O aviso pairou como uma lâmina fria sobre o vagão. O ar pareceu engrossar, e cada respiração se tornou um esforço. Olhares se cruzaram em busca de alguma reação — um gesto, uma palavra, qualquer coisa que quebrasse o silêncio. Mas ninguém se atreveu a falar.
Jimin deu um passo atrás, instintivamente levando Hyurin e Taehyung consigo, como se já previsse o caos prestes a emergir.
— Que bobagem é essa?! — uma mulher rompeu o silêncio, a voz trêmula de incredulidade. — Você quer que nós... nos matemos?!
Uma gargalhada cortou o ar — grotesca, dissonante, inumana. O som saiu da garganta do Mancipium e ecoou pelas paredes do vagão, vibrando nos ossos, arrepiando até o ar.
O pânico não veio de imediato. Primeiro foi o silêncio. Depois, a confusão. As pessoas tentavam racionalizar o impossível, ainda presas às leis do mundo que conheciam.
A ideia de matar alguém, mesmo para sobreviver, soava como uma ofensa à própria natureza. Como poderiam continuar vivos sabendo o preço disso?
\nSeriam ainda vítimas, ou já se tornariam algo pior?
O dilema pairava sobre todos como uma sentença invisível. Entre o medo e o instinto, ninguém sabia qual escolha seria realmente a mais cruel.
— Eu não vou fazer isso! — um homem gritou, e sua voz arrastou outros a se rebelarem junto.
A recusa parecia um último ato de humanidade. Ainda havia um “nós” contra “ele” — o inimigo era o Mancipium, não uns aos outros.
Mas o desespero tem um som próprio — um estalo, uma ruptura. Quando o primeiro passo foi dado, os outros o seguiram num impulso cego. Um grupo se lançou contra a criatura, movido por puro instinto de defesa.
O vagão explodiu em movimento: corpos avançando, gritos se chocando com o som metálico das barras, o ar se rasgando num turbilhão de medo.
Jimin sentiu a mudança no ar, o som das vozes se transformando em rugidos disformes, o chão vibrando sob o peso de passos desesperados. Ele sabia o que viria. O calor do medo se espalhava como fogo, e era isso que ele queria evitar: provocar a criatura e gerar pânico.
Mas já era tarde demais.
O Mancipium não recuou. Movia-se entre os ataques humanos com uma leveza que parecia zombar da gravidade.Cada gesto seu era preciso, quase elegante e o contraste entre a fúria dos passageiros e a serenidade monstruosa dele tornava tudo ainda mais aterrorizante. Seus olhos vermelhos brilhando de diversão e desprezo, diria "eu os pouparei por enquanto, pois não entendem ainda".
O espaço ficou barulhento, mas todos ainda estavam vivos, era o suficiente para fazer parecer que a situação ainda era controlável — um caos contido que não fedia a morte.
A tensão parecia se dissolver mas Jimin percebeu o erro antes que alguém mais o fizesse.
Um homem — aquele de terno azul, que agora tinha o rosto suado e respiração trêmula — deu um passo à frente... Foi pura estupidez quando ele ergueu os braços em direção a criatura, e foi uma ironia trágica esse movimento acabar sutilmente acertando o Mancipium.
Um silêncio mortal caiu por um instante. Então, em um movimento tão rápido que parecia impossível de acompanhar com os olhos, o ser reagiu quase que instintivamente.
Com um único golpe, a cabeça do homem explodiu sob sua força sobrenatural. Um estalo sinistro ecoou pelo vagão, e o sangue jorrou, pingando nos assentos, no chão, e na face daqueles mais próximos.
O grito horrorizado dos passageiros rompeu o ar pesado.
Pessoas se empurravam, trombando umas nas outras, tentando desesperadamente se afastar do foco de perigo. Mal conseguiam respirar; a mistura de terror e choque os deixava paralisados e frenéticos ao mesmo tempo.
O Mancipium flutuava acima deles, sorria, aproveitando, era como se os culpasse disso.
As pessoas tentaram escapar, e quando notavan que todas as portas estavam trancadas, gritavam em desespero coisas que nem o inferno entenderia. Outros, mais quietos; contidos, se agarravam aos assentos, incapazes de se mover.
Ficar em silêncio nesse momento parecia o melhor a se fazer, de fato. Porém o vagão ainda tornou-se um campo de desespero absoluto: gritos, choro... Orações, nada parecia levá-los a salvação.
Os corpos que caíram espalhando sangue e a sensação constante de que qualquer movimento errado poderia significar a morte fez com que algo na cabeça de alguns, rompesse-se um fio de sanidade que beirava loucura.
Era óbvio, as intenções aos poucos mudavam os lados.
Mas no meio do distúrbio e da dúvida do que se tornar, algo inesperado surgiu. Um jovem, cerca de dezesseis anos, soltou uma risada animalesca. Um rugido, quase como se estivesse se transformando.
Todos olharam, perplexos, quando numa certeza canônica, seus braços agarraram um senhor de idade pelo colarinho. O homem, incapaz de se defender devido a idade, caiu no chão num baque seco, e o som ecoou como cântico para o ouvido daqueles que ansiaram pela vida.
Os golpes violentos que acertavam o senhor o fez dele a primeira e verdadeira vítima daquele vagão, e violentamente, o sangue que pintava os punhos da também primeira alma que se corrompeu, trouxe uma realidade que ninguém ali queria aceitar.
Cada um deles carregava agora o fardo do assassino — não por escolha, por sobrevivência. Pois entre matar e ser o segundo a morrer, o instinto sempre vence a moral.
Jimin suspirou, quase resignado.
Aquele era Wang Jin e inevitável, quase esperado, não era pouco a quantidade de pessoas como ele nesse lugar.
Todos eram gentis, aparentemente indefesos — tudo não passava de uma máscara que escondia a face de uma besta.
Wang Jin, no entanto era um garoto que havia sido moldado pelo bullying constante na escola. E ali, diante de uma distopia, a violência que o mundo impunhou contra ele mostrava sua verdadeira essência: implacável, calculista, e completamente insana.
Infelizmente, não havia com o que sentir repulsa ou raiva, era apenas o óbvio, todos queriam viver. E a morte era uma consequência disso.
Jimin observavou, inexpressivo, entre os poucos que restavam, ele é aquele que não quer ter que tirar vidas com suas próprias mãos para viver. Ver como os outros se desesperavam, perdendo completamente a razão, trouxe-lhe uma sensação incômoda — como se, de algum modo, estivesse acima deles.
Mas para ele agora, é como se diz o ditado: deixe que sejam o que desejam ser. É assim que se distingue o fruto bom daqueles que já nasceram podres.
Irônica ou não, esses malditos no entanto tinham a desculpa perfeita. De agressor, para ajudante… talvez sentissem que o peso da culpa fosse ser menor, afinal, não foram eles, mas aquele garoto. Logo, ao presenciarem as ações do rapaz, os passageiros pareceram despertar de um transe invertido — não para a razão, mas para o que precisava ser feito.
Um a um, seus olhos se acenderam com o mesmo fervor do medo que antes os paralisava. E então, o instinto tomou o lugar da consciência. Em questão de minutos, aqueles que antes hesitavam em ferir passaram a atacar, entregando-se à selvageria com uma naturalidade assustadora, como se a crueldade fosse o último refúgio dos que não suportavam mais sentir medo.
E de novo, eles não queriam morrer... Mas Jimin dúvida que aquele senhor, embaixo de soco e chutes, pedindo socorro enquanto lágrimas caiam de seus olhos, também quisesse.
Por fim, ele desviou o olhar para o Mancipium. E não era como ignorar a situação, mas dar um passo adiante.
A criatura flutuava acima, aparentemente desinteressada pelo que se desenrolava. O tempo dilatava, e os minutos passando lentamente, cada segundo marcado pela violência incomparável, era semelhante a um show de horrores.
As coisas continuavam acontecendo como num pesadelo, é verdade, mas com tudo isso, algo maior ainda preocupava Jimin tanto quanto essa brincadeira de gato e rato. E se estavam mesmo em JIGSAW… era significante acreditar que aquele personagem existia.
— Os outros vagões... O mesmo está acontecendo? — a criatura ergueu uma sobrancelha, surpresa. Metade devido a calma estranha dada àquele trio, metade pela pergunta.
Após uma pausa que não deixava claro suas ações, ele respondeu:
— O mesmo que aqui.
Jimin ponderou alguns segundos então perguntou à Hyurin:
— Em que vagão estamos?
— No penúltimo, de frente para trás — respondeu ela, a voz firme, quase tão resignada quanto Jimin.
Mas ao contrário dele, Hyurin sabia bem como fingir o que estava em seu coração. Porque agora, nao era o que Jimin precisava, e muito menos aquela criança.
— Então temos tempo... — se estavam no penúltimo vagão, significava que estavam relativamente longe dele… de Jungkook.
Jimin respirou devagar, analisando o quadro geral.
Cumprir a missão não era a única forma de acumular moedas. Havia estratégias, e escolhas que poderiam alterar o fluxo de ganhos.
Matar era a maneira mais rápido e fácil de conseguir isso, e tendo passado por tantas vidas, talvez Jungkook tivesse perdido noção do valor em tirar vidas a sangue frio.
Além disso, tudo dependia da versão com a qual cruzassem o caminho. Em certas reencarnações, as esperanças de sobreviver minguavam rapidamente.
Depois da oitava vida, dizia-se que Jungkook no primeiro vagão transformava a composição em carnificina: matava sem pena passageiros de todos os carros, faminto por moedas.
Ele queria poder, e o conseguiu por um preço.
— Jimin... — Hyurin sussurrou, segurando a ponta da camisa dele com os dedos trêmulos. Ele se virou e encontrou os olhos dela, firmes, mas carregados de lágrimas que teimavam em não cair. Ela queria ser corajosa, queria ser como o amigo, mas havia atingido um limite. — Eu não aguento mais... Não posso continuar assistindo, mesmo sabendo o que está acontecendo.
Jimin ficou imóvel por um instante, observando o desespero que ela tentava conter. Então, lentamente, um sorriso surgiu em seus lábios — não era alegria, mas compreensão.
Ele também se sentia assim, porém não poderia simplesmente ser imprudente e colocar a vida deles em risco, devido a uma falsa sensação de empatia, as vezes querer ser o herói nesse mundo pode te levar a ruina.
— Hyurin, você pode ler o objetivo da missão novamente, em voz alta. — Jimin pediu, e mesmo que a amiga tenha respondido com uma careta, ela encheu os pulmões para fazê-lo.
— EI, SEUS IDIOTAS! O OBJETIVO DA MISSÃO É MATAR UM OU MAIS SERES VIVOS! — com um breve aceno para Taehyung, um pedido silencioso de permissão, Jimin tomou o terrário das mãos dele.
O som do vidro estilhaçando ecoou quando o deixou cair de propósito. Todos se viraram e o estrondo quebrou o transe coletivo.
As pequenas formigas se espalharam, tentando escapar entre os cacos. Jimin as observou por um breve segundo — e então, sem hesitar, esmagou algumas com o pé.
Um brilho dourado piscou diante de seus olhos, a tela azul vibrando com um som metálico. As letras se formaram rapidamente, cintilando acima de sua cabeça:
| PARABÉNS USUÁRIO! \n\n
VOCÊ FOI O PRIMEIRO DO VAGÃO À CONCLUÍR A MISSÃO! \n\n
VOCÊ ACABA DE GANHAR UMA CONQUISTA:\n\n
"SOBREVIVENTE INICIANTE" \n\n
A CADA CONQUISTA ADQUIRIDA, VOCÊ PODE CONVERRTER EM TÍTULOS. \n\n
Obs: CADA TÍTULO CONCEDE UM BENEFÍCIO!\n\n
DEVIDO A HABILIDADE UNICA "SORTE DE DEUS", VOCÊ GANHA O DOBRO DE MOEDAS E PRESTÍGIO AO CONCLUIR A MISSÃO EM PRIMEIRO LUGAR! \n\n
VIDAS TOMADAS: VINTE.\n\n
PRÊMIO: 5000 XP, 400 x 2 MD, 200 PRESTÍGIO. |\n\n
| ATENÇÃO USUÁRIO, SEUS XP ACABA DE SEREM CONVERTIDOS!\n\n
PARABÉNS POR SUBIR DE NÍVEL. \n\n
USUÁRIO V.I.P:\n- NVL. 5 \n- HP 1500 + 100 (benefício do título "sobrevivente iniciante").\n- MP 500 \nATRIBUTOS: \n- Força (15) - Agilidade (30) - Resistência (20), - Inteligência (45) - Magia (30)\nBANCO:\n- MD| 800 \n- PRESTÍGIO| 200\n\n
ATENÇÃO, SUA HABILIDADE "PALMA DIVINA" SUBIU 2>3 |\n\n
Wang Jin não se moveu ao perceber que o velho ainda respirava — e, pior, que alguém havia conquistado a missão antes dele, de um jeito tão miserável.\n\n
Um riso torto se formou em seus lábios, a expressão distorcida entre raiva e desprezo. Ele ergueu o braço, pronto para desferir o golpe final, mas o movimento parou no meio do caminho — interrompido antes que pudesse sentir o gosto da violência que tanto desejava.\n\n
Jimin avançou, o som de seus passos abafado pelo barulho ao redor. Sua mão agarrou o punho do garoto com força. O toque frio e o tremor no pulso de Wang Jin revelavam algo além da raiva: uma insanidade nascente, crua, diferente do que ele mostrara antes.\n\n
— Se continuar, será um assassino. — a voz de Jimin cortou o ar, impotente, mas quase gélida. \n\n
\nEle não parecia se importar quando falava isso, e Wang Jin riu, um som curto e descontrolado.
— E daí?! — cuspiu, a voz rachada entre o choro e o ódio. — Isso realmente importa agora?! Pergunte você mesmo àquela coisa! Pergunte em que estado o mundo se encontra!
O Mancipium, que até então parecia mais interessado no número de estrelas que subia em sua contagem de visualizações do que na cena diante dele, ergueu a cabeça — como se tivesse acabado de se lembrar de algo importante.
— Ah... isso mesmo. — disse, com um sorriso que se alargava até parecer uma fenda. — É uma verdade. Nesse exato momento, o planeta inteiro se tornou um Jigsaw em mundo aberto. — ele estalou os dedos, e o ar do vagão se distorceu.
Várias telas se materializaram ao redor deles, flutuando como espelhos refletindo o começo da extinção humana.
Em cada uma delas, pessoas continuaram se matando nas ruas, vizinhos se esfaqueando, famílias implorando por socorro em meio a corpos e sangue. O caos se expandia como uma praga, devorando fronteiras, apagando cidades inteiras.
O som das telas se misturava ao das respirações presas e dos soluços abafados. O que eles presenciaram foi o suficiente para entender que, não há mais volta para a normalidade.
— Acho que você não me entendeu. — Jimin disse quase como se aquilo tudo fosse estúpido. — Em nenhum momento dessa missão, o Mancipium falou sobre matar uma pessoa. Certo? \n\n
— O que? — Jimin o encarou nos olhos. \n\n
— O fato de vocês correrem atrás de matar alguém não é sinal de que o jogo exige isso... é sinal do que vocês querem fazer. — ele pausou, olhando para cada um deles — E nesta primeira missão, ninguém teria que morrer se, na cabeça de vocês, suas próprias vidas não viessem antes da dos outros. \n\n
Wang Jin o fitou com os olhos arregalados, a respiração estava descompassada e as veias pulsavam em seu pescoço. Ele havia alcançando um novo pico de raiva.\n\n
— Quem diabos você pensa que é?! — rugiu, cuspindo cada palavra como se queimasse. — Você sabia! Desde o começo... você sabia!\n\n
O grito se espalhou pelo vagão, e alguns se encolheram nos cantos, outros observavam perdidos, agora sem saber o que fariam. De repente, era como se nada daquilo houvesse sentido.\n\n
— Ficou ali parado esperando o velho ser massacrado pra bancar o sábio?! — cuspiu, dando um passo à frente. — Hipócrita de merda! — era uma verdade que Wang Jin não poderia provar.\n\n
Porque de qualquer forma, qual era a obrigação que Jimin tinha com eles?\n\n

