Melissa mexia na panela com calma, como se o mundo lá fora não estivesse prestes a explodir, enquanto John, ainda com o uniforme da polícia, folheava uns papéis antigos no sofá da sala. O cheiro de alho refogado se espalhava pela cozinha, contrastando com o peso do silêncio que dominava a casa. Estranhamente silenciosa – silenciosa demais, pra ser sincera. Mas claro, a Kate tinha saído. Silêncio era raro por ali.
– Melissa, querida – disse John, sem tirar os olhos da papelada –, a Kate já foi pra casa da avó com a Cassie?
– Sim, elas saíram ontem de tarde – respondeu Melissa, com aquele tom doce que ela usava quando queria fingir que tudo estava sob controle.
Ah, Melissa. Sempre fingindo que a vida é um comercial de margarina.
O pai da Kate era da polícia. Aquele tipo de homem que vivia mais entre crimes do que em casa, o que explicava a pergunta atrasada. Ele passava mais tempo entre sangue, algemas e boletins de ocorrência do que na própria sala de estar. Mas, né, ele tentava.
John largou os papéis na mesinha de centro e coçou a barba por fazer.
– Você acha que foi certo eu ter deixado ela ir? Ainda mais com esse… problema que a Kate tem.
Melissa parou por um segundo, apoiando a colher de pau na borda da panela. Ela olhou para o marido com firmeza.
– Claro que sim, John. Vai fazer bem pra ela ter um dia normal, uma festa, contato com gente que ainda sabe sorrir. Além do mais, ela fez o tratamento. Está saudável agora.
Normal. Essa palavra de novo. Tão frágil que chega a dar vergonha. Eu, se fosse você, não confiaria tanto nessa palavra.
– PAI! MÃE! – gritou uma voz do andar de cima, atravessando o silêncio com estrondo.
Cecília.
Se o mundo acabasse naquele segundo, ela provavelmente estaria com o celular em uma mão e um gloss na outra.
– Que foi, filha? Por que tá gritando desse jeito? – perguntou John, se levantando num pulo. Reflexo de policial.
– Vocês viram o vídeo que viralizou no YouTube?! – gritou Cecília, descendo os degraus como se estivesse fugindo de um incêndio.
Melissa suspirou, sem nem desviar da panela.
– Não, querida. Não temos tempo pra isso.
Mentira. Eles tinham sim. Só não tinham paciência.
– Mas vocês precisam ver! – insistiu Cecília, quase tropeçando no último degrau.
John fez aquela pausa clássica de pai que já se arrependeu só de sentir a insistência na voz da filha, mas mesmo assim cedeu.
– Está bem. Mostra logo.
E é agora que você pensa: "ah, é só mais um vídeo idiota da internet". Mas não, meu caro. Não era uma trend de TikTok. Não era uma dancinha tosca. Aliás, TikTok nem existia nessa realidade. O que existia era o prenúncio do inferno, disfarçado em pixels.
Cecília deu play. Dois rapazes caminhavam por uma rua deserta. Um filmava, o outro se aproximava de um garoto parado no meio da calçada. O tal garoto tremia levemente, os olhos fundos, a pele pálida como se tivesse saído de um freezer.
– Ei, tá tudo bem? Precisa de ajuda? – perguntou o rapaz.
Nada.
Silêncio de gelar a espinha.
E então o garoto virou de vez... e começou a rosnar. Isso mesmo. Rosnar. Como um cachorro com raiva misturado a um grunhido gutural digno de exorcismo de filme classe B. A pele dele parecia vibrar de um jeito estranho antes de se lançar contra o rapaz que perguntou.
O vídeo terminou assim: gritos, sangue e a câmera balançando até cair no chão. O cara que filmava corria, gritando desesperado: "TIRA ELE DE CIMA DO MEU AMIGO!"
John franziu a testa.
– Isso é besteira. Vídeo armado.
Ah, John… sempre o cético. Típico de quem já viu tanta merda real que não acredita mais em nada novo.
– NÃO É! – retrucou Cecília, indignada. – Olha isso aqui!
Ela pegou o celular de novo e abriu um site de notícias. Manchetes desfilaram na tela: “Surto Coletivo em Nova York”, “Ataques em massa”, “População instruída a permanecer em casa”.
Os olhos de John endureceram. Ele não disse nada por alguns segundos, mas o jeito como cerrou a mandíbula foi mais eloquente do que qualquer frase.
– Melissa… liga a TV. Agora.
Melissa, que já estava com o controle na mão – porque mãe sempre sabe o que vem por aí –, ligou o aparelho.
A tela piscou.
– Notícia urgente! – a apresentadora gritava, maquiagem borrada pelo suor e desespero. – Está havendo surtos violentos em todo o país! Pessoas estão atacando umas às outras, aparentemente fora de si. Os primeiros casos surgiram ontem à tarde…
A imagem mudou.
Uma repórter surgia ao vivo, direto da avenida principal de Cold Hell – cidade vizinha. Ela segurava o microfone como quem se agarra a um crucifixo, tentando manter a calma, mas dava pra ver o pânico nos olhos dela. Atrás, pessoas corriam desorientadas. Algumas se batiam contra carros, outras gritavam palavras desconexas.
De repente, dois homens e uma mulher correram direto para a câmera.
E atacaram.
Mordidas. Uivos. Gritos. A imagem tremeu, caiu de lado, escureceu.
A repórter? Bom… essa já era. Foi com Deus.
A transmissão voltou para o estúdio, mas o caos não parou.
– TRANQUEM SUAS PORTAS! NÃO SAIAM DE SUAS CASAS! REPITO… NÃO SAIAM DE SUAS CASAS! – gritava a âncora, antes da tela apagar de vez. Fim do sinal.
O silêncio que seguiu parecia vivo. Quase palpável. Mas só durou um segundo.
– PAI! MÃE! VENHAM VER! – gritou Cecília da varanda.
Eles correram até lá, abrindo a cortina com brutalidade.
Lá embaixo, pessoas corriam desnorteadas pelas ruas do condomínio. Algumas choravam, outras gritavam. Mas todas tinham aquele mesmo olhar vazio, vidrado, como se algo tivesse sido arrancado delas.
Como se tivessem perdido… a alma.
– Seja lá o que esteja acontecendo… chegou aqui – murmurou Cecília, agarrada na moldura da janela.
E foi nesse instante que eu percebi – porque eu sempre percebo antes de vocês – que o mundo não estava apenas desmoronando. Ele já tinha desmoronado. A diferença é que a maioria só demorou mais tempo pra notar.
John fechou a cortina com força. Melissa levou a mão à boca. Cecília choramingava em silêncio, ainda sem entender a gravidade real da coisa.
E eu? Bom, eu apenas observo. Não posso interferir, não posso gritar junto, não posso arrancar a televisão da tomada. Tudo que me resta é contar como foi. Como sempre foi.
Se vocês ainda acham que iss
o tem salvação, sinto muito. A humanidade já tá no sal grosso. E não foi inveja, nem mal-olhado. Foi burrice.

