ATO I: JIGSAW \n\n
PRÓLOGO \n\n
" Sob um feixe de luz falho que atravessava as folhagens cerradas, Jeon Jungkook caminhava em meio à escuridão que parecia se mover junto dele. \n\n
\nO ar cheirava a folhagem, e o peso da chuva incessante se misturava ao de um coração cansado demais para continuar batendo com vigor.
Cada passo o conduzia por uma passagem úmida. Mas olhos semicerrados sob cílios densos e encharcados mal distinguiam o caminho.
A luz vacilante da lua não revelava nada além de sombras que se multiplicavam, e ele, guiado apenas pelo instinto, movia-se como quem busca o som do próprio destino se afastando.
A terra transformada em lama sugava-lhe os pés a cada movimento. E chão, que parecia se agarrar a ele, era como se o próprio mundo tentasse impedi-lo de prosseguir.
O silêncio, denso e absoluto, fazia com que até o som de sua respiração alta se misturasse ao hálito gélido da noite. Mas era o eco desse ruído, que o deixava em alerta como se algo o observasse de algum ponto invisível. \n\n
\nEle não via nada, mas sentia.
Sua pulsação carregava o peso de uma lembrança que não lhe pertencia mais, um resquício de dor que parecia vir de outra vida zombava de suas escolhas e não havia nada que pudesse fazer agora.
Estava acostumado à sensação de correr sem saber se fugia de algo ou de si mesmo. Porém os jogos mexiam com sua cabeça a ponto de sentir ela latejar sempre que uma nova missão começava.
Era um ciclo infindável de tentativas, mortes e começos que já não se distinguiam.
No começo, existia esperança. Mesmo o Mancipium, não foi capaz de brincar para com suas crenças. Mas dessa vez, algo de diferente acontecia.
Sentia-se como um animal ferido — cansado, que ainda em movimento, lutava por uma vida que no fundo, não tinha mais significado algum.
Desistir não fazia parte de quem era, porém irônica ou não, Jungkook sabia que ultimamente vinha cedendo à exaustão com uma frequência assustadora.
A cada renascimento, ele morria um pouco mais.
Continua voltando, mas busca incessante de uma existência que não se desfizesse como água entre os dedos, neste mundo, a paz já era um conceito que só existia nas lendas.
As vozes antigas — ecos dos seus "eu's" passados — ainda sussurravam no fundo da mente, gritando com ele, exigindo mais uma tentativa. Mas raiva, queimando como um fogo adormecido sob as cinzas, doía mais que as feridas físicas sofridas.
Por quanto tempo mais, ele precisaria passar por àquilo?
Após longos minutos caminhando em silêncio, Jungkook afastou os fios molhados do rosto com um gesto impaciente e soltou um suspiro pesado.
O ar frio o feriu por dentro, lembrando-lhe que ainda estava vivo, embora não soubesse por quanto tempo.
Correr, lutar, sobreviver... era tudo o que sabia fazer.
Mas as lembranças — fragmentadas e embaralhadas — já não obedeciam a uma ordem lógica. Ele tentava lembrar por que lutava, para quem, mas cada resposta parecia ter se apagado com as vidas que perdera pelo caminho.
O mundo girava dentro de sua mente, e a dúvida o distraía até o instante em que o corpo simplesmente cedeu.
O chão desapareceu sob seus pés e ele rolou barranco abaixo. O impacto foi brutal. O corpo bateu contra pedras e raízes, o gosto do sangue subiu-lhe à boca, e um grunhido rouco escapou dos lábios.
Quando parou de se mover, o silêncio voltou a dominar — dessa vez contudo, um vazio quase cruel apunhalou seu coração.
A dor veio logo depois, latejando sob a pele, como se quisesse fazê-lo parar de pensar. Sua mão instintivamente foi ao abdômen, e o toque revelou uma ferida profunda. O sangue escorria, quente, marcando-lhe os dedos.
Por um instante, ficou apenas olhando aquela cor — o vermelho vivo que contrastava com o azul da noite. Era uma cena que ele já havia visto antes, mas nunca deixava de parecer absurda.
Um sorriso cansado se formou. E logo em seguida, a realidade se impôs.
Uma tela azul, translúcida, piscando incessantemente flutuou diante de seus olhos com um aviso:
| ATENÇÃO, USUÁRIO |\nPERDA CONSTANTE DE SANGUE DETECTADA.\nPREPARE ITEM DE CURA ANTES QUE OCORRA PENALIDADE.\n\n
OBS: PERDA CONTÍNUA DE HP RESULTARÁ EM MORTE.\n\n
TEMPO RESTANTE: 01:00 MINUTO.\n\n
Jungkook soltou uma risada fraca — sem alegria, ou emoção. A morte ali era uma rotina. Um aviso, uma espécie de contagem regressiva para uma cínica lembrança de que até o sofrimento, no inferno, tinha regras.\n\n
" Tsk, que droga cansativa! "\n\n
\nEle pensou, com isso, arrancando o colete de couro encharcado.
Jungkook rasgou um pedaço da camisa úmida. E o tecido que era áspero, bastou para improvisar uma atadura.
Ele pressionou o ferimento com força — ignorando o ardor — para fazer o sangue diminuir, e a tela, irritante, piscou uma última vez antes de desaparecer.
Respirou fundo.
O ar frio o fez estremecer dessa vez.
Quantas vezes ele já havia morrido?
Quantas vezes já havia feito as mesmas escolhas?
A verdade era simples e terrível.
Jungkook conhecia JIGSAW como conhecia a própria alma. Cada rua, cada sombra, cada morte. Tudo se repetia.
Mas hoje, havia uma diferença.
O futuro, esse nunca era o mesmo. As consequências mudavam conforme suas escolhas, e cada reencarnação lhe custava algo — um pedaço de memória; uma parte de si mesmo.
Reencarnar era como empunhar uma lâmina de dois gumes, uma bênção equivale uma maldição. E enquanto respirava sob o peso da chuva, Jungkook percebeu algo que talvez já soubesse desde o início.
A verdadeira liberdade não estava em sobreviver, mas em desvendar o que o prendia ao ciclo.
Uma chuva abrupta — mas prevista, caiu misturando-se ao bater lento de seu coração.
Por um momento, o mundo lhe ofereceu uma pausa que não foi gentil.
Mas Jungkook fechou os olhos cansados. E sorriu.
“Talvez… na próxima vez, eu encontre a saída.”
FIM... " \n\n

