"FIM..."\n\n
\nO som das vozes ao redor ainda parecia ecoar nos seus ouvidos mesmo depois que a tela escureceu.
Por um instante, Jimin ficou parado, fitando o reflexo azulado do celular como se esperasse que algo mais acontecesse.
Nada veio, então um chiado, guardado no fundo de sua alma, soou como o som da insatisfação que abruptamente preencheu o peito.
"Tsk, o final é ainda pior que o meio."
A tela piscou uma vez, e o brilho caiu sobre seus olhos cansados, refletindo a tela aberta no canal de leitura, uma nova notificação em seu email de repente surgiu.
Ele olhou por cima, e ignorou, não se dando conta do que — e sobre o que era.
Respirou fundo, viajou por um instante.
Precisava pensar no que deveria fazer agora que terminou de ler JIGSAW.
Conhecer novas histórias seria uma boa opção, mas em que mundo, alguma delas teriam valor tanto quanto essa teve em sua vida?
Estava perdido, se sentindo como se tivesse sem chão para firmar os pés.
A obra que se arrastou por anos, quase como se tivesse sido feito para acompanhá-lo nessa vida, finalmente havia encontrado um fim, e era tão... patético, que chegava a ser irritante.
— Devo escrever algo nos comentários? — murmurou, lendo mais uma vez àquela última palavra.
Talvez, quando chegar em casa...
Não era longe, mas especificamente hoje, o dia continuou lento, como se quisesse atrasar o mundo de suas atividades de propósito.
Jimin olhou o letreiro das estações. O trem não parecia lotado, mas estava estranhamente agitado. Carregado de uma calma distópica, para uma barulheira tão aproximadamente distante.
Quando acordou naquela manhã, lembrava-se de ter praguejado o dia antes mesmo de levantar. “Esse dia vai ser uma merda” — Pensou. E de fato, quando chegou ao trabalho, foi apenas o mesmo dia de sempre. Mas agora entendia que havia uma diferença quando se tratava do humor.
Jimin bufou, foi cansativo, mas pelo menos agora, ele não tinha mais que se preocupar com os lançamentos semanais...
— É... — O canto dos lábios se ergueu, mas o sorriso não chegou a se formar — Não vou ter que ler essa porcaria a agora. — era mais uma confissão muda do quanto aquele final o deixou desconfortável.\n\n
"JIGSAW - O jogo dos deuses" \n\n
\nÉ uma light novel lançada há alguns anos, daquelas que começaram discretamente e, aos poucos, encontraram seu público.
Jimin começou a ler mais ou menos aos doze anos, aos poucos, a história se tornou o alicerce que o ajudava a viver sua própria vida.
Ele usou Jungkook — o protagonista — como inspiração para enfrentar os próprios desafios que o assombravam e encontrou numa história comum, um motivo para não desistir.
Na época, foi animador...
A obra era promissora, e gerou uma quantidade significativa de visualizações na plataforma. Seria a nova sensação entre os leitores, mas algo nela mudou.
Quando a novel alcançou os cem primeiros capítulos, o contador de leitores decaiu a ponto de restar apenas uma pessoa empenhada em acompanhar a obra até o fim.
Jimin foi quem se sacrificou.
Não porquê gostava verdadeiramente da história. Mas mais porquê odiava tão completamente o roteiro que impulsionava a trama, que concordar com todos os comentários ruins sobre ela pareceu quase uma rotina antis-stress.
Quão frustrante se tornou ver Jungkook morrendo tantas vezes?
O protagonista definitivamente havia alcançando um nível absoluto de poder, e embora soubesse das engrenagens que faziam o jogo continuar, ele nunca sequer esteve perto de alcançar a vitória.
Era loucura, e isso atormentou tanto os leitores que aos poucos, decidiram deixar a novel um à um quase como num consenso.
Jimin, por muito pouco foi uma dessas pessoas. Porém sua infância que ainda o atormentava como fantasmas sussurrando em seu ouvido, fez com que JIGSAW fosse a única coisa boa que restou do passado capaz de fazê-lo esquecer dos momentos ruins.
Havia se apegado, sabia, mas mesmo agora, não tinha mais o que fazer.
Aos seus vinte e três anos, a história havia finalmente chegado ao fim e o que restou foi uma sensação estranha de preocupação se mesclando a um descontentamento errático.
— O que foi? Parece que chupou limão azedo! — Hyurin, a colega de trabalho que havia esquecido estar ao seu lado disse, fazendo ele olha-la.
— Hoje foi o lançamento do último capítulo.
— O que? — Jimin ergueu o celular para mostrar à ela o que tinha na tela e bastou um único segundo para a mulher cair na gargalhada.
— Hahaha, finalmente? Quantos capítulos essa droga tem? [...] É assustador que você tenha lido até o final.
Sem saber como responder, Jimin trouxe o celular para ele mesmo olhar novamente.
— Admito que me arrependo...— disse, pensativo. — Não imaginei que fosse terminar assim.
Hyurin cruzou os braços numa expressão penosa, jamais imaginou que veria Park Jimin triste pelo fim de uma light novel. Mas lá estava ele, lamentando como uma viúva...
Ela até queria dizer "não é muito diferente da realidade, as vezes não importa quanto nos esforcemos, nada vai mudar", mas conhecendo Jimin como é, talvez, ele apenas a ignorasse como sempre e se lamentasse sozinho até superar.
— Pode ser que o autor tenha tido esse fim como objetivo desde o início... — disse por fim. — Uma pessoa comum não teria aguentado metade do que Jungkook suportou. — ele não bufou, mas estralou o dedão como resposta.
Hyurin entortou a expressão numa careta.
— Pensa assim, já que o final está em aberto... imagine que seu protagonista vence o jogo. — Jimin assentiu, de que outro jeito ele faria, se não fosse assim?
Seria interessante, ter a chave de mudar as coisas em JIGSAW.
— Sério, ao contrário desse seu protagonista genérico, acho você muito mais apropriado à vencer esse tipo de jogo. Você é tão racional, a empatia na sua cabeça funciona como os dois lados da moeda. — a reação de Jimin nesse momento foi estranha.
E ele também não soube dizer se aquilo era um elogio.
— Digo, você não tem essa síndrome abstrata de querer salvar a todos, ser um herói.
Jimin deu uma risada curta.
— Hm' Você pensa muito bem de mim. Mas lamento te decepcionar... Eu provavelmente iria querer morrer.
— Você? — ela sorriu com os olhos, uma reação que particularmente foi um pouco gracioso. — Então você não se conhece nem um pouquinho.
Jimin pensou numa resposta, enquanto se lembrava tudo que Jungkook passou.
A vida de dele nunca foi fácil, mas, ao contrário do protagonista, Jimin ao menos não revivia os mesmos erros como em um ciclo sem fim. E por mais que tenha tido um sentimento comum no passado, o tempo passou rápido o suficiente, quase como se quisesse o livrar daquilo.
Jimin também esteve preso — num ciclo, mas agora que estava livre, deixar para trás um passado conturbado não parecia mais simples do que encarar o presente.
— Se você quer me bajular, tente outra abordagem, esse elogio não me conquistou. — Jimin respondeu e Hyurin contra atacou com um peteleco bem dado em sua testa.
Por um instante, uma risada ladina, quase singela, cortou os lábios dele.
Não se sabe exatamente quando se tornaram amigos, mas com certeza começou nesse mesmo vagão de trem, alguns anos atrás.
Jimin tinha vinte anos quando ingressou no setor de T.I da corporação. Sempre foi um rapaz contido e silencioso, alguém que parecia não existir, mas que, de algum modo, realizava seu trabalho com uma responsabilidade invejável.
Ele era competente, contudo, sua obediência silenciosa e a disposição de assumir tarefas que não lhe cabiam chamaram a atenção de alguns funcionários indesejados.
Essas pessoas eram colegas que compartilhavam a mesma posição que a sua mas, devido a falta de questionamentos óbvios, era mais como se fossem os donos de Jimin.
Hyurin, ironicamente desprezava-o tanto quanto aqueles que o faziam de capacho naquela época.
Ser mulher num setor que em peso era formado por homens — tendo que se provar a todo momento, mesmo sendo mais inteligente que as "portas" das pessoas que ela era obrigada a obedecer — ver alguém habilidoso que não fazia questão dos privilégios que tinha queimava em chamas o seu coração.
Ela preguejou Jimin por muito tempo até o dia que conhecidentemente, estavam sentados lado a lado no mesmo vagão de trem.
Hyurin se lembra que ela foi a primeira a começar uma conversa, não... Uma discussão que como resultado, os levou a voltar juntos de novo.
Ela gostava muito de falar sobre as injustiças que sofria no trabalho, mas ao contrário dela, que era como um disco de vitrola arranhado. Jimin não tinha muito à dizer, ah não ser, "vamos beber?" — deixando claro que, não falaria muito, mas a ouviria.
Hyurin não sabia muito sobre o próprio rapaz além daquilo que via ou ouvia, era agradável vê-lo falar no entanto, e com o tempo, gradativamente, ele começava a falar sobre algo que gostava.
Falar... Sempre fez parecer que Jimin estava presente nesse mundo, e não fosse somente uma brisa passageira prestes a se dissipar.
— Hoje estamos demorando. — Jimin cruzou os braços e olhou ao redor.
Hyurin franziu o cenho, esquecendo-se dos pensamentos nostálgicos.
— Você também acha? Sinto que o dia está estranho, hoje também... — Jimin notou o minuto passar, e então, uma outra notificação caiu na aba do celular.
Ele estava prestes a ignorar e responder a mulher quando, várias mensagens seguidas começaram a chegar em seu celular.
Jimin olhou para o lado, e era o mesmo no celular de Hyurin.
— Será um aviso de terremoto? — ela soltou, mas não parecia preocupada de verdade.
Jimin abriu a primeira notificação que recebeu, atentando-se a ordem.
| BEM VINDO USUÁRIO! \n\n
SUA CONTA V.I.P ESTÁ ATIVA E PRONTA PARA USO. \n\n
O TÍTULAR DA CONTA POSSUI A HABILIDADE "A QUARTA PAREDE DE DEUS" CONCEDIDA PELO AUTOR DA OBRA "JIGSAW", PARABÉNS!\n\n
ELE O DESEJA BOA SORTE NO JOGO, E ESPERA QUE SUA BENÇÃO O AJUDE NESSA JORNADA! |\n\n
\nJimin franziu o cenho, o que isso significa? Um trote?
Sem dar tempo para pensamentos significativos ou sérios demais, ele julgou apenas como uma brincadeira de trolls da internet, se preocupou que sua conta talvez tenha sido hackeada e continuou abrindo a caixa de entrada para que tivesse certeza.
Apesar do ceticismo, ele ainda não conseguia se separar daquela sensação que ele conhecia muito bem.
O mesmo terror que pairava, quando seu pai chegava em casa.

