Capítulo 1 — Dezenove anos depois
Samantha
A primeira coisa que pensei ao abrir os olhos naquela manhã foi que, finalmente, eu havia completado dezenove anos.
Permaneci alguns segundos deitada, encarando o teto do quarto enquanto um sorriso se espalhava pelo meu rosto. Durante toda a infância, aquela idade parecera distante demais para ser alcançada. Dezenove anos soava como uma idade adulta, séria, quase importante. Eu imaginava que, quando finalmente chegasse aquele dia, acordaria diferente, talvez mais madura, mais responsável e, quem sabe, até um pouco mais parecida com as mulheres que eu via nos livros.
Infelizmente, bastou eu me sentar na cama e quase derrubar o abajur para perceber que algumas coisas provavelmente nunca mudariam.
— Feliz aniversário para mim — murmurei, segurando o abajur antes que ele atingisse o chão.
Olhei para o relógio e arregalei os olhos.
Eu estava atrasada.
Levantei-me depressa e fui até o guarda-roupa. Emily e Nathanael haviam passado os últimos dias agindo de maneira estranha, cochichando sempre que eu entrava em algum cômodo e interrompendo as conversas assim que eu perguntava o que estava acontecendo. Os dois haviam insistido que tinham preparado uma surpresa para mim, mas, apesar de toda a curiosidade, eu ainda não conseguira descobrir o que estavam planejando.
O problema era que Emily nunca fora particularmente boa em guardar segredos.
Nathanael também não.
E, ainda assim, os dois haviam conseguido esconder alguma coisa de mim durante quase uma semana.
Aquilo, por si só, já era motivo suficiente para me deixar desconfiada.
Depois de me arrumar, desci as escadas e encontrei minha mãe na cozinha. Meguie estava ocupada preparando o café da manhã, mas ergueu os olhos assim que ouviu meus passos.
— Bom dia, aniversariante.
— Bom dia, mãe!
Aproximei-me dela e a abracei por trás, apoiando o queixo em seu ombro.
— Você se lembrou.
Ela soltou uma risada.
— Samantha, você acha mesmo que eu esqueceria seu aniversário?
— Não sei. Você poderia estar ficando velha.
Ela se virou devagar e me lançou um olhar indignado.
— Velha?
Comecei a rir.
— Eu estava brincando!
— É bom mesmo.
Meguie tentou manter a expressão séria, mas não conseguiu por muito tempo. Acabou sorrindo enquanto colocava o café sobre a mesa.
— Sente-se. Você precisa comer antes de sair.
Obedeci, embora minha cabeça estivesse longe dali.
— Mãe...
— Hum?
— Você sabe o que Emily e Nathanael estão planejando?
Ela continuou mexendo no café como se aquela fosse a pergunta mais inocente do mundo.
— Talvez.
— Mãe!
— O quê?
— Você sabe!
— Eu não disse que sei de alguma coisa.
— Disse que talvez saiba.
— Então talvez eu saiba.
Cruzei os braços.
— Isso é uma tortura.
Ela riu.
— Você vai descobrir na hora certa.
Suspirei, apoiando o rosto nas mãos.
— Todo mundo resolveu conspirar contra mim.
— Não seja dramática.
— Eu sou a aniversariante. Tenho direito.
Meguie balançou a cabeça, divertida.
— Você continua exatamente igual à menina que eu criei.
Sorri.
Eu gostava de ouvir aquilo.
Não havia nada de extraordinário na minha família. Pelo menos, não que eu soubesse. Minha vida sempre fora simples, cercada pelas mesmas pessoas e pelos mesmos lugares, e eu nunca havia sentido falta de alguma coisa que não conhecesse.
Meguie era minha mãe, independentemente de qualquer outra definição que alguém pudesse dar à nossa relação. Eu nunca havia precisado de outra palavra para descrevê-la.
Ela me criou.
Esteve comigo quando fiquei doente, quando tive medo, quando fiz alguma besteira e quando precisei de alguém para me colocar de volta no caminho certo.
Para mim, isso era ser mãe.
— Você vai ficar aí pensando ou pretende acordar sua irmã? — perguntou ela.
Olhei para as escadas.
— Emily ainda está dormindo?
— Pelo visto, sim.
— Então eu vou acordá-la.
Meguie mal teve tempo de responder antes que eu saísse correndo.
Subi as escadas e entrei no quarto de Emily sem bater.
— Emily!
Nenhuma resposta.
Aproximei-me da cama.
— Emily, acorda.
Ela apenas se virou para o outro lado.
— Emily!
Nada.
Peguei um travesseiro e o joguei nela.
— Ai!
Ela se levantou de repente, os cabelos completamente bagunçados.
— Samantha!
Comecei a rir.
— Bom dia!
— Que espécie de pessoa acorda alguém desse jeito?
— Sua irmã.
— Eu odeio você.
— Não odeia.
Ela pegou o travesseiro e ameaçou jogá-lo contra mim.
— Saia do meu quarto.
— Você tem alguma coisa planejada para mim?
Ela congelou.
Foi apenas um segundo.
Mas eu vi.
— Não sei do que você está falando.
— Você é péssima mentindo.
— E você é péssima investigando.
— Então existe uma surpresa!
— Eu não disse isso.
— Acabou de dizer.
— Não disse!
— Disse sim!
Emily bufou e levantou-se da cama.
— Você vai descobrir mais tarde.
— Emily!
— Samantha!
— Por favor!
— Não.
— Só uma pista.
— Não.
— Uma pista pequena.
— Não.
— Minúscula.
Ela me encarou.
— Vá se arrumar para a escola.
— Já estou pronta.
Ela passou os olhos pela minha roupa e depois suspirou.
— Infelizmente, está mesmo.
Sorri, satisfeita comigo mesma.
— Vamos?
— Vamos.
Descemos juntas e, pouco depois, encontramos Nathanael esperando por nós.
Assim que me viu, ele abriu um sorriso.
— Feliz aniversário, Sam.
— Obrigada.
— Preparada?
— Para descobrir a surpresa?
Ele ficou em silêncio.
Olhei para Emily.
Depois para ele.
Os dois trocaram um olhar rápido.
— Vocês realmente acham que conseguem esconder alguma coisa de mim?
Nathanael começou a rir.
— Não vamos contar.
— Traidores.
— Você vai sobreviver.
— Ainda não tenho certeza.
Seguimos para a escola conversando sobre as férias. Nathanael falava sobre alguns lugares que gostaria de conhecer, enquanto Emily reclamava que ele mudava de assunto sempre que alguém perguntava sobre seus planos para o futuro.
Eu apenas observava os dois, divertindo-me com a discussão.
Nossa amizade sempre fora assim. Nathanael e eu crescêramos praticamente juntos, já que nossas mães eram amigas desde muito antes de nós nascermos. Emily também fazia parte de tudo, e era difícil lembrar de uma época em que nós três não estivéssemos juntos.
Em algum momento, naturalmente, a conversa acabou chegando à Floresta Sombria.
— Você realmente entrou lá sozinha outra vez? — Nathanael perguntou.
— Entrei.
Ele franziu a testa.
— Samantha, aquela floresta é enorme.
— Eu sei.
— E perigosa.
— Vocês sempre dizem isso.
Emily olhou para mim.
— Porque é verdade.
— Eu nunca vi nada perigoso lá.
— Talvez porque você tenha sorte.
— Ou talvez porque a floresta não seja perigosa.
Nathanael soltou uma risada.
— Claro. E todas as histórias sobre pessoas que se perderam lá são invenções.
— Talvez sejam.
— Você é impossível.
Olhei para as árvores que podíamos ver ao longe.
A Floresta Sombria sempre despertara alguma coisa em mim. Enquanto outras pessoas falavam daquele lugar com medo, eu sentia apenas curiosidade. Havia algo nas árvores, no silêncio e na maneira como a luz parecia desaparecer entre os galhos que me atraía.
Eu gostava de estar lá.
Não sabia explicar por quê.
Era como se a floresta guardasse alguma coisa que eu conhecia, embora não conseguisse lembrar de onde.
— Eu acho que ela é bonita — falei.
Emily me encarou.
— Você acha a Floresta Sombria bonita?
— Acho.
— Você é definitivamente estranha.
— Obrigada.
Ela riu.
— Não foi um elogio.
— Eu decidi interpretar como um.
Quando chegamos à escola, seguimos nossas rotinas habituais. As aulas passaram mais devagar do que eu gostaria, principalmente porque minha curiosidade em relação à surpresa aumentava a cada minuto.
Foi durante o intervalo que encontrei Edmund.
Ele estava no corredor, como de costume, mantendo aquela postura séria que fazia qualquer aluno endireitar a coluna quando passava por ele.
Eu, entretanto, nunca conseguira sentir medo dele.
Edmund sempre fora diferente comigo.
Desde que eu conseguia me lembrar, ele estivera presente de alguma maneira. Às vezes aparecia para verificar se eu estava bem; outras, simplesmente surgia quando alguma situação exigia alguém para me proteger. Com o tempo, sua presença se tornara tão natural que eu jamais havia questionado por que ele se preocupava tanto comigo.
Para mim, Edmund era quase como um pai.
Um pai que eu nunca tive, mas que, de alguma forma, sempre estivera ali.
— Samantha.
Ele chamou meu nome, e eu me aproximei.
— Diretor.
— Feliz aniversário.
— Obrigada.
Edmund segurava uma pequena caixa nas mãos.
Estendeu-a para mim.
— Isto é para você.
Olhei para a caixa e depois para ele.
— É sério?
— Não. Estou apenas entregando uma caixa vazia para uma aluna no dia do aniversário dela.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Então comecei a rir.
— Você também está aprendendo a ser sarcástico?
— Convivo com você há tempo suficiente.
— Justo.
Abri a caixa.
Dentro havia um delicado colar de safira. A pedra, presa a uma corrente simples e elegante, tinha um tom azul profundo que parecia mudar conforme a luz incidia sobre ela.
Por algum motivo, fiquei olhando para aquela joia por mais tempo do que deveria.
Quando estendi a mão para tocá-la, uma sensação estranha percorreu meu corpo.
Não era exatamente calor, embora houvesse uma espécie de conforto naquela sensação. Era uma nostalgia repentina, profunda demais para ser explicada por uma simples pedra preciosa. Por um breve instante, tive a impressão de que alguém me envolvia em um abraço, um abraço tão familiar e seguro que meu peito apertou.
Não sabia de onde aquilo vinha.
Não conseguia sequer formar uma lembrança concreta.
Era apenas uma sensação.
— Eu adorei — murmurei.
Edmund observava meu rosto com uma atenção que eu não compreendi.
— Gostou mesmo?
— Muito.
Passei os dedos pela safira.
— É estranho... quando toquei nela, senti como se minha mãe estivesse me abraçando.
Por uma fração de segundo, a expressão de Edmund mudou.
Foi algo tão pequeno que eu poderia facilmente ter imaginado.
Então ele voltou a sorrir.
— Algumas coisas despertam lembranças que nem sempre conseguimos compreender.
Franzi a testa.
— Você fala de um jeito muito estranho às vezes.
— Talvez.
Antes que eu pudesse perguntar o que ele realmente quis dizer, Emily apareceu no corredor.
— Samantha! O que você ganhou?
Mostrei o colar.
— O diretor me deu.
Emily se aproximou para observar a joia.
— É lindo.
— Não é?
— Muito.
Ela ergueu os olhos para Edmund e depois voltou a olhar para mim.
— Posso fazer uma pergunta?
— Pode.
— Você já percebeu que ele age como se fosse seu pai?
Nathanael, que havia acabado de chegar, soltou um suspiro.
— Emily...
— O quê? Eu só estou perguntando.
Olhei para Edmund, que permanecia em silêncio.
— Eu nunca tinha pensado nisso.
Emily cruzou os braços.
— Eu já pensei.
— E o que você acha?
Ela inclinou a cabeça.
— Talvez ele seja.
Nathanael imediatamente respondeu:
— Não acho.
— Por quê?
— Porque, se ele fosse pai dela, ela saberia.
Emily fez uma expressão pensativa.
— É verdade.
Eu ri.
— Sinceramente, eu não me importaria.
Os dois me olharam.
— Se Edmund fosse meu pai — continuei —, eu ficaria feliz. Ele sempre cuidou de mim.
Emily ficou estranhamente quieta.
— Além disso, eu amo minha família — acrescentei. — Não mudaria nada do que sinto por vocês.
Os olhos dela começaram a ficar marejados.
— Ah, não...
— O quê?
Emily simplesmente me abraçou.
— Você é muito idiota.
Ri enquanto retribuía o abraço.
— Por que você está chorando?
— Porque você fala essas coisas como se não soubesse o quanto é importante para nós.
Nathanael observou as duas e balançou a cabeça.
— Vocês conseguem transformar qualquer conversa em uma cena dramática.
— Cala a boca — Emily respondeu.
— Eu não fiz nada.
— Exatamente. Esse é o problema.
Não consegui conter o riso.
Aquela era a minha família.
Talvez não fosse uma família perfeita, mas era a família que eu conhecia e amava. Eu não precisava de outra.
Mais tarde, durante outra conversa, Emily voltou a falar sobre Edmund.
Ela parecia determinada a descobrir alguma coisa sobre o passado dele.
— Você sabe o que aconteceu com a esposa dele?
— Não muita coisa — respondi.
— Eu ouvi dizer que ele a amava muito.
— Também já ouvi isso.
Nathanael se apoiou na parede.
— Talvez ele ainda a ame.
Olhei para ele.
— Você acha?
— Algumas pessoas não esquecem quem amaram.
Aquilo me fez pensar.
Eu sabia muito pouco sobre a vida de Edmund antes de conhecê-lo. Sabia que ele havia sido casado, sabia que a esposa significara muito para ele e sabia que havia alguma coisa naquele passado que fazia seu olhar mudar sempre que alguém tocava no assunto.
Mas nunca perguntei.
Talvez porque sentisse que aquela parte de sua vida não me pertencia.
Ou talvez porque, no fundo, eu tivesse a impressão de que um dia ele mesmo me contaria.
— De qualquer forma — falei —, eu considero o Edmund como um pai.
Emily sorriu.
— Eu sei.
Quando as aulas finalmente terminaram, encontrei Edmund mais uma vez.
Ele se aproximou e colocou uma das mãos sobre minha cabeça, em um gesto tão familiar que imediatamente sorri.
— Espero que esteja tendo um bom aniversário.
— Está sendo ótimo.
— Fico feliz.
Então ele me abraçou.
Havia algo reconfortante nos braços dele. Talvez fosse justamente por ele ter estado presente durante praticamente toda a minha vida. Não importava o que acontecesse, eu sempre tivera a certeza de que Edmund apareceria.
Quando se afastou, ele beijou minha testa.
— Encontre-me depois da aula.
— Para quê?
Um sorriso
discreto apareceu em seu rosto.
— Você vai descobrir.
— Todo mundo está fazendo isso hoje.
— Talvez porque seja divertido ver você curiosa.
— Isso é injusto.
Ele riu.
— Confie em mim.
Observei-o se afastar pelo corredor.
Naquele momento, eu não fazia ideia de que aquele simples aniversário seria o último dia da vida que eu conhecia.
Naquele dia, eu só queria descobrir qual era a surpresa que Emily e Nathanael haviam preparado.
Eu ainda não sabia que, antes que aquela noite terminasse, começaria a enxergar o mundo através de um olhar completamente diferente.

