoelharam à minha passagem, fileira após fileira, aço contra pedra, cabeças baixas diante da princesa que havia aprendido cedo demais que o mundo pertencia aos que tinham coragem de tomá-lo. Montei meu cavalo negro, ergui a espada que um dia mal coubera em minhas mãos e olhei para o horizonte onde Lumiar aguardava.


Eu não conhecia August Lumiert.


Ainda não.


Mas a guerra conheceria nós dois antes que qualquer tratado ousasse colocar nossos nomes na mesma página.


E se meu pai queria me transformar em imperatriz, então eu lhe daria exatamente isso.


Uma coroa.


Um império.


E sangue suficiente para que ninguém esquecesse quem o havia conquistado.


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