logo do projeto lunar

Capa
SOBREVIVENTES - Uma Variável
Talvez Nós Já Estejamos Mortos
1368 palavras • 7497 caracteres • ⏱ 5 min 28 s

Talvez Nós Já Estejamos Mortos

13
0
0

Aqui estou eu, olhando pela janela do meu quarto. Lá fora, vejo um carro vindo e parando bem em frente à minha casa. Não demora muito para eu reconhecer quem é. Cassie desce animada, e, como se tivesse me sentido olhando, ergue a mão e acena alegremente pra mim.


— Ótimo... só podia ser ela — pensei, revirando os olhos.


Respondi com um olhar sério. Eu já imaginava exatamente o motivo dessa visita nada inesperada.


Saí do quarto, caminhei pelo corredor e desci as escadas devagar, como se isso fosse mudar alguma coisa. Quando cheguei à sala, Cassie já estava lá, espalhada no sofá como se fosse dona do lugar.


— E aí!! — disse ela, com aquele sorrisinho irritante de quem acha que vai convencer.


— Nem começa... Eu sei por que você tá aqui.


— Do que você tá falando? Vim só fazer uma visita.


— Ah, qual é... já faz três semanas que você tá bolando uma festa de aniversário surpresa pra mim.


Cassie ergueu levemente a sobrancelha, analisando-me, provavelmente tentando achar um jeito de me convencer de que uma festa era uma boa ideia.


— Quem foi que contou? O Jordan ou o Jack?


— Isso não vem ao caso... você sabe como eu me sinto a respeito de comemorar meu aniversário esse ano.


— Foi o Jack, não foi?


Sim, foi ele. Mas eu prometi que não contaria. Desviei o olhar.


— N-NÃO! Não foi ele...


Cassie me encarava igualzinho a alguns segundos atrás... só que pior.

— Merda, ela sabe que eu tô mentindo — pensei, sentindo o rosto esquentar.


— Mentirosa! Você mente muito mal... seus olhos sempre começam a lacrimejar quando tá mentindo, sem falar que seu olho esquerdo começa a tremer.


— Droga! Agora eu me sinto mal por mentir... e pior ainda por não conseguir guardar segredo — pensei.


— Me desculpa...


— Tá tudo bem, prima. Você pode se desculpar fazendo as suas malas.


— Minha resposta ainda é a mesma, Cassie.


Cruzei os braços e lancei meu melhor olhar de desaprovação. Em resposta, Cassie fez uma cara de decepção de dar raiva.


— Por favor, Robin!


— Não me chama assim, Cassie...


Ela ignorou completamente.


— Robin, eu tô preocupada. Eu não sei mais o que fazer. Eu só quero que você volte a viver sua vida, e essa festa... é um ótimo jeito de começar. Você não acha?


Ela me olhou daquele jeito. Aquele jeito que desmontava qualquer resistência. Olhos preocupados, cheios de carinho.

— Ela só quer o meu bem. E eu sei que me afastei de tudo e todos... talvez... talvez ela esteja certa — pensei, mordendo o canto da boca.


— Tá bom... Eu vou fazer as malas e ir pra minha festa de aniversário.


Dei uma risadinha fraca, levantando os braços em rendição.


Cassie sorriu como se tivesse vencido uma guerra, e se aproximou para me abraçar.


— Finalmente consegui convencer essa cabeça dura!!


Ela bagunçou meu cabelo e me empurrou gentilmente para subir e fazer as malas. Logo estávamos indo em direção ao carro. Acenei de longe quando vi Jack encostado nele, brincando com as chaves.


— Então você conseguiu, Cassie... pensei que...


— Sim! Mas NÃO graças a você! — ela interrompeu antes que ele terminasse. — Jack, você é um linguarudo!!


— Ela tá brava... Isso é culpa minha! Por que eu não sei mentir como todo mundo? — reclamei em pensamento.


Jack lançou um olhar para mim que eu não consegui decifrar.


— Você contou? Con... contou pra ela que fui eu?


— E-eu... me desculpa.


Ele suspirou e olhou pra Cassie.


— Foi mal, Cassie. E, Katy, não precisa se desculpar. A culpa é minha por ter confiado em você... porque, sinceramente, você não sabe mentir.


Ele deu uma risadinha e eu não consegui segurar o riso também.


— Tá bom então, seu panaca. Vai ajudar com as malas da Katy ou não? — disse Cassie.


— Tá... já tô indo.


Fiquei olhando pros dois, rindo sozinha.

— Às vezes eu penso que, apesar de tudo, eu tenho sorte de ter esses dois como família — pensei com ternura.


---


Dentro do carro


O carro andava rápido pela estrada, deixando Green Fields pra trás. A luz do fim de tarde entrava pelas janelas e pintava tudo de dourado.


— Então, Katy — disse Jack, quebrando o silêncio — como você tá se sentindo?


Olhei pela janela. O reflexo no vidro me devolveu uma estranha versão de mim mesma.


— Não sei... — respondi, sincera — Parte de mim quer estar lá... outra parte só quer sumir.


Cassie suspirou e ajeitou o cinto.

— Eu sei que parece cedo demais, mas você precisa disso, Katy. Precisa sentir que ainda tem gente aqui pra você.


— Eu sei — murmurei. — É só difícil.


Jack olhou pelo retrovisor e sorriu de canto.

— Você sabe que ela só fez essa festa porque se importa, né?


Cassie bufou.

— Claro que ela sabe! E você, Jack, podia ajudar mais e falar menos.


Ele riu, erguendo as mãos.

— Eu só tô tentando puxar assunto.


Fiquei olhando pra eles dois discutindo, como sempre. Uma parte de mim queria estar irritada. Outra queria sorrir. Era um som familiar, mesmo que eu só ouvisse metade dele com o ouvido bom.


— Obrigada, Cassie... e você também, Jack — falei baixinho.


Eles pararam de falar por um segundo. Cassie estendeu a mão e apertou a minha, sem dizer nada. Jack apenas assentiu pelo espelho, o olhar mais suave do que eu esperava.


— Nós somos sua família, Katy. E a gente vai estar aqui, mesmo quando você não quiser — disse Cassie.


Engoli seco.

— Eu sei.


Não demorou muito e já estávamos deixando Green Fields pra trás.


---


Chegada à casa da avó


— Chegamos! — disse Jack, reduzindo a velocidade até o carro parar em frente aos portões.


Os portões se abriram devagar, com aquele rangido antigo. Aquele lugar sempre trazia memórias pra mim.

Quando eu era criança, eu costumava ficar perto dos portões esperando visitas. Eu sabia quem era só pelo som do carro. Cada motor, uma pessoa. Eu fechava os olhos e tentava adivinhar antes de ver... — pensei com um leve sorriso nostálgico.


Mas o sorriso logo se apagou.

Até o dia em que eu parei de ouvir com o ouvido esquerdo.


A lembrança veio como uma rajada de vento gelado.

No começo, foi só um zumbido. Depois, silêncio. Um silêncio que não acabava nunca...


O canto dos pássaros ficou torto. As risadas viraram ruído. Os passos vinham sempre de um lado só. Eu comecei a errar de onde as vozes vinham. A errar abraços, a errar sorrisos...


Olhei para os portões, agora quase totalmente abertos.

Então eu parei de esperar. Porque quando o som dos carros parou... parecia que ninguém mais vinha.


Pela primeira vez em muito tempo, eu senti vontade de voltar pra aquela versão minha — a que ainda ouvia tudo.


— Você parece pensativa — comentou Cassie.


— Ah... é. Eu só estava pensando em umas coisas.


— Se você diz...


O carro parou bem em frente à casa da avó.


Desci do carro com passos lentos, o olhar preso na fachada. Tudo ali parecia congelado no tempo — o portão, as janelas altas, as paredes cobertas de hera. Um lugar cheio de lembranças... algumas boas, outras que doíam demais para serem revisitadas.


Fiquei parada por um instante, respirando o ar antigo e familiar que envolvia o lugar.


Talvez... só talvez, esse ainda fosse um lugar seguro — refleti em silêncio, tentando me convencer.

Mas então, meu coração apertou.

Ou talvez... nós já estivéssemos mortos, e só ainda não percebemos — pensei, e dessa vez, o pensamento veio frio como uma verdade que se recusa a ser dita em voz alta.


Fiquei ali, parada, enquanto os outros pegavam as malas. Cassie falava alguma coisa animada ao fundo. Jack ria de alguma piada. Mas tudo soava abafado para mim, como se eu estivesse submersa, dis


tante.


Sozinha dentro de mim.


Talvez o que me assuste não seja o passado... mas a possibilidade de que ele nunca tenha ido embora — concluí, sem dizer uma palavra.


Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar ❤️

Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.