Jimin não se via como um salvador.
Não tinha a empatia necessária para carregar a vida de estranhos nos ombros, tampouco para interferir nas escolhas de cada um.
Cada passo que desse, cada intervenção sua, poderia ser usado contra ele no futuro e aqueles que agora se contorciam em medo poderiam muito bem se tornar os assassinos de amanhã.
O mundo em que estavam não premiava a bondade, mas recompensava a sobrevivência e a perspicácia. E, nesse momento, ele tinha um objetivo que não se impunha moralidade ou vidas desconhecidas.
Sobreviver, proteger Hyurin e chegar ao final do jogo é prioridade máxima!
— Então... Eu não sou uma máquina sabe. Só fui perceber agora sobre a condição da missão... A diferença entre mim e vocês é que, matar o mais fraco daqui não foi minha primeira opção. — fez uma pausa, olhando para algumas pessoas específicas — E sabemos bem quem são elas... Crianças, mulheres, idosos. Não é injusto... Que a situação deles sejam assim?
Ele havia atingido um ponto. Mas o ar ao redor dele mudou quando os outros aos poucos recuaram. Um som abafado, semelhante a um estalo de energia, percorreu o espaço. A sombra se ergueu do chão, lenta, como fumaça viva.
Ondas escuras serpenteavam ao redor do corpo de Wang Jin, moldando-se em garras e olhos que não pertenciam a nada humano. O cheiro do ferro no sangue se misturou ao odor denso e frio da magia sombria.
Jimin o observou sem pressa, mas o reconhecimento veio rápido, quase como uma lembrança.
Na obra, é dito que Wang Jin se torna um dos melhores usuários de magia sombria de JIGSAW. Ele também é considerado um dos melhores jogadores, já que não tinha piedade em fazer ainda mais vítimas.
Ele acumulou boas moedas, mas Wang Jin não tinha a intenção de vencer o jogo. O que ele queria era esmagar quantos insetos pudesse, até que o fim seja precedido.
Na primeira vida de Jungkook, foi a única exceção dessa pessoa. Casualidades os levaram a trabalhar juntos e com isso, surpreendente ou não, tornaram-se amigos.
O ódio que consumia Wang Jin extipou quando pouco a pouco o grupo deles cresceu, pela primeira vez, havia pessoas que se importavam com ele e num mundo infernal, esse garoto infeliz havia encontrado uma paz que posteriormente, seria arrancado a força.
Após falharem em uma missão que custou a vida de todos, algo tanto nele quanto em Jungkook se quebraram. E de uma hora para outra, amigos que se cuidavam tornaram-se inimigos que desejavam a morte um do outro.
Wang Jin tendo perdido algo que só alí conheceu, dessa vez, perdeu tudo que o significado de empatia poderia conter.
O caminho que percorreu foi de autodestruição que engolia tudo a sua volta e quando se virava, um rastro de sangue em suas costas era como um lembrete da crueldade que empunhara com seu poder.
Aquele personagem existia para ser um algoz, independente de suas escolhas, o mundo levaria ao limite e ele quebraria em mil pedaços de novo e de novo.
Fraco...
Sim... Em comparação a Jungkook, Wang Jin era um personagem fraco, que engolido todas as vezes por esse jogo podre, continuava vivendo e morrendo de forma miserável.
Ele empre desistia quando uma dificuldade surgia, logo, essa criança estúpida não poderia ser considerado o segundo mais forte da obra.
Era um título que ele não merecia.
Jimin continuava com sua afirmações mesmo agora, só que dessa vez, sem tempo para reagir como quando lia a novel, a sombra se expandiu, tocando o teto do vagão.
A voz do sistema cortou o ambiente como uma lâmina de metal, forçando a todos entrarem em estado de aletar, por mais surpresos que estivessem ao presenciar um poder que para antes, era desconhecido:
\n| ⚠ ATENÇÃO, USUÁRIO.\nHABILIDADE "PALMA DIVINA" DETECTOU UM JOGADOR DE ENERGIA SOMBRIA.\n\n
\nMISSÃO SECUNDÁRIA LIBERADA: DERROTE O USUÁRIO DE MAGIA SOMBRIA E DESTRAVE A HABILIDADE "SINTONIA".\n\n
\nTEMPO RESTANTE: 2 MINUTOS.\nPENALIDADE: O USUÁRIO DE MAGIA SOMBRIA PERDE O CONTROLE, E MATA TODOS NESSE VAGÃO |\n\n
\nO barulho mecânico cessou, e só restou o som abafado da respiração do grupo.
Hyurin recuou, puxando Taehyung consigo, os olhos arregalados pela súbita distorção no ar. Mas diferente de Jimin, que recebeu a missão, ela apenas agiu por instinto, como se soubesse que deveria se afastar.
Jimin expirou devagar, ajustando o peso do corpo sobre os calcanhares.
Na quinta vida de Jungkook, quando se encontrou com Wang Jin no vagão, o rapaz estava coberto por sangue e poder sombrio. Foi nessa vida em que ele perdeu o controle e matou todos, que ambos nunca chegaram a se tornar amigos.
Jeon contudo não foi capaz de mata-lo uma única vez.
Mesmo quando Wang Jin continuou matando as pessoas que foram importantes para eles no passado tantas vezes. Sempre que estava prestes a mata-lo, algo o parava, como se sua própria consciência o avisasse de algo.
Uma linha muito tênue entre o que de fato era especial para Jungkook ou não provavelmente se romperia se o fizesse. E se ele era capaz de até mesmo matar aqueles que ele mesmo jurou salvar, porque motivo deveria continuar voltando?
Essa pessoa foi um incomodo em todas as realidades, e Jungkook, que estava preso à isso, não sabia mais o que fazer com ele.
Jimin, que havia passado por alguma coisa parecida, estranhamente se sentia entendendo Wang Jin ao mesmo tempo que o desprezava.
Ao contrário dele, Jimin precisou ser forte até o último segundo, mas esse jovem, que nunca teve coragem para nada, continuou choramingando pelos cantos por causa de seu passado, culpando todos por algo que ele sequer abria a boca para denunciar.
Talvez fosse em momentos assim, que a memória das mãos de seu pai envolta de se pescoço ficavam um pouco mais nítida.
Afinal, ele não tinha tempo para chorar enquanto lutava pela vida.
— Crianças irritantes... — a luz ao redor de Jimin mudou com essas palavras, primeiro sútil, depois crescente, até que o chão sob seus pés brilhou em linhas douradas, finas e simétricas. — Não deveriam desobedecer os mais velhos. — uma energia divina se manifestou, expandindo-se como um pulso de calor em meio ao frio da sombra.
A palma direita de Jimin brilhou em branco intenso, a luz vazando pelos dedos. O contraste com o breu que engolia Wang Jin era tão violento que parecia rasgar o espaço.
Wang Jin avançou primeiro, movido pela fúria. As sombras se moldaram em lâminas líquidas, e o som que elas faziam era semelhante a ossos rangendo.
Jimin ergueu o braço como quem está prestes a socar alguém. O olhar em seus olhos eram vazios, e embora cercado a luz e ouro foram capazes de esconder a figura violenta marcada em seus olhos.
Ambas energias se colidiram no meio do vagão e o impacto foi tão forte que o chão vibrou, os assentos se retorceram e o ar pareceu se partir.
O clarão dourado empurrou a escuridão e Wang Jin gritou algo — um som que mais parecia o rugido de algo possuído se espalhou alcançando até quem não estava ali.
Mas ao contrário do que se esperava, Jimin não recuou alí. Ele avançou com socos intensos e poderosos, atingido tantas vezes o mesmo local na barriga do jovem, que quando Wang Jin cospiu um bocado de sangue, as sombras se dissiparam em fumaça.
Por um instante, tudo pareceu parar — o som, o ar, até o tempo.
O corpo do garoto caiu de joelhos, a escuridão saindo por sua boca em um sopro enquanto sangue banhava-o em vermelho. Ele não estava morto, mas definitivamente havia perdido a consciência.
A notificação soou logo em seguida, fria e impessoal:
\n| MISSÃO SECUNDÁRIA CONCLUÍDA.\nHABILIDADE "SINTONIA" DESBLOQUEADA.\n+1200 XP, +100 X2 PRESTÍGIO. |\n\n
\nJimin abaixou a mão, o brilho ainda morrendo entre os dedos. Sua força era baixa, mas o poder mágico era incomum para o primeiro dia a ponto de impactar positivamente a força de seus golpes. \n\n
\nProvavelmente, sua compatibilidade a magia estivesse em outro patamar, e o melhor, era igual para magia divina, que se diferenciava da magia comum.\n\n
\nEle olhou para o corpo inconsciente diante de si, depois para o senhor caído no chão. A respiração dele era tão fraca quanto quanto a luz do sol num dia chuvoso. O rosto estava irreconhecível e o barulho que se fazia ao respirar era como a de um porco morrendo no abate.
Provavelmente não sobreviveria, suas costelas foram destroçadas e a cabeça quase esmagada. Esses últimos minutos que passava respirando era o mesmo que um castigo, uma tortura incessante provida até o último minuto de sua vida.
Jimin se aproximou e tocou-o peito. Nesse mundo que não há chance para pessoas que não pudessem mais se defender, é quase como lei, na hora da morte, trazer um mínimo de dignidade à eles.
Quando sua mão brilhou ao redor do homem, a expressão que parecia ser de sofrimento suavizou e com um "muito obrigado" morrendo no seu fio de voz, sua vida partiu.
Hyurin foi a única que se juntou a Jimin em suas condolências e através dessa ação, ela notou a expressão diferente em seu rosto.
No passado ou agora, podia parecer que Jimin era manipulável, frágil... Vergonhosamente fraco. Mas a base que usaram, em todas as conclusões anteriores, era apenas o fato de que se ele não reage, ou não fala... Ele teme, e se não foge, ele obedece.
Era engraçado que a verdadeira razão fosse tão distante.
Para alguém que morou lado a lado do próprio diabo, nada é mais assustador do que aquele homem qual chamava de pai.
O bullying que sofria na escola na verdade era mais como uma brincadeira de crianças, perto do inferno que conhecia. E a razão para ele nunca, em hipótese alguma, ter reagido, é justamente porque o diabo pode se divertir com isso.
Com o monstro atrás das grades, mesmo depois de anos, sua sombra ainda pairava sobre ele. E no trabalho, por exemplo, permitir que os outros o explorassem era a forma inconsciente de Jimin de se distanciar daquele homem.
Se deixasse que o usassem, então talvez jamais se tornassem iguais.
Mas agora que o mundo já não é o mesmo — as regras mudaram e tudo o que era humano parecia se desfazer — talvez, enfim, Jimin possa ser o que realmente é.
Sem perder o controle, sem repetir o ciclo. Desde que, no fim de tudo não se transforme no que mais odeia, ele não teria medo de simplesmente não se importar com quem morre a partir de agora.
Mas também não é como se eu fosse deixar pessoas inocentes morrendo devido a futilidade de outras...
A quem nesse mundo, ainda mereça a vida. Porque eles ainda merecem algum respeito.
— Como é que você fez isso? — Hyurin questionou, ela também havia visto seu próprio painel de habilidades, mas mesmo sabendo de cada um deles, não havia exatamente uma instrução de como usá-los.
Jimin se levantou e olhou ao redor. A habilidade "visão plena" estava ativa, e mapeava simultaneamente o vagão, buscando alguma coisa que apenas ele sabia.
— Eu só tive a intuição do que deveria usar e isso se ativou sozinho. — Jimin respondeu, ainda analisando os rastros luminosos deixados no chão.
Hyurin franziu o cenho, voltando o olhar para o próprio painel. Havia ali dezenas de nomes, atributos, ícones piscando, mas nenhum deles vinha acompanhado de instruções. Era como tentar ler uma língua que o cérebro reconhecia, mas não compreendia.
— Então é assim que funciona? — murmurou.
Jimin não respondeu de imediato. A expressão dele estava distante, como se tentasse se lembrar de algo que só ele sabia.
Na novel, o autor havia explicado que os poderes em JIGSAW eram projetados para serem intuitivos — tão simples de usar quanto respirar.
Os deuses que criaram aquele mundo — ou as estrelas, como eram chamadas — queriam que qualquer um, até mesmo uma criança ou um idoso, fosse capaz de lutar para sobreviver.
Os Mancipium, sendo os servos das estrelas, aperfeiçoaram esse sistema.
Criaram habilidades que se moldavam à vontade do usuário, despertadas não por técnica ou lógica, mas por puro instinto.
\nEra o instinto de viver, de se defender, de atacar — o mesmo que faz um animal reagir diante da morte.
Era isso que tornava o jogo um pouco mais cruel. Não era a dificuldade das missões, nem a força dos monstros.
\nEra o fato de que qualquer um poderia matar, contanto que quisesse.
Jimin passou a mão pelo rosto, de qualquer forma, não era como se pensar nisso fosse adiantar de algo. Afinal, diante dele ainda havia pessoas desesperada e discutindo, em busca das formigas que se espelharam pelo vagão.
— O tempo... — Taehyung murmurou, puxando Jimin sutilmente pela manga do terno cinza escuro que usava.
Restavam apenas cinquenta segundos.
O ar dentro do vagão começou a se tornar insuportavelmente denso — numa mistura de medo, suor e desespero, cada segundo que passava era um martelar nos ouvidos.
As pessoas corriam, gritavam, empurravam umas às outras. O pânico dissolvia qualquer resquício de consciência.
Uma mulher tropeçou nos próprios pés, as mãos tremendo enquanto tentava capturar uma das formigas que corriam pelo chão metálico. Quando olhou para Jimin, as lágrimas já riscavam o rosto.
— Por favor... — ela arfou, ajoelhando-se diante dele. — Você conseguiu... me ajuda, por favor, eu não quero morrer, eu não—
A contagem do sistema apareceu em sua visão periférica.
| 00:10 |
Jimin hesitou. Por um instante, a imagem da mulher se sobrepôs à lembrança de outra — sua mãe, talvez, ou alguém que tentou protegê-lo quando criança e falhou miseravelmente.
Uma pena. Porque ela também não tinha culpa.
| 00:05 |
— Levante-se. — disse, o tom firme, quase cortante. — Não dá tempo.
Mas ela não o ouviu. O choro era desespero puro, e o som do próprio terror a impedia de compreender qualquer palavra.
| 00:02 |
O mundo pareceu prender a respiração.
| 00:00 |
O som que veio a seguir não foi um estrondo. Foi um estalo seco, um arrebentar de ossos que acompanhou depois um silêncio horrorizado.
As cabeças das pessoas que não haviam completado a missão explodiram em um só instante, como se tivessem sido atingidas por balas invisíveis.
O sangue respingou nas paredes, nas janelas, no rosto de quem ainda estava vivo. O grito que se seguiu veio atrasado, coletivo, e ecoou pelo vagão como o choro de um inferno recém-aberto.
Jimin piscou, o sangue quente da mulher ainda escorrendo pelo queixo e pelas mãos.
Hyurin tapou a boca, cambaleando, o rosto pálido. E Taehyung recuou até encostar nela, que instintivamente o abraçou como se quisesse protegê-lo, os olhos de ambos arregalados demais para chorar.
Jimin olhou para o corpo sem cabeça aos seus pés — o mesmo que há segundos o implorava por vida — e exalou devagar. Ele se agachou, limpando o rosto com o dorso da mão, antes de agarrar Wang Jin pelo colarinho e o erguer.
O garoto ainda respirava, inconsciente, o corpo flácido.
— Vamos sair daqui. — disse, a voz fria, quase indiferente.
Ninguém respondeu.
Ele lançou um olhar rápido aos sobreviventes. Alguns tremiam, outros vomitavam, e um ou dois ainda tentavam se convencer de que aquilo era um pesadelo.
Jimin inspirou fundo, arrastando Wang Jin pelo chão enquanto dava as costas para o caos.
— Se ficarem parados, vão ser os próximos.
Aquelas palavras, simples mas diretas, foram o suficiente para que o restante começasse a se mover.
As portas do vagão ainda estavam fechadas mas Jimin usou um pouco da própria magia para forçar a saída.
Uma nova rajada de ar frio entrou, carregando o cheiro pútrido de corpos em decomposição. O próximo cenário, antes do recesso temporário de jogos, provavelmente estava sendo preparado, e dessa vez, poderia ser que todos morressem.
Jimin parou por um instante à soleira da porta, observando o vazio à frente, e depois para trás. Ambos caminho pareciam trazer a morte para eles...
Ficava cada vez mais difícil não bufar como um velho.
Não sabia qual versão de Jungkook estava prestes a encontrar — mas seria muito conivente se fosse a primeira.
— Espera, Jimin, para onde vamos? — Hyurin questionou mas assim que acompanhou ele para fora do trem tapou imediatamente o nariz.
O fedor era absurdo, mas além disso, eles estavam presos em um túnel escuro, qual mal dava para ver um palmo adiante.
— E agora... Onde estamos?

